Verbena
Córdula: Debate eleitoral no Brasil ignora pobreza e soberania nacional por
tema “corrupção”
As
eleições presidenciais no Brasil têm sido marcadas, historicamente, por
intensos embates ideológicos, disputas narrativas e crises de confiança nas
instituições políticas. Em meio a esse cenário, denúncias de corrupção
frequentemente ocupam o centro do debate público e da cobertura midiática. Nos
últimos meses, o tema concentrou-se no escândalo envolvendo o Banco Master,
ganhou enorme repercussão nacional e contribuiu para ampliar a polarização
política brasileira. Mas é isso mesmo de que o Brasil necessita?
• Elemento decorativo do discurso oficial
A
autonomia científico-tecnológica representa tema fundamental frequentemente
ignorado. O Brasil possui universidades públicas relevantes, centros de
pesquisa reconhecidos internacionalmente e grande potencial de inovação.
Contudo, cortes orçamentários, fuga de cérebros e dependência tecnológica
externa limitam o desenvolvimento nacional. Países que alcançaram elevado nível
de desenvolvimento investiram pesadamente em ciência, tecnologia e educação
estratégica, como a China, por exemplo. No entanto, o debate político
brasileiro raramente discute, de forma contundente, a construção de soberania
tecnológica, preferindo concentrar energia em disputas eleitorais imediatistas.
Não
poderia deixar de mencionar aqui o racismo estrutural — uma das bases
históricas da formação social brasileira — ainda profundamente presente nas
instituições, nas relações econômicas e nas desigualdades cotidianas. Mesmo
mais de um século após a abolição da escravidão, a população negra segue,
majoritariamente, em situação de maior vulnerabilidade social, com menor acesso
a oportunidades, maior exposição à violência policial e sub-representação em
espaços de poder político, econômico e acadêmico. Apesar disso, o tema
raramente ocupa lugar central nos debates públicos, sendo muitas vezes tratado
de forma superficial ou reduzido a episódios isolados de discriminação, sem uma
reflexão consistente sobre suas estruturas históricas e sobre as medidas necessárias
para sua superação.
A
permanência desse cenário escancara a insuficiência e a profunda omissão
histórica do próprio Estado brasileiro diante do racismo estrutural. Ainda que
a criação do Ministério da Igualdade Racial represente uma conquista simbólica
importante dos movimentos negros, ela pouco altera uma realidade marcada pela
continuidade da exclusão, da violência e da marginalização da população negra.
Na prática, o combate ao racismo frequentemente permanece restrito ao discurso
institucional, enquanto políticas efetivas seguem fragilizadas por cortes
orçamentários, falta de prioridade política e ausência de enfrentamento
concreto às estruturas que reproduzem privilégios raciais no país.
O
contraste entre a retórica oficial e a realidade cotidiana é notório. Enquanto
autoridades celebram avanços institucionais, jovens negros continuam sendo as
principais vítimas da violência policial, as periferias seguem abandonadas pelo
poder público e a população negra permanece ocupando os postos mais
precarizados da economia. O Estado que cria ministérios é o mesmo que falha em
garantir educação de qualidade, acesso digno à saúde e oportunidades reais de
ascensão social para milhões de brasileiros negros.
Mais do
que insuficiência administrativa, observa-se uma contradição estrutural: o
mesmo Estado que reconhece formalmente a existência do racismo é aquele que,
historicamente, ajuda a produzi-lo e sustentá-lo até hoje, perpetuando
mecanismos de exclusão. Sem investimento massivo, sem políticas permanentes e
sem enfrentamento direto às desigualdades raciais enraizadas nas instituições,
a pauta antirracista é reduzida a um elemento decorativo do discurso oficial —
útil para compor narrativas progressistas, mas incapaz de transformar
concretamente a vida daqueles que seguem sendo os principais alvos da exclusão
social brasileira.
Outra
questão importante é a defesa nacional, que se tornou estratégica para o Brasil
e para a América Latina em um contexto internacional marcado pela disputa por
influência política, econômica, tecnológica e militar. Os Estados Unidos mantêm
historicamente forte presença na região por meio de acordos econômicos,
influência diplomática e cooperação militar. Nas últimas décadas, essa atuação
intensificou-se com o crescente interesse por recursos naturais estratégicos,
como água, biodiversidade, minerais raros, petróleo e energia. No entanto, o
país pouco debate esse assunto.
Países
que não desenvolvem capacidade própria de pesquisa, inteligência e defesa
tornam-se mais vulneráveis à dependência externa. A presença crescente de
interesses estrangeiros sobre territórios estratégicos latino-americanos
demonstra que a defesa nacional precisa ser entendida de forma ampla,
articulando economia, ciência, diplomacia e proteção territorial. Nesse
cenário, é evidente que o fortalecimento da soberania brasileira depende da
construção de um projeto nacional capaz de integrar desenvolvimento social e
capacidade estratégica.
Não se
trata de promover discursos militaristas ou nacionalismos extremos, mas de
reconhecer que nenhum país alcança autonomia real sem planejamento de longo
prazo e sem capacidade de proteger seus próprios interesses. Por isso, debater
defesa nacional significa, também, discutir o futuro do país, sua posição no
cenário global e a necessidade de construir uma nação menos dependente
economicamente e mais preparada para enfrentar disputas internacionais em um
século marcado pela competição por recursos, tecnologia e influência política.
Esse
desinteresse — sobretudo das elites — pela soberania nacional possui raízes
históricas profundas. Desde a formação econômica do Brasil, parcelas dominantes
da sociedade construíram relações de dependência em relação aos grandes centros
de poder internacional, priorizando modelos econômicos voltados à exportação de
matérias-primas e à subordinação tecnológica externa. Em vez de incentivar um
projeto nacional baseado em ciência, inovação e autonomia produtiva,
consolidou-se uma lógica de dependência que limita a capacidade do país de
competir estrategicamente no cenário global.
A
ausência de compromisso com a construção de soberania tecnológica torna o
Brasil vulnerável economicamente, enfraquece sua capacidade industrial e reduz
sua influência internacional em um mundo cada vez mais definido pela disputa
por tecnologia, informação e controle de recursos estratégicos. A independência
científica e tecnológica raramente ocupa espaço central nas eleições
presidenciais justamente porque exige planejamento de longo prazo e
enfrentamento de interesses consolidados. Investir seriamente em pesquisa,
universidades públicas, desenvolvimento industrial e inovação significaria
transformar a estrutura econômica do país e ampliar a autonomia nacional diante
das potências estrangeiras.
A maior
parte das elites brasileiras demonstra pouco interesse em construir esse
caminho, preferindo modelos econômicos baseados na dependência financeira e na
exportação de commodities. Assim, enquanto outros países discutem inteligência
artificial, soberania digital, indústria de alta complexidade e segurança
tecnológica, o debate político brasileiro permanece preso a conflitos imediatos
e disputas eleitorais superficiais. Esse cenário contribui diretamente para o
empobrecimento da democracia e para o esvaziamento do debate eleitoral.
O
silêncio das elites demonstra ausência de visão histórica e, principalmente,
uma dificuldade estrutural de pensar o Brasil como nação autônoma e
protagonista no cenário internacional. Porque as elites nacionais pensam apenas
em dinheiro. Para essa gente — com raras exceções — pouco importa um país
soberano, desenvolvido e independente científica e tecnologicamente. E, sem
enfrentar esses problemas, o país continuará preso a ciclos de dependência,
desigualdade e fragilidade política que limitam suas possibilidades de
desenvolvimento pleno. E muitas e muitos ainda se dizem patriotas!
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Brasil: Caminhos para as próximas décadas
É por
essas e outras razões que os escândalos de corrupção simbolizam mais do que um
problema jurídico ou moral. Eles são um sintoma da pobreza do debate público
nacional. Sim, pobreza do debate político. Infelizmente, a política brasileira
tornou-se excessivamente centrada em conflitos pessoais, escândalos midiáticos
e disputas de imagem. Isso não significa minimizar eventuais irregularidades ou
defender impunidade. Mas um país maduro e sério não pode se limitar à lógica do
escândalo permanente.
Também
é importante reconhecer o papel da mídia — e das redes sociais — nesse
processo. A lógica contemporânea da comunicação política privilegia temas
capazes de gerar engajamento imediato, indignação e conflito. Escândalos
possuem enorme capacidade de mobilização emocional e, por isso, recebem atenção
desproporcional. Em contrapartida, debates sobre saneamento, ciência,
planejamento urbano, política industrial e racismo estrutural tendem a parecer
menos atraentes para a dinâmica acelerada das redes digitais. O resultado é um
empobrecimento progressivo da esfera pública.
As
eleições presidenciais deveriam representar momentos privilegiados para a
sociedade debater e posicionar-se diante dos projetos de país. Em vez de apenas
escolher indivíduos ou partidos, o eleitorado deveria ser estimulado a refletir
sobre qual modelo de desenvolvimento deseja construir. Isso implica discutir
desigualdade social, educação de qualidade, fortalecimento institucional e
inserção internacional do Brasil. Contudo, enquanto a agenda pública permanecer
dominada por escândalos sucessivos, essas discussões continuarão
marginalizadas.
A
democracia burguesa brasileira necessita, urgentemente, recuperar a capacidade
de formular debates estruturais. Casos envolvendo corrupção precisam ser
investigados e julgados com seriedade, independentemente do grupo político
envolvido. Porém, o futuro do país não pode ficar refém dessas disputas. O
Brasil enfrenta desafios profundos demais para reduzir suas eleições a uma
sucessão interminável de denúncias, vazamentos e confrontos morais.
Enquanto
escândalos monopolizam o debate público, milhões de brasileiras e brasileiros
continuam convivendo com precariedade educacional, insegurança alimentar e
fome, deficiência no saneamento, desigualdade regional e falta de
oportunidades. O verdadeiro desafio das eleições presidenciais não deveria ser
decidir quem ocupa o Palácio do Planalto, mas quais caminhos o país pretende
seguir nas próximas décadas.
• Cannabrava: Janela partidária movimenta
135 deputados de 20 partidos e reforça maioria conservadora
A
janela partidária voltou a demonstrar a profunda fragilidade ideológica do
sistema político brasileiro. Ao todo, 135 deputados federais de 20 partidos
trocaram de legenda no atual rearranjo político do Congresso Nacional. A
movimentação, longe de refletir divergências programáticas ou debates
ideológicos, revela sobretudo a disputa por poder, recursos públicos, tempo de
televisão e sobrevivência eleitoral.
O
principal beneficiado foi o PL, que ampliou sua bancada e alcançou cerca de 101
deputados federais, consolidando-se como a maior força política da Câmara. O PP
também cresceu, chegando à faixa de 54 deputados. O Partido Social Democrático
(PSD) manteve aproximadamente 47 parlamentares. O Partido da Social Democracia
Brasileira (PSDB) ganhou musculatura política e chegou perto de 19 deputados,
enquanto o Partido Socialista Brasileiro (PSB) avançou para cerca de 20
parlamentares.
Entre
as maiores perdas está o União Brasil, que perdeu cerca de 15 deputados e caiu
para aproximadamente 44 parlamentares. O Partido Democrático Trabalhista (PDT)
sofreu forte esvaziamento e ficou reduzido a apenas seis deputados federais. O
Partido dos Trabalhadores (PT) praticamente manteve sua bancada em torno de 66
deputados. Já partidos menores, como Partido Socialismo e Liberdade (PSOL),
Partido Comunista do Brasil (PCdoB), Partido Verde (PV) e Solidariedade,
tiveram pequenas oscilações.
O
quadro consolidado reforça o domínio da direita e da extrema-direita dentro do
Congresso Nacional. A oposição conservadora mantém uma maioria próxima de 300
parlamentares, enquanto os setores democráticos e progressistas somam algo em
torno de 100 deputados. Essa correlação de forças ajuda a explicar as enormes
dificuldades enfrentadas pelo governo federal para aprovar medidas de interesse
popular e implementar mudanças estruturais.
A
chamada governabilidade acaba submetida a negociações permanentes, distribuição
de cargos, liberação de emendas parlamentares e acordos circunstanciais. O
debate programático desaparece. Muitos partidos perderam identidade ideológica
e se transformaram apenas em máquinas eleitorais voltadas à disputa de verbas
públicas e espaços de poder.
O
eleitor vota acreditando em determinado programa político, mas depois assiste
ao parlamentar migrar livremente para outra legenda, muitas vezes sem qualquer
justificativa coerente. Isso aprofunda o descrédito nas instituições e aumenta
a sensação de afastamento entre o sistema político e os interesses reais da
população.
Vivemos
uma democracia profundamente condicionada pelo poder econômico e pela
influência do capital financeiro. Em ano eleitoral, torna-se cada vez mais
necessária uma reforma política capaz de fortalecer partidos programáticos,
reduzir o fisiologismo e devolver legitimidade à representação popular. Sem
isso, o país continuará refém de maiorias parlamentares construídas muito mais
por conveniências do que por compromissos ideológicos ou projetos nacionais.
• Plutocracia brasileira e concentração
obscena de renda
O
Brasil registrou em 2025 uma renda domiciliar per capita recorde de R$ 2.264,
em meio ao aprofundamento da plutocracia financeira que marca a economia
nacional, valor 6,9% superior ao de 2024. À primeira vista, o dado parece
indicar melhora consistente das condições de vida da população. O mercado de
trabalho segue aquecido, o desemprego caiu e os indicadores oficiais tentam
transmitir uma sensação de normalidade econômica. Mas a realidade concreta do
povo brasileiro revela outra coisa: o crescimento da renda continua concentrado
nas mãos de uma minoria privilegiada, enquanto a maioria sobrevive em condições
cada vez mais precárias.
A
concentração de renda no Brasil alcançou níveis obscenos, incompatíveis com
qualquer projeto civilizatório minimamente democrático. O sistema econômico
opera para transferir riqueza para o topo da pirâmide social, alimentando a
especulação financeira e fortalecendo uma plutocracia que passou a controlar
não apenas a economia, mas também o sistema político e as decisões estratégicas
do Estado.
Segundo
dados da PNAD Contínua do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística
(IBGE), a renda média real domiciliar per capita dos 10% mais pobres subiu
apenas 3,1%. Ainda assim, essa faixa da população sobrevive com miseráveis R$
268 mensais por pessoa — o equivalente a R$ 8,93 por dia. É uma renda
incompatível com a dignidade humana. Não cobre alimentação adequada,
transporte, moradia nem acesso pleno aos serviços básicos. A pergunta
inevitável é: como sobrevivem essas famílias?
Enquanto
isso, os 10% mais ricos tiveram aumento de renda de 8,7%, alcançando rendimento
per capita superior a R$ 9.117 mensais. Mais chocante ainda é a situação do 1%
mais rico da população: a renda média chegou a R$ 24.976 por pessoa,
crescimento de 9,9% em relação ao ano anterior.
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Segundo
dados do Ministério da Fazenda, 1% da população brasileira detém 37,3% de toda
a riqueza nacional. Dependendo da metodologia utilizada, essa concentração pode
chegar perto de 50%. Já os 50% mais pobres da população possuem apenas 2% da
riqueza do país.
Os
números revelam uma deformação estrutural. Segundo a Oxfam, os 5% mais ricos
detêm a mesma fatia de riqueza que os outros 95% da população brasileira. Mais
escandaloso ainda: seis brasileiros possuem patrimônio equivalente ao de cerca
de 100 milhões de habitantes — praticamente metade do país.
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Plutocracia à brasileira
O
Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostra que os 50% mais
pobres detêm apenas 2% do patrimônio nacional, enquanto um grupo ínfimo,
correspondente a 0,01% da população, concentra sozinho 27% de todos os ativos
financeiros do país. É essa elite financeira que conforma a verdadeira
plutocracia brasileira, impondo os rumos da política econômica nacional.
Não por
acaso, o Brasil continua praticando uma das mais perversas estruturas
tributárias do mundo. Segundo levantamento citado pela revista CartaCapital, os
milionários pagam proporcionalmente menos impostos do que a classe média.
Quando pagam, a alíquota efetiva gira em torno de 20,6%, enquanto trabalhadores
assalariados e setores médios chegam a suportar carga próxima de 42,5% sobre
sua renda e consumo.
O
resultado é um modelo econômico voltado essencialmente para garantir os ganhos
do sistema financeiro. Os juros estratosféricos mantêm a transferência
permanente de renda para rentistas e aplicadores financeiros, enquanto o Estado
reduz sua capacidade de investimento em desenvolvimento, infraestrutura,
ciência, tecnologia e políticas sociais.
O
Brasil tornou-se uma sociedade profundamente desigual, marcada pela
concentração patrimonial extrema e pela captura do Estado pelos interesses do
capital financeiro. Vivemos a ditadura do pensamento único imposta pelo capital
financeiro. Essa estrutura impede o desenvolvimento soberano e aprofunda a
exclusão social.
Não se
trata apenas de um problema econômico. Trata-se de uma questão política, social
e moral. Nenhuma democracia resiste indefinidamente a tamanha desigualdade. A
concentração obscena de riqueza destrói a coesão social, enfraquece as
instituições e transforma a política em instrumento dos grandes grupos
econômicos.
Em ano
eleitoral, esse debate torna-se ainda mais urgente. O país precisa discutir um
verdadeiro projeto de salvação nacional, capaz de enfrentar a concentração de
renda, democratizar o acesso à riqueza e recolocar o desenvolvimento soberano
no centro da agenda brasileira. Sem isso, continuaremos sendo uma nação rica,
mas condenada a conviver com a pobreza de sua maioria e com o privilégio
escandaloso de poucos.
Fonte:
Diálogos do Sul Global

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