Um
mergulho na realidade do lixão e os possíveis caminhos para a dignidade
A
poucos quilômetros do efervescente fluxo turístico e das praias badaladas de
Salinópolis, no Pará, pulsa uma realidade que a cidade formal prefere não ver.
Em um território marcado pelo desamparo estatal e pela extrema pobreza, um
lixão a céu aberto serve de moradia e local de trabalho para cerca de 63
pessoas, distribuídas em 18 famílias fixas. A esse núcleo residente soma-se uma
população flutuante composta por trabalhadores esporádicos e indivíduos em
situação de dependência química, um contingente que chega a dobrar durante
feriados e férias escolares, impulsionado pelo aumento do consumo de
recicláveis (como latas de alumínio) nas praias.
Para
compreender essa crise – que opera em flagrante inobservância à Política
Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS), a ONG Amigos de Belém, em parceria com a
Socióloga Francisca Adalgisa da Silva (URB Social), em março de 2026, realizou
uma pesquisa socioeconômico da comunidade e mergulhou nas raízes da exclusão.
Neste texto são apresentados detalhes dessa tragédia multidimensional e algumas
propostas para reversão deste cenário.
<><> A geografia do abandono e o
risco letal
O lixão
de Salinópolis é um problema logístico, mas também um passivo socioambiental de
proporções alarmantes. A área opera sem infraestrutura elementar, como
impermeabilização do solo ou sistemas de drenagem. Em um ecossistema costeiro
onde o lençol freático é raso, o chorume percola livremente, ameaçando a
segurança hídrica, os manguezais e as restingas da região.
Para as
famílias que habitam o lixão e seus arredores, 40% das quais em barracos de
lona e madeira improvisados, o risco é cotidiano e alarmante. Há lares onde o
banheiro é inexistente, resumindo-se a um buraco no chão sob uma lona, o que
impõe uma contaminação fecal-oral direta. A exposição ininterrupta à fumaça
tóxica da queima de resíduos, em especial para extração de cobre e à
contaminação biológica criam-se um sistema de riscos conectados entre si, em
que os desgastes se acumulam no corpo do trabalhador de forma implacável. Sob a
ótica da saúde coletiva, a tolerância social a essas condições insalubres
tangencia a necropolítica – um regime onde certas vidas são tratadas como
descartáveis.
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A cor e a idade da exclusão histórica
A
pesquisa realizada traça um perfil que reflete a desigualdade brasileira e
mostra quem são esses cidadãos sem cidadania, excluídos das políticas públicas
mínimas oferecidas pelo Estado.
A marca
do racismo estrutural aparece com nitidez quando observamos que 100% das
pessoas entrevistadas se declaram negras (37,5%) ou pardas (62,5%). Essa
concentração não é casual: ela revela como populações negras são historicamente
empurradas para ocupações informais e para áreas degradadas, vulneráveis e
carentes de infraestrutura. Trata-se da materialização de um processo contínuo
de injustiça ambiental, no qual grupos racializados são desproporcionalmente
expostos a riscos, precariedade e ausência de serviços públicos essenciais.
São
famílias numerosas, que refletem a mortalidade precoce. O lixão abriga núcleos
familiares grandes, muitas vezes com mais de cinco membros por barraco. O dado
mais sombrio, porém, é a ausência quase total de idosos (apenas cerca de 6% da
amostra). A velhice é rara; o trabalho pesado e o ambiente tóxico aceleram o
desgaste físico, revelando um quadro dramático de mortalidade precoce associada
à miséria.
Diante
de um cenário de escassez, 70% dos adultos vivem em casamentos ou uniões
estáveis. Mais do que uma formalidade civil, essas uniões funcionam como um
mecanismo de proteção mútua – uma verdadeira estratégia de sobrevivência – para
dividir o peso do trabalho exaustivo e construir uma rede mínima de afeto e
apoio em contextos onde o Estado não chega.
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A economia da fome e a superexploração
A
catação de recicláveis é a principal fonte de renda da comunidade. Para 60% das
famílias, o ganho mensal não chega a meio salário-mínimo, e o dinheiro obtido
com o lixo varia de forma imprevisível, entre R$ 300 e R$ 1.200. Sem proteção
social, os catadores ficam presos à informalidade e dependem de intermediários
que controlam a compra dos materiais e ficam com a maior parte do lucro.
A
privação é tão severa que a fome se tornou parte da rotina. Quase 40% das
famílias não conseguem fazer três refeições por dia. Muitas escondem essa
realidade por vergonha, naturalizando a escassez… Mesmo com 80% das famílias
inseridas no CadÚnico e 70% recebendo o Bolsa Família, as transferências de
renda atuam apenas como uma corda fina que impede a inanição total, mas
fracassam em tirá-los da miséria estrutural pela ausência de outras políticas
públicas integradas.
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Poder paralelo e a dualidade: “prisão e pertencimento”
Quando
o Estado se ausenta, outras forças ocupam o vácuo. A investigação revela uma
comunidade fragmentada, cansada de promessas políticas que nunca saíram do
papel. Sem instituições que façam a mediação ou garantam direitos básicos, o
território fica exposto à ação de atravessadores que exploram a vulnerabilidade
local e à presença de poderes paralelos, como o tráfico de drogas. Nesse
ambiente de controle informal e pressão constante, qualquer tentativa de
organização coletiva – como a criação de cooperativas – é rapidamente sufocada,
antes mesmo de se transformar em alternativa real de autonomia.
Contudo,
a relação dos trabalhadores com o lixão revela uma profunda ambivalência
psicológica. O território atua, simultaneamente, como “prisão e pertencimento”.
Ele aprisiona as famílias na exclusão, no risco e na estigmatização, mas,
paradoxalmente, é o único espaço que as acolhe, oferecendo senso de comunidade,
laços de vizinhança e sustento diário.
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Sonhos e perspectivas abafados
Os
dados evidenciam que as aspirações da comunidade estão majoritariamente
restritas ao “mínimo existencial”, como consertar a moradia precária ou obter
um emprego fixo. Encontrou-se um quadro, em que num contexto de privação severa
ocorre uma drástica redução de horizontes fazendo com que os sonhos deixem de
ser expansivos e tornem-se meramente reparadores e voltados à sobrevivência
imediata. Um dos entrevistados, ao ser perguntado sobre seus sonhos, apontou
que seu único desejo de liberdade e paz era a própria morte, descrita como um
caixão com flores vermelhas. Esse nível extremo de desesperança ilustra o
“sofrimento ético-político” conceituado por Sawaia (2008) e a “violência
estrutural” Trata-se de condições sociais tão adversas que corroem a subjetividade
do indivíduo, fazendo-o sentir que sua vida perdeu o valor social e aniquilando
a sua capacidade de projetar o futuro.
No que
tange à mobilidade territorial, a pesquisa quantitativa aponta que quase 69%
dos entrevistados não desejam mudar da área, enquanto a parcela que deseja
partir esbarra na absoluta falta de recursos financeiros. A impossibilidade de
comercializar a moradia no território demonstra que a casa não atua como um
patrimônio, mas como uma prisão material. Isso configura o que Bourdieu (1997)
denomina de “imobilidade estrutural”, situação em que o indivíduo permanece no
risco não por vontade, mas por impossibilidade econômica de deslocamento.
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Os caminhos para restauração da dignidade
O
diagnóstico é severo, e o encerramento puro e simples do lixão, sem uma
transição planejada, poderia intensificar o quadro de miséria e fome. O
relatório resultante da pesquisa realizada propõe algumas intervenções
concretas:
• Ações imediatas (Curto Prazo):
-
Mobilização comunitária autônoma para criar acordos de redução de danos (como
cessar a queima de fios para extrair cobre). Da parte do poder público,
espera-se a presença contínua de fiscais, envio de tratores para o ordenamento
do solo, distribuição de Equipamentos de Proteção Individual (EPIs) e garantia
de suprimento emergencial de água potável e banheiros.
• Transição e inclusão (Médio prazo):
- Fim gradativo do lixão a céu aberto com a
transição para um Aterro Controlado, visando estancar a contaminação hídrica.
Concomitantemente às ações de transição, o poder público deve patrocinar e
capacitar cooperativas autônomas de catadores, assegurando a contratação formal
desses serviços para a coleta municipal, garantindo-lhes renda fixa e
independência dos atravessadores locais.
• Superação da pobreza (Longo prazo):
-
Implantação de um sistema robusto de Gestão Integrada de Resíduos Sólidos
(conforme a PNRS), com triagem mecanizada e integração à logística reversa.
Para o passivo social, é imperativa a execução de um programa de reassentamento
que forneça habitação segura, saneamento básico e educação de qualidade para
resgatar essas famílias da exclusão e quebrar as correntes da pobreza
intergeracional.
Fonte:
Por Francisca Adalgisa da Silva, Paulo Maurício Pinho e Ricardo S. Moretti,
noLe Monde

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