Após
um ano, Noboa vê crescer rejeição a projeto de extrema-direita no Equador
Embora
o atual período presidencial do Equador tenha começado em 24 de maio de 2025, Daniel Noboa não é um
governante recém-chegado ao poder.
O
mandatário assumiu pela primeira vez em 23 de novembro de 2023, depois de
vencer as eleições extraordinárias convocadas após o então presidente Guillermo Lasso aplicar a
chamada “morte cruzada”.
Desde
então, Noboa governa de maneira ininterrupta há mais de dois anos e meio.
Sua
segunda vitória eleitoral, em abril de 2025, ocorreu em meio a denúncias de
irregularidades nas votações e até de fraude, mas acabou apresentada como uma
nova oportunidade concedida pelos equatorianos para fazer o país avançar.
Sua
chegada ao poder em uma segunda eleição popular ocorreu com a promessa de
devolver a segurança, reativar a economia, gerar emprego e modernizar o Estado,
embora, para muitos, essas promessas ainda estejam longe de se concretizar.
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Segurança: a grande promessa pendente
A luta
contra o crime organizado foi o eixo central do discurso presidencial e
praticamente todas as decisões giram em torno dessa problemática.
Em
janeiro de 2024, Noboa declarou o “conflito armado
interno” e
qualificou os principais bandos criminosos como organizações terroristas.
A
estratégia incluiu estados de exceção, militarização de presídios, toques de
recolher e uma crescente cooperação com os Estados Unidos.
No
entanto, a violência não desapareceu, a ponto de 2025 encerrar-se com mais de
nove mil homicídios, o maior registro da história do país.
O
governo garante que, em maio de 2026, os homicídios caíram 39% em relação ao
mesmo período do ano anterior, após a aplicação de um toque de recolher em nove
províncias e quatro cantões.
Essa
foi a segunda medida de restrição de mobilidade aplicada neste ano e deixou
mais de cinco mil detidos, 717 deles supostamente ligados ao crime organizado.
O Alto
Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos demonstrou preocupação
com o uso prolongado dos estados de exceção e com denúncias de execuções
extrajudiciais, desaparecimentos forçados e detenções arbitrárias.
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Saúde em crise, hospitais sem insumos
Federações
médicas, pacientes e sindicatos denunciam desabastecimento de medicamentos,
suspensão de cirurgias e atrasos em tratamentos para enfermidades
catastróficas.
A
situação dos pacientes renais é uma das mais dramáticas. Representantes do
setor asseguram que mais de quatro mil pessoas morreram nos últimos dois anos e
meio por falta de acesso oportuno à diálise e a medicamentos.
O
governo atribuiu os problemas à corrupção no sistema de distribuição de
medicamentos e insumos.
A
vice-presidenta equatoriana, María José Pinto, esteve encarregada da saúde
pública durante vários meses enquanto nenhum ministro era nomeado para a pasta,
mas as críticas persistem.
O site Primicias informou
que a Saúde Pública necessita de 687 milhões de dólares para remédios e insumos
em 2026,
mas o Ministério da Economia e Finanças orçou 300 milhões, ou seja, menos da
metade.
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Diesel sem subsídio, manifestações
Na
frente econômica, a administração destaca o apoio do Fundo Monetário
Internacional (FMI) e de outros organismos multilaterais, assim como
desembolsos destinados a sustentar a dolarização e as finanças públicas.
Mas a
estabilidade macroeconômica e a queda do risco-país não se traduziram em
melhora perceptível para a maioria da população.
A
eliminação do subsídio ao diesel em 2025 e o aumento dos preços de todos os
combustíveis neste ano levaram ao aumento do custo de vida, que nem todos
conseguem suportar, segundo economistas.
A
decisão sobre o diesel provocou uma greve encabeçada pela Confederação de
Nacionalidades Indígenas do Equador (Conaie), com bloqueios de estradas e
mobilizações que se estenderam por um mês, entre setembro e outubro de 2025,
principalmente na serra norte do país.
Organizações
de direitos humanos denunciaram uso excessivo da força, detenções arbitrárias e
restrições às manifestações sociais, que provocaram a morte de pelo menos três
manifestantes.
Embora
o governo tenha defendido o fim do subsídio ao diesel como necessário para
sanear as finanças públicas, o ajuste atingiu o poder aquisitivo de milhares de
famílias.
A isso
se soma o fato de que, segundo dados oficiais, a informalidade laboral afeta
mais da metade da população economicamente ativa, enquanto o emprego adequado
continua sem demonstrar recuperação sólida.
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Política exterior
A
política exterior de Noboa foi marcada por forte aproximação com os Estados
Unidos, o país mais visitado pelo governante em suas viagens ao exterior.
Washington
reforçou a cooperação em segurança, inteligência e assistência técnica na luta
contra o narcotráfico, inclusive com a assinatura do Escudo das Américas,
estratégia liderada pelo presidente estadunidense Donald Trump, à qual aderiram
governos de direita latino-americanos.
Em
contraste com a aproximação com os Estados Unidos, o mandatário equatoriano
protagonizou tensões com a Colômbia devido à imposição de tarifas e a
divergências em torno do combate a grupos armados na fronteira.
Além
disso, em março de 2026, o governo de Noboa declarou “persona non grata” o
embaixador cubano em Quito, Basilio Gutiérrez, e expulsou a missão diplomática
do país caribenho.
Cuba,
por sua vez, repudiou a decisão e afirmou tratar-se de um ato injustificado,
inamistoso e sem precedentes, que prejudica significativamente as históricas
relações de amizade e cooperação entre ambos os países e povos.
Por
outro lado, a frequência das viagens internacionais do chefe de Estado
tornou-se outro motivo de questionamento por parte da oposição, que considera
que o mandatário dedica mais tempo à agenda externa do que à gestão do país.
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Corrupção, perseguição e tensões políticas
O
governo de Noboa também enfrentou questionamentos por supostos casos de
corrupção e por decisões políticas que acirraram o confronto com a oposição.
Um dos
processos mais sensíveis é o denominado caso Progen, ou caso Apagão, no qual a
Procuradoria investiga um suposto peculato relacionado a contratos de geração
elétrica assinados durante a crise energética de 2024, que provocaram um
prejuízo ao Estado de cerca de 150 milhões de dólares.
As
investigações apontam para contratos de centrais termelétricas em Quevedo e
Salitral que, segundo a Procuradoria, ocasionaram perdas milionárias porque os
geradores não chegaram a operar, apesar de terem sido feitos desembolsos
financeiros.
Embora
funcionários de alto escalão do Executivo próximos ao presidente não tenham
sido formalmente acusados, a oposição acredita que estejam envolvidos, entre
eles os ex-ministros de Energia Roberto Luque e Inés Manzano.
Às
tensões políticas soma-se a decisão do Tribunal Contencioso Eleitoral (TCE) de
suspender temporariamente a Revolução Cidadã, principal força política de
oposição, enquanto o Conselho Nacional Eleitoral (CNE) cancelou dois partidos:
Constrói e Unidade Popular.
Essas
ações, somadas à resolução do CNE de adiantar as eleições seccionais para 29 de
novembro deste ano, quase três meses antes do previsto, são consideradas parte
da estratégia do oficialismo que, segundo afirmam críticos do governo,
pressiona para chegar às eleições sem adversários.
Na
opinião de Gabriela Rivadeneira, presidenta da
Revolução Cidadã (RC), e de outros líderes políticos, o governo de Daniel
Noboa, por meio de seus aliados, busca “eliminar a possibilidade de uma
participação” plural para “estar sozinho na cédula”.
Nesse
contexto, crescem as denúncias de perseguição política, sobretudo contra a RC,
partido fundado e liderado pelo ex-presidente Rafael Correa (2007-2017).
Militantes
e dirigentes dessa organização sofreram buscas, acusações e ameaças de prisão,
entre eles a ex-candidata presidencial Luisa González.
Paralelamente,
o prefeito de Guayaquil, Aquiles Álvarez, está preso sem sentença por um caso
de suposto desvio de combustíveis no Cárcere do Encontro, na província de Santa
Elena, penitenciária emblemática da administração de Noboa inaugurada em
novembro de 2025.
Ali,
Álvarez emagreceu 26 quilos em apenas alguns meses e, embora o ministro do
Interior, John Reimberg, tenha atribuído a perda de peso a questões pessoais,
familiares do prefeito e sua defesa denunciaram violações de direitos e
condições que comprometem sua saúde.
Situação
semelhante enfrenta, na mesma prisão de segurança máxima, o ex-vice-presidente
Jorge Glas, a quem foi negado um habeas corpus, apesar das denúncias de seus
advogados sobre problemas de saúde e maus-tratos na cadeia.
“O
denominado Cárcere do Encontro é mais um centro de tortura para seus
adversários políticos do que um centro de privação de liberdade (…). A Justiça
não pode transformar-se em castigo antecipado nem em espetáculo político”,
afirmou a prefeita de Pichincha, Paola Pabón.
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Consulta popular, fracasso presidencial
Um dos
maiores reveses políticos do mandatário ocorreu em novembro de 2025, quando os
eleitores rejeitaram quatro propostas do Executivo.
Entre
elas, a instalação de bases militares estrangeiras e a convocação de uma
Assembleia Constituinte.
O
governo defendeu ambas as iniciativas com o argumento de que eram necessárias
para enfrentar o crime organizado e modernizar o Estado, mas setores políticos,
sociais e acadêmicos viram riscos para a soberania nacional e concentração de
poder.
A
possibilidade de permitir novamente bases militares estrangeiras gerou fortes
questionamentos devido à lembrança da base estadunidense de Manta, fechada em
2009 após uma reforma constitucional impulsionada durante o governo de Rafael
Correa.
Enquanto
isso, a proposta de Constituinte foi interpretada por críticos como uma
tentativa de ampliar o controle do Executivo sobre outras funções do Estado e
modificar as regras políticas em meio à crise de segurança.
Finalmente,
o plebiscito, que também perguntava sobre a possibilidade de reduzir o número
de deputados e eliminar o financiamento de partidos políticos, representou um
freio aos planos de Noboa.
O
resultado foi interpretado como um sinal de que o apoio eleitoral concedido
meses antes não se traduz automaticamente em apoio a todas as suas iniciativas.
Analistas advertiram que a consulta foi um termômetro da gestão governamental e
indicaram que o resultado adverso refletiu a insatisfação da população diante
da falta de respostas para seus problemas mais urgentes.
Meses
após essa derrota nas urnas para o Executivo, as pesquisas refletem uma
deterioração gradual da imagem presidencial.
Uma
pesquisa recente do Centro de Investigações e Estudos Especializados (Ciees),
realizada em Quito e Guayaquil em 16 e 17 de maio, situou em 26% a avaliação
positiva da gestão de Noboa e em 23% o nível de confiança em sua liderança.
80% dos
consultados consideraram a situação do país ruim ou muito ruim.
Outra
empresa, Comunicaliza, informou em abril uma aprovação de 47,7%, o que
evidencia diferenças metodológicas, embora ambas as medições concordem que a
insegurança e a economia são as principais preocupações da população.
O
segundo mandato de Daniel Noboa transcorre com o apoio de setores que valorizam
seu estilo enérgico e a “mão dura” contra as máfias, mas crescem as críticas
daqueles que consideram que os resultados não correspondem às promessas.
“Chegou
oferecendo renovação política, eficiência empresarial e uma nova forma de
governar. Um ano depois, o país não só continua preso nas mesmas crises: em
muitos aspectos está pior. O Equador de hoje, o novo Equador, demonstra que
entre a propaganda e a realidade há uma distância cada vez mais impossível de
ocultar”, comentou o jornalista Héctor Calderón.
¨ Bolívia pede ajuda ao
Brasil em meio a crise provocada por políticas neoliberais
O
governo da Bolívia enviou formalmente um pedido de ajuda ao Brasil em meio à
crise econômica enfrentada pelo país, resultado do pacote de medidas
neoliberais lançado no início do ano, e que tem provocado uma grande onda de protestos desde o início de
maio.
A
solicitação está sendo analisada pelo Itamaraty e teria como ponto principal o
empréstimo de um avião para supostamente servir de apoio na distribuição de
alimentos em algumas localidades do país.
O
governo do presidente conservador Rodrigo Paz alega que os protestos têm sido o
fator que causou os problemas de desabastecimento na Bolívia.
Tal
versão é contestada pelos movimentos populares, especialmente pela Confederação
Operária Boliviana (COB), que lidera os protestos das últimas semanas, que
aponta o fim do subsídio aos combustíveis e outras medidas neoliberais adotadas
por Paz como principais responsáveis pelos problemas econômicos enfrentados nlo
país.
Os atos
contra o governo tiveram início no dia 1º de maio e, em um princípio, pediam
diálogo com os representantes do governo de Paz. Porém, diante da recusa do
Executivo em reverter suas políticas, os movimentos passaram a defender a
renúncia do mandatário.
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Revogação de lei emergencial
O
pedido boliviano ao Brasil ocorre em paralelo a uma iniciativa que está sendo
impulsionada pelo governo local para revogar a atual Lei do Estado de
Emergência,
considerá-la limitadora do poder de atuação do presidente Paz.
O
projeto para a revogação foi aprovado pelo Senado neste domingo (24/05) e agora
segue para seu último trâmite legislativo, na Câmara dos Deputados.
Caso a
revogação da Lei seja concretizada, Paz ampliaria seus poderes sobre a atuação
das forças de segurança pública frente a manifestações populares.
Entre
os defensores da revogação estão grupos políticos ultraconservadores e setores
empresariais.
A
principal organização por trás do projeto não é um partido político, e sim o
Comitê Cívico de Santa Cruz, um dos grupos de lobby mais influentes do país,
que pediu publicamente, em um comunicado, que o governo estabeleça um Estado de
Emergência para “restaurar a normalidade” no país.
O grupo
empresarial também defende a prisão preventiva do ex-presidente Evo Morales (2006-2019), acusando-o de
suposta “incitação à violência” e “tentativa de golpe de Estado”.
Fonte:
Prensa Latina/Opera Mundi

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