quinta-feira, 28 de maio de 2026

A passagem da Coluna Prestes pelo Maranhão

No dia 11 de novembro de 1925, a Coluna Prestes partindo de Porto Nacional (hoje Tocantins) adentra o Maranhão e é recebida em Carolina, Grajau e outras localidades do sul do estado com festa e cortejo. Ao contrário do que acontecia em outras partes do país, onde a Coluna era apresentada como medo, no Maranhão (e Piauí) a Coluna era um símbolo de esperança.

A saga da Coluna, que começara na junção da 1ª. Coluna da Revolução Paulista e da Rebelião Gaúcha de Santo Ângelo, funde-se em Catanduvas (PR) em fins de 1924 e dá-se início a sua gloriosa epopeia, que percorreu cerca de 25 mil quilômetros, treze estados, dois países, contou com um contingente inicial de 1.500 homens e um pouco mais de 4 dezenas de mulheres (as vivandeiras) e algumas crianças, participou de mais de 600 combates contra forças regulares do exército, polícias estaduais, jagunços e cangaceiros, saindo de todas vencedora , invicta!

Tornando-se um dos feitos militares e políticos mais importantes da história do Brasil e do mundo, referência a “Grande Marcha” de Mao Tse Tung e a muitos movimentos de libertação nacional.

<>< Conjuntura mundial e nacional

O mundo vivenciou entre 1914 e 1919 a Primeira Guerra Mundial, foi um espetáculo dantesco de destruição em massa. Durante a guerra os países europeus giraram a indústria a produção bélica e reduziram a produção de bens de consumo e alimentos; por sua vez, os países produtores como o Brasil viram suas receitas aumentarem em larga escala, a produção cresceu em mais de 50% e os lucros bem que dobraram (BANDEIRA, 1980. p.49) levando o importante líder político e empresarial Achilles Lisboa a propor em palestra, na poderosa Sociedade Agrícola Maranhense, que o trabalho deveria ser compulsório, para atender as demandas externas (LISBOA, 1918).

O término do conflito é acompanhado por uma crise geral do sistema capitalista, em especial, pela eclosão da Revolução Russa que pôs fim ao monopólio da produção capitalista, com isso aprofundou as contradições internas abrindo uma nova etapa na organização mundial.

Os países capitalistas centrais, vitoriosos ou não, conheceram movimentos sociais revolucionários influenciados pelo regime soviético, o que aterrorizou a burguesia mundial (SODRE, 1978).

Por seu lado, os países dependentes, que tiveram razoável saldo comercial durante o período bélico, veem a sua balança comercial comprimir, o Brasil segue a mesma toada, o fim da guerra vem acompanhado por uma grande crise econômica na década de 1920, com a redução do preço do café e a necessidade de contrair empréstimos estrangeiros para equilibrar a balança interna, isso vem acompanhado do aumento das importações e como consequência aumento da inflação e do custo de vida, levando a inquietações sociais.

A monocultura cafeeira via seus preços caírem e parte dos cafeicultores drenaram seus capitais para a nascente indústria. Este processo desencadeia e reforça os elementos deletérios dentro da estrutura do “Pacto dos Governadores” e a política do “Café com Leite”, levando ao fortalecimento da nascente burguesa industrial e a exigência de mudanças sociais.

<><> Eleições de 1922 e o nascimento do tenentismo

Os questionamentos se avolumam e convergem para eleições de 1922, o presidente Epitácio Pessoa, mesmo sendo paraibano, fora uma escolha das oligarquias paulistas e mineiras, fez um governo autoritário, uma ditadura disfarçada, que teve que enfrentar as greves operárias, a organização do proletariado no nascente PCB, o descontentamento das classes médias urbanas, a busca de espaços da nascente burguesia industrial, a inquietude dos artistas e produtores de cultura, a inconformidade dos militares e a dissidência e oposição de vários estados provinciais.

O núcleo do questionamento era a corrupção, o voto de cabresto e as fraudes eleitorais, a falta de um planejamento de desenvolvimento e reinvindicações de melhoria no ensino. O núcleo ideológico é um liberalismo radical. O ano de 1922, ano do centenário da independência, é um ano de expectativas de mudanças. (PRESTES, 1995)

A indicação Café com Leite do mineiro Arthur Bernardes para a sucessão de Epitácio Pessoa é contraposta pelas dissidências (gaúcha, fluminense, baiana e pernambucana) com Nilo Peçanha, compondo a chamada Reação Republicana. A campanha é marcada por forte tensão tendo como o centro a questão das Cartas Falsas.

Em 9 de outubro de 1921, no diário carioca oposicionista Correio da Manhã, são publicadas duas cartas supostamente escritas por Bernardes com ofensas a honra do Marechal Hermes da Fonseca e das Forças Armadas, os militares que estavam indispostos com o governo Pessoa, por conta do baixo soldo, subiram o tom com reuniões no Clube Militar e se engajaram na candidatura de Nilo Peçanha. Mesmo tendo sido provado que as cartas eram falsas, o estrago já estava feito.

Após a eleição de Arthur Bernardes, boa parte da sociedade se posiciona contrária à posse de seu governo, especialmente o baixo oficialato e a soldadesca. (SODRE 1978, PRESTES, 1995).

“Eles eram dezoito…

Os mais partiram

Tanto que a causa, enfim, viram perdida.

Eles – dezoito apenas – preferiram

Ficar, quando ficar custava a vida…(…)

E eles foram lutar em campo aberto

O peito, não de ferro, mas de ralos

Pedaços de bandeira só coberto

Que torpeza insultá-los!”

(Schaffenberg de Quadros).

As conspirações contra a posse, em 5 de julho, correm os quarteis, a intenção era clara: derrubar o governo e impedir a posse de Arthur Bernardes. Em 5 de julho é marcado um grande levante militar, mas na hora H só o Forte de Copacabana se sublevou.

O Forte de Copacabana é cercado por forças legalistas que exigem sua rendição incondicional, o Capitão Euclides Hermes da Fonseca, comandante da cidadela sitiada, é preso quando negociava com o governo. O Tenente Antônio Siqueira Campos, já sub ataque pesado de terra, mar e ar, dá o direito de escolha aos amotinados e declara que resistirá e lutará até o fim pelo ideal. Ficaram 18 que marcharam pela Avenida Atlântica rumo ao Catete, no caminho somou-se o estudante de engenharia Otávio Correa.

As forças legalistas, com mais de 2000 soldados, abrem fogo, só 2 sobreviveram: os tenentes Eduardo Gomes e Siqueira Campos, gravemente feridos. O governo declara estado de sítio e as prisões e a censura à imprensa foram amplamente realizadas.

Na sociedade uma comoção tomou conta do país, “os Dezoitos do Forte”, ganharam as páginas dos jornais e as conversas, sua rebeldia, seu idealismo, suas vidas e honra eram comentados por toda parte. Um pouco depois, em 29 de julho, foi decretada a prisão do presidente do Clube Militar, Marechal Hermes da Fonseca, por seu apoio velado ao levante da guarnição do Pernambuco.

A pose de Bernardes, em 15 de novembro, não refluiu a tensão e seu governo foi feito em estado de sítio e com forte perseguição aos opositores, fortaleceu a inquietação e as conspirações dos tenentes e demais opositores (PRESTES, 1995)

<><> Revolução paulista de 1924

Após a intervenção de Arthur Bernardes nos governos dissidentes do Rio Grade do Sul, Pernambuco e Rio de Janeiro e a perseguição implacável à Reação Republicana, o movimento tenentista trama uma nova rebelião, desta vez em São Paulo, segunda cidade do país, o maior parque industrial. São Paulo vivia a transição de uma pacata cidade para uma metrópole, naquele instante a metade da população era composta por imigrantes que tinham fugido da miséria europeia nos pós Primeira Guerra.

O plano contava com levantes em vários quarteis e a força pública estadual, que seriam acompanhados com sublevações em outros estados. Em 5 de julho acontece o levante, os quarteis militares e da força pública se rebelam, no início esperava-se que a capital fosse tomada em poucas horas, mas a resistência do governador Carlos Campos foi dura e só após quatro dias de combates recuou para a longínqua Penha.

Lourenço Moreira Lima, que saiu do Rio de Janeiro para somar-se com os amotinados, relata o apoio espontâneo da população que comemorava a revolução, movimentos sociais como os sindicalistas e anarquistas pediram armas ao comandante da revolução, General Isidoro Lopes Dias, o que foi recusado.

Porém, conforme o cerco e o bombardeio das forças legalistas se multiplicavam, principalmente sobre os bairros e vilas operárias, e as escassez de alimentos aumentava, foram formados três batalhões estrangeiros recebendo o nome das maiores colônias migradas: o batalhão alemão, húngaro e italiano, que óbvio não eram compostos só por essas nacionalidades, por exemplo o italiano, contava também com portugueses, espanhóis, franceses e brasileiros. Esses batalhões tiveram papel importante nos combates, pois muitos dos seus membros participaram da guerra na Europa, destacando os alemães que tinham aviadores, peritos em artilharia e metralhadoras, mecânicos e operários qualificados.

Outro fator importante é ideológico, alguns eram simpatizantes da social democracia, do anarquismo e do comunismo. O comandante do Batalhão húngaro, Maximiliano Agid, fora capitão na Revolução Húngara de 1918, acusado por setores reacionários da colônia húngara de ser comunista, este fator foi fundamental para desencadear uma campanha antibolchevique por parte dos legalistas e das elites brasileiras e paulistas. Bernardes não poupou críticas e promessa de vingança aos “mercenários” e após 28 dias de intenso bombardeio sistemático à capital paulista, principalmente nos bairros operários, levando ao êxodo de 60% da população, os revolucionários foram obrigados a se retirar. Destaca-se que após a retirada, a repressão às colônias, aos que se renderam e ao proletariado foi intensa e houve um verdadeiro massacre dos amotinados, simpatizantes ou suspeitos.

A Coluna Paulista ruma para o Mato Grosso, mas é detida por imensas forças legais em Três Lagoa (MS), resolvem se reagrupar em Catanduvas (PR), perto do tríplice fronteira, e lá permanecem sem capacidade de mobilidade, cercadas pelas forças legalistas do General Cândido Rondon. (AQUINO, 1998)

<><> A revolta gaúcha

“A coluna marcha

Na frente dos cavalos,

das cidades, dos sertões

Na frente das ondas,

do fogo, das promessas”

(Murilo Mendes)

O cerco dos revolucionários paulistas no meio das florestas paranaenses gerava indignação de toda a oposição e, principalmente, no tenentismo. Várias conspirações e tentativas de revoltas aconteceram no ano de 1924, mas será com a soma dos Maragatos do caudilho Assis Brasil e dos tenentes do Rio Grande do Sul que surge a Coluna Gaúcha, em 29 de outubro de 1924. Seguindo o roteiro de todo levante tenentista, a organização falha e no fim só quatro quarteis de Santo Ângelo e São Borja se insurgem.

Após alguns dias de combate, as forças legalistas conseguem desbaratar a revolução, que só conseguiu sobreviver na região de São Luís Gonzaga, graças à ausência de ferrovia nas proximidades e à liderança de Luiz Carlos Prestes. Somou-se aos insurgentes alguns tenentes importantes, que estavam exilados no Uruguai e Argentina, entre os quais destacam-se: João Alberto, Cordeiro de Faria e o herói dos Dezoito do Forte, Siqueira Campos.

Neste instante, cercado pelas tropas legalistas, começou a se formar a “Coluna Invicta”. Prestes contava com cerca de 1500 combatentes entre civis e militares e precisou transformar este agrupamento revoltoso num movimento político militar revolucionário, foi necessário o convencimento político de que cada combatente – civil ou militar – estavam lutando contra a tirania de Arthur Bernardes, por melhorias de vida e por um Brasil melhor. Destaca-se que os combatentes não tinham soldo, não tinham qualquer benefício e eram punidos por qualquer saque, pilhagem ou destrato às populações.

Os combatentes lutavam por um ideal político, essas ideias começaram a ser divulgadas através do Jornal Libertador, por onde a Coluna veiculava seus manifestos e programa político, foram feitos ao longo da marcha 10 números que eram distribuídos na sociedade. Destaca-se que o Jornal Libertador era dirigido pelo maranhense José Maria dos Reis Perdigão, que em 1930 foi governador (interventor) indicado pela Revolução de 1930.

Durante o mês de dezembro o governo destinou mais de 14 mil soldados para enfrentar os revoltosos, cercando-os em São Luís Gonzaga, a situação era vista como de derrota certa, a tática do exército brasileiro era de guerra de posição, ou seja, uma formação parada enfrentando outra formação. Luiz Carlos Prestes, ciente de que não tinha como enfrentar um inimigo tão superior em armas e soldados, colocou a tropa em movimento e passam ao largo das colunas do exército sem serem percebido, e ainda venceu em combate às tropas da reserva, onde morreu o comandante geral desta guarnição (PRESTES, 1995).

Ao entrar em Santa Catarina, metade dos combatentes resolvem permanecer no seu Rio Grande enquanto os demais seguiram para se juntar às tropas paulistas de Miguel Couto e de Isidoro Dias. Foram mais 40 dias de marchas forçadas, fazendo picadas em matas fechadas e com frequentes combates às forças legalistas. E num desses combates, na região de Maria Preta, em Santa Catarina, que a Coluna ganhou destaque nacional, duas tropas legalistas objetivaram cercar a Coluna pelos francos, só que ela se retirou e as tropas legalistas ficaram combatendo entre si durante toda a noite, com um saldo de mais de 200 soldados legalistas mortos. (PRESTES 1995, SODRÉ 1978).

Somente em abril de 1925, os revolucionários gaúchos e paulistas se encontraram. Em 12 de abril foi feita a reunião entre os dois comandos, o clima era de derrota entre os paulistas e de ânimo vitorioso entre os gaúchos. Luiz Carlos Prestes fez um discurso enérgico, conclamando a continuidade da luta, boa parte do comando paulista não concordou e se exilou na Argentina. Houve uma reorganização geral, o Marechal Isidoro Dias e outros oficiais idosos e os enfermos foram dispensados da nova marcha e se exilaram na Argentina. A Coluna foi dividida em dois comandos: a Paulista, com sub comando de Juarez Távora e a Gaúcha, com Prestes. O comando geral coube a Miguel Costa.

Entretanto, a situação era dramática, os revolucionários tinham diante de si as tropas legalistas do General Rondon, que se aproximavam para derrotá-los, e noutro franco três rios caudalosos e profundos: Paraná, Iguaçu e o Piquiri. O plano de Prestes consistia em entrar em território paraguaio, marchar 125 km e sair no Mato Grosso. E dessa forma foi feito.

Quando soube da retirada para o Paraguai, o presidente Arthur Bernardes declarou em todos os meios de comunicação a derrota da Coluna, e três dias depois teve que se retratar, ela havia reaparecido no Mato Grosso e atacado as tropas do Major Bertoldo Klinger, daí seguiu realizando ataques e retiradas, até que em 11 de novembro a Coluna Atravessa o rio Tocantins e entra no Maranhão.

 

Fonte: Por John Kennedy Ferreira, em A Terra é Redonda

 

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