Os
riscos econômicos para o Brasil com a designação de facções criminosas como
terroristas pelos EUA
A
decisão do Departamento de Estado dos Estados Unidos de classificar as facções brasileiras
Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho (CV) como
organizações terroristas pode ter repercussões econômicas para o Brasil,
segundo especialistas.
Em
comunicado publicado na quinta-feira (28/5), o secretário de Estado, Marco
Rubio, afirmou que CV e PCC "são duas das organizações criminosas mais
violentas do Brasil" e que elas serão designadas como Organizações
Terroristas Estrangeiras a partir do dia 5 de junho.
O
próprio Brasil já vinha discutindo desde o ano passado uma legislação própria
para designar o PCC e o CV como terroristas. A mobilização ganhou impulso
após a megaoperação policial em favelas no
Rio de Janeiro em
outubro do ano passado — que resultou em 121 mortes e é considerada uma das
mais letais da história da cidade.
No mês
passado, a Comissão de Relações Exteriores e de Defesa Nacional da Câmara dos
Deputados aprovou um texto que altera as leis de Terrorismo e de Organizações
Criminosas — passando a classificar o CV, o PCC e outros 11 grupos criminosos
de países da América Latina como terroristas.
Para
virar lei, o texto do deputado federal Luiz Philippe de Orleans e Bragança
(PL-SP) ainda precisa passar na Comissão de Constituição e Justiça, e depois
ser aprovado em votações na Câmara e no Senado.
Especialistas
e acadêmicos com que a BBC News Brasil conversou afirmam que a aprovação de
projetos que ampliem o conceito de terrorismo no Brasil para abranger as
facções criminosas podem ter efeitos negativos na economia brasileira. O
principal risco seria abrir o país a sanções internacionais com essa
redesignação.
Mas com
a decisão americana tomada nesta semana, alguns desses
efeitos poderão ser sentidos mesmo sem uma legislação nacional específica e já
a partir deste ano — dependendo de como Washington decidir agir contra o PCC e
o CV de agora em diante.
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Do pix ao Banco do Brasil
Para o
ex-policial e pesquisador do Centro de Estudos Sociais da Universidade de
Coimbra e do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (ONG apartidária que reúne
especialistas na área), Roberto Uchôa, a redesignação de facções criminosas
como grupos terroristas não tem efeitos práticos
significativos no combate a grupos como o PCC e o CV, mas tem
consequências econômicas importantes caso os EUA adotem sanções contra
instituições brasileiras.
O
ex-policial e pesquisador dá como exemplo um fundo de investimento que seja
apontado em investigações brasileiras como possivelmente conectado a uma
organização criminosa.
"Você
imagina que essa empresa que tem um fundo de investimento ligado ao PCC seria a
primeira a ser sancionada [internacionalmente]. Começa-se sancionando ela, e
depois pode se ir sancionando outras tantas empresas que tiveram de alguma
forma ligações com esse fundo de investimento. A escala disso, nós não sabemos
onde pode parar", disse Uchôa em entrevista à BBC News Brasil em
novembro.
O
problema maior, segundo o pesquisador, é que o crime organizado está
profundamente infiltrado na economia brasileira — atuando em diversos setores.
Por
isso, empresas e indivíduos de todos esses setores estariam teoricamente
expostos a sanções que visem combater terrorismo — caso houvesse indício de
alguma conexão com o crime organizado.
Em
agosto do ano passado, a Polícia Federal deflagrou três operações (Carbono
Oculto, Quasar e Tank) que demonstraram o quão profunda são essas conexões
entre o crime organizado e a economia nacional.
A
estimativa da PF é de que um esquema operado pelo PCC tenha movimentado pelo
menos R$ 52 bilhões entre 2020 e 2024.
Uma reportagem da BBC News Brasil mostrou como
investigações policiais indicaram que o PCC controla postos de gasolina para
ganhar dinheiro sonegando impostos e adulterando combustível. Os mesmos postos
— além de padarias e lojas de conveniência — seriam então usados para lavar dinheiro
do tráfico de drogas.
Segundo
as investigações, os recursos ilícitos eram ocultados com ajuda de fintechs,
empresas de tecnologia que oferecem serviços financeiros.
Por
fim, havia a suposta participação de fundos de investimento sediados nas
imediações da Faria Lima para a blindagem do patrimônio do PCC contra eventuais
investigações.
"Bancos,
fintechs, mercado financeiro... a Carbono Oculto é uma evidência do tamanho da
infiltração do crime organizado no mercado financeiro. Veja só a quantidade de
empresas legais que poderia se dizer que têm envolvimento com dinheiro de
origem ilegal."
Segundo
Uchôa, não é nem preciso haver condenação de nenhuma empresa ou indivíduo para
que eles sejam sancionados internacionalmente. As decisões de sanções são
discricionárias dos governos — bastando por exemplo a citação em investigações.
Isso
seria particularmente problemático no caso de agentes públicos, segundo ele.
"Vamos
pensar como é que seria, por exemplo, alguma investigação que apontasse
envolvimento de agente público brasileiro com essas organizações criminosas, o
que não é difícil, porque a corrupção envolvendo agentes públicos e
organizações criminosas no Brasil é algo de conhecimento geral", diz.
"Os
americanos poderiam sancionar todo mundo que possa ter alguma ligação. Haja
concurso público para botar gente no lugar da quantidade de gente que vai ser
sancionada dentro do serviço público da gestão pública brasileira."
Outro
problema seria o aumento dos custos para as empresas.
"Esse
tipo de legislação abre as portas para uma quantidade impressionante de sanções
em vários agentes do mercado. O país está pronto para isso?"
"Isso
vai exigir um nível de compliance e um nível de preparo para
evitar a entrada do dinheiro ilegal que vai gerar um custo impressionante para
as empresas e bancos e tudo mais."
Rafael
Alcadipani, professor da Fundação Getúlio Vargas, concorda com a avaliação de
que sanções americanas podem ter efeitos amplos no Brasil.
"Eles
[os EUA] teriam a possibilidade de criar sanções e tomar ativos de forma muito
mais rápida. Por exemplo, se o governo americano de repente considerar que o
Pix e o sistema bancário brasileiro têm infiltração das facções criminosas, e
que por isso precisa ser descartado do sistema internacional, ele pode agir.
Isso pode gerar sanções mais pesadas", disse Alcadipani, também integrante
do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, em novembro à BBC News Brasil.
"Isso
pode trazer complicações muito maiores para o Brasil, inclusive de ordem
geopolítica. O governo americano poderia tomar ativos na hora que eles
quiserem. Se eles decidirem, em um exemplo extremo, que terroristas estão
fazendo transações econômicas pelo Banco do Brasil, os EUA poderiam adotar
sanções fortes sobre o Banco do Brasil."
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Investigações prejudicadas
Um dos
principais investigadores do crime organizado no Brasil — e que trabalha há 20
anos combatendo o Primeiro Comando da Capital (PCC) — também acredita que a
decisão do governo americano de designar facções criminosas brasileiras como
terroristas pode ter repercussões no Brasil.
"Pessoas,
grupos ou mesmo instituições financeiras que de alguma forma tiverem algum tipo
de colaboração ou mesmo de transação com essas organizações criminosas, Comando
Vermelho ou PCC, podem ter seus bens e ativos congelados, inclusive fora dos EUA",
afirma o promotor do Ministério Público de São
Paulo (MPSP) Lincoln Gakiya, integrante do Grupo de Atuação Especial
de Combate ao Crime Organizado (Gaeco).
"Então
isso é um risco porque a maioria das instituições bancárias está conectada com
a rede americana."
Gakiya
trabalha há 20 anos investigando o PCC e já sofreu ameaças da facção. Ele
esteve à frente da operação de transferência das lideranças do PCC, dentre
elas, Marcola, para presídios federais, no início de 2019.
"Na
minha opinião, a classificação do Comando Vermelho (CV) e do PCC como
organizações terroristas para o governo norte-americano só vai prejudicar o
combate interno aqui dentro do Brasil."
Um dos
problemas, segundo o promotor, é que a designação como grupos terroristas
retiraria investigações relativas ao PCC e CV nos EUA do âmbito da polícia
federal americana (o FBI) ou da Agência de Combate às Drogas (DEA), e as
atribuiria à agência de inteligência (a CIA).
"Quando
o departamento de Estado classifica essas organizações, o PCC e Comando
Vermelho, como terroristas, o tema passa a ser tratado como um assunto de
defesa e não mais de ordem policial."
"Não
quero afirmar com certeza, mas isso pode trazer alguma dificuldade na
cooperação que já temos, em nível policial, entre a Polícia Federal e as
polícias americanas."
Gakiya
afirma que ele próprio, como integrante do Ministério Público de São Paulo, já
participou de reuniões nos EUA com o FBI e DEA para trocar informações sobre
integrantes do PCC que estão em atividade no território americano.
"A
partir do momento em que essas organizações são classificadas como terroristas,
a CIA passa a ser a responsável por essas informações e investigações e elas
passam a ser classificadas como confidenciais ou secretas."
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EUA e 'narcoterroristas'
Em
entrevista à BBC News Brasil, o relator especial da ONU sobre Direitos Humanos
e Contraterrorismo, Ben Saul, disse que o uso de legislações antiterrorismo
contra grupos criminosos pode abrir caminho para outros tipos de abusos.
Ele
cita o caso dos EUA, que em abril do ano passado designou oito cartéis de
drogas — como o mexicano Sinaloa e o venezuelano Tren de Aragua — como
organizações terroristas.
Depois
dessa designação, segundo Saul, o governo americano passou a deportar
imigrantes venezuelanos acusando-os de ligações com o Tren de Aragua. E começou
também a atacar barcos no mar do Caribe e no oceano Pacífico, classificando os
seus ocupantes de "narcoterroristas".
"Antes
de os EUA invocarem a Lei de Estrangeiros Inimigos para deportar centenas de
venezuelanos para El Salvador sob a alegação de suspeita de terrorismo, a
primeira coisa que eles fizeram foi declarar o Tren de Aragua como uma
organização terrorista. E depois disso é que vieram as deportações
sumárias", disse Saul.
"Agora,
temos ataques militares contra os chamados narcoterroristas, dizimando-os no
Caribe. Portanto, muitas vezes é um caminho para uma série de abusos ainda
maiores."
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Classificação de PCC e CV como terroristas pelos EUA abre
espaço para ação da CIA no Brasil, diz Lincoln Gakiya
Um
dos principais investigadores do crime
organizado no Brasil —
e que trabalha há 20 anos combatendo o Primeiro Comando da Capital (PCC) —
disse que a decisão do governo americano de designar facções criminosas
brasileiras como terroristas pode dificultar o combate ao crime
dentro do Brasil.
"Na
minha opinião, a classificação do Comando Vermelho (CV) e do PCC como organizações terroristas para o governo
norte-americano só vai prejudicar o combate interno aqui dentro do
Brasil", afirma o promotor do Ministério Público de São Paulo (MPSP)
Lincoln Gakiya, integrante do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime
Organizado (Gaeco).
Gakiya
trabalha há 20 anos investigando o PCC e já sofreu ameaças da facção. Ele
esteve à frente da operação de transferência das lideranças do PCC, dentre
elas, Marcola, para presídios federais, no início de 2019.
Um dos
problemas, segundo o promotor, é que a designação como grupos
terroristas retiraria
investigações relativas ao PCC e CV nos EUA do âmbito da polícia federal
americana (o FBI) ou da Agência de Combate às Drogas (DEA), e as atribuiria à
agência de inteligência (a CIA).
"Quando
o departamento de Estado classifica essas organizações, o PCC
e Comando Vermelho, como terroristas, o tema passa a ser tratado como um assunto
de defesa e não mais de ordem policial."
"Não
quero afirmar com certeza, mas isso pode trazer alguma dificuldade na
cooperação que já temos, em nível policial, entre a Polícia Federal e as
polícias americanas."
Gakiya
afirma que ele próprio, como integrante do Ministério Público de São Paulo, já
participou de reuniões nos EUA com o FBI e DEA para trocar informações sobre
integrantes do PCC que estão em atividade no território americano.
"A
partir do momento em que essas organizações são classificadas como terroristas,
a CIA passa a ser a responsável por essas informações e investigações e elas
passam a ser classificadas como confidenciais ou secretas."
"Então
pode haver — não estou afirmando — uma dificuldade na troca de informações mais
ágil e rotineira que a gente mantém já há bastante tempo com a polícia
norte-americana", afirma.
Lincoln
Gakiya também vê outros dois potenciais problemas na designação do PCC e CV
como organizações terroristas pelo governo americano. Um deles seria relativo à
soberania nacional.
"Porque
na medida em que essas organizações são consideradas terroristas pela
legislação norte-americana, os EUA podem determinar ações secretas fora do
território norte-americano e sem a anuência do Estado estrangeiro. Por exemplo,
as operações que ocorreram na Venezuela e no México [contra barcos supostamente
de traficantes de drogas], que não tiveram anuência desses Estados."
"Também
poderia ocorrer operações militares ou mesmo operações da CIA aqui dentro do
território brasileiro, mesmo sem a anuência do governo brasileiro. Isso
evidentemente iria afetar a soberania nacional."
Essa
também é uma crítica feita pelo governo Lula desde o início dessa discussão.
Nesta sexta-feira (29), o presidente reagiu à decisão
americana dizendo não vai aceitar que o Brasil seja tratado como
"republiqueta".
"Nós
não aceitamos ser tratados como moleques", disse Lula. O presidente
argumentou que o PCC e o CV "são terroristas para as comunidades
brasileiras", mas que "não são os terroristas que o Trump quer".
O outro
ponto são possíveis sanções de natureza econômica.
"Pessoas,
grupos ou mesmo instituições financeiras que de alguma forma tiverem algum tipo
de colaboração ou mesmo de transação com essas organizações criminosas, Comando
Vermelho ou PCC, podem ter seus bens e ativos congelados, inclusive fora dos EUA",
diz o promotor.
"Então
isso é um risco porque a maioria das instituições bancárias está conectada com
a rede americana."
Diplomatas
ouvidos pela BBC News Brasil avaliam, sob condição de anonimato, que a medida americana não é tecnicamente
correta,
uma vez que não haveria indícios de que as duas facções pratiquem terrorismo
sob a lei brasileira.
Para
estudiosos, facções como o PCC e o Comando Vermelho são criminosas,
porque agem por interesses econômicos, sem qualquer motivação ideológica,
diferentemente das organizações terroristas. Mas o presidente americano Donald
Trump tem contestado essa distinção, a exemplo do que fez no México, com os cartéis do
narcotráfico, no ano passado.
Nos
bastidores, o temor é que a classificação seja usada para justificar ações,
inclusive militares, na região, a exemplo dos bombardeios a barcos na costa de
países como Colômbia e Venezuela sob o pretexto
de combater o narcotráfico.
Analistas ouvidos pela BBC News
Brasil consideram
improvável uma intervenção militar nos moldes da que foi feita na Venezuela em janeiro para
depor Nicolás Maduro. Ainda assim,
afirmam que haveria formas menos explícitas de pressionar as facções e, em
alguma medida, o governo brasileiro.
Fonte:
BBC News Brasil

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