UE
falha em reduzir pesticidas após engavetar regulamentação
Há três
anos, a União Europeia (UE) parecia ver nos pesticidas uma pauta de peso.
Quarenta por cento dos cidadãos do bloco expressavam preocupação com a presença
dessas substâncias nos alimentos, e mais de um milhão de pessoas defendiam sua
eliminação gradual.
Como
sinal dos tempos, o Parlamento Europeu estava prestes a votar uma proposta
vinculante para reduzir pela metade o uso de pesticidas até 2030, tomando como
base a média do período de 2015 a 2017.
"Sem
essas mudanças, corremos o risco de perder os polinizadores e provocar um
colapso dos ecossistemas, o que terá impactos na segurança alimentar e nos
preços dos alimentos", afirmou na época a então comissária europeia de
Saúde, Stella Kyriakides.
Mas o
bloco rejeitaria a proposta em 2023, engavetando a pauta da regulamentação
obrigatória de redução desde então. Mais do que isso, num esforço para reduzir
encargos regulatórios para as empresas, o órgão executivo da UE agora avalia
aprovar a maioria dos pesticidas de forma permanente.
A
flexibilização, porém, encontra resistência de organizações da sociedade civil.
Manon Rouby, da rede Pesticide Action Network (PAN), afirma que a medida
enfraquece "a ligação entre o uso de pesticidas e o impacto que isso tem
sobre a saúde humana".
Desde o
abandono do corte obrigatório, aumentaram as vendas de pesticidas no bloco,
puxadas em 2024 pelas maiores economias agrícolas na comparação ao ano
anterior, apesar de avanços em relação a 2015. Persiste, enquanto isso, o uso
de substâncias altamente perigosas.
Para
especialistas, há contradição entre as tendências e o fato de a UE ser uma das
196 signatárias do Marco Global da Biodiversidade, que prevê reduzir pela
metade os riscos ambientais dos pesticidas até 2030.
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UE entre dez maiores usuários
Os
esforços da UE para conter o uso de pesticidas remontam pelo menos a 2009. O
bloco então adotou a primeira diretiva para promover práticas sustentáveis e o
uso de produtos químicos apenas como último recurso.
Os
resultados, no entanto, foram limitados. Em 2020, o Tribunal de Contas Europeu
concluiu que a implementação da política não alcançava os objetivos de redução.
A constatação levaria a Comissão Europeia a sugerir o corte obrigatório de 50%.
Desde
então, a UE segue entre os dez maiores usuários de pesticidas do mundo entre
países com grandes áreas agrícolas, apesar de uma queda de 18% em relação a
2015, segundo estimativas da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e
a Agricultura (FAO).
O
cenário muda, entretanto, a nível nacional para os Estados-membros. Como não há
dados comparáveis da UE sobre o uso de pesticidas por país, os números de
vendas são usados como indicador indireto.
Em
2024, ano mais recente com dados disponíveis, os cinco países que mais
compraram pesticidas registraram uma tendência de alta, com vendas quase 10%
maiores do que em 2023, quando a meta de redução ainda estava em discussão.
Esses
cinco países — Espanha, França, Itália, Alemanha e Polônia, que também são os
maiores produtores agrícolas da UE — responderam por 76% das vendas em 2024.
A
guinada nas prioridades políticas "reflete uma relutância geral da UE em
impor restrições aos agricultores de uma forma considerada onerosa",
afirma Lindsey Hendricks-Franco, pesquisadora ambiental do think tank alemão
Ecologic Institute. Segundo ela, metas não vinculantes dificilmente levam a uma
redução efetiva do uso de pesticidas.
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Alta nas vendas de pesticidas em 2024
Na
comparação com a média de referência de 2015 a 2017, as vendas de pesticidas
também cresceram de forma expressiva em sete países da UE em 2024. O aumento
chegou a cerca de um quarto na Bulgária e na Áustria.
Já nos
outros 20 Estados-membros, as vendas caíram. A Itália, país da UE com a maior
taxa de redução, diminuiu as vendas em 33%.
Embora
14% inferiores aos níveis de 2015, as vendas totais de pesticidas no bloco
ficaram 8% acima do ano anterior em 2024, quando a meta obrigatória de redução
ainda estava em análise.
Hendricks-Franco
afirma que, embora as vendas provavelmente não tivessem caído 50% caso o corte
obrigatório tivesse sido adotado, elas teriam sido reduzidas "mais do que
a tendência atual".
A queda
ao longo da década de 2014 a 2024 foi menor no grupo de pesticidas altamente
perigosos, conhecidos por seus potenciais efeitos nocivos sobre as pessoas e o
meio ambiente.
Em
2024, o ano mais recente com dados disponíveis, a venda dessas substâncias
perigosas aumentou 27% em relação ao ano anterior, impulsionada sobretudo pelo
crescimento das vendas na Espanha, Polônia, Hungria, Lituânia e Eslováquia.
Entre
esses produtos está o glifosato, um pesticida controverso associado a riscos de
câncer e aborto espontâneo. Embora a UE afirme que o uso de pesticidas
perigosos diminuiu, as vendas de glifosato cresceram mais de 44% entre 2015 e
2024.
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Os riscos do uso de pesticidas
Como o
volume de vendas não leva em conta a toxicidade nem a taxa de aplicação, ele
revela pouco sobre os riscos para as pessoas e o meio ambiente. Os pesticidas
estão associados à perda de biodiversidade e são considerados extremamente
nocivos para peixes e outras espécies.
Quando
presentes em águas subterrâneas e nos solos, esses produtos prejudicam abelhas,
aves e a vida aquática, segundo relatório da Organização das Nações Unidas
(ONU) de 2022. Ainda assim, os resíduos encontrados em muitos rios europeus
superam amplamente o limite seguro da UE, de 0,1 micrograma por litro, adotado
em 2006.
Apenas
Lituânia e Eslovênia relataram ter permanecido dentro dos níveis recomendados
de pesticidas em rios em 2023. A Suécia apresentou a maior redução de resíduos:
passou do dobro do limite recomendado em 2018 — primeiro ano com dados
comparáveis para a maioria dos países da UE — para 7% acima do teto cinco anos
depois.
No
mesmo período, Dinamarca, Letônia e Hungria registraram aumento das
concentrações. Em 2023, os resíduos de pesticidas em rios superaram os limites
seguros em 50% ou mais.
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Por que a proposta de redução de 50% não foi aprovada
Com 19
dos 27 Estados-membros da UE já ultrapassando os limites de pesticidas
destinados a proteger o meio ambiente e a saúde humana, o Parlamento Europeu
levou a votação, em 2023, a proposta de cortar pela metade o uso futuro desses
produtos.
A
iniciativa, porém, foi rejeitada, com 207 votos a favor e 299 contra. Entre os
que não apoiaram o texto estavam os Verdes e grupos de esquerda.
"Não
era um texto que pudéssemos votar de boa consciência", escreveu à época a
eurodeputada verde Sarah Wiender em comunicado à imprensa, acrescentando que a
proposta era "muito fraca, especialmente no que diz respeito à proteção da
saúde pública e da biodiversidade, bem como ao apoio aos agricultores".
Desde a
votação, o foco da Comissão Europeia mudou da redução do uso de pesticidas para
a diminuição de entraves burocráticos às empresas, como o corte de custos
administrativos. No fim de 2025, foi apresentada uma nova proposta que prevê a
reaprovação automática da maioria dos pesticidas, sem reavaliar sua segurança
após o período inicial de autorização.
Para
Hendricks-Franco, a ideia significa que "pesticidas perigosos permanecerão
mais tempo no mercado" e envia uma mensagem de que "os riscos à saúde
deixaram de ser uma prioridade" para a UE.
A
Comissão Europeia argumenta que menos encargos regulatórios facilitarão a
entrada no mercado de mais pesticidas de baixo risco. Segundo a porta-voz da
Comissão, Eva Hrncirova, isso levaria a uma transição "para longe de
substâncias químicas mais perigosas".
Fonte:
DW Brasil

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