Gilberto
Menezes Côrtes: Se o encontro com Trump não render, plano B é lançar ET contra
Lula e PT?
Os
leitores sabem que, além de comparar a política com nuvens, não costumo dar
muito peso a pesquisas eleitorais muito antes do pleito. O primeiro turno será
em 4 de outubro e o segundo, dia 25. Por isso, num processo eleitoral
cristalizado desde 2022, entre a direita e o presidente Lula, que encarna muito
mais que a simples figura líder do PT, a pesquisa DataFolha mostrou, ao lado da
forte rejeição a ambos os candidatos, a inversão da boca do jacaré entre o
presidente Lula e o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), após uma semana de
pesadas contradições do filho do ex-presidente preso, ao negociar pedido de
dinheiro ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro, e merece ser avaliada em dois pontos.
Dada a polarização, prefiro me ater ao primeiro turno:
#
1-Seria uma tendência o crescimento de Lula nas pesquisas, com o encolhimento
de Flávio, ou apenas uma oscilação conjuntural. Em abril, antes de virem à tona
as revelações do site “Intercept Brasil”, na pesquisa sobre o primeiro turno
Lula tinha 39% das menções, contra 35% do senador; na pesquisa divulgada dia 13
de maio (quando o assunto dominou o noticiário, mas sem que os entrevistados
soubessem), Lula tinha 38%, contra 35% de Flávio Bolsonaro. Agora, na pesquisa
feita esta semana, Lula subiu para 40% e Flávio encolheu para 31%. Ou seja, a
diferença aumentou de três para nove pontos. A campanha de Flávio respirou com
alívio. Ele resistiu, e seguiria firme para a disputa do segundo turno, para o
qual a pesquisa apontou Lula com 47% contra 43% do candidato do PL. Na pesquisa
de dezembro de 2025 (quando Flávio Bolsonaro foi lançado pelo pai, Jair), Lula
tinha 51%, contra 36% do filho 01. Uma folga de 15 pontos que foi se
estreitando até o empate de 45% na pesquisa de 13 de maio. Agora o jacaré
voltou a abrir a boca a favor de Lula, com nove pontos de vantagem.
Mas,
dada a polarização, discordo das análises que contrapõem as avaliações de
ótimo/bom (32% na última DataFolha X ruim/péssimo (38%); é ilusório. Deixar de
considerar o conceito regular (28% na pesquisa) é errado. Regular significa
aceitação. E a soma com o bom dá 60%.
#
2-Insisto em analisar as tendências do primeiro turno porque se a campanha de
Flávio Bolsonaro desidratar (muitos eleitores da direita ficaram desapontados
até mesmo com as declarações agressivas e críticas do ex-governador de Minas
Gerais, Romeu Zema, do Novo, e do senador piauiense, Ciro Nogueira, presidente
do PP). Diante da polarização, Lula pode ganhar no primeiro turno se alcançar
50% mais um voto entre os escrutínios válidos.
Ciro
Nogueira, o último ministro da Casa Civil de Bolsonaro, chegou a ser cotado
como vice de Flávio no final do ano passado. Mas ficou irritado quando saíram,
na terça-feira 12 de maio, as revelações de que recebia gordas mesadas de
Vorcaro, e foi abandonado por Flávio Bolsonaro; não tardou a dar o troco.
Depois que o “Intercept Brasil” revelou as conversas de Flávio pedindo dinheiro
a Vorcaro (que contribuiu com R$ 61 milhões) para bancar o filme “Dark Horse”
(Azarão) sobre o pai, Jair Bolsonaro, ao ser indagado o que tinha a dizer sobre
o caso, bateu duro: “Ele tem que ser investigado como estou sendo. E, se for
inocente, reconhecida a inocência. Se culpado, tem que pagar exemplarmente.
Neste país, não pode haver ninguém cometendo ilícito e sendo beneficiado por
proteção.” Bingo.
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As águas vão rolar
Muita
água ainda vai rolar por baixo das pontes, e o candidato do PL apostou na
sugestão do irmão 03, o ex-deputado cassado na Câmara dos Deputados por excesso
de faltas, Eduardo Bolsonaro (PL-SP), para um encontro com o presidente Trump
na Casa Branca, para animar a campanha. Eduardo Bolsonaro abandonou o mandato,
em fevereiro do ano passado, e ficou nos Estados Unidos tramando contra o
Brasil. Num primeiro momento, conseguiu, em junho, um “post” do presidente
Trump ameaçando o Brasil em sua rede social com tarifaços, se o julgamento de
Jair Bolsonaro, conduzido pela primeira turma do Supremo Tribunal Federal, não
fosse interrompido. Por isso Eduardo Bolsonaro, ignorando a mudança da água
para o vinho nas relações entre o governo Trump e o governo Lula, está tentando
uma audiência para o irmão sair numa foto com Trump na Casa Branca.
O clima
mudou desde que os dois presidentes se encontraram e trocaram palavras (e
"química") por 29 segundos na ONU em setembro (Bolsonaro já estava
condenado pelo STF). Houve reunião na Malásia e revisão de tarifas até o
encontro de Trump e Lula, dia 14 de maio, na Casa Branca (dia do inferno astral
de Flávio Bolsonaro). Esta semana, o grupo de trabalho binacional se reuniu
para discutir pendências tarifárias e outros temas da agenda bilateral, na qual
o governo Lula defende a soberania do Brasil.
Flávio
Bolsonaro pode até conseguir um encontro para uma foto e palavras amáveis de
Trump. Mas o fato será explorado como ato de subserviência e até de
entreguismo. Se o apoio de Trump não ajudar Flávio, como Tarcísio de Freitas, o
preferido da Faria Lima, não pode competir à Presidência, diante da obediência
cega dos bolsonaristas, que tal usar como Plano B o ET, ao qual bolsonaristas
faziam reverência diante dos quartéis em 2022, para enfrentar Lula e o PT?
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Os problemas de Trump
Além
das agruras da guerra do Golfo Pérsico, que caminha para o terceiro mês esta
semana (em fevereiro, Trump previa campanha de três a quatro semanas contra o
Irã), o que impede, pelas pressões inflacionárias mundiais, o novo presidente
do Federal Reserve Bank, Kevin Warsh, de baixar os juros como deseja o
empresário imobiliário Donald Trump (as taxas das hipotecas são as mais altas
em nove meses), o presidente dos Estados Unidos está às voltas com a revolta
dos Democratas e dissidentes Republicanos ao acordo do senhor Trump com a
Receita Federal americana, que inclui um adendo extraordinário.
O
acordo de uma página concede a Trump imunidade a auditorias da Receita Federal
em relação a declarações de imposto de renda passadas, e estende a proteção à
sua família e pessoas de seu círculo íntimo. A revolta aumentou depois que o
Departamento de Justiça criou um fundo incomum de US$ 1,8 bilhão para o combate
às armas, que beneficia invasores do Capitólio em 2020. A medida ocorre após
Trump desistir do processo contra a Receita Federal.
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Acertando os ponteiros
O que
atormenta Flávio Bolsonaro e aliados da ultradireita é a continuidade do
desgaste do senador, que teria sido reprovado diante das versões desencontradas
sobre o uso do dinheiro oriundo do Banco Master. Por sinal, mais do que o
encontro com o presidente americano, a ida do senador aos EUA deve permitir que
ele e o irmão Eduardo acertem os ponteiros sobre o papel de cada um na
realização do filme-narrativa sobre Jair Bolsonaro.
É
preciso que os dois esclareçam como parte do dinheiro remetido aos EUA caiu nas
mãos do advogado de Eduardo em terras americanas, que comprou uma casa no
Texas. As autoridades americanas são mais severas que as nossas no caso de
desvio de finalidade.
Aliás,
seria bom que o ex-ministro da Cultura de Bolsonaro, o deputado federal Mário
Frias (PL-SP), participasse das conversas para acerto de versões. Em breve,
Mário Frias, que foi aos Estados Unidos sem comunicar previamente à Mesa da
Câmara dos Deputados, terá de prestar contas ao ministro do STF, Flávio Dino,
que deseja confirmar o destino de mais de R$ 2 milhões em emendas parlamentares
do deputado que atuou como produtor executivo do filme.
O que
desmentiria cabalmente que o “Azarão” não envolveu recursos públicos. Na Lei
Rouanet, os recursos são carreados pelo setor privado em alternativa a recolher
impostos ao fisco federal, mas há controle sobre os recursos. Sob a “Lei
Vorcaro”, além de sugar recursos de pensionistas do INSS e dos fundos de pensão
de estados governados por aliados, não se presta contas.
O
governo do Amapá, aliado ao presidente do Senado, David Alcolumbre, aplicou R$
600 milhões do fundo de pensão em papéis do Master; o governo Cláudio Castro
aplicou quase R$ 2 bilhões do fundo de previdência dos funcionários do Estado
do Rio de Janeiro, e mais R$ 400 milhões da Cedae – as cúpulas desses órgãos
foram afastadas pelo governador em exercício, desembargador Ricardo Couto, na
sua faxina no estado.
Por
isso, não passou de um teatro mal-ensaiado a subida do senador Flávio
Bolsonaro, cercado de meia dúzia de aliados recrutados às pressas, à tribuna do
Senado para pedir na sessão conjunta do Congresso, a “imediata instalação da
CPMI do Banco Master”, acusando o PT de não apor assinaturas. Flávio ia saindo
do recinto quando o líder do PT na Câmara, Lindberg Farias (PT-RJ), rebateu de
pronto. Disse que o PT assinara três requerimentos, mas evitava assinar um
pedido de cartas marcadas. Dito e feito.
No fim
da sessão, o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, invocando sua prerrogativa
(e o desejo de evitar a exposição do seu indicado para a caixa de previdência
dos servidores do Amapá), disse que não colocaria a CPMI em pauta.
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Dá cá o meu
Quem
pensa que as revelações bombásticas sobre a cumplicidade de senadores e
deputados com ilícitos, sobretudo os que atuam como “despachantes” ou lobistas
de grandes grupos ou classes empresariais no Congresso, poderiam gerar uma
guinada pela volta de um mínimo de decoro de Suas Excelências, tomou um tapa na
cara na sessão conjunta da Câmara e do Senado que aprovou a liberação de verbas
dos representantes das duas casas para prefeituras de seus estados neste ano
eleitoral de 2026.
Não
bastasse o Orçamento Secreto, no qual Suas Excelências mordem o Orçamento da
União em mais de R$ 50 bilhões, ao derrubarem o veto do presidente Lula contra
a medida que afronta a Lei de Responsabilidade Fiscal, pelo aumento de gastos,
a atual representação política mostrou a gênese do que considera o “interesse
público”. Tudo tem de ser feito para, ao lado do gordo Fundo Eleitoral,
garantir a alimentação dos currais eleitorais que garantem a reeleição. Está
explicado por que é tão difícil a renovação política no Brasil e por que os
vícios se acumulam e pioram a cada eleição da representação política do país.
Um
divisor de águas importante que antecederá as eleições e pode revelar, com mais
nitidez, a verdadeira face do Congresso será a discussão sobre a redução da
jornada semanal de trabalho de 6 X 1 para 5 X 2. A bandeira da redução da
jornada está com o presidente Lula e os partidos de centro esquerda.
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Outro banco na balança eleitoral
Não é
só o Banco Master que promete ter muita influência (para o bem ou para o mal)
na campanha eleitoral. As dificuldades do Banco Digimais, controlado pelo líder
da Igreja Universal do Reino de Deus, Edir Macedo, podem levar à neutralidade
do Republicanos (o partido da IURD) e até influir na cobertura política da Rede
Record nas eleições.
Em
2010, na disputa de José Serra (PSDB) contra a ex-chefe da Casa Civil de Lula,
Dilma Roussef, a crise do Banco PanAmericano, que quase levou o grupo Silvio
Santos à lona (o Baú da Felicidade trocou de mãos e o grupo encolheu, mas
sobreviveu graças ao socorro da Caixa Econômica que entrou de sócia do Pan)
teve claro efeito na campanha
O banco
tinha um rombo porque vendia carteiras “podres”, mas, mesmo assim, não dava
baixa contábil nelas e inflava o balanço. Em troca do socorro (que se revelou
insuficiente e exigiu mais capital da CEF e do novo sócio BTG-Pactual, de André
Esteves, que depois assumiu o Pan), o SBT apoiou a candidatura Dilma, a ponto
de o principal jornal da emissora ironizar a bola de papel que atingiu a testa
de José Serra num comício em São Paulo.
Pois o
rombo do Digimais, que já foi oferecido para compra ao Bradesco e ao BTG (com a
recusa de ambos), obedece ao mesmo esquema do Pan: carteiras com rombos que não
foram devidamente baixados com provisão para devedores duvidosos. A conferir.
Por
falar em igrejas evangélicas, outra questão importante é medir o efeito das
mentiras de Flávio Bolsonaro sobre os fiéis nos cultos do fim de semana
(segundo o DataFolha, 64% dos evangélicos acharam que Flávio Bolsonaro agiu mal
ao pedir dinheiro a Daniel Vorcaro).
No meio
da semana, o pastor Silas Malafaia, da Assembleia de Deus Vitória em Cristo,
apoiador histórico do pai, Jair Bolsonaro, disse que seria difícil apoiar
Flávio se surgissem novos fatos. E a ex-primeira-dama, Michelle Bolsonaro, que
tem grande influência entre as fiéis evangélicas, e cujo nome foi testado na
pesquisa do DataFolha, ao ser perguntada sobre as contradições do filho 01,
disse secamente: “Você tem de perguntar para Flavio”.
Fonte:
JB

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