Sabesp:
A quem servem as privatizações
O
Observatório Nacional dos Direitos à Água e ao Saneamento (ONDAS) realizou uma
investigação sobre a Sabesp após sua privatização em julho de 2024, em que
identificou uma forte elevação dos lucros acompanhada de expressiva redução de
custos operacionais da empresa, especialmente do custo de pessoal.
Como se
deduz do quadro a seguir, o lucro líquido médio anual da Sabesp no triênio
2021–2023, antes da privatização, foi de R$ 3,4 bilhões. No biênio 2024-2025,
após a venda do controle acionário pelo estado de São Paulo, o lucro líquido
médio anual saltou para R$ 9,2 bilhões, um crescimento de aproximadamente 2,7
vezes. Dito de outra maneira, o percentual do lucro líquido sobre a receita da
venda de água e esgoto dobrou com a privatização — isto é, de cada R$ 10,00
pagos pelos usuários nas tarifas de água e esgoto, R$ 3,71 converteram-se em
lucro dos acionistas.
O valor
adicionado mede o acréscimo de valor realizado pelo processo produtivo, isto é,
o acréscimo de valor decorrente do trabalho humano. Com a privatização, a
participação das despesas de pessoal no valor adicionado distribuído sofre uma
forte redução. No triênio anterior à privatização, a participação média das
despesas de pessoal no valor adicionado era de 25%, enquanto no biênio
2024–2025 essa participação caiu para 13,5%.
Portanto,
não é discurso. Os dados mostram que a atual gestão da Sabesp priorizou
esforços em maximizar a rentabilidade aos acionistas, sendo a redução das
despesas com a força de trabalho própria um componente primordial para atender
à prioridade do máximo lucro.
Em
contrapartida, segundo informações prestadas pela companhia à Comissão de
Valores Mobiliários (CVM), a remuneração média prevista para cada um dos seis
diretores estatutários da empresa em 2025 era de aproximadamente R$ 708 mil por
mês. Em 2024, a remuneração média mensal informada já não era baixa: R$ 97,5
mil. O aumento na remuneração da alta direção da companhia após a privatização
foi de cerca de 626%, enquanto os trabalhadores tiveram reajuste de 5,53% em
2025 e 4,39% em 2026.
Paga
com recursos arrecadados por meio das tarifas cobradas da população usuária dos
serviços, essa escandalosa remuneração dos altos executivos da Sabesp
privatizada está conectada com a prioridade dos acionistas em maximizar os
lucros mediante redução da qualidade e da segurança dos serviços prestados aos
usuários, inclusive pela compressão das despesas com a mão de obra
especializada que sustentava a Sabesp.
A
intensa e acelerada compressão dos custos de pessoal está intrinsecamente
conectada com a massiva perda de pessoas capacitadas durante décadas de
trabalho na Sabesp pública. Do quadro de 12.300 funcionários ao final de 2022,
quase 5.800 (ou 47%) foram demitidos, sem qualquer esforço de retenção ou
transmissão de conhecimento.
O
resultado trágico dessa política gananciosa e imediatista está evidente em
muitos episódios. Em abril de 2025, o rompimento de um interceptor de esgoto
causou uma cratera de grandes proporções na Marginal do Tietê e a solução da
empresa foi despejar no Rio Tietê um volume de esgotos equivalente a 77
piscinas olímpicas por dia1, interrompido somente após a grande repercussão do
fato na mídia. A cratera só foi fechada um ano depois, em abril de 2026.
Em
setembro de 2025, uma idosa de 79 anos morreu dentro de sua casa na cidade de
Mauá, atingida por uma tubulação da empresa que desceu ladeira abaixo2. Em
Mairiporã, um reservatório metálico de 2 milhões de litros colapsou totalmente
provocando mais uma morte, vários feridos e dezenas de imóveis inundados.
Na
região de Campinas, em Hortolândia, Paulínia e Monte Mor, as queixas de mau
cheiro e gosto ruim na água distribuída foram respondidas de forma protocolar,
não da maneira proativa antes praticada na Sabesp pública3.
A falta
d’água tornou-se permanente, sob um manto de “gestão de demanda noturna” que
nada mais é do que a restrição da oferta de água para, artificialmente, reduzir
perdas. É uma absoluta negação dos direitos humanos à água e ao esgotamento
sanitário que afeta perversamente a população em situação de vulnerabilidade
econômica e social.
Há um
verdadeiro colapso do atendimento. Na agência reguladora estadual (Arsesp) a
média mensal de reclamações contra a empresa na Grande São Paulo cresceu 70% na
comparação dos primeiros trimestres de 2025 e 20264. A Sabesp lidera com larga
margem o ranking de reclamações do Procon-SP em 2025 com 6.879 registros e
quase 70% das queixas não atendidas, uma situação inédita na sua história5. A
falta d’água e os problemas nas faturas são as principais queixas.
A
explosão de tubulação de gás no bairro do Jaguaré, na Capital, causada por
obras da Sabesp, matou duas pessoas, feriu várias, destruiu 10 moradias e
causou muita dor a quase duzentas pessoas que tiveram sonhos destruídos.
O
governador de São Paulo declarou, após a explosão no Jaguaré, que o volume e a
segurança das obras da Sabesp “está tirando o sono”. Ante essa frase, cabe
perguntar: como está o sono de quem tem uma obra da Sabesp na porta de sua
moradia ou de seu comércio?
Infelizmente,
por uma equivocada privatização, a empresa criada para levar saúde e qualidade
de vida para a população paulista está se tornando uma máquina altamente
lucrativa, contudo mortal.
• Gestão Tarcísio libera Memorial da
América Latina para concessão; diretoria se diz perplexa
O
Memorial da América Latina foi incluído no Programa de Parcerias e
Investimentos do Estado de São Paulo. Há a determinação de desenvolvimento de
estudo para a estruturação de proposta de parceria com a iniciativa privada,
como uma concessão, por exemplo.
A
decisão foi publicada no Diário Oficial de terça-feira (19). A inclusão chegou
ao conhecimento da diretoria da Fundação Memorial da América Latina, contudo,
apenas após contato da Folha.
A
notícia surpreendeu a diretoria e o corpo de servidores da instituição, que
enviaram uma manifestação conjunta à reportagem. A fundação é presidida pelo
advogado e gestor cultural Pedro Machado Mastrobuono desde 2023, nomeado pela
gestão Tarcísio de Freitas (Republicanos).
Em
nota, a Secretaria de Parcerias em Investimentos diz o oposto: que discussões
foram conduzidas pela Secretaria da Cultura, Economia e Indústria Criativas com
representantes do memorial antes da inclusão do espaço no programa. Também
destacou que avaliação é voltada a analisar medidas de “preservação,
valorização, manutenção e ampliação do uso público”.
A carta
enviada à reportagem apontou “perplexidade” pela fundação não ter sido ouvida
e, principalmente, pela forma como o memorial é descrito e tratado, reduzido a
um “ativo cultural” e operacional.
“Submetido
à lógica de ‘exploração’, ‘delegação’ e ‘concessão’, sem qualquer menção à sua
natureza fundacional, acadêmica, científica, universitária e internacionalmente
reconhecida”, destacou um trecho.
Além
disso, salientou que o memorial não é um “mero equipamento cultural
convencional da administração direta do Estado”, mas uma fundação com
“personalidade institucional própria”, conselho curador autônomo, finalidade
estatutária específica e missão histórico-cultural de integração
latino-americana, produção de conhecimento e cooperação acadêmica
internacional.
Em
nota, a Secretaria de Parcerias em Investimentos respondeu que o “processo está
em fase preliminar de estruturação e contará com diálogo institucional contínuo
e escuta dos atores envolvidos ao longo do desenvolvimento dos estudos”.
“Os
projetos no âmbito do PPI-SP seguem ritos formais de consulta e audiência
pública, assegurando transparência, participação social e contribuição das
instituições e da sociedade civil”, completou.
A pasta
destacou que se trata ainda de estudo de viabilidade, “sem definição sobre
modelo de concessão ou decisão de implementação”.
“O
Memorial da América Latina possui reconhecida relevância cultural, acadêmica e
simbólica para o Estado de São Paulo, aspectos que serão considerados nas
avaliações técnicas em andamento”, finalizou.
A
fundação é uma instituição pública vinculada à Secretaria da Cultura, Economia
e Indústria Criativas, mas com autonomia administrativa e financeira. A
governança institucional é feita por conselho curador e diretoria executiva.
É
responsável pela gestão do espaço, pela organização de cursos, seminários,
publicações, exposições e eventos, pela manutenção da biblioteca e pelo fomento
de redes de pesquisa, entre outras atribuições.
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Memorial prepara criação de distrito acadêmico e científico
O
memorial foi inaugurado em 1989, idealizado pelo antropólogo Darcy Ribeiro como
um espaço de intercâmbio cultural, conhecimento e integração latino-americana.
Conhecido
pela arquitetura assinada por Oscar Niemeyer, o espaço tem tido grande procura
pelo setor privado nos últimos anos para a locação a grandes eventos, como os
de música, o que tem impactado as atividades da instituição. O local esteve
fechado ao público em geral de 22 a 27 de abril, por exemplo, para a preparação
e realização de um festival.
A
inclusão no programa de parcerias causou estranheza também porque ocorre em
paralelo a esforços do memorial para fortalecer atividades de pesquisa. O
conselho curador da fundação aprovou, neste mês, a criação do Distrito
Acadêmico e Científico Latino-Americano e de diretrizes para a implantação
futura da Faculdade Memorial.
Além
disso, na quarta-feira (20), a fundação e a Unesp (Universidade Estadual
Paulista) anunciaram o lançamento do Centro de Ciência para a Integração
Latino-Americana, a ser instalado no prédio do Anexo dos Congressistas.
As
pesquisas iniciais previstas serão sobre modelos de previsão de epidemias
transfronteiriças, inteligência artificial, transição energética e
biodiversidade neotropical, entre outros temas.
Na
carta, diretoria e servidores destacaram a cátedra (programa de pesquisa e
ensino) da Unesco, realizada no memorial, e as atividades do Centro Brasileiro
de Estudos da América Latina. “Nenhum desses elementos estruturantes aparece
mencionado nos documentos de qualificação do projeto”, salientou.
O
documento defende que não se trata de “oposição abstrata a mecanismos modernos
de gestão pública” ou uma recusa a modelos de parceria, mas de defesa de que a
discussão deveria considerar a “missão acadêmica e científica” do memorial, os
compromissos internacionais firmados e a recente deliberação do conselho
curador.
“A
Fundação Memorial da América Latina não pode ser reduzida à condição de simples
ativo patrimonial da administração pública indireta, porque sua natureza
institucional transcende a dimensão meramente operacional ou imobiliária”,
completou a carta. “O Memorial constitui patrimônio cultural, acadêmico,
científico e civilizatório do Estado de São Paulo e da América Latina”,
finalizou.
A
inclusão no programa de parcerias ocorreu por resolução da Secretaria de
Parcerias em Investimentos. Embora veiculada no dia 19, foi assinada pelo
secretário Rafael Benini em 14 de maio. A publicação oficial ainda diz que foi
deliberada na 20ª reunião do programa de parcerias, realizada em março.
Em
conjunto, estão também o Palacete Franco de Mello (casarão tombado da avenida
Paulista) e a Casa das Retortas (antigo complexo industrial da região do parque
Dom Pedro 2º, no centro), ambos com concessões discutidas há anos pelo Estado.
O
memorial fica localizado na Barra Funda, na zona oeste paulistana. Está em
frente a um dos principais terminais de transporte de São Paulo, com fácil
acesso por metrô, trem e ônibus.
Fonte:
Por Marcos Helano Montenegro, Amauri Pollachi e Edson Aparecido da Silva, em
Outras Palavras/ICL Notícias

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