A
passagem da Coluna Prestes pelo Maranhão
No dia
11 de novembro de 1925, a Coluna Prestes partindo de Porto Nacional (hoje
Tocantins) adentra o Maranhão e é recebida em Carolina, Grajau e outras
localidades do sul do estado com festa e cortejo. Ao contrário do que acontecia
em outras partes do país, onde a Coluna era apresentada como medo, no Maranhão
(e Piauí) a Coluna era um símbolo de esperança.
A saga
da Coluna, que começara na junção da 1ª. Coluna da Revolução Paulista e da
Rebelião Gaúcha de Santo Ângelo, funde-se em Catanduvas (PR) em fins de 1924 e
dá-se início a sua gloriosa epopeia, que percorreu cerca de 25 mil quilômetros,
treze estados, dois países, contou com um contingente inicial de 1.500 homens e
um pouco mais de 4 dezenas de mulheres (as vivandeiras) e algumas crianças,
participou de mais de 600 combates contra forças regulares do exército,
polícias estaduais, jagunços e cangaceiros, saindo de todas vencedora ,
invicta!
Tornando-se
um dos feitos militares e políticos mais importantes da história do Brasil e do
mundo, referência a “Grande Marcha” de Mao Tse Tung e a muitos movimentos de
libertação nacional.
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Conjuntura mundial e nacional
O mundo
vivenciou entre 1914 e 1919 a Primeira Guerra Mundial, foi um espetáculo
dantesco de destruição em massa. Durante a guerra os países europeus giraram a
indústria a produção bélica e reduziram a produção de bens de consumo e
alimentos; por sua vez, os países produtores como o Brasil viram suas receitas
aumentarem em larga escala, a produção cresceu em mais de 50% e os lucros bem
que dobraram (BANDEIRA, 1980. p.49) levando o importante líder político e
empresarial Achilles Lisboa a propor em palestra, na poderosa Sociedade
Agrícola Maranhense, que o trabalho deveria ser compulsório, para atender as
demandas externas (LISBOA, 1918).
O
término do conflito é acompanhado por uma crise geral do sistema capitalista,
em especial, pela eclosão da Revolução Russa que pôs fim ao monopólio da
produção capitalista, com isso aprofundou as contradições internas abrindo uma
nova etapa na organização mundial.
Os
países capitalistas centrais, vitoriosos ou não, conheceram movimentos sociais
revolucionários influenciados pelo regime soviético, o que aterrorizou a
burguesia mundial (SODRE, 1978).
Por seu
lado, os países dependentes, que tiveram razoável saldo comercial durante o
período bélico, veem a sua balança comercial comprimir, o Brasil segue a mesma
toada, o fim da guerra vem acompanhado por uma grande crise econômica na década
de 1920, com a redução do preço do café e a necessidade de contrair empréstimos
estrangeiros para equilibrar a balança interna, isso vem acompanhado do aumento
das importações e como consequência aumento da inflação e do custo de vida,
levando a inquietações sociais.
A
monocultura cafeeira via seus preços caírem e parte dos cafeicultores drenaram
seus capitais para a nascente indústria. Este processo desencadeia e reforça os
elementos deletérios dentro da estrutura do “Pacto dos Governadores” e a
política do “Café com Leite”, levando ao fortalecimento da nascente burguesa
industrial e a exigência de mudanças sociais.
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Eleições de 1922 e o nascimento do tenentismo
Os
questionamentos se avolumam e convergem para eleições de 1922, o presidente
Epitácio Pessoa, mesmo sendo paraibano, fora uma escolha das oligarquias
paulistas e mineiras, fez um governo autoritário, uma ditadura disfarçada, que
teve que enfrentar as greves operárias, a organização do proletariado no
nascente PCB, o descontentamento das classes médias urbanas, a busca de espaços
da nascente burguesia industrial, a inquietude dos artistas e produtores de
cultura, a inconformidade dos militares e a dissidência e oposição de vários
estados provinciais.
O
núcleo do questionamento era a corrupção, o voto de cabresto e as fraudes
eleitorais, a falta de um planejamento de desenvolvimento e reinvindicações de
melhoria no ensino. O núcleo ideológico é um liberalismo radical. O ano de
1922, ano do centenário da independência, é um ano de expectativas de mudanças.
(PRESTES, 1995)
A
indicação Café com Leite do mineiro Arthur Bernardes para a sucessão de
Epitácio Pessoa é contraposta pelas dissidências (gaúcha, fluminense, baiana e
pernambucana) com Nilo Peçanha, compondo a chamada Reação Republicana. A
campanha é marcada por forte tensão tendo como o centro a questão das Cartas
Falsas.
Em 9 de
outubro de 1921, no diário carioca oposicionista Correio da Manhã, são
publicadas duas cartas supostamente escritas por Bernardes com ofensas a honra
do Marechal Hermes da Fonseca e das Forças Armadas, os militares que estavam
indispostos com o governo Pessoa, por conta do baixo soldo, subiram o tom com
reuniões no Clube Militar e se engajaram na candidatura de Nilo Peçanha. Mesmo
tendo sido provado que as cartas eram falsas, o estrago já estava feito.
Após a
eleição de Arthur Bernardes, boa parte da sociedade se posiciona contrária à
posse de seu governo, especialmente o baixo oficialato e a soldadesca. (SODRE
1978, PRESTES, 1995).
“Eles
eram dezoito…
Os mais
partiram
Tanto
que a causa, enfim, viram perdida.
Eles –
dezoito apenas – preferiram
Ficar,
quando ficar custava a vida…(…)
E eles
foram lutar em campo aberto
O
peito, não de ferro, mas de ralos
Pedaços
de bandeira só coberto
Que
torpeza insultá-los!”
(Schaffenberg
de Quadros).
As
conspirações contra a posse, em 5 de julho, correm os quarteis, a intenção era
clara: derrubar o governo e impedir a posse de Arthur Bernardes. Em 5 de julho
é marcado um grande levante militar, mas na hora H só o Forte de Copacabana se
sublevou.
O Forte
de Copacabana é cercado por forças legalistas que exigem sua rendição
incondicional, o Capitão Euclides Hermes da Fonseca, comandante da cidadela
sitiada, é preso quando negociava com o governo. O Tenente Antônio Siqueira
Campos, já sub ataque pesado de terra, mar e ar, dá o direito de escolha aos
amotinados e declara que resistirá e lutará até o fim pelo ideal. Ficaram 18
que marcharam pela Avenida Atlântica rumo ao Catete, no caminho somou-se o
estudante de engenharia Otávio Correa.
As
forças legalistas, com mais de 2000 soldados, abrem fogo, só 2 sobreviveram: os
tenentes Eduardo Gomes e Siqueira Campos, gravemente feridos. O governo declara
estado de sítio e as prisões e a censura à imprensa foram amplamente
realizadas.
Na
sociedade uma comoção tomou conta do país, “os Dezoitos do Forte”, ganharam as
páginas dos jornais e as conversas, sua rebeldia, seu idealismo, suas vidas e
honra eram comentados por toda parte. Um pouco depois, em 29 de julho, foi
decretada a prisão do presidente do Clube Militar, Marechal Hermes da Fonseca,
por seu apoio velado ao levante da guarnição do Pernambuco.
A pose
de Bernardes, em 15 de novembro, não refluiu a tensão e seu governo foi feito
em estado de sítio e com forte perseguição aos opositores, fortaleceu a
inquietação e as conspirações dos tenentes e demais opositores (PRESTES, 1995)
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Revolução paulista de 1924
Após a
intervenção de Arthur Bernardes nos governos dissidentes do Rio Grade do Sul,
Pernambuco e Rio de Janeiro e a perseguição implacável à Reação Republicana, o
movimento tenentista trama uma nova rebelião, desta vez em São Paulo, segunda
cidade do país, o maior parque industrial. São Paulo vivia a transição de uma
pacata cidade para uma metrópole, naquele instante a metade da população era
composta por imigrantes que tinham fugido da miséria europeia nos pós Primeira
Guerra.
O plano
contava com levantes em vários quarteis e a força pública estadual, que seriam
acompanhados com sublevações em outros estados. Em 5 de julho acontece o
levante, os quarteis militares e da força pública se rebelam, no início
esperava-se que a capital fosse tomada em poucas horas, mas a resistência do
governador Carlos Campos foi dura e só após quatro dias de combates recuou para
a longínqua Penha.
Lourenço
Moreira Lima, que saiu do Rio de Janeiro para somar-se com os amotinados,
relata o apoio espontâneo da população que comemorava a revolução, movimentos
sociais como os sindicalistas e anarquistas pediram armas ao comandante da
revolução, General Isidoro Lopes Dias, o que foi recusado.
Porém,
conforme o cerco e o bombardeio das forças legalistas se multiplicavam,
principalmente sobre os bairros e vilas operárias, e as escassez de alimentos
aumentava, foram formados três batalhões estrangeiros recebendo o nome das
maiores colônias migradas: o batalhão alemão, húngaro e italiano, que óbvio não
eram compostos só por essas nacionalidades, por exemplo o italiano, contava
também com portugueses, espanhóis, franceses e brasileiros. Esses batalhões
tiveram papel importante nos combates, pois muitos dos seus membros
participaram da guerra na Europa, destacando os alemães que tinham aviadores,
peritos em artilharia e metralhadoras, mecânicos e operários qualificados.
Outro
fator importante é ideológico, alguns eram simpatizantes da social democracia,
do anarquismo e do comunismo. O comandante do Batalhão húngaro, Maximiliano
Agid, fora capitão na Revolução Húngara de 1918, acusado por setores
reacionários da colônia húngara de ser comunista, este fator foi fundamental
para desencadear uma campanha antibolchevique por parte dos legalistas e das
elites brasileiras e paulistas. Bernardes não poupou críticas e promessa de
vingança aos “mercenários” e após 28 dias de intenso bombardeio sistemático à
capital paulista, principalmente nos bairros operários, levando ao êxodo de 60%
da população, os revolucionários foram obrigados a se retirar. Destaca-se que
após a retirada, a repressão às colônias, aos que se renderam e ao proletariado
foi intensa e houve um verdadeiro massacre dos amotinados, simpatizantes ou
suspeitos.
A
Coluna Paulista ruma para o Mato Grosso, mas é detida por imensas forças legais
em Três Lagoa (MS), resolvem se reagrupar em Catanduvas (PR), perto do tríplice
fronteira, e lá permanecem sem capacidade de mobilidade, cercadas pelas forças
legalistas do General Cândido Rondon. (AQUINO, 1998)
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A revolta gaúcha
“A
coluna marcha
Na
frente dos cavalos,
das
cidades, dos sertões
Na
frente das ondas,
do
fogo, das promessas”
(Murilo
Mendes)
O cerco
dos revolucionários paulistas no meio das florestas paranaenses gerava
indignação de toda a oposição e, principalmente, no tenentismo. Várias
conspirações e tentativas de revoltas aconteceram no ano de 1924, mas será com
a soma dos Maragatos do caudilho Assis Brasil e dos tenentes do Rio Grande do
Sul que surge a Coluna Gaúcha, em 29 de outubro de 1924. Seguindo o roteiro de
todo levante tenentista, a organização falha e no fim só quatro quarteis de
Santo Ângelo e São Borja se insurgem.
Após
alguns dias de combate, as forças legalistas conseguem desbaratar a revolução,
que só conseguiu sobreviver na região de São Luís Gonzaga, graças à ausência de
ferrovia nas proximidades e à liderança de Luiz Carlos Prestes. Somou-se aos
insurgentes alguns tenentes importantes, que estavam exilados no Uruguai e
Argentina, entre os quais destacam-se: João Alberto, Cordeiro de Faria e o
herói dos Dezoito do Forte, Siqueira Campos.
Neste
instante, cercado pelas tropas legalistas, começou a se formar a “Coluna
Invicta”. Prestes contava com cerca de 1500 combatentes entre civis e militares
e precisou transformar este agrupamento revoltoso num movimento político
militar revolucionário, foi necessário o convencimento político de que cada
combatente – civil ou militar – estavam lutando contra a tirania de Arthur
Bernardes, por melhorias de vida e por um Brasil melhor. Destaca-se que os
combatentes não tinham soldo, não tinham qualquer benefício e eram punidos por
qualquer saque, pilhagem ou destrato às populações.
Os
combatentes lutavam por um ideal político, essas ideias começaram a ser
divulgadas através do Jornal Libertador, por onde a Coluna veiculava seus
manifestos e programa político, foram feitos ao longo da marcha 10 números que
eram distribuídos na sociedade. Destaca-se que o Jornal Libertador era dirigido
pelo maranhense José Maria dos Reis Perdigão, que em 1930 foi governador
(interventor) indicado pela Revolução de 1930.
Durante
o mês de dezembro o governo destinou mais de 14 mil soldados para enfrentar os
revoltosos, cercando-os em São Luís Gonzaga, a situação era vista como de
derrota certa, a tática do exército brasileiro era de guerra de posição, ou
seja, uma formação parada enfrentando outra formação. Luiz Carlos Prestes,
ciente de que não tinha como enfrentar um inimigo tão superior em armas e
soldados, colocou a tropa em movimento e passam ao largo das colunas do
exército sem serem percebido, e ainda venceu em combate às tropas da reserva,
onde morreu o comandante geral desta guarnição (PRESTES, 1995).
Ao
entrar em Santa Catarina, metade dos combatentes resolvem permanecer no seu Rio
Grande enquanto os demais seguiram para se juntar às tropas paulistas de Miguel
Couto e de Isidoro Dias. Foram mais 40 dias de marchas forçadas, fazendo
picadas em matas fechadas e com frequentes combates às forças legalistas. E num
desses combates, na região de Maria Preta, em Santa Catarina, que a Coluna
ganhou destaque nacional, duas tropas legalistas objetivaram cercar a Coluna
pelos francos, só que ela se retirou e as tropas legalistas ficaram combatendo
entre si durante toda a noite, com um saldo de mais de 200 soldados legalistas
mortos. (PRESTES 1995, SODRÉ 1978).
Somente
em abril de 1925, os revolucionários gaúchos e paulistas se encontraram. Em 12
de abril foi feita a reunião entre os dois comandos, o clima era de derrota
entre os paulistas e de ânimo vitorioso entre os gaúchos. Luiz Carlos Prestes
fez um discurso enérgico, conclamando a continuidade da luta, boa parte do
comando paulista não concordou e se exilou na Argentina. Houve uma
reorganização geral, o Marechal Isidoro Dias e outros oficiais idosos e os
enfermos foram dispensados da nova marcha e se exilaram na Argentina. A Coluna
foi dividida em dois comandos: a Paulista, com sub comando de Juarez Távora e a
Gaúcha, com Prestes. O comando geral coube a Miguel Costa.
Entretanto,
a situação era dramática, os revolucionários tinham diante de si as tropas
legalistas do General Rondon, que se aproximavam para derrotá-los, e noutro
franco três rios caudalosos e profundos: Paraná, Iguaçu e o Piquiri. O plano de
Prestes consistia em entrar em território paraguaio, marchar 125 km e sair no
Mato Grosso. E dessa forma foi feito.
Quando
soube da retirada para o Paraguai, o presidente Arthur Bernardes declarou em
todos os meios de comunicação a derrota da Coluna, e três dias depois teve que
se retratar, ela havia reaparecido no Mato Grosso e atacado as tropas do Major
Bertoldo Klinger, daí seguiu realizando ataques e retiradas, até que em 11 de
novembro a Coluna Atravessa o rio Tocantins e entra no Maranhão.
Fonte:
Por John Kennedy Ferreira, em A Terra é Redonda

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