sábado, 30 de maio de 2026

Doença do fígado causada por álcool avança no Brasil, com mortes crescendo mais no Norte

A doença hepática associada ao consumo de álcool tem avançado no Brasil e provocado aumento contínuo de internações e mortes nas últimas duas décadas, com crescimento mais acelerado nas regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste.

É o que aponta um estudo da UFTM (Universidade Federal do Triângulo Mineiro), baseada em dados do SUS entre 2000 e 2022, que identificou 344 mil internações e 214 mil mortes por DHA (doença hepática alcoólica) no país, condição que inclui esteatose (gordura no fígado), hepatite alcoólica e cirrose.

Os dados mostram tendência de alta em todas as regiões brasileiras. O Norte apresentou o maior crescimento anual de internações (2,57%) e de mortalidade (4,95%), enquanto o Nordeste teve o segundo maior avanço nos óbitos.

Já o Sul, embora com crescimento mais discreto, concentra taxas de internação e mortalidade acima da média nacional: 10,5 e 5,6 por cem mil habitantes, respectivamente, ante médias nacionais de 7,8 e 4,9.

Segundo a hepatologista Geisa Gomide, professora e coordenadora do departamento de clínica médica da UFTM, o aumento anual da doença é maior do que a média mundial, o que chama a atenção e levanta indagações. “É aumento real, melhora no diagnóstico ou sistemas de informação mais bem alimentados?”

Para o hepatologista Roberto José de Carvalho Filho, professor-adjunto da Escola Paulista de Medicina da Unifesp, o cenário reflete um problema antigo e subestimado. “O Brasil não bebe necessariamente mais do que a média mundial, mas quem bebe, bebe muito. O consumo episódico excessivo é muito frequente.”

Segundo ele, cerca de 15% da população brasileira apresenta padrão de consumo abusivo. “Não é uma condição rara. E existe um lobby muito forte da indústria de bebidas para manter essa aceitação social do álcool”, diz.

De acordo com o estudo, em 2021, as doenças do fígado foram a principal causa de óbitos relacionados ao álcool no Brasil. Para Gomide, as diferenças regionais refletem tanto padrões culturais quanto desigualdades no acesso à saúde.

“No Sul, o consumo de álcool historicamente já é maior, com influência cultural, inclusive desde a infância em algumas comunidades. Já no Norte e Nordeste, pode haver melhora recente na notificação e no diagnóstico”, afirma.

Ela destaca ainda as dificuldades de acesso em áreas remotas: “Há populações em que o deslocamento até um serviço de saúde pode levar dias. Muitos óbitos podem nem ser corretamente registrados.”

No estudo, homens responderam por 82% das internações e 88% dos óbitos registrados no período analisado. Entre os internados, a maioria tem entre 40 e 59 anos (55,6%) e há a mesma proporção de brancos (35,8%) e pretos e pardos (35,8%).

Entre os mortos, a faixa etária de 40 a 59 anos também predomina (56,3%), mas a fatia de pretos e pardos é maior (49,8%). A maior parte tinha sete anos ou menos de escolaridade (58,1%).

A faixa etária mais atingida, de meia-idade, indica o efeito acumulado do consumo crônico sobre o fígado. “É uma doença que depende do tempo de uso. São pessoas que muitas vezes chegam ao sistema de saúde já em estágio avançado, quando há pouco a fazer além de tratar complicações”, diz Gomide.

Embora outras pesquisas mostrem alta do consumo de álcool entre adolescentes, com 5,7% deles fazendo uso abusivo, isso não se reflete nas doenças hepáticas. “Antes dos 40 é muito difícil, a história natural da doença precisa de tempo de evolução”, explica a médica.

Para a médica, é possível que outros agravos associados ao alcoolismo, como acidentes de trânsito, ocorram em faixas etárias mais jovens, mas eles não foram objeto do estudo.

Ainda que as mulheres sejam biologicamente mais vulneráveis aos danos hepáticos causados pelo álcool, elas responderam por 21,5% do total de internações e 11% das mortes.

O trabalho também revela desigualdades regionais e sociais. No Norte, Nordeste e Centro-Oeste, pretos e pardos predominam entre os casos e mortes. No Sul e Sudeste, há maior proporção de pessoas brancas, o que acompanha o perfil demográfico dessas regiões.

Para Gomide, a combinação de fatores sociais agrava o cenário. Baixa escolaridade e dificuldade de acesso ao sistema de saúde pesam muito. “E há falhas importantes nos dados hospitalares, com muitos campos não preenchidos, o que dificulta entender melhor quem são esses pacientes.”

Cerca de 90% dos usuários crônicos de álcool desenvolvem algum grau de gordura no fígado, e entre 10% e 20% podem evoluir para quadros, como hepatite alcoólica e cirrose. Nos casos mais graves, a taxa de mortalidade chega a 50%.

“O fígado é um órgão silencioso. Quando o paciente interna, geralmente já está muito grave”, afirma Gomide. “Esse diagnóstico precisa acontecer antes, na atenção primária.”

Carvalho Filho reforça que o problema é agravado pelo estigma. “Existe preconceito até dentro da classe médica. O paciente com dependência alcoólica ainda é visto como alguém sem força de vontade, quando na verdade estamos falando de uma dependência química”, diz.

Ele destaca ainda que a doença hepática alcoólica é hoje a principal causa de cirrose no Brasil e no mundo ocidental, respondendo por cerca de 65% dos casos nos centros especializados. Apesar disso, recebe menos atenção científica e menos investimento. “Não há o mesmo interesse da indústria farmacêutica, como houve com hepatite C ou há hoje com doenças metabólicas.”

No ambulatório de doença hepática alcoólica da Unifesp, a proposta é abordar os pacientes nas formas mais precoces, até mesmo quando não há sintomas, o que ocorre em um quarto dos casos.

Segundo Carvalho Filho, os pacientes são tratados com psicoterapia e medicamentos para tentar resolver ou minimizar a dependência química e evitar a progressão da doença hepática. Ao menos 500 pacientes são acompanhados no local, com uma taxa de adesão de 70%.

As abordagens contemplam tanto a redução de danos quanto a abstinência total. “A gente vê os benefícios das reduções de consumo nesses pacientes mais graves. Eu tenho paciente com cirrose que faz acompanhamento há quase 20 anos. Só está vivo porque a gente conseguiu que ele reduzisse muito.”

Luiz Cláudio da Silva Cardoso, 57, desempregado, é acompanhado no ambulatório há três anos. Ele faz tratamento de cirrose, que inclui medicações, psicoterapia, orientações para uma dieta equilibrada com baixo teor de sal para controlar o acúmulo de líquidos, entre outras.

Cardoso diz que começou a beber muito cedo, aos 14 anos, e desde então já sofreu muitas perdas devido ao alcoolismo. “A maior delas foi perder o amor dos meus filhos e da minha mulher.” Ele diz que ainda enfrenta recaídas, mas tem esperança de abandonar de vez a bebida. “Eu sei que só depende mim.”

Os pesquisadores defendem que os resultados do estudo sirvam de base para políticas públicas focadas em prevenção do uso abusivo de álcool, ampliação do diagnóstico precoce e organização da assistência para grupos mais vulneráveis.

•        Bebida alcoólica pode estar associada a 8 tipos de câncer, aponta estudo

Um novo estudo da Agência Internacional de Pesquisa sobre o Câncer (IARC) revelou que o consumo de álcool pode estar associado a mais um tipo de câncer, o de pâncreas. Em janeiro deste ano, o cirurgião-geral do Serviço de Saúde Pública dos Estados Unidos (EUA), Vivek Murthy, já havia divulgado um parecer associando o álcool a sete tipos de câncer: mama (em mulheres), colorretal, esôfago, caixa vocal, fígado, boca e garganta.

Para o estudo, os pesquisadores recrutaram 2,5 milhões de participantes com idade média de 57 anos, acompanhando-os por cerca de 16 anos. Do grupo, foram registrados 10.067 casos de câncer de pâncreas. De acordo com os resultados da pesquisa, cada aumento de 10 gramas de etanol por dia no consumo de álcool foi associado a um aumento de 3% no risco de câncer de pâncreas

“Nossas descobertas fornecem novas evidências de que o câncer de pâncreas pode ser outro tipo de câncer associado ao consumo de álcool, uma conexão que foi subestimada até agora”, disse o autor sênior do estudo, Pietro Ferrari, chefe do Departamento de Nutrição e Metabolismo do IARC, em um comunicado à imprensa.

O estudo mostrou que as mulheres que consumiam de 15 a 30 gramas de álcool — cerca de uma a duas doses padrão — por dia tiveram um aumento de 12% no risco de câncer de pâncreas. Enquanto os homens que consumiam de 30 a 60 gramas — duas a seis doses padrão — por dia tiveram um risco 15% maior de câncer de pâncreas, e a ingestão de mais de 60 gramas por dia foi associada a um risco 36% maior.

“Este estudo observacional examinou o consumo de álcool avaliado em um único momento durante a meia-idade e o final da idade adulta e incluiu um número limitado de coortes asiáticas”, diz trecho do estudo. Os pesquisadores revelaram também que são necessários mais estudos para entender melhor o papel do consumo de álcool ao longo da vida.

<><> Consumo de bebida alcoólica

Pesquisas mostram que quanto mais álcool uma pessoa consome — especialmente de forma regular e ao longo do tempo — maior é o risco de câncer. Essa associação é válida para todos os tipos de álcool: cerveja, vinho e destilados. “Não existe um nível seguro de consumo de álcool quando se trata de risco de câncer”, afirmou Ferrari.

O relatório do cirurgião-geral define uma dose padrão como contendo 14 gramas de álcool — aproximadamente o equivalente a 150 ml de vinho, 355 ml de cerveja ou 44 ml de destilados. O relatório analisou evidências sobre câncer com base na quantidade de álcool consumida diariamente ou semanalmente.

 

Fonte: FolhaPress/ICL Notícias

 

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