O
sistema que fabrica corrupção no governo do Rio não quer ser desmontado
Todos
os governadores eleitos no Rio de Janeiro nos últimos 30 anos foram presos,
cassados ou renunciaram para escapar da cadeia. Todos. Sem exceção.
Sérgio
Cabral: preso. Pezão: preso enquanto ainda governava. Rosinha Garotinho: presa.
Anthony Garotinho: preso. Witzel: impeachment. Cláudio Castro: renunciou um dia
antes de ser cassado pelo Tribunal Superior Eleitoral, o TSE, e foi cassado mesmo assim, com
inelegibilidade de oito anos. Esta semana, o Supremo Tribunal Federal, o STF,
autorizou busca e apreensão na casa de Castro por conta das investigações
relacionadas ao caso Master.
O
estado que elegeu todos esses governadores está, hoje, sendo administrado por
um desembargador no qual ninguém votou. E, ao que parece, ele está fazendo mais
em dois meses do que muitos fizeram em anos.
Ricardo
Couto assumiu o Palácio Guanabara em março porque não havia mais ninguém na
fila. O vice virou conselheiro do Tribunal de Contas do Estado. O presidente da
Assembleia Legislativa do Rio, a Alerj, foi afastado pela Polícia Federal sob
investigação de envolvimento com o Comando Vermelho. Castro renunciou. A linha
sucessória foi desmontada peça por peça — cada peça, por um motivo diferente,
mas todas pelo mesmo sistema.
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Troca de favores
Couto é
presidente do Tribunal de Justiça do Rio. Nunca disputou uma eleição. Não tem
partido. Não tinha base. Em dois meses exonerou mais de 2.700 cargos
comissionados, aqueles criados para indicações políticas e preenchidos por
aliados — cargos que eram moeda de troca do grupo de Castro –, distribuídos
entre deputados, familiares e apoiadores. Disse que vai dar autonomia para
perícias da polícia — algo demandado e recomendado há anos por diferentes
órgãos e organizações da sociedade civil. Couto começou a desmontar uma
estrutura que havia sido construída, tijolo por tijolo, ao longo de anos de
trocas e favores.
A
reação foi imediata.
Deputados
estaduais — eleitos, com mandato, representantes do povo — ameaçaram divulgar
uma lista de amantes de desembargadores que ocupariam cargos na Alerj sem
trabalhar. Uma ameaça claríssima.
Ao
mesmo tempo, a Assembleia Legislativa foi ao Supremo Tribunal Federal pedir que
Douglas Ruas, presidente da Alerj e aliado de Castro, assumisse o governo no
lugar de Couto. O argumento com verniz jurídico — a ordem de sucessão — mostra
o interesse político de retomar o controle da máquina para que as coisas
continuem como sempre estiveram. Porém, no final de abril, o ministro Cristiano
Zanin decidiu que o presidente do TJ permaneceria no cargo até nova deliberação
da Corte.
Ruas
foi além. Em agenda política na Região dos Lagos nesta semana, criticou a
“judicialização” da linha sucessória e disse que “lamentavelmente, o partido
político leva aquilo que deveria ser a discussão da arena política para as vias
judiciais.” Isso, vindo do mesmo partido que foi ao STF para tentar tomar o
governo pela via judicial.
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Jogo de interesses
E,
enquanto tudo isso acontecia, O Globo revelava que uma pedreira pertencente à
família do presidente estadual do PL vendia material para obras contratadas
pelo governo — obras ligadas ao grupo de Ruas.
O
funcionamento da máquina pública desenhado: partido controla legislativo,
legislativo tenta controlar executivo, executivo distribui contratos para
empresas de aliados do partido.
Quem
observa tudo isso de perto — e com interesse — é Eduardo Paes, prefeito do Rio
e principal pré-candidato ao governo do estado. Na sexta-feira, 08 de maio,
Couto exonerou Rodrigo Coelho, indicado pelos deputados aliados de Castro,
Márcio Canella e Antônio Rueda (ambos do União Brasil), da presidência do
Detran-RJ, e nomeou no lugar o coronel da reserva Carlos Eduardo Sarmento,
ex-comandante do Bope — batalhão de elite da Polícia Militar conhecido pela
caveira no símbolo.
Paes
foi ao X, antigo Twitter, na mesma hora: “Caveira! Eles adoram fingir que
gostam e prestigiam policiais. Aguardem as cenas se o coronel for ‘pra dentro’.
Vai ter ‘tiro na cabecinha’, usando a expressão do padrinho do Castro, o
ex-governador impichado por desvios na saúde, Witzel!” As pesquisas mais
recentes mostram Couto com aprovação relevante.
Mas
como chegamos aqui?
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Lei da Ficha Limpa
Como um
estado que já teve a maior economia do país elegeu, durante 30 anos
consecutivos, governadores que acabaram presos ou cassados?
A
resposta está em como a política fluminense foi construída — e em como a lei
que deveria barrar isso funciona — ou não funciona.
A Lei
da Ficha Limpa, em vigor desde 2010, impede que políticos condenados por
tribunal colegiado — ou seja, por mais de um juiz — se candidatem por oito anos
após o cumprimento da pena. Em tese, é uma barreira, mas na prática, é uma
espécie de cerca com porteiras.
Na
minha cabeça — e na de muita gente — ecoa um: por que isso é possível? Como
conseguem continuar na vida política?
Para
entender isso conversei com Igor Martins C. Almeida, mestre em Direito e
professor de Direito Eleitoral, e com Fábio Sá e Silva, colunista do Intercept,
professor de Estudos Brasileiros da Universidade de Oklahoma (EUA) e
pesquisador em temas de justiça, segurança pública e crise democrática.
Para
Almeida, cada caso precisa ser analisado individualmente. “Às vezes a pessoa
foi condenada, mas o processo não chegou ao fim — não tem uma condenação em
segundo grau ou por um colegiado que permita aplicar a Ficha Limpa.” Ou seja:
sem essa condenação específica, a lei simplesmente não se aplica.
Sá e
Silva disse que, trocando em miúdos, é assim: o político é barrado num
tribunal, recorre para o de cima, consegue uma liminar — uma decisão provisória
que suspende o impedimento —, entra na urna, ganha, assume, governa. Quando a
decisão final chega, o mandato acabou. Ou recomeçou.
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Exemplo é o que não falta
Alguns
exemplos: Anthony Garotinho foi preso quatro vezes. Foi condenado. Cumpriu
inelegibilidade. Saiu dela. Voltou a se candidatar. Witzel foi destituído. A
inelegibilidade dele acaba este ano, antes das eleições, e ele já anunciou
candidatura ao governo do Rio. Castro foi cassado com inelegibilidade de oito
anos — mas já se apresenta como pré-candidato ao Senado, apostando em recursos
que podem mudar esse prazo.
Em
setembro de 2025, o Senado aprovou uma mudança na Ficha Limpa que, para casos
de abuso de poder político, passa a contar os oito anos a partir da data da
eleição em que o crime foi cometido — outubro de 2022. Se a regra for aplicada
ao caso dele, Castro voltaria a ser elegível em 2030. A aplicação da nova regra
a casos anteriores à mudança, porém, ainda pode levar a questionamentos na
Justiça Eleitoral e no STF sobre qual forma de contagem de prazo deve
prevalecer.
A
ministra Cármem Lúcia liberou para análise do plenário virtual a ação, movida
pelo partido Rede, que questiona essa mudança. A votação deve ocorrer entre os
dias 22 e 29 de maio. Até agora foram dois votos contra as mudanças. Se a norma
for derrubada, Eduardo Cunha, Antony Garotinho e José Roberto Arruda, por
exemplo, não poderão disputar as próximas eleições.
A
mudança da Lei de Improbidade Administrativa, aprovada pelo Congresso em 2021,
enfraqueceu ainda mais os mecanismos de controle. Antes, bastava provar que o
gestor agiu de forma irregular. Agora, é preciso provar que ele quis agir assim
— que foi doloso, intencional — dificultando ainda mais as condenações.
E
quando há condenação, pode haver revisão. Advogados caros — muito caros —
entram com pedidos para afastar o chamado elemento doloso, a intenção
comprovada no crime. Tribunais revisam. Absolvições chegam. O ciclo recomeça —
e a gente fica aqui no meio, se fodendo.
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Instância superior
Fiz
outra pergunta ao Igor Martins que me deixou ainda mais impressionada com a
engenharia do sistema. O que acontece quando alguém está sendo processado, se
candidata, ganha — e a condenação sai durante o mandato?
O
processo não para. Ele sobe.
Se
alguém está sendo processado e se elege deputado estadual, o caso deixa de
estar nas mãos de um juiz de primeira instância e passa automaticamente para o
Tribunal de Justiça. É o chamado foro por prerrogativa de função — a ideia de
que certas autoridades só podem ser julgadas por tribunais superiores, de
acordo com o cargo que ocupam.
“O
processo sai automaticamente da mão do juiz singular e passa para o tribunal,
que é o órgão responsável”, me explicou Igor. A decisão, quando vier, vem de um
grupo de desembargadores. O que, na teoria, dá mais peso à condenação. Na
prática, também demora mais.
E o
mandato protege contra prisão? Não. Se houver condenação com trânsito em
julgado — quando se esgotam todos os recursos possíveis e a decisão se torna
definitiva — o parlamentar pode ser preso mesmo no exercício do cargo. Mas o
que acontece com o mandato é outra história.
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Tempo é dinheiro
A
Constituição deixa uma brecha aqui: pelo artigo 55, parágrafo 2º, quando há
condenação criminal definitiva, quem decide se o parlamentar perde o cargo não
é o juiz. É a própria Casa Legislativa — a Câmara, a Assembleia, o Senado. O
caso do deputado Alexandre Ramagem, no final de 2025, mostrou exatamente isso.
O STF o condenou por envolvimento no plano golpista de 8 de janeiro. O ministro
Alexandre de Moraes mandou ofício ao Congresso pedindo a perda do cargo. O
presidente da Câmara, Hugo Motta, respondeu que a prerrogativa era do próprio
Congresso — não do Judiciário. E foi o Congresso que julgou. Um parlamento
dominado por aliados do condenado pode, na prática, protegê-lo.
Então a
candidatura pode ser usada como artifício para não ser preso? Diretamente, não.
Mas indiretamente, sim — e muito. “A candidatura pode ser utilizada como
artifício para fugir eventualmente de uma instância superior de investigação e
protelar a decisão no processo até que se cumpra um mandato.”
O
processo sobe de instância, fica mais lento, o político governa, termina o
mandato — e quando a condenação final chega, às vezes já é tarde demais para
importar. O que a candidatura compra, no fundo, é tempo. E tempo é dinheiro.
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Mais poder para o Judiciário
A Ficha
Limpa foi criada, entre outras coisas, para resolver um problema específico: a
inelegibilidade infinita. Sá e Silva me
explicou que havia casos em que juízes somavam condenações sucessivas do mesmo
processo — e o prazo de inelegibilidade nunca terminava. “Não temos pena
perpétua no Brasil”, ele disse. “Faz sentido ter um teto”, pontuou.
Na
mudança de setembro de 2025, o Senado foi nessa direção e aprovou uma mudança
que limita a inelegibilidade acumulada em no máximo 12 anos — e que, dependendo
do crime, começa a contar a partir da condenação, não do fim do mandato. Na
prática: políticos cassados voltam mais rápido à política.
Mas a
lei criou outro problema ao resolver esse. Ao colocar nas mãos do Judiciário o
poder de excluir pessoas da política, empoderou demais os juízes. “Se você dá
ao Judiciário o poder de excluir as pessoas da política, o juiz fica o sujeito
mais poderoso”, disse Sá e Silva. A Ficha Limpa tentou ao menos dividir isso —
com o povo, nas urnas.
É aí
que a coisa complica. Porque o povo também precisa fazer sua parte. E nem
sempre faz. Não é raro que candidatos do estilo “rouba, mas faz” ficam na
política por anos a fio, elegendo toda a família a reboque.
Tem
também o papel dos partidos. Sá lembrou do mensalão: houve enorme pressão para
que o PT expulsasse os envolvidos. O partido não expulsou. Foi duramente
criticado por isso. “As pessoas cometem corrupção e os partidos continuam
abraçando. Tem que cobrar dos partidos também”, disse ele. Os partidos são a
porta de entrada — e continuam abrindo essa porta para quem deveria estar do
lado de fora.
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Eduardo Cunha
Eduardo
Cunha, ex-presidente da Câmara, discursou na sessão solene de homenagem aos 200
anos da Câmara, no dia 5 de maio. Cassado em 2016 por mentir à CPI da Petrobras
e condenado por corrupção e lavagem de dinheiro, ficou inelegível. Agora, tenta
voltar à Câmara disputando uma vaga por Minas Gerais e já articula apoio de
partidos do Centrão, como PSD, MDB e União Brasil, de olho na presidência da
Casa em 2027.
Ou
seja, não é tão simples.
O que
está acontecendo no Rio hoje não é uma crise. É o estado natural de um sistema
político que nunca foi reformado de verdade — apenas remendado, de tempos em
tempos, com leis que têm mais buracos do que paredes.
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Sem eleição, sem partido
Couto é
uma espécie de anomalia nesse sistema. Pesquisas mostram que a maioria da
população o aprova. Mas a classe política está incomodada. E o sistema — o
mesmo sistema que produziu Cabral, Garotinhos, Witzel e Castro — está reagindo
com o que sempre teve à disposição: ameaças, liminares, pressão judicial.
O Rio
tem hoje um governador sem eleição, sem partido, sem dívidas com ninguém — e
exatamente por isso, capaz de fazer o que governadores eleitos não fizeram:
mexer na máquina sem precisar preservar quem a construiu. Couto não pode se
candidatar em outubro. A ironia é que a mesma ausência de partido que o liberta
para agir é o que o impede de continuar.
Fonte:
Por Cecília Oliveira, em The Intercept

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