Como
construir uma civilização ecológica?
Nesse
ano de 2026, em que celebramos, com muita alegria, as afinidades e amizade
cultural entre a China e o Brasil, não posso deixar de agradecer, no início
desse diálogo, para além de qualquer formalidade retórica, aos organizadores
desse importante Fórum, pelo honroso convite que me fizeram para estar aqui,
hoje, com todos vocês.
O mundo
em que vivemos sofre grandes transformações políticas, econômicas, culturais,
sociais e ambientais. Cabe à nossa geração, e à mais jovem que está vindo,
assumir os desafios para contribuirmos, em cada setor de nossas vidas – e eu me
reporto aqui, à área em que trabalhei e trabalho por cerca de 50 anos, o da
educação pública superior – para que o nosso Planeta compartilhe um futuro
habitável de vida bem vivida, pacífica, viável tanto socialmente quanto
ecologicamente, seja para as várias culturas humanas, seja ao mesmo tempo para
todas as espécies vivas.
Não é
puro modismo, evidentemente, o interesse crescente que verifico pelo tema da
“civilização ecológica” em vários países e regiões e em várias universidades.
Fui mobilizado por esse tema aqui mesmo na China, em novembro e dezembro de
2019, quando pude proferir palestras, respectivamente, na Universidade de
Ciência e Tecnologia do Sul (SUSTech), em Shenzhen, Guandgong e, também, na
Universidade de Pequim (PKU), em torno do tema central da chamada Hileia
Amazônica (nome cunhado pelo viajante e pesquisador pioneiro Alexander von
Humboldt, na virada do século XVIII ao XIX), em situações-limite, seja “quando
a natureza se vinga dos humanos”, seja “quando alguns humanos destroem nossa
casa comum”.
Já em
2024, em fevereiro, pude retornar à Universidade Federal do Amazonas (UFAM), em
Manaus, bem como visitar a Universidade do Estado do Amazonas (UEA), na cidade
de Tefé, à beira do rio Solimões, situada a cerca de 500 Km da capital, onde,
em ambas as estadias, tratamos centralmente do colapso socioambiental que afeta
gravemente toda a região amazônica.
E, em
março de 2024, tive a felicidade de proferir uma palestra de abertura no evento
organizado pelo Trinity College, em Dublin, Irlanda, dentro das atividades do
Trinity Center for Global Intercultural Communications, sobre o tema: “The
Amazon as a New Centrality: a contemporary challenge for all our interactions”.
Além
dessas intervenções, estivemos, em janeiro de 2025, na Universidade da
Califórnia, campus de Santa Barbara (UCSB) para falar, num seminário dedicado
às relações entre Paisagem e Literatura, coordenado pela colega Elide Valarini
Oliver, sobre o tema: “SOS Amazon: the social-environmental collapse and the
urgent call to our generation”. E, no início de dezembro de 2025, voltamos a
Belém do Pará, a bela capital daquele estado amazônico, para falar, ainda uma
vez, sobre o mesmo tema, a convite de colegas e pesquisadoras/es de toda aquela
enorme região (GELLNORTE: Grupo de Estudos Linguísticos e Literários da Região
Norte).
E cá
estamos novamente, aqui e agora, minhas caras amigas e amigos, para tratar, no
fundo, do mesmo tema. No Brasil, dizem: “é como chover no molhado”. Ou: “é como
bater na mesma tecla”. Mas dada a enorme gravidade do que ocorre no mundo
globalizado, hoje, temos, sim, que insistir, e se for necessário, “chover no
molhado”… Porque, afinal, retomo, aqui, o título que, a convite do Consulado
Geral da República Popular da China, em São Paulo, minha cidade natal, fiz para
um pequeno volume que foi editado, em novembro de 2025, por ocasião da reunião
da COP-30, ao qual colaboraram, efetivamente, o Instituto BRICS+, o Instituto
Tricontinental de Pesquisa Social, o Movimento dos Trabalhadores Sem-Terra
(MST) e o Instituto Confúcio da Unesp: “Quem quer a paz mundial de verdade?
Desafios para uma Multipolaridade na Amazônia e o Papel de uma Cooperação
Socioambiental Efetiva Brasil-China”.
Se me
permitem, portanto, vamos, sim, “chover no molhado”. Quando vi, com meus
próprios olhos, o enorme Lago Tefé, à beira dessa cidade fundada na metade do
século XVIII na bacia amazônica, sofrendo efeitos de uma seca antes nunca
vista, nunca vivida, fiquei muito chocado e triste. Mas, ao mesmo tempo,
sabendo da responsabilidade de levar essa mensagem onde eu puder e pelos anos
que me for possível fazê-lo.
Nenhuma
inovação tecnológica pode justificar-se por si mesma, sob pena de cairmos
prisioneiros do “inovacionismo”. Toda inovação tecnológica deve responder a
duas perguntas básicas: por quê?; e: para quem? A mesma reflexão deve ser feita
em relação ao desejado avanço das chamadas forças produtivas com “nova
qualidade”. Por quê? Para quem? Do contrário, recaímos na ilusão do
“produtivismo”, com toda a sua parafernália mercadológica, hoje reforçada pela
publicidade em torno da Inteligência artificial.
Chegados
a este ponto, me permitam retomar alguns dos objetivos que considero “pontes
que aproximam” na perspectiva de uma cooperação efetiva dos BRICS, em especial
entre China e Brasil:
(i) A multipolaridade, isto é, respeito às
diferenças culturais e ação internacional solidária pela superação da pobreza
extrema e de situações crônicas de fome e carência alimentar, em especial dos
refugiados de todo o mundo;
(ii) (A efetiva troca de conhecimentos
científicos e tecnológicos, sem ranços hegemônicos e nem cobiças de controle
geopolítico, tendo a soberania de estados, povos e nações como valor
incondicional.
(iii) Estabelecer e/ou fortalecer linhas de
cooperação educacional e pedagógica que façam aprofundar intercâmbios
desejáveis entre estudantes, professores, técnicos e pesquisadores, tendo as
nossas universidades públicas como instituições coordenadoras desse processo;
realização de intercâmbios artísticos e culturais que possam dar a conhecer
tendências contemporâneas dessas atividades em nossos respectivos países, bem
como linhas históricas em que se revelem tradições e afinidades múltiplas.
(iv) Lutar para construir – no espaço e contexto
do Sul Global e do BRICS – uma nova “governança multipolar” que possa cuidar,
efetivamente, das questões socioambientais na perspectiva de um futuro
compartilhado, isto é: que a Terra seja igualmente habitável por humanos e
não-humanos; em que seja possível o reencontro de harmonias perdidas entre o
campo e a cidade; isso tudo, sempre em prol de uma vida coletiva, igualitária e
justa – o que várias culturas indígenas
latino-americanas chamam de “bem-viver”.
Perdoem-me,
pois, amigas e amigos, por “chover no molhado”. Quando vejo e vi com meus
próprios olhos a destruição da Amazônia, seja lá no distante Lago Tefé, seja em
tantas bacias de rios contaminados pelo mercúrio das mineradoras clandestinas e
de florestas devastadas pela cobiça de madeireiros e empresários do
agronegócio; quando vejo e vi a enorme quantidade de pessoas sem-teto em
grandes cidades do Ocidente, do Brasil aos EUA, da Argentina à França. Quando
vejo e vemos as guerras insanas da atualidade a destruir povos inocentes,
culturas e meios ambientes, no Oriente Médio…
Penso
que “chover no molhado” é apenas e tão-somente uma necessidade daqueles que, em
nossa geração, ainda acreditam e lutam por um mundo habitável, igualitário e
pacífico. Um mundo em que a solidariedade internacional seja, mais do que
palavras, uma ação real.
Fonte:
Por Francisco Foot Hardman, em A Terra é Redonda

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