A
farsa da polarização política
É da
natureza da filosofia voltar seu olhar para a realidade política, dado que a
filosofia é filha da pólisdemocrática. É no diálogo, no confronto e na livre
discussão de ideias que a filosofia se lança na aventura crítica do pensamento.
Em regimes políticos autoritários, a filosofia é perseguida, censurada ou
cooptada. Como sabemos, a filosofia tem em seu atestado de nascimento um
compromisso com o destino comum da sociedade, por isso, não pode ser
indiferente diante do poder político. Não só a sobrevivência, o exercício e o
desenvolvimento da filosofia dependem de decisões políticas, mas também o
destino da sociedade. Entretanto, a relação da filosofia com o poder político
é, via de regra, uma relação conflitiva e crítica, porque os interesses que
presidem o funcionamento do poder político nem sempre coincidem com os
interesses e os princípios da filosofia. A filosofia existe para questionar o
porquê das coisas, a fim de poder conhecer e defender a verdade, a justiça, o
bem e o belo. Se a aparência coincidisse com a essência das coisas,
desnecessária seria a filosofia e a própria ciência. Daí dizer que tudo o que
parece óbvio desafia e interpela o pensamento filosófico. Assim, a análise
filosófica implica considerar o poder político como um problema a ser
compreendido em sua natureza e em sua lógica de funcionamento.
Ora, o atual cenário político brasileiro
revela-se, à primeira vista, enigmático para o cidadão comum, uma vez que
vivenciamos os efeitos perversos e as ameaças da ascensão do pensamento
político-ideológico de extrema direita ao redor do mundo e no Brasil. Há,
entretanto, uma contradição flagrante em nossa realidade política e social, mas
que não é percebida por muitos brasileiros. Como entender o fato de que a
sociedade brasileira é composta em sua grande maioria por pessoas empobrecidas
(trabalhadores de diferentes ofícios, profissões e ocupações) que são
explorados e excluídos socialmente, mas uma parcela considerável desses
trabalhadores tende a apoiar e a eleger candidatos que representam os
interesses das elites econômicas que expressamente ou não pretendem retirar ou
reduzir direitos trabalhistas? Existem inúmeros fatores que explicam este fato,
mas não será aqui objeto de análise. O que pretendemos analisar é a suposta
polarização política que capturou o discurso e o pensamento dos analistas políticos
da grande mídia, assim como sua reverberação nas plataformas digitais e nas
redes sociais. Para muitos brasileiros, a sociedade está politicamente
polarizada (entre esquerda e direita) ou ideologicamente dividida, supondo que
o termo esquerda está associado ao socialismo e o termo direita está associado
ao capitalismo no espectro político.
Embora
sejam de largo uso, os termos, esquerda e direita não retratam a realidade
política brasileira e nem explicam a denominada polarização política. Ao
contrário, estes termos são usados sem um referencial histórico que pudesse
embasar o discurso ideológico e político. Note-se que existem partidos
políticos no Brasil que representam ideologias políticas de esquerda e de
direita; não existe, porém, um conflito revolucionário entre esquerda e direita
que pudesse ameaçar o capitalismo, mas um conflito puramente ideológico entre a
“esquerda liberal” – que defende a democracia liberal (representativa) e maior
intervenção do Estado na economia e a extrema direita que defende a liberdade
de mercado, a privatização, a flexibilização das leis trabalhistas e o autoritarismo
político. Se do ponto de vista político, as duas posições em conflito divergem
sobre o papel do Estado (do poder político) na direção da economia e na
elaboração de políticas públicas, do ponto de vista econômico há uma
convergência de ideias, porque as duas posições defendem, ao fim e ao cabo, o
sistema econômico capitalista – ou seja, a exploração econômica do trabalhador.
Ou seja, só teríamos de fato polarização política se tivéssemos uma extrema
esquerda (esquerda radical) no governo e posicionada contra a extrema direita
na oposição ou vice-versa.
Ora, se
quisermos entender a origem, o uso ou os significados destes termos, será
preciso recuar na história, uma vez que em confronto com nossa realidade
social, política e econômica os termos esquerda e direita sofreram uma mutação
semântica e um esvaziamento de significado. No contexto histórico da Revolução
Francesa, duas facções políticas da burguesia estiveram em conflito. Os
jacobinos, considerados radicais e violentos, se sentavam à esquerda da mesa
diretora da Assembleia legislativa e pretendiam sepultar de vez o antigo regime
político (o absolutismo monárquico dos reis) e o regime econômico (o
feudalismo) para dar lugar ao capitalismo. Para tanto defendiam mudanças
bruscas e transformações revolucionárias na política e na economia. Por outro
lado, os girondinos (moderados) sentavam-se à direita, defendiam mudanças
lentas e graduais na implantação de governos republicanos (repúblicas
constitucionais) e na implementação do capitalismo.
Entretanto,
no transcurso da Revolução Francesa, o termo esquerda não tinha conotação
socialista, mas apenas antiaristocrática. É com o desenvolvimento da Revolução
Industrial (no decorrer do século XIX) que tem origem o proletariado e o
aprofundamento das desigualdades sociais e econômicas. No início do séc. XX, a
Revolução Russa pretendeu transpor para o plano histórico – social, político e
econômico a teoria marxista. Nesse contexto, a teoria socialista de extração
marxiana e marxista se apropriou e ressignificou o termo esquerdae se tornou a
sua expressão mais radical, porque propõe a luta contra o capitalismo. Vale
lembrar que em 1848, Marx e Engels publicaram o Manifesto do partido comunista
e, em 1845/1846 redigiram A ideologia alemã (publicada postumamente em 1932).
Em 1864 é criada a Associação internacional dos trabalhadores (a Primeira
Internacional). A luta política deixou de ser contra a monarquia para ser uma
luta revolucionária, a fim de superar o capitalismo.
A
Guerra Fria (1947-1991) redefiniu política e ideologicamente o mundo em dois
blocos. O bloco capitalista – liderado pelos EUA e o bloco socialista/comunista
– liderado pela ex-URSS. O fim da Guerra Fria – marcado pela derrubada do muro
de Berlim (1989) e pela desintegração das repúblicas soviéticas em 1991
provocou o colapso da divisão do mundo em dois blocos ideológicos, políticos e
econômicos. Assim, o suposto ou aparente triunfo do capitalismo fragmentou e
enfraqueceu as lutas políticas da esquerda pela superação do capitalismo em
direção ao socialismo. Como efeito da Guerra Fria, no final do século XX, a
esquerda foi se distanciando do socialismo científico, de modo que muitos
partidos políticos de esquerda abandonaram o ideal revolucionário na Europa (e
ao redor do mundo) e aceitaram o capitalismo na versão política de Estado de
Bem-estar social. Enfraquecida pelo fim da Guerra Fria e pela crise do
socialismo real, a esquerda reformulou sua agenda política e passou a lutar por
direitos humanos, inclusão social, democracia, meio ambiente e identidade de
gênero. A esquerda deixou de ser marxista para ser liberal ou progressista. Ou
seja, já é possível ser de esquerda sem ser socialista e sem pretender abolir o
capitalismo.
Porém,
sem um adversário externo que pudesse rivalizar e se contrapor ao capitalismo,
o sistema capitalista viu na classe trabalhadora um inimigo interno a ser
combatido, por isso, intensificou a exploração, a dominação e a subjugação dos
trabalhadores para responder à sua crise estrutural. Os direitos trabalhistas
passaram a ser vistos como um obstáculo para a exploração capitalista, por isso
inúmeras ofensivas neoliberais sobre os trabalhadores promoveram reformas
trabalhistas e previdenciárias ao redor do mundo para reduzir os custos da mão
de obra e atender às imposições do capital.
Diante
disso, resulta necessário retornarmos à questão inicial: existe de fato
polarização política no Brasil ou se trata de um instrumento ideológico para
impedir a organização e a luta revolucionária da classe trabalhadora? Pode
existir polarização política que não seja expressão dos antagonismos ou dos
conflitos de classe? Ora, se tomarmos como referencial de análise a teoria
marxiana (Manifesto do partido comunista – 1848, escrito em parceria com
Engels; O Capital – Livro I – 1867, obra escrita por Marx) veremos que a luta
de classes é o motor da história; conflito que deriva da exploração econômica e
do processo de produção do capital. A luta de classe é fundamentalmente
econômica – diz respeito às condições de trabalho – emprego, desemprego,
exploração e precarização e se projeta na superestrutura (política, cultural e
ideológica). Porém, a tese de que há uma polarização política sem luta
revolucionária pela superação do capitalismo no Brasil encobre as contradições
de classe no interior da sociedade capitalista. Trata-se de um dispositivo
ideológico para desviar a atenção da classe trabalhadora sobre as causas
estruturais e materiais dos problemas econômicos e sociais. Desloca-se, desta
forma, o problema econômico (a exploração dos trabalhadores) para a esfera
política ou para a superestrutura – que é a esfera das ideias, dos valores, dos
costumes e da cultura. A disputa política passa a ser puramente ideológica,
cultural e moral. Rompe-se o vínculo que une e subordina o poder político ao
poder econômico. Oculta-se, desta forma, as causas estruturais da exploração do
trabalhador, de modo que a desigualdade econômica permanece intocada. Em outros
termos, o discurso político atua como uma estratégia ideológica para a
manutenção do poder econômico.
Contudo,
não é possível compreender a política por ela mesma, como se fosse uma esfera
autônoma ou independente da economia. No sistema capitalista, a política
funciona como extensão ou braço operacional dos interesses das elites
econômicas, cujos representantes fazem do parlamento um espaço de barganha ou
um balcão de negócios. Nas democracias liberais, a argumentação cede à
negociação, o interesse privado se sobrepõe ao interesse público. Neste
contexto, a grande mídia reforça e amplifica a polarização e a divisão
ideológica da sociedade, escondendo a divisão em classes. Antagonismos
superficiais (conflito sobre pautas morais, costumes e identidade de gênero,
entre outros) deixam em segundo plano o antagonismo ou o conflito de classe – a
raiz de todos os problemas sociais, razão pela qual os políticos necessitam
transformar a política num espetáculo ou numa encenação. Nesse sentido, a
disseminação de desinformação funciona como combustível para propagar
narrativas e manter a falsa polarização da sociedade. Sacrifica-se a verdade e
esconde-se a realidade para manter a estrutura perversa e injusta da sociedade
capitalista.
De
acordo com a análise marxista, a extrema direita e os partidos de esquerda de
maior representatividade (liderados pelo PT) não são projetos políticos
contraditórios, mas posições ou oposições ideológicas diferentes na defesa do
sistema capitalista. Existe uma polarização partidária (e eleitoral) que se
limita a disputar ideologias, símbolos, versões de fatos ou narrativas. A
esquerda radical, porque tem baixa representatividade política e social não
constitui uma ameaça real ao capitalismo. Já a extrema direita (capitaneada
pelo bolsonarismo) defende a liberdade econômica, a ordem estabelecida, a
tradição e o autoritarismo político, por isso, é denominada de conservadora,
retrógrada e neofascista. Defende a reinstauração da ditadura no Brasil para
conter ou reprimir possíveis levantes ou insurreições da classe trabalhadora.
Por sua vez, a “esquerda liberal” foi cooptada e domesticada pelo capital;
defende o papel do Estado na valorização do salário mínimo e na ampliação de
políticas públicas compensatórias para abrandar problemas sociais e reduzir o
fosso que separa os ricos dos pobres, mas sem propor uma ruptura
revolucionária. Assim, a “esquerda liberal” imagina ser possível avançar na
direção de uma sociedade mais justa, igual e humana lutando pela inclusão dos
excluídos no mercado de bens de consumo. É o gradualismo – a falsa ideia de que
é possível consertar ou reformar o capitalismo e humanizá-lo que impede a
“esquerda liberal” de defender a revolução proletária. A luta política e
ideológica da esquerda (liderada pelo PT) não é pela revolução socialista, mas
pela defesa da democracia liberal-burguesa e pela soberania nacional. Assim, o
projeto nacional-desenvolvimentista da “esquerda neoliberal” que contrasta com
o projeto neoliberal ou ultraliberal da direita e da extrema direita (de
privatização das empresas públicas) e de transformação dos direitos em serviços
confluem na defesa do sistema capitalista. A ideia de que a correlação de
forças do ponto de vista histórico ou conjuntural é desfavorável para os
trabalhadores induz os governos ditos de esquerda a agir em nome da
governabilidade e não em nome da sociedade. Nesse sentido, concessões são
feitas aos capitalistas, assim como medidas impopulares são implementadas para
atender a insaciável voracidade do capital.
Portanto,
a farsa da polarização política consiste em reduzir a política a um jogo de
aparências onde a lógica binária e maniqueísta funciona como dispositivo
ideológico; petismo versus antipetismo e bolsonarismo versus antibolsonarismo;
progressistas versus conservadores; comunistas versus fascistas; amigos versus
inimigos, o bem versus o mal, “nós contra eles” –, onde o medo, a hostilidade,
a indignação, o ressentimento, a intolerância mútua predominam entre os
opositores. Disputa-se não um novo projeto de sociedade ou uma nova forma de
sociabilidade, mas opiniões ou versões de um mesmo fato. Bolhas ideológicas
impedem a construção de um projeto coletivo. O discurso da polarização política
fragmenta a classe trabalhadora, porque instaura uma divisão ideológica entre
os trabalhadores que não se percebem como pertencentes a mesma classe ou
condição social. A consciência de classe que é condição de unidade, de
organização e deação revolucionária sucumbe em favor dos capitalistas. Ou seja,
a polarização política funciona para impedir processos revolucionários.
Por
outro lado, o ativismo político e ideológico da grande mídia e das plataformas
digitais atua para manipular e massificar a classe trabalhadora. O que está em
causa não é a organização e a mobilização dos trabalhadores, mas o engajamento,
o senso de pertencimento a um grupo social. Ou seja, a ideologia da polarização
política transforma trabalhadores ou cidadãos em multidão (massa) – que se
mobiliza mediante discursos emotivos que deixam transbordar ódio e
ressentimento para com aqueles que defendem políticas públicas – programas
sociais, cotas sociais, raciais, Bolsa família etc. para os trabalhadores mais
vulneráveis. Incapazes de perceber que o trabalho meritocrático é um discurso
que só vale para os trabalhadores e não para as elites econômicas que vivem de
privilégios parasitando o Estado, os próprios trabalhadores lutam contra seus
próprios interesses. Não são os argumentos ou o entendimento racional, mas a
reação emocional, os insultos, a agressividade verbal (e até física) e a
rotulagem discursiva que mobilizam trabalhadores para lutarem contra si mesmos.
Disputa-se não o melhor projeto político, mas uma posição ideológica que
ilusoriamente possa satisfazer seus desejos, suas crenças e interesses.
Destrói-se desta forma, a esfera política que passa a funcionar apenas em vista
dos interesses da classe capitalista (dos proprietários dos meios de produção).
Desarticulada e manipulada, a classe trabalhadora vê-se impotente ou incapaz de
fazer frente às imposições do poder econômico e promover a transformação
revolucionária do capitalismo.
A
erosão da política tem como causa primeira a despolitização da sociedade. Ou
seja, o teatro político representa a morte da verdadeira política. Enquanto a
luta política não for travada entre capital versus trabalho e entre capitalismo
versus socialismo não haverá verdadeira polarização e transformação social.
Ora, é pela práxis social que podemos não só formar a consciência de classe,
mas promover a transformação da sociedade. Para tanto, será preciso que a
questão econômica readquira relevância social e política, ou seja, as
contradições de classe precisam ser percebidas como a raiz dos problemas que
afligem a classe trabalhadora. A verdadeira polarização política não é entre
esquerda e direita abstratas ou imaginárias, mas concretas (reais). As condições
materiais da produção de nossa existência determinam nosso modo de pensar. Ou
seja, todo pensamento político está vinculado a interesses econômicos, uma vez
que a superestrutura não existe sem a infraestrutura. Porém, na ação da ideologia ocorre a inversão
da percepção da realidade – a falsificação da consciência.
Contudo,
o que podemos divisar da política brasileira transformada em polarização
ideológica? Não há dúvida de que a “esquerda liberal” sob a batuta de Lula
representa a rendição política de uma ala do pensamento progressista face aos
ditames do capitalismo. Por sua vez, a esquerda radical deve, para além da
crítica teórica e política e de suas frustradas esperanças mobilizar as forças
revolucionárias. Somente o processo revolucionário da classe trabalhadora
poderá pôr fim a este estado de coisas (expropriação e exploração do trabalho)
que o capitalismo instaurou e continua perpetrando contra os trabalhadores. A
transformação ou a superação da sociedade capitalista que a esquerda radical
deseja não pode vir de cima (de decisões políticas) ou por meio dos instrumentos
políticos e eleitorais da democracia liberal. A mudança estrutural do sistema
capitalista brasileiro é tarefa da classe trabalhadora. Cabe à esquerda radical
organizar e promover com a classe trabalhadora o processo revolucionário já
preconizado por Marx. A revolução socialista está na cabeça de muitos
intelectuais, mas não a encontramos na práxis social e histórica. Para tanto,
será preciso uma análise de conjuntura, a fim de saber das reais condições da
revolução socialista. O processo histórico não está livre de contradições, por
isso, somente a luta no plano teórico, partidário ou sindical não será
suficiente para desencadear a revolução. De outra sorte, se não podemos esperar
da “esquerda liberal” a transformação estrutural da sociedade capitalista, da
direita e da extrema direita ultraliberal pode-se esperar a permanência e a
intensificação da polarização ideológica, dado que para estas facções políticas
e ideológicas os trabalhadores são meras forças de trabalho, por isso, defendem
a escravidão assalariada e não o fim da exploração do trabalhador.
De acordo com Gramsci (Os intelectuais e a
organização da cultura – 1926-1937; Cadernos do cárcere – 1929-1935), a classe
trabalhadora é subjugada não apenas no âmbito da esfera do poder econômico ou
da infraestrutura – das forças produtivas e das relações sociais de produção,
mas também na esfera da superestrutura (do poder político e da cultura) – onde
atuam a força e a ideologia, responsáveis pela percepção da realidade, pela
visão de mundo e pela fabricação e controle do senso comum da sociedade civil.
A classe capitalista detém não apenas os meios de produção material, mas também
os meios de produção intelectual – imprensa, meios de comunicação, internet,
mídia, plataformas digitais para disseminar sua ideologia (ideias, princípios e
valores) pela sociedade (escolas, igrejas, universidades, sindicatos etc.).
Ora, assim como a classe capitalista tem seus intelectuais orgânicos –
jornalistas, líderes religiosos, militantes, literatos, tecnocratas,
economistas, hoje também influencers), a classe trabalhadora necessita de
intelectuais orgânicos – líderes intelectuais e morais – professores, padres,
sindicalistas, artistas etc. para liderar e organizar a luta ideológica,
disputar e conquistar a hegemonia cultural – passando de classe subalterna a
classe dirigente (hegemônica). Porém, a
luta política e ideológica pressupõe a formação da consciência de classe.
Como se
vê, não será pelo voto ou pela eleição que podemos superar as contradições de
classe da sociedade capitalista. Porém, na democracia liberal, a participação
política dos cidadãos é, via de regra, reduzida ao voto popular. Embora existam
outros mecanismos de participação popular (referendo, plebiscito, orçamento
participativo etc.), é somente pelo voto que podemos mudar os atores do poder
político. Reduzido à condição de eleitor, o cidadão supõe que sua tarefa e seu
papel tenham sido cumpridos no momento em que depositar seu voto na urna. Ora,
esta é a forma como as democracias liberais ou representativas controlam e
impedem a organização de forças revolucionárias que possam ameaçar o sistema
capitalista. A eleição majoritária deste ano será plebiscitária, não porque
todos os cidadãos de forma consciente e crítica vão aprovar ou reprovar a
gestão do atual governo, mas porque uma grande parcela será influenciada pela
desinformação e pela incapacidade intelectual de compreender a política como
expressão de interesses econômicos conflitantes.
Fonte:
Por Claudinei Luiz Chitolina, em A Terra é Redonda

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