PCC
e CV na lista de grupos terroristas dos EUA: o que muda?
A
decisão do governo de Donald Trump de classificar o Primeiro Comando da
Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas estrangeiras
amplia o leque de sanções e outras medidas que podem ser adotadas pelos Estados
Unidos contra grupos e pessoas supostamente ou comprovadamente ligadas às duas
facções criminosas brasileiras.
A
designação, anunciada na quinta-feira (28/05) pelo secretário de Estado
americano, Marco Rubio, abre caminhos para que o governo americano lance mão,
além de medidas financeiras, migratórias e operacionais, de um aparato militar
e de inteligência mais intenso para combater essas facções.
Em
nota, o Departamento de Estado afirma que as duas organizações criminosas
"são as mais perigosas do Brasil" e que o alcance da medida "se
estende por toda a nossa região e ao nosso país". "A administração
Trump continuará usando todas as ferramentas disponíveis para proteger nossos
interesses de segurança nacional e negar o financiamento e recursos
narcoterroristas", afirmou Rubio, em publicação no X.
Especialistas
levantam preocupações sobre os impactos econômicos, financeiros e,
possivelmente, sobre os riscos à soberania brasileira, com o aumento de
vigilância, investigações e atuação militar dos EUA além de seu território, como foi
visto nos últimos meses em outros países da América Latina, como México,
Venezuela e Colômbia.
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Efeitos da decisão
O PCC e
o CV foram incluídos na lista de grupos Terroristas Globais Especialmente
Designados (SDGTs, na sigla em inglês), o que passou a valer a partir desta
quinta. Eles também passarão a ser classificados como Organizações Terroristas
Estrangeiras (FTOs) a partir de 5 de junho de 2026.
A
primeira classificação foi criada pelo presidente americano George W. Bush após
os ataques da Al-Qaeda às Torres
Gêmeas, em 11 de setembro de 2001. A partir de então, o governo americano
declarou emergência nacional para lidar com a "ameaça incomum e
extraordinária" à segurança nacional, à política externa e à economia dos
Estados Unidos.
Essa
ordem executiva tem foco mais financeiro e econômico e determina o bloqueio a
todos os bens, transações e demais direitos sobre bens de indivíduos ou
entidades que estejam nos EUA enquadrados como terroristas pelo Escritório de
Controle de Ativos Estrangeiros (OFAC) ou pelo Departamento do Tesouro
americano.
A
medida contempla "o fornecimento ou recebimento de qualquer contribuição
de fundos, bens ou serviços para ou em benefício de indivíduos ou entidades
designados."
A
classificação FTOs, que passa a valer a partir de junho, se refere a grupos
estrangeiros e é definida pelo secretário de Estado. Ela funciona para fins
criminais, migratórios, financeiros e diplomáticos.
Ela
proibe pessoas e instituições nos Estados Unidos ou sujeitas à jurisdição dos
Estados Unidos de fornecer "apoio material ou recursos" a uma FTO.
A
designação também amplia o uso de recursos de inteligência e das capacidades
operacionais do Departamento de Defesa dos Estados Unidos. Dependendo da
interpretação jurídica adotada pelo governo americano, a classificação pode
contribuir para justificar operações unilaterais, sem consentimento explícito
do governo brasileiro.
Segundo
o Departamento de Estado americano, a medida "apoia nossos esforços para
coibir o financiamento do terrorismo e incentivar outras nações a fazerem o
mesmo", "estigmatiza e isola internacionalmente as organizações
terroristas designadas", entre outros efeitos.
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Repercussão da medida
Washington
havia pedido em maio de 2025 o enquadramento das facções brasileiras como
organizações terroristas, parte de uma campanha de Trump de maior
intervencionismo na região, justificada por supostas ameaças à segurança do
país.
Na
ocasião, o governo brasileiro recusou o pedido, sob o argumento de que a lei
antiterrorismo, sancionada em 2016, exige motivações específicas para tipificar
o crime, como xenofobia, discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia ou
religião. No entendimento do governo brasileiro e de especialistas em segurança
pública, os grupos em questão buscam apenas o lucro a partir de
atividades criminosas e não agem por motivação ideológica.
Nos
últimos anos, organizações criminosas expandiram significativamente sua capacidade
operacional e influência econômica no Brasil, deixando de atuar apenas em
atividades ilícitas tradicionais para se infiltrar em setores estratégicos da
economia formal, como no sistema financeiro, no setor de combustíveis e outras
estruturas empresariais usadas para lavagem de dinheiro, como apontam
investigações recentes da Polícia Federal, como a operação Carbono Oculto.
Para
Sérgio de Lima, diretor presidente do Fórum Brasileiro de Segurança Pública,
por mais que o PCC e o CV possam também adotar táticas associadas a
terroristas, como incendiar ônibus, "o direito internacional não autoriza
pensarmos que elas são organizações terroristas". "Isso porque essas
facções estão estruturadas para ganhar dinheiro e não são motivadas por
interesses ideológicos, por interesses políticos, por discursos de ódio ou por
intolerância religiosa", afirmou, em artigo na Folha de S.Paulo.
O
governo americano então decidiu agir por conta própria. A classificação foi
anunciada dois dias após a visita do senador e
presidenciável Flávio Bolsonaro (PL-RJ) ao
presidente americano, Donald Trump, e outros membros do governo dos EUA,
como Rubio e o vice-presidente, JD Vance. O movimento foi visto como
estratégico para mobilizar a base bolsonarista, sobretudo após a revelação
das conversas entre o senador e o
ex-banqueiro Daniel Vorcaro, dono do banco Master.
Em suas
redes sociais, Flávio Bolsonaro comentou: "grande dia".
Entre
especialistas, há o temor de que a classificação justifique interferências e
pressão política dos EUA no Brasil em um ano estratégico de eleições. A medida
pode facilitar uma atuação autônoma de forças de segurança e inteligência dos
EUA em território brasileiro sem anuência do governo brasileiro, como já
acontece com o México, pontuou o professor de relações internacionais Oliver
Stuenkel.
"Segundo
a legislação americana, a classificação poderia abrir as portas para operações
extraterritoriais dos EUA — mesmo que, em tese, no Brasil —, levantando
preocupações quanto à soberania nacional", afirmou em sua conta no X.
"Eu
não tenho dúvida, vai causar problemas de toda ordem no Brasil e não
vejo nenhum benefício prático que essa classificação possa trazer. Acho que há
o risco muito grande dos Estados Unidos quererem fazer algum tipo de ação
militar secreta aqui dentro do Brasil, como fez no México e como fez também na Venezuela", afirmou
Lincoln Gakiya, promotor de Justiça do Grupo de Atuação Especial de Repressão
ao Crime Organizado (MP-SP) em entrevista ao podcast O Assunto.
A
medida pode ainda atrapalhar a cooperação policial internacional contra o crime organizado, ao transferir
investigações para a CIA e para a esfera militar, avaliam especialistas.
Renato
Sérgio de Lima, em seu artigo na Folha de S.Paulo, pontua: "Na
prática, a medida muda por completo como os EUA irão abordar o problema,
indicando que agora a questão é de natureza militar e não de cooperação
policial. Isso é bastante preocupante, ainda mais porque Brasil e EUA têm uma
longa tradição de cooperação policial e de troca de informações de
inteligência, que podem ser afetadas."
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Do CV ao PCC, como opera o crime organizado no Brasil?
Ao
redor do Brasil e para além das fronteiras nacionais, 88 organizações criminosas realizam
atividades ilícitas contínuas a fim de obter lucros, segundo relatório de Inteligência do Ministério de
Justiça e Segurança Pública (MJSP). Quase todas elas têm presença tanto nas
ruas quanto em presídios, poder financeiro e estruturas hierárquicas.
Classificados nesta semana como organizações
terroristas pelos Estados Unidos, o Comando Vermelho (CV) e o Primeiro
Comando da Capital (PCC) são os dois maiores grupos criminosos do Brasil.
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Facções espalhadas
Já não
há estado brasileiro livre da influência do CV, do PCC ou de múltiplas
outras organizações criminosas. Ao longo das últimas cinco décadas, elas se
multiplicaram, ganharam capilaridade e forjaram alianças ou inimizades na
disputa por território.
Hoje, o
Nordeste é a região com o maior número de organizações criminosas
conhecidas pelo MJSP — 46 foram mapeadas entre 2022 e 2024. Em seguida,
aparecem as regiões Sul (24), Sudeste (18), Norte (14) e Centro-Oeste
(10).
O crime
organizado sobrevive sobretudo do tráfico de drogas, além do roubo de carga,
latrocínio, fraude, extorsão, lavagem de dinheiro e controle de territórios e
serviços. Na Amazônia, PCC e CV estariam
também ampliando seu envolvimento com o garimpo ilegal, incluindo em
acampamentos dentro de terras indígenas.
Estruturadas
em redes de facções, as organizações criminosas compartilham símbolos de
pertencimento e, não raro, mantêm ideologias ou estatutos próprios. Também
antagonizam diretamente contra o poder público — com a não obediência das leis
e ações violentas contra agentes do Estado —, organizam resgates ou fugas de
presos e promovem rebeliões em prisões.
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Origem nas prisões
Após
anos de expansão pelo território brasileiro, tanto CV quanto PCC têm membros
espalhados em presídios de todos os estados, afirma o levantamento do governo
federal, com exceção do Rio Grande do Sul. Na terra gaúcha, predominam as
organizações Bala na Cara, formada em 2005, e Os Manos, cujos primeiros sinais
datam dos anos 1980.
As
primeiras facções surgiram dentro dos presídios nos anos 1970. Divididos em
grupos, os presos então reivindicavam melhores condições das autoridades —
incluindo o fim da tortura e dos maus-tratos —, garantiam proteção aos seus
aliados, criavam regras de convivência e profissionalizavam o que, até então,
era a atividade criminosa de grupos de menor porte.
Em
1979, emergiu a Falange Vermelha, que daria origem ao Comando Vermelho, no
antigo presídio Cândido Mendes, na Ilha Grande. O grupo se formou quando presos
comuns e políticos, militantes de grupos armados contra a ditadura militar, passaram a
conviver. Os anos seguintes seriam marcados pela ampliação do poder da então
recém-nascida organização, movida pelo tráfico de cocaína.
Mais
tarde, em 1993, nasceria o PCC na Casa de Custódia de Taubaté, em São Paulo —
entre outros motivos, para evitar violências do Estado, tal como ocorrera
no massacre do Carandiru, que deixara 111
mortos em 1992. Hoje, a maior organização criminosa do país conta com estimados
40 mil membros.
"Existia
um discurso de organização e de proteção aos presos. Depois, esse discurso de
proteção se estendeu até as periferias. E a proteção era contra a própria
polícia", explicou o cientista social Eduardo Armando Medina Dyna ao Jornal da Universidade Estadual
Paulista (Unesp),
sobre os primórdios do PCC.
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Influência no exterior
Hoje
inimigos — embora tenham sido aliados nos anos 2000 —, CV e PCC são as únicas
organizações criminosas brasileiras que, no mapeamento do governo federal, têm
influência no exterior, com destaque para a América do Sul. Dos outros 86
grupos, 72 atuam unicamente nos seus estados de origem, e 14 alcançam mais de
um estado ou região dentro do Brasil.
De
acordo com dados do Ministério Público de São Paulo obtidos em junho pelo
portal g1, o PCC tem estimadamente mais de 2 mil membros em outros 28 países. A
maioria deles atuaria dentro de prisões com recrutamento de novos membros,
lavagem de dinheiro e tráfico de drogas e armas.
A
organização manteria laços com cartéis sul-americanos e mexicanos com
penetração no território americano, segundo reportagem do jornal O
Globo de 2025.
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Redes fortes, tréguas frágeis
As duas
maiores organizações criminosas do país chegaram a acordar um cessar-fogo em
fevereiro do ano passado, a fim de fortalecer suas atividades e
armamentos. A trégua alarmou autoridades e colocou uma pausa a quase uma década
de confrontos violentos, disputas por rotas de contrabando e tomadas de
território, sobretudo no Norte e Nordeste, conforme explicam pesquisadores
do Observatório de Segurança Pública.
Mas a
paz durou apenas dois meses, fazendo retornar a guerra inicialmente deflagrada
em 2016. À época, fora assassinado o narcotraficante Jorge Rafaat, conhecido
como "rei do tráfico", na fronteira entre Brasil e Paraguai.
Provocada
por uma emboscada cinematográfica, a sua morte foi considerada um marco da
disputa, incluindo por PCC e CV, pelo controle de um importante corredor para o
tráfico de drogas na América do Sul.
O
Brasil registraria em 2017 um recorde anual de homicídios — mais de 65 mil, de
acordo com o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) —, associado
por especialistas aos confrontos entre PCC e CV. A marca nunca foi superada,
com o registro mais recente sendo de 45 mil homicídios em 2023.
"Naquele
momento, o PCC alcançava predomínio nas rotas utilizadas no Centro-Oeste
brasileiro, empurrando a atuação do CV em direção ao Norte, onde intensificou o
processo de alianças, conflitos e acomodações com facções e outros grupos de
origem regional", explica um relatório de 2023publicado pelo Fórum
Brasileiro de Segurança Pública.
Desde
então, ambas as organizações estariam investindo na internacionalização e
fortalecendo novas rotas do tráfico de drogas, como a do rio Solimões, na
tríplice fronteira entre Peru, Colômbia e Brasil. Atuam ainda na área outros
grupos de países vizinhos, incluindo dissidentes das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc).
Um estudorealizado por
pesquisadores de universidades dos Estados Unidos (EUA) estimou neste ano que o
Brasil tenha entre 50 e 61 milhões de pessoas vivendo sob a governança de
organizações criminosas. O número corresponde a aproximadamente um quarto da
população do país e é o maior da América Latina, de acordo com os dados
levantados pela pesquisa.
Fonte:
DW Brasil

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