O
fim do mundo sem redenção
A
humanidade vem se aproximando perigosamente das “fronteiras planetárias”, ou
seja, os limites físicos
além
dos quais pode haver colapso total da capacidade de o planeta suportar as
atividades humanas
(J.R.McNeill, Something New Under the Sun)
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A Visão Religiosa
As
teorias milenaristas religiosas — presentes no cristianismo, judaísmo,
islamismo e outras tradições — enxergam o “fim do mundo” como parte de um plano
divino. Em geral, anunciam um período de caos, guerras, fome ou decadência
moral seguido de julgamento, salvação e renovação do mundo. O Apocalipse
bíblico é o exemplo mais conhecido. Muitas correntes acreditam que os
sofrimentos históricos seriam “sinais dos tempos”.
O
milenarismo é a crença de que a história humana passará por uma transformação
radical, geralmente culminando no fim do mundo e no estabelecimento de uma era
de paz ou julgamento. Originárias de diferentes culturas e épocas, estas
narrativas moldaram a forma como a humanidade encara a finitude dos tempos.
Segue abaixo um pequeno resumo de algumas visões milenaristas.
A
escatologia judaico-cristã é o estudo do fim dos tempos, a consumação final de
tudo, segundo a concepção bíblica. A palavra ‘escatologia’ é derivada de duas
palavras gregas que significam: “último” e “estudo”. Trata-se, portanto, do
estudo do destino último do ser humano, tal como é revelado na Bíblia, fonte
primária de todos os estudos sobre a escatologia judaico-cristã. Baseada no
Gênesis e nos Salmos (onde “um dia é como mil anos”), a Teoria do Dia do
Milênio defende que a história durará 6 mil anos, seguidos por 1 mil anos (o
Milênio) de paz e o Reino de Deus na Terra.
Na
cosmologia hindu, o tempo é cíclico e dividido em quatro Yugas (eras). O fim de
um grande ciclo (o Pralaya) ocorre quando o universo se dissolve através de
dilúvios cataclísmicos e fogo, antes de ser recriado. Na mitologia nórdica, o
Ragnarök é a batalha final dos deuses. A lenda prevê invernos rigorosos, a
libertação de monstros, o escurecimento do sol e uma conflagração que destruirá
o mundo, do qual emergirá uma nova terra verdejante. Já na cosmovisão Guarani
(Terra Sem Males), o mundo está fadado a sucessivas destruições por catástrofes
(fogo, trevas, dilúvio). Os deuses ou o “Jaguar Azul” um dia aniquilarão a
humanidade, permitindo que os justos encontrem a mítica “Terra Sem Males”.
Historicamente,
as visões milenaristas ganham força em momentos de crises profundas, opressão
social ou transições de séculos ou milênios. Foi o caso do Milenarismo
Medieval, como os Hussitas, por exemplo. Durante a Idade Média Europeia, a
fome, a peste e a opressão feudal criaram o cenário ideal para profecias
apocalípticas
Na era
moderna, temos o movimento Testemunhas de Jeová, fundado no final do século
XIX, que possui uma escatologia fortemente milenarista. Acreditam que o mundo
atual está nos seus “últimos dias”. O ápice se dará na batalha do Armagedom,
onde Deus destruirá os governos humanos e o mal. Após isso, a Terra será
transformada em um paraíso físico, onde os sobreviventes e os ressuscitados
viverão sob o reinado de mil anos de Cristo. No Brasil, um bom exemplo foi a
Guerra de Canudos, entre 1896–1897. Liderado por Antônio Conselheiro no sertão
baiano, o movimento de Canudos misturava messianismo, catolicismo popular,
antirepublicanismo e uma forte veia milenarista.
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A Visão Científica
As
teorias milenaristas e escatológicas tradicionais e as previsões contemporâneas
de catástrofe global partem de fundamentos muito diferentes. As previsões
atuais ligadas à guerra nuclear ou à crise climática não se baseiam em
revelação religiosa, mas em análises científicas, geopolíticas e tecnológicas.
A
ameaça nuclear surgiu sobretudo após Hiroshima e durante a Guerra Fria: o risco
seria uma destruição rápida da civilização humana por bombas atômicas e inverno
nuclear. A crise climática, por sua vez, aponta para um processo gradual de
desorganização ecológica, econômica e social causado pelo aquecimento global,
eventos extremos, perda de biodiversidade e escassez de recursos.
É
verdade que os cientistas usam às vezes uma linguagem apocalíptica. Hoje,
termos como “apocalipse climático” ou “colapso” são utilizados, mas se
diferenciam do antigo imaginário religioso do fim dos tempos. A principal
diferença está no horizonte final:
no
milenarismo religioso, o fim geralmente conduz à redenção, juízo ou novo reino,
e nas projeções científicas não há promessa de salvação transcendental, mas
cenários probabilísticos que podem ser evitados ou mitigados por ação humana.
Ou seja, a escatologia tradicional costuma interpretar as catástrofes como
inevitáveis ou desejadas dentro de um plano divino, enquanto a ciência trata
guerra nuclear e crise climática como riscos produzidos pelas próprias escolhas
humanas — portanto passíveis de prevenção.
Por
exemplo, pelo 11o. ano seguido, as despesas militares mundiais estão em alta,
atingindo em 2025 a cifra de 2 trilhões e 900 bilhões de dólares (cerca de
2.500 bilhões de euros), segundo o Relatório publicado em 27/4/2026 pelo
Instituto Internacional de Pesquisa pela Paz de Estocolmo. Os EUA, a China e a
Rússia representaram mais da metade do total, cerca de 1.480 bilhões de
dólares. A tragédia da guerra está sempre presente no horizonte para destruir
vidas humanas e a natureza. O fantasma da guerra nuclear ameaçaria destruir até
mesmo a vida humana na Terra.
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A Pegada Ecológica
Além da
guerra, há outra desgraça que paira no horizonte: a crise climática e a
destruição da biodiversidade pelo sistema econômico estão aos poucos destruindo
as fontes da sobrevivência humana no planeta. Um dos indicadores mais
importantes é a pegada ecológica, que já acendeu o sinal vermelho.
A
Pegada Ecológica é uma métrica de contabilidade ambiental que mede a demanda da
humanidade sobre a biosfera, comparando o consumo de recursos naturais com a
capacidade regenerativa da Terra. Em 2026, os indicadores globais reforçam um
estado de sobrecarga crônica, onde consumimos recursos muito mais rapidamente
do que o planeta consegue repô-los.
O
Indicador mais importante é o Dia da Sobrecarga da Terra (Earth Overshoot Day)
que marca a data em que a demanda da humanidade por recursos e serviços
ecológicos em um determinado ano excede o que a Terra pode regenerar nesse
mesmo ano. Estima-se que para 2026 o Dia da Sobrecarga Global ocorra por volta
de 24 de julho. Isso significa que, a partir desta data, a humanidade passa a
operar em “déficit ecológico”, liquidando estoques de recursos e acumulando
resíduos (como o CO₂) na atmosfera. Atualmente, a humanidade utiliza o
equivalente a 1,7 a 1,8 Terras para sustentar seu estilo de vida.
O “dia
da sobrecarga” mede o desequilíbrio entre Biocapacidade – o que a natureza
consegue regenerar em um ano (florestas, água, solo fértil, absorção de CO₂) e
Pegada Ecológica – o que a humanidade consome e polui. Quando a pegada supera a
biocapacidade, entra-se em “déficit ecológico” com as seguintes consequências
econômicas e ambientais:
a)
Mudança climática: Mais emissões aceleram o aquecimento global, intensificando
secas, enchentes e ondas de calor; b) Perda de biodiversidade: Desmatamento e
degradação reduzem ecossistemas essenciais; c) Pressão sobre alimentos: Solos
degradados e clima instável afetam a agricultura; d) Risco econômico: Recursos
mais escassos significam energia e matérias-primas mais caras, e) Conflitos
geopolíticos:
Disputas
por água, terras férteis e energia tendem a crescer.
Nem
todos os países consomem recursos na mesma proporção. O indicador de Sobrecarga
por País mostra quando o dia chegaria se todos vivessem como a população de uma
nação especifica. O Brasil possui uma das maiores biocapacidades do mundo
(reserva ecológica), mas sua pegada vem aumentando devido ao desmatamento e
mudanças no uso da terra, o que reduz nossa margem de segurança ambiental.
Viver
além dos limites planetários resulta em sintomas visíveis e mensuráveis. No que
se refere a Mudanças Climáticas, a causa é o acúmulo de gases de efeito estufa,
acima da capacidade de absorção oceânica e florestal, causado principalmente
pelo uso de combustíveis fósseis. No Brasil, o vilão é o desmatamento. Já a
Perda de Biodiversidade resulta do colapso de ecossistemas que não conseguem se
regenerar sob pressão constante da atividade econômica. Quanto à Insegurança
Hídrica e Alimentar, a causa é o esgotamento de aquíferos e degradação da
fertilidade do solo.
A
transição energética e a implementação de economias circulares são as
principais ferramentas citadas para tentar “adiar a data” (#MoveTheDate) e
trazer a humanidade de volta para dentro dos limites biológicos do planeta. Em
síntese: quanto mais cedo um país chega ao seu “dia da sobrecarga”, menos
sustentável é seu modo de vida. E o aquecimento global já ultrapassou 1,5ºC,
fixado em 2015 pela COP 21, a chamada Conferência de Paris, como o limite para
evitar grandes catástrofes ambientais.
Mas o
que tem predominado é a acumulação de capital, a busca do lucro e a crença em
doutrinas econômicas diversas, do neoliberalismo ao desenvolvimentismo, que
barram propostas alternativas como o ecossocialismo ou o decrescimento. Em
geral, os governos, os partidos e os mercados costumam ignorar as advertências
dos cientistas. Como dizia Proust, os fatos não penetram no mundo onde vivem
nossas crenças.
Fonte:
Por Liszt Vieira, em A Terra é Redonda

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