Caminhos
para o socialismo em tempos de IA
O
debate sobre inteligência artificial e socialismo entrou, nos últimos anos, em
um patamar mais exigente. Já não se trata de discutir apenas os efeitos da
tecnologia, mas de reconhecer que a própria técnica passou a ocupar um lugar
estrutural na organização da vida social. Esse deslocamento obriga a abandonar
de vez a ideia de neutralidade tecnológica e a enfrentar a questão em termos
mais densos.
É nesse
terreno que se destacam as reflexões de Evgeny Morozov e Aaron Benanav. Em
registros distintos, ambos contribuem para afastar leituras simplificadoras. De
um lado, ganha força a crítica à noção de que a tecnologia possa ser
simplesmente apropriada e redirecionada sem que se considerem as formas de vida
que ela engendra. A inteligência artificial não se limita a operar sobre o
mundo social; ela participa da sua configuração, reorganizando práticas,
rotinas e possibilidades de ação.
De
outro, reafirma-se algo que não pode ser contornado: o desenvolvimento
tecnológico está inscrito em relações concretas de poder. Investimento,
infraestrutura, energia, trabalho qualificado e direção social definem quais
trajetórias técnicas se consolidam e quais permanecem marginais. A questão da
decisão — quem decide, com base em quais critérios e com que horizonte —
retorna ao centro do problema.
Nesse
ponto, o debate atinge um grau relevante de elaboração. A técnica deixa de ser
pensada como mero instrumento e passa a ser compreendida como elemento
constitutivo das relações sociais, ao mesmo tempo em que se reconhece que sua
direção não está dada, mas depende de disputas e escolhas historicamente
situadas. É a partir desse nível que se torna possível avançar.
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O limite comum: técnica e decisão não esgotam o problema
Esse
avanço teórico, no entanto, carrega um limite que não é imediatamente visível.
Ao articular a crítica à neutralidade da técnica com a necessidade de
coordenação política, o debate tende a se organizar em torno de dois polos: de
um lado, a forma como a tecnologia estrutura o mundo social; de outro, a
capacidade coletiva de orientar seus rumos. A disputa aparece, assim, como uma
questão de direção.
Essa
formulação é forte, mas parte de uma suposição que permanece pouco interrogada.
Supõe-se, ainda que implicitamente, que o sujeito que percebe, avalia e decide
mantém uma certa estabilidade. A técnica pode reorganizar o contexto, o
planejamento pode estruturar escolhas, mas a instância que julga essas escolhas
continua a ser tratada como um dado relativamente preservado.
É
justamente aqui que o problema se estreita. Ao concentrar a análise na relação
entre infraestrutura tecnológica e decisão institucional, perde-se de vista o
modo como essas próprias capacidades de julgamento são formadas. Não se trata
apenas de perguntar quem decide ou o que é decidido, mas de compreender em que
condições materiais se constitui a própria possibilidade de decidir.
Esse
deslocamento não nega a centralidade da técnica nem a importância do
planejamento. Ele apenas indica que ambos se apoiam em uma dimensão anterior,
frequentemente naturalizada: a produção histórica das formas de percepção,
avaliação e escolha. É nesse terreno que o debate precisa avançar.
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A questão decisiva: a produção da subjetividade
Se o
debate avança ao reconhecer o peso da técnica e a necessidade de decisão
coletiva, há um ponto que começa a se impor quase como um incômodo. Não dá mais
para tratar como evidente aquilo que, por muito tempo, foi tomado como dado: a
própria formação do sujeito que percebe, avalia e decide.
Esse
sujeito não está fora das relações que estruturam a técnica. Ele se forma
dentro delas. É atravessado por dispositivos, por rotinas, por ambientes que
organizam a experiência antes mesmo que ela se torne consciente. O que se vê, o
que chama atenção, o que parece relevante ou urgente não surge de forma
espontânea.
Percepção,
desejo e julgamento, nesse sentido, deixam de ser categorias naturais. Passam a
aparecer como resultados de mediações concretas, historicamente situadas. A
inteligência artificial, integrada a plataformas e sistemas de recomendação,
não atua apenas reorganizando fluxos de informação. Ela intervém diretamente na
forma como esses fluxos são percebidos, interpretados e incorporados à ação.
Isso
muda o problema de lugar. Já não basta perguntar como a técnica molda o mundo
social ou como a sociedade pode orientá-la. A questão se desloca: em que
condições se formam as capacidades que permitem essa orientação? Como se
produz, materialmente, a possibilidade de perceber, comparar e decidir?
Quando
essa dimensão entra em cena, o debate muda de escala. A técnica deixa de ser
apenas objeto de decisão e passa a participar da constituição daqueles que
decidem. É aí que o problema ganha densidade real.
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Fricção zero: a eliminação da resistência como forma de poder
Quando
se observa mais de perto como essa modulação ocorre, uma tendência aparece com
nitidez. Não se trata apenas de organizar melhor a informação ou tornar
sistemas mais eficientes. O que se consolida é uma lógica orientada a reduzir
ao máximo qualquer forma de atrito entre estímulo e resposta.
A ideia
de fricção zero ajuda a dar nome a esse movimento. Ela não diz respeito apenas
à facilidade de uso ou à fluidez das interfaces. O que está em jogo é a
tentativa sistemática de encurtar o caminho entre a exposição a um estímulo e a
ação correspondente. Quanto menos tempo, menos dúvida, menos interrupção,
melhor o desempenho do sistema.
Isso
vai muito além de conveniência. Ambientes digitais são desenhados para evitar
desvios, antecipar preferências e oferecer respostas antes mesmo que uma
pergunta se consolide plenamente. A experiência passa a ser conduzida de modo
contínuo, quase sem pausas, com poucas oportunidades reais de suspensão ou
recuo.
Do
ponto de vista comportamental, os mecanismos são conhecidos. Reforço
intermitente, expectativa de recompensa, simplificação de escolhas, repetição
de padrões. O que muda é a escala e a integração desses elementos em sistemas
que operam de forma permanente, ajustando-se em tempo real.
Nesse
cenário, a fricção deixa de ser um obstáculo e passa a revelar seu valor. É ela
que abre espaço para a dúvida, para o conflito interno, para a comparação entre
alternativas. Quando desaparece, algo se altera na própria estrutura da
decisão. A ação continua existindo, mas ocorre dentro de um campo cada vez mais
estreito.
É assim
que a técnica passa a operar de outra forma. Não apenas como meio, mas como
organização da conduta. A eliminação da resistência não é um detalhe técnico. É
uma forma específica de exercício de poder, discreta, contínua e profundamente
eficaz.
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Metaintermediação algorítmica: a organização invisível do real
Mas
esse processo não se limita ao momento da ação. Antes mesmo de qualquer
escolha, já existe uma camada que organiza o campo no qual essa escolha vai
acontecer. É aí que a ideia de metaintermediação ganha força.
Não se
trata mais apenas de intermediar relações entre pessoas, conteúdos ou serviços.
O que está em jogo é algo anterior: a definição das condições sob as quais algo
aparece, se torna visível, relevante ou sequer chega a existir como
possibilidade.
Plataformas
digitais e sistemas de inteligência artificial operam como filtros permanentes.
Eles selecionam, ordenam, repetem, ocultam. O que circula não é simplesmente o
mundo tal como ele é, mas uma versão continuamente reorganizada a partir de
critérios que combinam dados, objetivos econômicos e padrões de comportamento
já identificados.
Isso
muda a natureza da mediação. Ela deixa de ser um canal e passa a funcionar como
infraestrutura. A experiência cotidiana acontece dentro de um ambiente
previamente estruturado, no qual certas informações ganham centralidade
enquanto outras desaparecem quase sem deixar rastro.
O ponto
decisivo está no fato de que essa organização ocorre antes da relação direta
entre sujeito e objeto. Não se escolhe entre todas as opções possíveis, mas
entre aquelas que já foram previamente dispostas. A percepção, nesse sentido,
não começa do zero. Ela já chega orientada.
Nada
disso elimina completamente a agência individual. Mas a desloca. A ação
continua existindo, só que dentro de um espaço delimitado por sistemas que
operam de forma contínua e, muitas vezes, invisível. É nesse plano que a
técnica passa a atuar não apenas como mediadora, mas como condição de
possibilidade do próprio real vivido.
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Economia política do comportamento
Quando
se traz esse quadro para o terreno da economia política, o que aparece é um
deslocamento importante. A modulação do comportamento deixa de ser algo
periférico e passa a ocupar um lugar central na própria dinâmica de produção e
acumulação.
A
atividade dos indivíduos, aqui, não importa apenas enquanto trabalho direto.
Ela passa a ter valor enquanto fonte contínua de dados, padrões e
previsibilidade. Cada interação, cada escolha, cada trajetória de navegação vai
sendo incorporada como informação que pode ser processada, comparada e,
sobretudo, antecipada.
Nesse
contexto, a atenção ganha outro estatuto. Não é apenas um recurso subjetivo,
algo difuso. Torna-se algo disputado, capturado e organizado como variável
econômica. Manter alguém engajado, prolongar sua permanência, direcionar seu
foco — tudo isso passa a ter implicações diretas na geração de valor.
O
comportamento, assim, entra no circuito produtivo de forma ampliada. Não apenas
como resposta a estímulos de mercado, mas como matéria-prima a partir da qual
novos padrões são construídos. A previsibilidade torna-se um ativo. Quanto mais
previsível a conduta, maior a capacidade de orientar fluxos, ajustar ofertas e
reduzir incertezas.
Isso
implica uma mudança de escala. A produção de valor não se limita ao espaço
tradicional do trabalho. Ela se estende para a gestão contínua das condutas.
Percepção, ação e resposta passam a ser integradas em sistemas que operam em
tempo real, convertendo experiência em informação e informação em capacidade de
intervenção.
Ao
colocar isso no plano das relações de produção, evita-se tanto a abstração
quanto a moralização. Não se trata apenas de dizer que há influência ou
manipulação. Trata-se de reconhecer que a subjetividade entra, de forma
material, no processo de valorização do capital. E isso muda o problema por
completo.
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Guerra híbrida e disputa cognitiva
Quando
essa engrenagem é observada fora do estritamente econômico, o quadro se amplia.
As mesmas estruturas que organizam atenção e comportamento passam a operar
também como instrumentos de influência em escala social. Não há uma ruptura
clara entre essas dimensões. Elas se sobrepõem.
Ambientes
digitais baseados em inteligência artificial oferecem condições muito
particulares para isso. Segmentação fina de públicos, teste constante de
mensagens, acompanhamento de reações quase em tempo real. O que antes exigia
campanhas pontuais passa a ser conduzido de forma contínua, incorporado ao
próprio fluxo das interações.
Nesse
cenário, operações psicológicas deixam de ser eventos excepcionais. Elas se
diluem no cotidiano. Não aparecem como algo externo, mas como parte do ambiente
informacional no qual as pessoas vivem. A disputa não se restringe ao conteúdo
de uma ideia, mas alcança os critérios pelos quais ela será percebida como
plausível, urgente ou irrelevante.
Confiança,
credibilidade, familiaridade — tudo isso pode ser trabalhado tecnicamente.
Pequenos deslocamentos acumulados ao longo do tempo tendem a produzir efeitos
mais consistentes do que intervenções abruptas. A percepção vai sendo ajustada
de maneira gradual, quase imperceptível.
A
guerra híbrida, nesse contexto, ganha outro contorno. Não se trata apenas da
combinação de instrumentos militares, econômicos e informacionais. Trata-se da
capacidade de atuar sobre a formação de juízos, de influenciar o modo como a
realidade é interpretada e de orientar, por essa via, a ação coletiva.
Isso
não é um desvio da lógica econômica. É um desdobramento dela. A mesma
infraestrutura que transforma comportamento em valor permite que esse
comportamento seja mobilizado estrategicamente. Previsibilidade e influência
passam a caminhar juntas. E é nesse ponto que a técnica revela toda a sua
dimensão política. Não se trata de exceção, mas de funcionamento normal.
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Sul Global e soberania informacional
Observado
a partir do Sul Global, esse processo ganha contornos mais duros. O que, em
contextos centrais, pode aparecer como disputa interna sobre tecnologia e
regulação, nas formações periféricas se apresenta como problema estrutural de
dependência.
A
infraestrutura não é neutra e tampouco está distribuída de forma equilibrada.
Plataformas, centros de processamento, sistemas de armazenamento, modelos de
inteligência artificial — tudo isso tende a se concentrar em poucos polos. A
maior parte dos países opera a partir de tecnologias que não controla e sobre
as quais tem pouca margem de intervenção.
Isso
desloca o problema. A inteligência artificial deixa de ser apenas uma questão
de inovação ou eficiência produtiva. Passa a ser também uma questão de
soberania. Quem controla os dados, define os padrões e organiza os fluxos de
informação acaba por influenciar diretamente as condições sob as quais decisões
são tomadas.
Essa
dependência não se restringe ao plano técnico. Ela atravessa a formação da
percepção. Ao operar dentro de ambientes estruturados externamente, os próprios
critérios de relevância, urgência e verdade passam a ser mediados por lógicas
que não se originam no interior dessas sociedades.
O
resultado é uma assimetria mais profunda do que a simples diferença de acesso à
tecnologia. Trata-se de uma diferença na capacidade de definir o que conta como
realidade compartilhada. E isso tem implicações diretas sobre a política, sobre
a economia e sobre a própria possibilidade de ação coletiva.
Falar
em soberania informacional, nesse cenário, não é um gesto abstrato. É
reconhecer a necessidade de construir capacidade própria: infraestrutura,
processamento, desenvolvimento de modelos, organização de dados. Sem isso,
qualquer tentativa de reorientar a técnica esbarra em limites que não são
apenas internos.
A
questão deixa de ser apenas “como usar” a tecnologia e passa a ser “em que
condições essa tecnologia é produzida, controlada e integrada à vida social”. É
nesse ponto que o problema se conecta diretamente com a ideia de autonomia.
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Síntese: técnica, decisão e subjetividade como totalidade
Quando
essas dimensões são colocadas lado a lado, o quadro deixa de ser fragmentado. A
discussão sobre a inteligência artificial não pode mais ser reduzida nem à
crítica da técnica, nem à defesa do planejamento. As duas continuam centrais,
mas passam a exigir um nível de articulação maior.
A
técnica não apenas organiza processos produtivos, nem a decisão política se
limita a orientar seus usos. Entre uma coisa e outra, há um campo inteiro em
funcionamento: a produção das condições sob as quais algo pode ser percebido,
avaliado e transformado em ação.
É nesse
ponto que o problema ganha consistência. A modulação do comportamento, a
filtragem algorítmica da experiência e a organização prévia do campo perceptivo
não operam isoladamente. Elas se integram às dinâmicas de acumulação e às
disputas por direção social, formando um mesmo movimento.
Separar
essas dimensões já não ajuda a compreender o que está em jogo. Produção de
valor, formação de juízo e orientação da ação coletiva passam a acontecer
dentro de circuitos interligados, nos quais dados, modelos e infraestruturas
técnicas desempenham papel decisivo.
Isso
não invalida as abordagens anteriores. Pelo contrário. A crítica da técnica
continua necessária para evitar qualquer ilusão de neutralidade. A economia
política segue indispensável para compreender as relações de poder que orientam
o desenvolvimento tecnológico. O que muda é que nenhuma delas, isoladamente, dá
conta do problema.
A
incorporação da subjetividade não vem para substituir esses enfoques, mas para
revelar aquilo que os atravessa. A decisão não é apenas um ato consciente sobre
alternativas disponíveis. Ela depende de condições materiais que organizam o
que aparece como alternativa, o que parece desejável e o que se apresenta como
possível.
É nesse
nível que a discussão se torna mais exigente. Não se trata apenas de decidir
sobre a técnica, mas de compreender como a própria capacidade de decisão é
produzida dentro das mesmas estruturas que se pretende transformar.
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Conclusão: a condição da transformação
Quando
se chega a esse ponto, a questão já não pode ser formulada apenas em termos de
controle da técnica ou de reorganização da produção. Isso continua sendo
fundamental, mas não esgota o problema. A transformação social passa a depender
também das condições sob as quais a ação coletiva se torna possível.
A
questão já não pode ser formulada apenas como decisão sobre a técnica, mas de
garantir que essa decisão possa, de fato, existir como prática efetiva. Isso
implica ambientes nos quais percepção, julgamento e escolha não estejam
integralmente condicionados por estruturas que operam fora do alcance da
coletividade.
A
reorganização da produção, por si só, não resolve esse impasse. Sem capacidade
de compreender, interpretar e disputar o campo no qual a realidade se
apresenta, qualquer projeto de transformação tende a operar dentro de limites
que não controla plenamente.
É por
isso que a questão da soberania precisa ser pensada de forma ampliada. Técnica,
informação e cognição não aparecem como esferas separadas, mas como dimensões
interdependentes de um mesmo processo. A capacidade de desenvolver
infraestrutura, organizar fluxos informacionais e sustentar formas próprias de
interpretação da realidade torna-se parte integrante da possibilidade de
orientar o futuro.
A
inteligência artificial intensifica essa exigência. Ao mesmo tempo em que abre
novas possibilidades, também aprofunda mecanismos de antecipação e dependência.
O sentido desses processos não está dado na técnica em si, mas nas relações
sociais que a estruturam e nas formas de poder que se consolidam a partir dela.
A
questão, portanto, não é apenas o que fazer com a técnica, mas em que condições
esse “fazer” pode ser construído coletivamente. É nesse terreno que a discussão
sobre socialismo após a inteligência artificial encontra seu ponto mais
exigente — e também mais decisivo.
Fonte: Por
Reynaldo Aragon Gonçalves, em Outras Palavras

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