A
rotina invisível das mães atípicas no Brasil
Acordar
cedo, organizar a rotina do filho, levá-lo para uma sequência de terapias,
encaixar compromissos de trabalho entre uma clínica e outra, buscar na escola e
recomeçar tudo no dia seguinte. Há anos essa é a rotina da empresária e
farmacêutica Cynthia Borsato, de 38 anos, mãe solo de Miguel, de 9 anos,
diagnosticado com autismo nível 3.
Cynthia
faz parte de um grupo de mulheres que passou a ser conhecido no Brasil como
"mães atípicas", expressão usada para definir mães que exercem
cuidado intensivo e contínuo de filhos com deficiência, autismo, síndromes
raras ou outras condições que demandam alto suporte. Não há um número
consolidado sobre quantas são no país, mas relatos de sobrecarga, dificuldades
financeiras, abandono paterno e necessidade de deixar o mercado de trabalho
aparecem com frequência entre essas mulheres.
Ela
conta que o filho teve um desenvolvimento considerado comum até cerca de um ano
e sete meses de idade. Segundo Cynthia, Miguel falava algumas palavras, mas
deixou de se comunicar como antes e passou a apresentar mudanças de
comportamento. "Lá no fundo, eu achava que tinha uma coisinha diferente.
Ele não brincava com outras crianças", afirma. O diagnóstico veio após
consultas e investigação com neuropediatra. Desde então, ela e o pai da criança
iniciaram as intervenções e passaram a reorganizar completamente a rotina da
família em torno dos cuidados do menino.
Hoje,
Cynthia trabalha na empresa da família, o que permite alguma flexibilidade para
acompanhar a agenda fixa do filho. Ainda assim, diz que o cotidiano é
exaustivo. Em alguns dias, ela leva Miguel para as terapias pela manhã, tenta
resolver demandas profissionais enquanto ele está em atendimento e retorna para
buscá-lo e seguir para outra clínica.
Em
outros, aproveita pequenos intervalos para resolver questões pessoais e
médicas. "Às vezes eu penso: ‘Meu Deus, eu sou só uma mãe'. Isso me gera
uma frustração", relata. Ela afirma que precisou reduzir o ritmo
profissional porque não consegue conciliar uma atuação integral no trabalho com
os cuidados que o filho demanda diariamente.
Além da
sobrecarga física e emocional, Cynthia enfrenta custos elevados com saúde e
educação. Segundo ela, o plano de saúde custa cerca de R$ 3,8 mil por mês, mas
as terapias chegariam a aproximadamente R$ 15 mil mensais sem um convênio. Ao
longo do processo, precisou recorrer à Justiça para conseguir atendimentos e
reembolsos médicos. "Sem rede de apoio e sem condição financeira, seria
impossível. Muitas mães acabam tendo que parar de trabalhar para cuidar dos
filhos", diz.
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Rotina e mudanças na vida profissional
A
manicure Rafaela Luiza de Moraes, de 37 anos, conta que percebeu ainda cedo que
a filha Gabriela apresentava diferenças no desenvolvimento. Mãe de outra
menina, ela diz que a comparação entre as duas rotinas tornou os sinais mais
evidentes. "Com a minha outra filha tudo era mais simples. Com a Gabriela,
desde pequena, tinha muito choro, crises e dificuldade para sair de casa",
afirma. O diagnóstico de autismo veio entre os 2 e 3 anos da criança, após um
período em que ouviu de profissionais que cada criança "tem seu
tempo".
Segundo
Rafaela, a primeira infância da filha foi marcada por dificuldades para
frequentar a escola, sair à rua e permanecer em ambientes com barulho ou muitas
pessoas. Hoje, Gabriela faz uso de canábis medicinal, o que, segundo a mãe,
ajudou a estabilizar parte da rotina. Ainda assim, situações comuns para muitas
famílias, como viajar de ônibus ou ir ao cinema, seguem sendo um desafio.
A
necessidade de estar disponível para consultas, terapias e imprevistos também
afetou a vida profissional da manicure, que trabalha de forma informal em casa
para conseguir acompanhar a rotina da filha. "Se acontece alguma coisa, eu
saio correndo para buscar a Gabriela", diz.
A
psicóloga Natália Maynart Godoi, de 38 anos, também viu a rotina mudar
completamente após o diagnóstico do filho Joaquim, hoje com 13 anos e autismo
nível 3. Ela conta que passou meses tentando entender o comportamento da
criança e chegou a procurar uma psicanalista antes de receber o diagnóstico
definitivo de um neuropediatra. "Quando tive o diagnóstico senti que o
chão se abriu diante de mim", afirma.
Natália
abriu mão da carreira, do casamento e da vida social para se dedicar
integralmente aos cuidados de Joaquim. "O mais difícil foi me ver
totalmente sozinha", diz. Durante anos, também enfrentou episódios de
agressividade do filho e relata que chegou a se trancar no banheiro para pedir
ajuda. Hoje, divide os cuidados com o pai da criança e conta com cuidadores
profissionais para conseguir retomar parte da própria rotina.
Segundo
ela, os custos mensais com terapias variam entre R$ 15 mil e R$ 20 mil. Além
disso, a família gasta entre R$ 4 mil e R$ 5 mil com cuidadoras e mantém ajuda
doméstica para conseguir lidar com a rotina da casa. "A questão financeira
pesa muito", afirma.
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Futuro incerto e culpa
Além da
sobrecarga diária, mães atípicas convivem com dúvidas constantes sobre o futuro
dos filhos e com a sensação frequente de culpa por tentar dividir os cuidados
ou reservar algum tempo para si. Rafaela afirma que uma das maiores angústias é
pensar em como será a vida da filha quando ela não estiver mais presente.
"A
gente cria os filhos para o mundo, mas a criança autista a gente não sabe se
consegue criar para o mundo de maneira tão efetiva", diz. A manicure
afirma que também sente preocupação com o preconceito e com a falta de
informação sobre o autismo. Para ela, ainda há pouco entendimento sobre as
necessidades dessas crianças e das famílias. "As pessoas julgam muito sem
saber o que a criança está passando", afirma.
Rafaela
conta que precisou buscar sozinha informações sobre terapias, medicações e
estratégias para adaptar a rotina da filha, já que o acesso a suporte
especializado nem sempre foi simples. Hoje, comemora avanços que considera
importantes, como a permanência da menina na escola durante todo o período de
aula e demonstrações de afeto que antes eram mais difíceis. "Uma mãe
atípica fica contente com pequenas coisas. O fato da minha filha olhar no meu
olho e falar ‘mamãe, te amo' é o que mais me deixa feliz", relata.
Cynthia
também afirma que o cuidado constante com o filho faz com que olhar para si
mesma se torne mais difícil. Ela conta que raramente consegue sair com amigas,
viajar ou fazer algo sem pensar na rotina do menino. Quando isso acontece, diz
que ainda sente culpa por deixar os cuidados nas mãos de outras pessoas.
Para
Natália, o diagnóstico do filho transformou completamente sua forma de enxergar
a vida. Ela conta que, ao longo dos anos, precisou rever prioridades, relações
pessoais e até a própria visão sobre as pessoas. "Desde o diagnóstico
venho sendo moldada dia após dia a ser uma pessoa melhor", diz. "A
forma como eu vejo o mundo mudou completamente. Hoje valorizo as coisas mais
simples."
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O que a lei garante às famílias
Embora
mães atípicas relatem dificuldades frequentes para acessar terapias, escola
inclusiva e atendimento especializado, especialistas afirmam que o Brasil
possui uma das legislações mais amplas da área.
Na
prática, um conjunto de normas garante atendimento integral pelo SUS, cobertura
obrigatória de terapias pelos planos de saúde sem limitação de sessões,
matrícula em escola regular, profissional de apoio quando necessário,
prioridade em atendimentos e acesso a benefícios sociais. Também estão
previstos direitos como o Benefício de Prestação Continuada (BPC/LOAS) para
famílias de baixa renda, isenções tributárias em alguns casos e políticas de
acessibilidade.
Segundo
Henderson Fürst, doutor em Direito e diretor da Sociedade Brasileira de
Bioética, o principal problema está na dificuldade de transformar essas
garantias em realidade. "Em teoria, o sistema assegura inclusão. Na
prática, muitas famílias enfrentam filas intermináveis para terapias, falta de
profissionais especializados, negativas de cobertura por planos de saúde e
barreiras na escola."
A
advogada Anna Júlia Goulart, especialista em Direito à Saúde, explica que a
legislação brasileira também proíbe práticas comuns relatadas por famílias,
como cobrança extra em escolas particulares para custear mediadores ou
acompanhantes. Segundo ela, a inclusão é obrigação das instituições de ensino e
o custo não pode ser transferido aos pais. "Recusar matrícula de aluno com
deficiência configura crime de discriminação", afirma.
Para a
especialista, o Brasil ainda precisa avançar no reconhecimento do cuidado como
responsabilidade também do Estado. "O país pode aprender a tratar o
cuidado como política pública estruturante, integrando saúde, assistência
social e previdência", diz.
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"A mãe também precisa ser cuidada"
A
sobrecarga constante do cuidado pode gerar impactos profundos na saúde mental
das mães atípicas. Segundo a psicóloga Caroline Aparecida Messias,
especializada em transtorno do espectro autista (TEA), muitas vivem em estado
permanente de alerta, conciliando terapias, consultas, escola, alimentação,
medicação e crises, sem tempo para descanso.
"A
mãe nunca descansa. Essa sensação contínua de alerta afeta o emocional e também
o físico, gerando ansiedade, alterações no sono, tensão muscular, cansaço
excessivo e isolamento social", detalha Messias.
Alessandra
Petraglia de Freitas, psicóloga especialista em neuropsicologia, explica que
muitas mulheres passam a viver em "modo sobrevivência".
Irritabilidade, exaustão, choro frequente, alterações de humor e afastamento
social estão entre os sintomas mais comuns. Segundo ela, o risco de ansiedade,
depressão, burnout e esgotamento emocional aumenta principalmente quando não há
rede de apoio.
As
especialistas afirmam que, com o tempo, muitas mães acabam deixando de lado
outras partes da própria identidade. "Ela se perde enquanto mulher,
profissional, esposa e filha. A vida passa a girar apenas em torno do
cuidado", afirma Messias.
Freitas
acrescenta que pequenas reconstruções da individualidade já podem fazer
diferença no cotidiano, como voltar a ouvir músicas de que gosta, conversar com
amigas ou simplesmente descansar sem culpa. "O autocuidado não é luxo.
Cuidar de si não diminui o amor pelo filho."
Para as
especialistas, reconhecer os próprios limites e buscar ajuda psicológica pode
ser um passo importante para reduzir o adoecimento emocional dessas mulheres.
"A sociedade costuma admirar essas mães por ‘darem conta de tudo', mas
muitas vezes ignora o sofrimento emocional por trás disso", afirma
Messias. "As necessidades emocionais delas permanecem invisíveis."
Fonte:
Por Priscila Carvalho, em DW Brasil

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