sexta-feira, 29 de maio de 2026

Intelectual chavista denuncia transformação da Venezuela em protetorado dos EUA

Sem qualquer consulta sobre nossa vontade, pretendem nos despojar de nossa soberania e independência.

Sofremos um golpe atroz. Se queremos superá-lo, devemos admiti-lo, investigar suas causas e corrigir seus efeitos.

<><> Venezuela enfrenta perda de soberania após invasão

Reiteramos que, segundo pesquisa da Hinterlaces de outubro de 2025, 83% dos entrevistados estariam dispostos a enfrentar uma invasão militar estrangeira; apenas 6% não o fariam; e 89% consideraram que o verdadeiro objetivo de uma eventual intervenção seria derrubar o presidente Nicolás Maduro para se apoderar do petróleo.

eis meses depois, não encontrei um único compatriota que não reiterasse essas respostas, agora acompanhadas de novas perguntas.

<><> O que ocorreu em 3 de janeiro de 2026

Em primeiro lugar, é necessário averiguar de maneira clara, precisa e detalhada o que ocorreu — ou deixou de ocorrer — na madrugada de 3 de janeiro de 2026. 

A Venezuela dispunha e dispõe de armamentos modernos, eficazes e caros que não foram empregados. Quarenta e sete soldados venezuelanos e 32 escoltas cubanos morreram repelindo valentemente a descomunal agressão com armas elementares. 

É preciso conhecer com exatidão os fatos e corrigir falhas diante de confrontos futuros e previsíveis.

<><> Defesa nacional e guerra não convencional

A investigação deve reformular a Doutrina Estratégica e Tática de Segurança e Defesa. 

Pareceria que, diante de uma rápida escaramuça que demonstrou a superioridade aérea do inimigo, a decisão foi por uma rendição incondicional, com armas, contingentes e arsenais quase intactos, sem que o adversário tivesse dominado de maneira efetiva e duradoura sequer um centímetro do território nacional. 

Uma nova doutrina deve excluir categoricamente que o sequestro de funcionários ou a mera coerção se traduzam em concessões lesivas à soberania.

Sempre se soube que os Estados Unidos gozam de superioridade em armamento convencional. Isso não é argumento para que todos os povos da Terra se rendam a eles incondicionalmente. 

Muitos os derrotaram de forma contundente com armas inferiores. Para resistir, cabe adotar as táticas de guerra não convencional que tornaram sistematicamente inútil tal superioridade em quase todos os conflitos assimétricos do século passado e do presente. 

É urgente saber por que, neste caso, tais táticas não foram aplicadas, formular doutrinas que corrijam erros e incorporar toda a cidadania à defesa ativa.

<><> Concessões aos Estados Unidos e ameaça aos recursos naturais

O povo venezuelano desconhece o alcance das concessões feitas ao inimigo nos minutos seguintes à agressão, bem como por qual mecanismo ou de que forma essas concessões variam ou se ampliam até o presente e o futuro previsível. 

Pela indefinição que reina sobre o tema, presumimos que o agressor aspira a um poder discricionário absolutamente totalitário, que implique o desaparecimento da soberania da Venezuela e a repartição incondicional de seus recursos.

Foram sancionadas leis que pretendem possibilitar a privatização inconstitucional de nossas indústrias de hidrocarbonetos e minas, reduzir abruptamente a participação do Estado nelas e submeter as controvérsias relativas a elas a tribunais ou árbitros estrangeiros. 

Pretendem usurpar todos os direitos que correspondem ao nosso povo sem assumir nenhum dever para com ele.

<><> Petróleo venezuelano e fracasso da promessa de investimentos

Tal modelo é insustentável. A propaganda invasora pretende que se abre um período de investimentos torrenciais, que trarão dilúvios de divisas e prosperidade. 

Registramos o fracasso da reunião de 9 de janeiro de 2026 entre o presidente dos Estados Unidos e cerca de 17 empresas petrolíferas daquele país para repartir o espólio energético da Venezuela. 

Nenhuma delas adiantou um único dólar em investimentos. Consideravam o país uninvestable, não investível, por falta de segurança jurídica, porque extrair a primeira gota de petróleo exigiria investimento de US$ 1 bilhão e prazo de dez anos, e porque parte da riqueza já está comprometida.

<><> Reservas venezuelanas e concessões a Rússia e China

A autodefesa é o mais inegável dos direitos humanos, e cabe a nós exercê-la na medida de nossas possibilidades, com pensamentos, palavras e obras.

Com efeito, sobre mais de 45% das reservas petrolíferas e gasíferas foram legalmente concedidas permissões por mais de 25 anos a empresas chinesas e a subsidiárias da petrolífera estatal russa Rosneft, que exploravam e extraíam hidrocarbonetos enquanto o bloqueio estadunidense impedia a manutenção de grande parte das reservas restantes. 

Entre os vazios informativos posteriores à invasão figura o do status atual dessas explorações russas e chinesas e o dos hidrocarbonetos ou outros minerais produzidos nelas. 

As receitas provenientes de tais concessões são inalienavelmente venezuelanas e, como tais, devem ingressar no Fisco e ser distribuídas por meio do Orçamento e da Administração nacionais.

<><> Bloqueio dos EUA e guerra contra a Venezuela

Por outro lado, o inimigo mantém inflexivelmente sua posição agressiva. Nenhuma das milhares de medidas coercitivas unilaterais aplicadas contra a Venezuela foi revogada. 

Não foram libertados os reféns sequestrados pela força bruta. Não se reconheceu a patente falsidade dos pretextos para a invasão: inexistência do chamado Cartel dos Sóis e do extinto Trem de Aragua, inexistência da produção e do contrabando de substâncias ilícitas, inexistência de uma maioria oposicionista que teria obtido supostas maiorias eleitorais.

Nenhuma palavra foi dita sobre as reparações pelos danos causados por um atroz assédio de um quarto de século e por um bloqueio de mais de uma década, por um bombardeio executado por cerca de 150 aeronaves e pelos bens da Venezuela ilegitimamente confiscados no exterior. 

Contra nosso país, se mantém todo o rigor e a coerção de um estado de guerra ilegítima, não autorizada pelo Congresso dos Estados Unidos.

<><> Receitas do petróleo sob controle dos EUA

O invasor, mediante a Executive Order 14.373, pretende que toda receita proveniente dos hidrocarbonetos e minerais venezuelanos — historicamente, 80% da entrada de divisas do país — seja desviada para uma conta do Tesouro dos Estados Unidos ou para contas privadas secretas no Catar, sob administração discricionária estadunidense, única e exclusivamente para adquirir bens produzidos naquele país.

Com o anúncio do inaceitável latrocínio quase total de nossas receitas vem também o da retomada das relações com o Fundo Monetário Internacional (FMI) e o Banco Mundial, instituições especializadas em anular a soberania dos países mediante a extorsão de dívidas públicas impagáveis. 

Privada de receitas, a Venezuela deverá custear suas despesas aceitando créditos usurários, garantidos com o que restar de seus bens e recursos. Os novos fundos serão aplicados prioritariamente para quitar, pelo valor nominal integral, dívidas adquiridas a preços simbólicos por fundos abutres.

<><> Ajuste social e desmonte do Estado venezuelano

Esse despojo total da receita pública implica efeitos devastadores. Nos últimos tempos, o gasto social do governo venezuelano superou 70% das despesas. 

A brutal diminuição dos recursos disponíveis acarretará um desmantelamento paralelo de todos os atuais programas de educação, saúde, moradia, assistência social, alimentação, cultura, pesquisa científica, desenvolvimento agrícola e pecuário, industrialização, defesa e infraestrutura, já duramente castigados por mais de um quarto de século de agressão, uma década de bloqueio e mais de mil medidas coercitivas unilaterais destinadas a estrangular e destruir nossa economia.

Com o desmantelamento desses programas ou a drástica redução de seu pessoal, impondo-lhes salários apenas simbólicos, virá uma onda de desemprego que o limitado investimento privado será incapaz de absorver.

<><> Crise política e oposição venezuelana

Essa situação produzirá efeitos políticos. À medida que se mostrem progressivamente incapazes de aliviar as necessidades mais vitais da população, ocorrerá uma diminuição do apoio às organizações que colaborarem com a ocupação.

A oposição de direita, descartada como instrumento político pelos invasores devido à sua falta de apoio popular, se tornará progressivamente violenta em busca de méritos diante dos ocupantes. 

Processos eleitorais administrados pelas mesmas empresas que cometeram fraudes em Honduras, Peru, Equador e outros países legitimarão simulacros inconsistentes que arrancarão o poder das organizações representativas.

Serão sancionadas drásticas reformas nas leis trabalhistas, que reverterão ou aniquilarão os direitos dos trabalhadores, com repercussões sociais, econômicas e políticas iguais às que medidas dessa natureza acarretaram durante o século passado.

<><> Colaboração, ocupação e apagamento histórico

A colaboração com os invasores proporcionará ganhos ilegais a uma ínfima elite de traficantes de influência e especuladores transnacionais, e anulará o prestígio dos movimentos políticos e sociais que se entregarem a ela.

Do Império pode-se dizer, como dos Bourbons, que nada esqueceu nem nada aprendeu. Empreenderá uma erradicação sistemática, implacável e integral de todos os movimentos que tenham ou tenham tido orientação progressista ou qualquer indício dela. 

Uma vez esgotada sua utilidade, o setor colaboracionista não será exceção. Dos meios de comunicação, dos programas educacionais e da própria História desaparecerão os fatos e ideias dos Libertadores, ou serão grotescamente falsificados para representar o oposto de seus ideais. 

Seguindo as diretrizes de Rudolf Atkon, a educação será meramente instrumental; de acordo com as de Laura Berns, se eliminará o ensino superior gratuito.

<><> Venezuela entre ocupação e resistência

Todos sabemos o que esconde o ensurdecedor silêncio que nos oprime. Sem qualquer consulta sobre nossa vontade, pretendem nos despojar da soberania, independência, recursos naturais, autonomia, direitos, passado, presente e futuro, em favor de uma potência agressora que nos odeia e despreza.

Desde a invasão, se travam duas batalhas: uma pela aniquilação de nosso país e outra pela plena recuperação da soberania, dos recursos, da independência, da autonomia e da autodeterminação do povo venezuelano.

Você já sabe de qual lado deve estar.

<><> Autodefesa como direito humano

A autodefesa é o mais inegável dos direitos humanos, e cabe a nós exercê-la como resistência na medida de nossas possibilidades, com pensamentos, palavras e obras. Ideias para compreender a atroz realidade, palavras para denunciá-la, obras para transformá-la. 

As organizações existentes devem ser orientadas para a resistência e a vitória; quando isso não for possível, cabe criar outras. Há tantas formas de resistência quanto pessoas e talentos; cada qual deve assumi-la no âmbito de suas habilidades, capacidades e competências. 

A resistência deve revestir mais formas do que a opressão que combate, e um povo tem o direito de exercê-las todas antes de consentir em sua servidão ou extinção.

Resisto, logo existo.

¨      Tribunal da Venezuela liberta militares presos por conspirarem contra Maduro

O 23º Tribunal de Primeira Instância de Caracas concedeu nesta terça-feira (26/05) a liberdade total a todos os acusados ​​no chamado “Caso dos Paraquedistas”, no qual sete sargentos e dois generais foram acusados, em 2017, de tramar um golpe de Estado contra o presidente venezuelano Nicolás Maduro.

Com a decisão, oito réus foram colocados em liberdade: os sargentos Feydi Montero, Jairo Villegas, Javier Peña, Juan Díaz, Noé Romero, Rubén Bermúdez e Yecson Lozada, além do general Ramón Lozada.

O general Raúl Isaías Baduel, que também foi preso em função do caso, faleceu na prisão em outubro de 2021 – o governo venezuelano afirma que o militar, que foi ministro da Defesa durante o governo de Hugo Chávez, entre dezembro de 2006 e janeiro de 2008, faleceu por um quadro de covid-19, mas a família contesta essa versão.

Vale destacar que Baduel foi preso pela primeira vez em outubro de 2008, meses após deixar o Ministério da Defesa, ao ser acusado de desviar cerca de US$ 3,9 milhões do orçamento da sua pasta. Em 2015, o ex-ministro foi colocado sob liberdade condicional, mas voltou à prisão dois anos depois, justamente por seu envolvimento no Caso dos Paraquedistas.

O outro general ligado ao caso, Ramón Lozada, foi preso pela primeira vez em 2017, e colocado em liberdade condicional no ano seguinte.

Porém, em 2019, Lozada voltou à prisão após ser acusado de participar em um plano para tentar matar o presidente Maduro.

A libertação dos militares vinculados ao Caso dos Paraquedistas se insere no contexto da Lei de Anistia promovida pela presidente interina Delcy Rodríguez, que assumiu o governo da Venezuela de forma provisória após o sequestro de Maduro e da primeira-dama Cilia Flores em uma operação militar dos Estados Unidos, em janeiro deste ano.

 

Fonte: Diálogos do Sul Global/Opera Mundi

 

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