sábado, 30 de maio de 2026

Verbena Córdula: Debate eleitoral no Brasil ignora pobreza e soberania nacional por tema “corrupção”

As eleições presidenciais no Brasil têm sido marcadas, historicamente, por intensos embates ideológicos, disputas narrativas e crises de confiança nas instituições políticas. Em meio a esse cenário, denúncias de corrupção frequentemente ocupam o centro do debate público e da cobertura midiática. Nos últimos meses, o tema concentrou-se no escândalo envolvendo o Banco Master, ganhou enorme repercussão nacional e contribuiu para ampliar a polarização política brasileira. Mas é isso mesmo de que o Brasil necessita?

•        Elemento decorativo do discurso oficial

A autonomia científico-tecnológica representa tema fundamental frequentemente ignorado. O Brasil possui universidades públicas relevantes, centros de pesquisa reconhecidos internacionalmente e grande potencial de inovação. Contudo, cortes orçamentários, fuga de cérebros e dependência tecnológica externa limitam o desenvolvimento nacional. Países que alcançaram elevado nível de desenvolvimento investiram pesadamente em ciência, tecnologia e educação estratégica, como a China, por exemplo. No entanto, o debate político brasileiro raramente discute, de forma contundente, a construção de soberania tecnológica, preferindo concentrar energia em disputas eleitorais imediatistas.

Não poderia deixar de mencionar aqui o racismo estrutural — uma das bases históricas da formação social brasileira — ainda profundamente presente nas instituições, nas relações econômicas e nas desigualdades cotidianas. Mesmo mais de um século após a abolição da escravidão, a população negra segue, majoritariamente, em situação de maior vulnerabilidade social, com menor acesso a oportunidades, maior exposição à violência policial e sub-representação em espaços de poder político, econômico e acadêmico. Apesar disso, o tema raramente ocupa lugar central nos debates públicos, sendo muitas vezes tratado de forma superficial ou reduzido a episódios isolados de discriminação, sem uma reflexão consistente sobre suas estruturas históricas e sobre as medidas necessárias para sua superação.

A permanência desse cenário escancara a insuficiência e a profunda omissão histórica do próprio Estado brasileiro diante do racismo estrutural. Ainda que a criação do Ministério da Igualdade Racial represente uma conquista simbólica importante dos movimentos negros, ela pouco altera uma realidade marcada pela continuidade da exclusão, da violência e da marginalização da população negra. Na prática, o combate ao racismo frequentemente permanece restrito ao discurso institucional, enquanto políticas efetivas seguem fragilizadas por cortes orçamentários, falta de prioridade política e ausência de enfrentamento concreto às estruturas que reproduzem privilégios raciais no país.

O contraste entre a retórica oficial e a realidade cotidiana é notório. Enquanto autoridades celebram avanços institucionais, jovens negros continuam sendo as principais vítimas da violência policial, as periferias seguem abandonadas pelo poder público e a população negra permanece ocupando os postos mais precarizados da economia. O Estado que cria ministérios é o mesmo que falha em garantir educação de qualidade, acesso digno à saúde e oportunidades reais de ascensão social para milhões de brasileiros negros.

Mais do que insuficiência administrativa, observa-se uma contradição estrutural: o mesmo Estado que reconhece formalmente a existência do racismo é aquele que, historicamente, ajuda a produzi-lo e sustentá-lo até hoje, perpetuando mecanismos de exclusão. Sem investimento massivo, sem políticas permanentes e sem enfrentamento direto às desigualdades raciais enraizadas nas instituições, a pauta antirracista é reduzida a um elemento decorativo do discurso oficial — útil para compor narrativas progressistas, mas incapaz de transformar concretamente a vida daqueles que seguem sendo os principais alvos da exclusão social brasileira.

Outra questão importante é a defesa nacional, que se tornou estratégica para o Brasil e para a América Latina em um contexto internacional marcado pela disputa por influência política, econômica, tecnológica e militar. Os Estados Unidos mantêm historicamente forte presença na região por meio de acordos econômicos, influência diplomática e cooperação militar. Nas últimas décadas, essa atuação intensificou-se com o crescente interesse por recursos naturais estratégicos, como água, biodiversidade, minerais raros, petróleo e energia. No entanto, o país pouco debate esse assunto.

Países que não desenvolvem capacidade própria de pesquisa, inteligência e defesa tornam-se mais vulneráveis à dependência externa. A presença crescente de interesses estrangeiros sobre territórios estratégicos latino-americanos demonstra que a defesa nacional precisa ser entendida de forma ampla, articulando economia, ciência, diplomacia e proteção territorial. Nesse cenário, é evidente que o fortalecimento da soberania brasileira depende da construção de um projeto nacional capaz de integrar desenvolvimento social e capacidade estratégica.

Não se trata de promover discursos militaristas ou nacionalismos extremos, mas de reconhecer que nenhum país alcança autonomia real sem planejamento de longo prazo e sem capacidade de proteger seus próprios interesses. Por isso, debater defesa nacional significa, também, discutir o futuro do país, sua posição no cenário global e a necessidade de construir uma nação menos dependente economicamente e mais preparada para enfrentar disputas internacionais em um século marcado pela competição por recursos, tecnologia e influência política.

Esse desinteresse — sobretudo das elites — pela soberania nacional possui raízes históricas profundas. Desde a formação econômica do Brasil, parcelas dominantes da sociedade construíram relações de dependência em relação aos grandes centros de poder internacional, priorizando modelos econômicos voltados à exportação de matérias-primas e à subordinação tecnológica externa. Em vez de incentivar um projeto nacional baseado em ciência, inovação e autonomia produtiva, consolidou-se uma lógica de dependência que limita a capacidade do país de competir estrategicamente no cenário global.

A ausência de compromisso com a construção de soberania tecnológica torna o Brasil vulnerável economicamente, enfraquece sua capacidade industrial e reduz sua influência internacional em um mundo cada vez mais definido pela disputa por tecnologia, informação e controle de recursos estratégicos. A independência científica e tecnológica raramente ocupa espaço central nas eleições presidenciais justamente porque exige planejamento de longo prazo e enfrentamento de interesses consolidados. Investir seriamente em pesquisa, universidades públicas, desenvolvimento industrial e inovação significaria transformar a estrutura econômica do país e ampliar a autonomia nacional diante das potências estrangeiras.

A maior parte das elites brasileiras demonstra pouco interesse em construir esse caminho, preferindo modelos econômicos baseados na dependência financeira e na exportação de commodities. Assim, enquanto outros países discutem inteligência artificial, soberania digital, indústria de alta complexidade e segurança tecnológica, o debate político brasileiro permanece preso a conflitos imediatos e disputas eleitorais superficiais. Esse cenário contribui diretamente para o empobrecimento da democracia e para o esvaziamento do debate eleitoral.

O silêncio das elites demonstra ausência de visão histórica e, principalmente, uma dificuldade estrutural de pensar o Brasil como nação autônoma e protagonista no cenário internacional. Porque as elites nacionais pensam apenas em dinheiro. Para essa gente — com raras exceções — pouco importa um país soberano, desenvolvido e independente científica e tecnologicamente. E, sem enfrentar esses problemas, o país continuará preso a ciclos de dependência, desigualdade e fragilidade política que limitam suas possibilidades de desenvolvimento pleno. E muitas e muitos ainda se dizem patriotas!

<><> Brasil: Caminhos para as próximas décadas

É por essas e outras razões que os escândalos de corrupção simbolizam mais do que um problema jurídico ou moral. Eles são um sintoma da pobreza do debate público nacional. Sim, pobreza do debate político. Infelizmente, a política brasileira tornou-se excessivamente centrada em conflitos pessoais, escândalos midiáticos e disputas de imagem. Isso não significa minimizar eventuais irregularidades ou defender impunidade. Mas um país maduro e sério não pode se limitar à lógica do escândalo permanente.

Também é importante reconhecer o papel da mídia — e das redes sociais — nesse processo. A lógica contemporânea da comunicação política privilegia temas capazes de gerar engajamento imediato, indignação e conflito. Escândalos possuem enorme capacidade de mobilização emocional e, por isso, recebem atenção desproporcional. Em contrapartida, debates sobre saneamento, ciência, planejamento urbano, política industrial e racismo estrutural tendem a parecer menos atraentes para a dinâmica acelerada das redes digitais. O resultado é um empobrecimento progressivo da esfera pública.

As eleições presidenciais deveriam representar momentos privilegiados para a sociedade debater e posicionar-se diante dos projetos de país. Em vez de apenas escolher indivíduos ou partidos, o eleitorado deveria ser estimulado a refletir sobre qual modelo de desenvolvimento deseja construir. Isso implica discutir desigualdade social, educação de qualidade, fortalecimento institucional e inserção internacional do Brasil. Contudo, enquanto a agenda pública permanecer dominada por escândalos sucessivos, essas discussões continuarão marginalizadas.

A democracia burguesa brasileira necessita, urgentemente, recuperar a capacidade de formular debates estruturais. Casos envolvendo corrupção precisam ser investigados e julgados com seriedade, independentemente do grupo político envolvido. Porém, o futuro do país não pode ficar refém dessas disputas. O Brasil enfrenta desafios profundos demais para reduzir suas eleições a uma sucessão interminável de denúncias, vazamentos e confrontos morais.

Enquanto escândalos monopolizam o debate público, milhões de brasileiras e brasileiros continuam convivendo com precariedade educacional, insegurança alimentar e fome, deficiência no saneamento, desigualdade regional e falta de oportunidades. O verdadeiro desafio das eleições presidenciais não deveria ser decidir quem ocupa o Palácio do Planalto, mas quais caminhos o país pretende seguir nas próximas décadas.

•        Cannabrava: Janela partidária movimenta 135 deputados de 20 partidos e reforça maioria conservadora

A janela partidária voltou a demonstrar a profunda fragilidade ideológica do sistema político brasileiro. Ao todo, 135 deputados federais de 20 partidos trocaram de legenda no atual rearranjo político do Congresso Nacional. A movimentação, longe de refletir divergências programáticas ou debates ideológicos, revela sobretudo a disputa por poder, recursos públicos, tempo de televisão e sobrevivência eleitoral.

O principal beneficiado foi o PL, que ampliou sua bancada e alcançou cerca de 101 deputados federais, consolidando-se como a maior força política da Câmara. O PP também cresceu, chegando à faixa de 54 deputados. O Partido Social Democrático (PSD) manteve aproximadamente 47 parlamentares. O Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB) ganhou musculatura política e chegou perto de 19 deputados, enquanto o Partido Socialista Brasileiro (PSB) avançou para cerca de 20 parlamentares.

Entre as maiores perdas está o União Brasil, que perdeu cerca de 15 deputados e caiu para aproximadamente 44 parlamentares. O Partido Democrático Trabalhista (PDT) sofreu forte esvaziamento e ficou reduzido a apenas seis deputados federais. O Partido dos Trabalhadores (PT) praticamente manteve sua bancada em torno de 66 deputados. Já partidos menores, como Partido Socialismo e Liberdade (PSOL), Partido Comunista do Brasil (PCdoB), Partido Verde (PV) e Solidariedade, tiveram pequenas oscilações.

O quadro consolidado reforça o domínio da direita e da extrema-direita dentro do Congresso Nacional. A oposição conservadora mantém uma maioria próxima de 300 parlamentares, enquanto os setores democráticos e progressistas somam algo em torno de 100 deputados. Essa correlação de forças ajuda a explicar as enormes dificuldades enfrentadas pelo governo federal para aprovar medidas de interesse popular e implementar mudanças estruturais.

A chamada governabilidade acaba submetida a negociações permanentes, distribuição de cargos, liberação de emendas parlamentares e acordos circunstanciais. O debate programático desaparece. Muitos partidos perderam identidade ideológica e se transformaram apenas em máquinas eleitorais voltadas à disputa de verbas públicas e espaços de poder.

O eleitor vota acreditando em determinado programa político, mas depois assiste ao parlamentar migrar livremente para outra legenda, muitas vezes sem qualquer justificativa coerente. Isso aprofunda o descrédito nas instituições e aumenta a sensação de afastamento entre o sistema político e os interesses reais da população.

Vivemos uma democracia profundamente condicionada pelo poder econômico e pela influência do capital financeiro. Em ano eleitoral, torna-se cada vez mais necessária uma reforma política capaz de fortalecer partidos programáticos, reduzir o fisiologismo e devolver legitimidade à representação popular. Sem isso, o país continuará refém de maiorias parlamentares construídas muito mais por conveniências do que por compromissos ideológicos ou projetos nacionais.

•        Plutocracia brasileira e concentração obscena de renda

O Brasil registrou em 2025 uma renda domiciliar per capita recorde de R$ 2.264, em meio ao aprofundamento da plutocracia financeira que marca a economia nacional, valor 6,9% superior ao de 2024. À primeira vista, o dado parece indicar melhora consistente das condições de vida da população. O mercado de trabalho segue aquecido, o desemprego caiu e os indicadores oficiais tentam transmitir uma sensação de normalidade econômica. Mas a realidade concreta do povo brasileiro revela outra coisa: o crescimento da renda continua concentrado nas mãos de uma minoria privilegiada, enquanto a maioria sobrevive em condições cada vez mais precárias.

A concentração de renda no Brasil alcançou níveis obscenos, incompatíveis com qualquer projeto civilizatório minimamente democrático. O sistema econômico opera para transferir riqueza para o topo da pirâmide social, alimentando a especulação financeira e fortalecendo uma plutocracia que passou a controlar não apenas a economia, mas também o sistema político e as decisões estratégicas do Estado.

Segundo dados da PNAD Contínua do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a renda média real domiciliar per capita dos 10% mais pobres subiu apenas 3,1%. Ainda assim, essa faixa da população sobrevive com miseráveis R$ 268 mensais por pessoa — o equivalente a R$ 8,93 por dia. É uma renda incompatível com a dignidade humana. Não cobre alimentação adequada, transporte, moradia nem acesso pleno aos serviços básicos. A pergunta inevitável é: como sobrevivem essas famílias?

Enquanto isso, os 10% mais ricos tiveram aumento de renda de 8,7%, alcançando rendimento per capita superior a R$ 9.117 mensais. Mais chocante ainda é a situação do 1% mais rico da população: a renda média chegou a R$ 24.976 por pessoa, crescimento de 9,9% em relação ao ano anterior.

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Segundo dados do Ministério da Fazenda, 1% da população brasileira detém 37,3% de toda a riqueza nacional. Dependendo da metodologia utilizada, essa concentração pode chegar perto de 50%. Já os 50% mais pobres da população possuem apenas 2% da riqueza do país.

Os números revelam uma deformação estrutural. Segundo a Oxfam, os 5% mais ricos detêm a mesma fatia de riqueza que os outros 95% da população brasileira. Mais escandaloso ainda: seis brasileiros possuem patrimônio equivalente ao de cerca de 100 milhões de habitantes — praticamente metade do país.

<><> Plutocracia à brasileira

O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostra que os 50% mais pobres detêm apenas 2% do patrimônio nacional, enquanto um grupo ínfimo, correspondente a 0,01% da população, concentra sozinho 27% de todos os ativos financeiros do país. É essa elite financeira que conforma a verdadeira plutocracia brasileira, impondo os rumos da política econômica nacional.

Não por acaso, o Brasil continua praticando uma das mais perversas estruturas tributárias do mundo. Segundo levantamento citado pela revista CartaCapital, os milionários pagam proporcionalmente menos impostos do que a classe média. Quando pagam, a alíquota efetiva gira em torno de 20,6%, enquanto trabalhadores assalariados e setores médios chegam a suportar carga próxima de 42,5% sobre sua renda e consumo.

O resultado é um modelo econômico voltado essencialmente para garantir os ganhos do sistema financeiro. Os juros estratosféricos mantêm a transferência permanente de renda para rentistas e aplicadores financeiros, enquanto o Estado reduz sua capacidade de investimento em desenvolvimento, infraestrutura, ciência, tecnologia e políticas sociais.

O Brasil tornou-se uma sociedade profundamente desigual, marcada pela concentração patrimonial extrema e pela captura do Estado pelos interesses do capital financeiro. Vivemos a ditadura do pensamento único imposta pelo capital financeiro. Essa estrutura impede o desenvolvimento soberano e aprofunda a exclusão social.

Não se trata apenas de um problema econômico. Trata-se de uma questão política, social e moral. Nenhuma democracia resiste indefinidamente a tamanha desigualdade. A concentração obscena de riqueza destrói a coesão social, enfraquece as instituições e transforma a política em instrumento dos grandes grupos econômicos.

Em ano eleitoral, esse debate torna-se ainda mais urgente. O país precisa discutir um verdadeiro projeto de salvação nacional, capaz de enfrentar a concentração de renda, democratizar o acesso à riqueza e recolocar o desenvolvimento soberano no centro da agenda brasileira. Sem isso, continuaremos sendo uma nação rica, mas condenada a conviver com a pobreza de sua maioria e com o privilégio escandaloso de poucos.

 

Fonte: Diálogos do Sul Global

 

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