Vira-mundo
– a materialização da maldade
Minha
companheira Florence e eu, visitando lojas de móveis usados, na rua do Senado,
no Rio de Janeiro, vimos que nos daríamos mal, pois os proprietários se
comportavam, todos, como se fossem antiquários. Uma cadeira quebrada é vendida
como um trono principesco. Estávamos desistindo, quando, em um canto de um
segundo andar, de uma loja mambembe, deparei-me, não com um, mas com quatro
vira-mundos? Foi um choque. Fiquei congelado.
Há
décadas, procuro palmatórias, máscaras de flandres, bacalhaus, gargalheiras,
enxadões e por aí vai, materializações do terrível passado escravista, sobre as
quais li e jamais manuseei, sem jamais encontrar um só exemplar, mesmo por
preços exorbitantes. Esses objetos são oferecidos, apenas, vez e outra, em
leilões, a preços salgadíssimos. Ao máximo, me aproximei deles em museus. É
como se tivessem evaporado no ar ou jamais tivessem existido.
Quase
comecei a acreditar nas afirmações de tantos colegas historiadores e
historiadoras, que propõem que esses instrumentos de tortura fossem invenções
dos abolicionistas, no passado, e dos historiadores marxistas, no presente.
Isso porque, juram, de mãos postas, que os cativos não apanhavam e eram, ao
máximo, punidos, leve e raramente.
Colega,
estudioso da escravidão nos anos 1970-80, que enveredou por outros temas, sem
jamais deixar de se interessar pela história do cativeiro, tem me brindado com
depoimentos magníficos que circulam na internet. Cito apenas um. Baladíssima
historiadora revelou, sem engasgar, que a “segunda comunidade” mais rica da
colônia era formada “por mulheres pretas” “comerciantes”. Eta empreendedorismo
cativo de sucesso!
Compreendemos,
portanto, por que nesse proposto universo de maravilhoso equilíbrio social,
inexistiam reprimendas duras aos trabalhadores escravizados no quotidiano
negreiro. Não eram necessárias. Se um cativo ou cativa descumprisse seus
compromissos, o senhor ou a senhora lhe dariam algumas palmadas, mais ou menos
forte, conforme o malfeito, como fazem os bons pais.
Portanto,
meu companheiro, o piauense Solimar Lima, vai para o panteão dos historiadores
marxistas mentirosos, ao propor cativos feridos por até 1.500 chicotadas, em
doses homeopáticas de 50, no tradicional seis por um, já que o feitor não podia
trabalhar em dia santo! As cativas apanhavam menos, de seiscentos a mil
golpes.[1]
Entretanto,
no mundo real, nos mais de três séculos de cativeiro, produziram-se talvez
centenas de milhares de tais instrumentos. Uma residência escravista tinha
diversos tipos de palmatórias, sobretudo de madeira: pequenas, grandes, leves,
pesadas e por aí vai. A palmatória variava segundo o castigo de um ganhador
parrudo ou de um crioulinho de 6 ou 7 anos, que quebrara uma xícara portuguesa
da sinhá.
É
outra, minha hipótese explicativa para a raridade, hoje, desses objetos
icônicos pra lá de abundantes quando da escravidão. Mesmo antes da Abolição, as
famílias escravistas, que vendiam seus cativos, começavam a se livrar dos
instrumentos de suplício. Seus descendentes guardaram móveis coloniais,
lavatórios de latão, cristaleiras, espelhos bissetados, santos vestidos e
despidos, e mesmo os urinóis dos sinhôs, sinhás, sinhazinhas, com tampas ou sem
tampas, como depoimentos dos idos dos ancestrais aristocráticos e
endinheirados.
Os
escravistas desfizeram-se rapidamente dos instrumentos de tortura, apenas o
último cativo deixava a casa urbana, o engenho, a charqueada, etc., assim como
também fizeram os seus herdeiros, conscientes do depoimento que eles
registravam sobre o tratamento dado aos trabalhadores escravizados. Todos eles
afirmavam que os cativos tinham sido, sempre, tratados com desvelo e
benevolência, como quase filhos.
Em em
inícios dos anos 1990, o historiador rio-grandense Agostinho Mário Dalla
Vecchia registrou, nas dezenas de entrevistas, que recolheu e publicou, de
senhores e senhoras negros idosos, o tratamento duríssimo dos “filhos de
criação”. Ou seja, crianças negras entregues pelos pais livres paupérrimos, na
pós-Abolição, para serem criadas por ex-proprietários escravistas de Pelotas e
imediações. Fixou memórias de vida próximas às do Mississipi nos USA, no
período pós-Reconstrução.[2]
Narrativas
piedosas e apologéticas dos escravizadores de antes e de após a Abolição sobre
o tratamento dos escravizados, retomadas e refinadas pelos historiadores e
historiadoras, que repetiram Gilberto Freyre, sem a elegância e inovação da
narrativa do pernambucano, o mais inteligente e cabotino sociólogo que produziu
a já denominada Terra dos Papagaios.
Esses
epígonos do pernambucano genial e farsante se desdobraram em tecer loas à
“escravidão feliz” do Brasil, em descrições apologéticas e gentis tidas, nesses
tempos bicudos, como clássicos de nossa historiografia. A primeira que alcançou
o pináculo mentindo sem freio foi, certamente, Kátia de Queirós Mattoso, com
seu livro Ser escravo no Brasil, aplaudido em uníssono pela Academia, que
recebeu prefácio elogiosíssimo do Ciro Flamarión.[3]
Um
livro realmente hilário, desancado na época, com elegância, coragem e toda a
razão, em resenha publicada no jornal Folha de S. Paulo, por Clóvis Moura,
quase linchado pelo ato iconoclasta, já que então já era raquete cancelado,
para não dizer mais, por ser marxista e, ainda por cima, comunista de
carteirinha.[4]
Mas,
como o conservadorismo não parou de avançar e a força do mundo do trabalho
organizado se apequenou incessantemente, os historiadores e historiadoras de
aluguel, para seguirem conquistando o apoio das classes dominantes, tiveram que
radicalizar suas construções esdrúxulas sobre um passado escravista já quase
maravilhoso, que superaram de longe as paisagens doce-amargas freyrianas.
Nessas
elucubrações apologéticas do passado, os cativos dobravam os escravistas em
negociações sem fins; enriqueciam explorando parcelas minúsculas de terras, que
raramente as tinham; alforriavam-se às centenas de milhares; tinham direito a
criar famílias estáveis e, sobretudo, trabalhavam pouco, comiam muito,
apanhavam quase nunca.
Por
tudo isso, após 1888, os cativos teriam passado a amaldiçoar – dizem – a
conspiração das elites brancas que pôs fim à Terra de Canaã que haviam
conhecido. Tempos de escravidão feliz que teriam sido os principais defensores,
tese de uma outra sumidade acadêmica brasileira contemporânea. Movimento
historiográfico de cunho ideológico esmiuçado com virtuosidade por Jacob
Gorender em A escravidão reabilitada, de 1990, ou seja, quando da Queda do Muro
e do Fim da História. Livro magnífico que não recebeu uma resenha crítica
minimamente séria, mas motivou que o autor fosse coberto de ofensas
pessoais.[5]
Mas
voltemos àquela tarde, há poucos dias, na rua do Senado, quando perguntei,
temeroso, ao proprietário dos trastes velhos metido a antiquário, quanto pedia
pelos “objetos de ferro que tinha no segundo andar”. Temia que pedisse, um,
dois, três contos de réis, e eu tivesse que meter a mão na algibeira para não
deixar escapar o objeto histórico excepcional com o qual me deparara pela
primeira vez em minha vida, ao alcance de minha mão. Caso a avareza me
dominasse, sabia que me arrependeria para todo o sempre!
O velho
– menos velho do que eu, folga dizer – respondeu amigavelmente que “não podia
dar preço”, já que não sabia se eram “originais” ou “cópias”. Eles tinham vindo
com móveis e bugigangas de uma velha fazenda do rio Paraíba. Procurei não
perder o controle. Por que raios, perguntei-me a mim mesmo, alguém faria uma
cópia de objeto tão estranho e fora de qualquer circulação!
Avencei
dizendo que era historiador, que estudava a escravidão, e, se fosse cópia ou
original, sempre me serviria para mostrar aos meus alunos. Fui, reconheço, algo
oportunista. Ou seja, deixei de ser cientista social, para regatear e quase
mentir, como se estivesse em uma feira de rua. Tudo para não meter a mão muito
fundo no bolso. O senhor me disse que desse um preço.
Lasquei
quinhentos reais, nem tanto, nem pouco, para quem tinha quatro daqueles
objetos. Fiquei gelado, quando me respondeu: – Muito pouco, professor!
Compreendi que estava perdido. Mas ele completou, para minha alegria: – Dá
pouco mais de 150 por peça! Aliviado, após compreender o que dizia, respondi. –
Caro senhor, me referi a um! E o proprietário, sempre simpático, bateu o
martelo: – Fechado, ainda mais que vai ter utilidade pro professor e seus
alunos! Fiquei um pouco envergonhado.
Paguei
logo e subi, com Florence, pela escada estreia e cambaleante, em busca de minha
recente conquista. O problema foi descê-la. A Inteligência artificial e a
internet falam de vira-mundos de 10 a 15 kg, em ferro fundido. Não pesei ainda.
Pretendo fazer proximamente. Mas tivemos que transportá-lo, até um Uber, e
subir, mais tarde, dois lances de escada, até nosso apartamento, Florence e eu,
com dificuldades.
Sirvo-me
– e peço desculpa – pela falsa literatura. Ela não tem o objetivo de contar
minha satisfação pessoal em encontrar o vira-mundo, mas de descrever o
sentimento inesperado que ele me causou. E não apenas a mim. Depois de ter pago
o meu, para garantir a posse, contei ao simpático senhor como se chamava o
objeto, sua raridade, para que servia, onde podia encontrar maior informação.
Era o menos que podia fazer, em agradecimento à gentileza com que fora tratado.
Durante
minha explicação, a atendente da loja, uma jovem, de uns vinte anos, seguiu com
atenção minha explicação, olhando para o vira-mundo, negro, de ferro fundido,
pesado, esdrúxulo, sobre a mesa, como uma aranha disforme. No passado, eu diria
que a menina era uma mulata bonita, bastante clara. O que não digo, agora, para
não ser cancelado e achincalhado, ainda mais. Mas dizer que fosse negra é
faltar com a verdade à objetividade cromática. Para respeitar a manipulação
ideológica identitária oportunista, que já apresentou Marighella como negro
preto, cancelandoseu pai que ele tanto admirava, operário anarquista da
Emília-Romanha, então parte da Itália operária e vermelha. Mas, sobre isso, já
me referia em detalhes.[6]
A
menina, simpática e atenciosa, ao compreender o que se tratava, começou a
empalidecer e uma profunda tristeza lhe cobriu o rosto, uma resposta talvez
inconsciente a memórias e recordações atávicas. Não foi impressão minha,
subjetiva, já que Florence me comentou, ainda ao pé da loja, em francês, séria,
a reação da gentil atendente.
Falar
de um vira-mundo, ler sobre ele, olhá-lo em uma ilustração, foto ou em um museu
é uma coisa. As percepções que ele nos passa são mediadas por inevitável
racionalização. É diferente defrontar-se, cara a cara, com a violência
materializada nesse objeto horrendo, de ferro enferrujado, de peso
desproporcionado, para que o aprisionado não o pudesse arrastar, construído
para o castigo doloroso de trabalhadores rebeldes.
A
angústia despertada pelo vira-mundo foi ainda maior ao compreender que
trabalhadores feitorizados, cobertos pelo anonimato, tiveram ali mãos e pés
atados, sofrendo as agruras da prisão e do que lhes esperava a seguir. O traste
maldito, do passado, nos fala, imensamente, do Brasil em que vivemos, hoje.
Enquanto em Paris os trabalhadores assaltavam o poder, no Brasil, eram
manietados, com violência, pelas mãos e pelos pés, já que tidos e havidos como
propriedades de seus exploradores.
Compreende-se
por que milhares de vira-mundos dos tempos da Colônia e do Império
desapareceram. Nenhuma família descendente de escravistas se arriscaria a
colocar, na sala de visita, como recordação, um objeto como esse que, como
poucos, na sua objetividade, materializa em forma tão perfeita o mal. Mal que
praticaram no passado os impiedosos escravistas, que são rememorados, hoje, por
seus orgulhosos descendentes e cobertos de elogios pelos intelectuais orgânicos
do grande capital.
Fonte:
Por Mário Maestri, em A Terra é Redonda

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