O
governo bate recordes de arrecadação, mas parece faltar dinheiro para tudo
Um
trouxa! Da cabeça aos pés! É assim que o cidadão brasileiro se sente quando se
dá conta das decisões absurdas anunciadas em seu nome — mas que, no fundo, no
fundo, só servem para beneficiar os políticos que as tomam. E que tentam
esconder suas verdadeiras intenções atrás de argumentos nobres, que mencionam a
defesa do povo, as instituições ou a democracia. Atenção! Neste exato momento,
o cidadão tem motivos de sobra para se sentir, mais uma vez, enganado por quem
deveria trabalhar por ele.
Na
semana passada, enquanto a imprensa só tinha olhos para os problemas que
envolvem o senador e candidato a presidente Flávio Bolsonaro (PL/RJ) e para os
desdobramentos de suas ligações com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, pouca gente
tomou conhecimento de algumas decisões absurdas tomadas na calada da noite. E o
pior é que nenhuma das autoridades que as tomaram se mostraram envergonhados
por seus próprios atos.
O
primeiro absurdo aconteceu na terça-feira, quando o presidente da Câmara dos
Deputados, Hugo Motta, sem qualquer aviso, incluiu na pauta da Casa o Projeto
de Lei 4822/25. Apelidado de Minirreforma Eleitoral, o texto dói como um soco
no estômago de quem trabalha e paga os impostos que sustentam a máquina
estatal. Aprovada em votação simbólica — sem que um único deputado da situação
ou da oposição assumisse a responsabilidade pela decisão e sem que um único
líder partidário subisse à tribuna para criticar a pouca vergonha —, a proposta
é recheada de absurdos.
O
projeto, que seguiu para apreciação do Senado, onde provavelmente será aprovado
a toque de caixa, concede aos partidos políticos brasileiros mais regalias do
que eles já têm. Entre elas, a mais bizarra permite que “partidos políticos,
mandatários e candidatos” utilizem o telefone celular para mandar “mensagens de
propaganda eleitoral e partidária aos eleitores”. Eleitores, preparem-se! O
Brasil tem 30 partidos políticos em condição de disputar as eleições. Essa
quantidade de remetentes já seria suficiente para entulhar o telefone do
cidadão com mensagens que, na maioria dos casos, ele não pediu para receber.
Mas a situação é ainda pior. Pense, por exemplo, no caso do eleitor de São
Paulo.
No
maior estado do país, 1410 candidatos concorreram a deputado federal e 2055 a
deputado estadual nas eleições passadas — 3465 no total. Os números no Rio de
Janeiro foram menores, mas, mesmo assim, robustos. Houve 1045 candidatos a
deputado federal e 1573 à Assembleia Legislativa — 2618 no total. Cada um
desses políticos poderá abarrotar os telefones de cada cidadão de seus estados
com pedidos de votos. Já pensou como isso será desagradável?
DINHEIRO
INTOCÁVEL
Em
tempo: o texto proíbe expressamente o bloqueio dos números pelos provedores de
mensagens SMS e de Whatsapp — com exceção para os casos de ordem judicial.
Essas mensagens não poderão ser consideradas como disparos de massa, mesmo que
tenham sido mandadas por robôs. Para não ser incomodado, o próprio eleitor terá
que bloquear, um por um, os remetentes que não contam com sua simpatia. Não
seria melhor que o próprio cidadão fosse atrás de informações sobre os
candidatos de seu interesse?
A parte
mais escandalosa, porém, é a que se refere ao uso do dinheiro do Fundo
Partidário e do Fundo Especial de Financiamento de Campanha (FEFC), mais
conhecido como Fundão Eleitoral. Não se trata de uma ninharia. Muito pelo
contrário. Para o Fundo Partidário, o orçamento de 2026 reserva o valor de R$
6,4 bilhões. Para o Fundão Eleitoral, R$ 4,9 bilhões. A soma é de R$ 11,3
bilhões, só para essas rubricas. A Lei torna o dinheiro desses Fundos
praticamente intocáveis pela Justiça e limita a R$ 30 mil as penalidades
aplicadas sobre as fraudes que costumam ser cometidas nas prestações de contas.
Aí é que vem a parte mais reveladora das verdadeiras intenções de Suas
Excelências. Se alguma irregularidade flagrante vier a ser cometida no uso
desse dinheiro e, caso a Justiça Eleitoral veja nisso motivo forte o bastante
para aplicar uma multa ao partido ou ao candidato, a agremiação terá 15 longos
anos para quitar a fatura. Isso mesmo: 15 anos!
É bom
insistir nesse ponto para não haver dúvidas. As multas aplicadas pela Justiça
Eleitoral aos partidos que farão (e mesmo dos que já fizeram) mau uso do
dinheiro reservado no orçamento federal para sustentar suas estruturas
nababescas, passarão a ser quitadas em suaves prestações mensais. Isso
significa que a multa, no valor máximo de R$ 30 mil, resultará em um carnê com
180 boletos de R$ 166,66. Você chamaria isso de punição?
Essas
são apenas algumas das regalias que Suas Excelências se deram na votação do
projeto. Mas o texto aprovado pela Câmara e que — é sempre bom insistir — não
deverá encontrar obstáculos no Senado, não foi a única atitude tomada para
facilitar a vida dos políticos. Na semana passada, Davi Alcolumbre (União/AP) —
o poderoso mandachuva do Senado — e o sempre diligente Hugo Motta saíram em
defesa de outra chaga da política nacional: a farra das emendas parlamentares.
LIBERA
GERAL
Falando
a prefeitos reunidos para a 27ª Marcha a Brasília em Defesa dos Municípios, na
presença de Motta e do ministro das Relações Institucionais, José Guimarães
(PT/CE), Alcolumbre anunciou a convocação para os próximos dias de uma sessão
do Congresso Nacional destinada a derrubar o veto 51/2025, determinado pelo
presidente Luiz Inácio Lula da Silva à Lei de Diretrizes Orçamentárias votada
no dia 4 de dezembro do ano passado. A decisão do presidente impede que mais de
três mil municípios com até 65 mil habitantes e que têm pendências fiscais
possam firmar convênios e receber mais dinheiro da União — inclusive por meio
das famigeradas emendas parlamentares.
Preste
atenção a este número: o Brasil tem um total de 5.569 municípios! Entre eles,
mais da metade — ou seja, os “mais de três mil” mencionados por Alcolumbre —
está impedida de receber investimentos federais por ter cometido alguma
irregularidade. O prefeito pode ter aplicado algum calote, pode ter deixado de
prestar contas por verbas recebidas anteriormente ou pode ter cometido algum
desvio no uso do dinheiro público. Pode, simplesmente, não ter condições de
arcar com as contrapartidas dos convênios que firmou. E o que propõem Suas
Excelências para resolver esse problema?
Bem...
Ao invés de exigir que as prefeituras se adequem à própria realidade, acertem
as contas e deixem a casa em ordem antes de pleitear mais dinheiro federal,
Alcolumbre e outras autoridades pretendem liberar geral! E permitir que mais
dinheiro do contribuinte continue irrigando municípios, ou melhor, a
prefeituras que o gastarão sem se preocupar com a necessidade de prestar contas
sobre o destino do dinheiro.
Os
defensores das emendas, é claro, têm argumentos nobres para justificá-las.
“Aqui em Brasília, de maneira quase constante, há uma intenção de se
criminalizar o destino de emendas parlamentares para os municípios
brasileiros”, disse o deputado Hugo Motta no mesmo encontro de prefeitos. “As
emendas são instrumentos legais de participação do Congresso no Orçamento da
União para atender às demandas dos municípios, das comunidades mais distantes”,
acrescentou.
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DINHEIRO
PELO LADRÃO
Quem
escuta as justificativas que há por trás de medidas como essa tem a impressão
de que a população dos municípios menores e mais pobres não consegue viver sem
elas. Os que defendem argumentos em defesa do “caráter democrático” das
emendas, que são instrumentos que “levam recursos federais a regiões que não os
receberiam de outra maneira” se esquece de dizer que poucas localidades do país
conseguem caminhar com as próprias pernas. E que sobrevivem apenas às custas do
Fundo de Participação dos Municípios — abastecido com dinheiro de impostos
federais. Antes de pleitear mais recursos por meio de emendas, essas
localidades deveriam se preocupar em gastar bem os valores que já recebem.
Simples assim.
O
orçamento federal deste ano prevê nada menos do que R$ 60 bilhões para serem
gastos pelos parlamentares na forma de emendas impositivas, de emendas de
bancada e de outras modalidades desse mecanismo que, na prática, significa
tirar das mãos do Executivo e transferir para o Legislativo a responsabilidade
pelo uso do dinheiro do contribuinte. É evidente que existem deputados que
gastam esses recursos com critérios que, de fato, beneficiam o cidadão. Mas a
quantidade de dinheiro mal utilizado ou desviado é suficiente para deixar
qualquer brasileiro com a pulga atrás da orelha em relação a esse instrumento.
Cada
deputado e cada senador tem o direito de escolher onde aplicar R$ 39,3 milhões
por ano em emendas impositivas. Isso significa perto de R$ 160 milhões nos
quatro anos de mandato do deputado e R$ 315 milhões nos oito anos de mandato do
senador. Essas são as emendas impositivas. Por meio delas, o dinheiro é gasto
sem que o projeto tenha que passar pelo crivo de qualquer órgão de fiscalização
e controle. Metade dos recursos têm que ser destinados à saúde. A outra metade
pode ter o destino que o parlamentar bem entender.
Exemplos
de má utilização desse dinheiro estão por toda parte. Em 2024, a Controladoria
Geral da União encontrou R$ 73 milhões em emendas destinadas à compra de
ambulâncias em 12 estados. Cada veículo custaria, a preços de mercado, R$ 190
mil. Na prática, porém, o contribuinte gastou R$ 320 em cada ambulância, o que
significa um sobrepreço de 68%.
Não é
só. Em abril de 2025, uma operação da Polícia Federal identificou R$ 140
milhões em emendas repassadas a três ONGs ligadas a assessores diretos dos
parlamentares que liberaram o dinheiro em troca de serviços que não foram
prestados. Há, ainda o caso conhecido como “Rachadinha das Emendas” — um
esquema pelo qual as prefeituras beneficiadas devolviam ao parlamentar uma
parte do dinheiro das emendas liberadas. O valor da brincadeira chegou a R$ 38
milhões. São apenas alguns exemplos.
É claro
que há vozes contrárias ao mau uso desse instrumento — e o ministro Flávio
Dino, do STF, tem se esforçado para colocar ordem na situação. Mas cada decisão
que ele toma no sentido de dificultar que o dinheiro continue saindo pelo
ladrão é respondida por discursos como os de Alcolumbre e Hugo Motta — que
consideram qualquer tentativa dos outros poderes de moralizar o acesso a esse
dinheiro é criticada como uma interferência indevida no Legislativo.
RECORDES
DE ARRECADAÇÃO
O
problema é que os deputados e senadores que defendem esses mecanismos que, na
prática, ampliam suas regalias se comportam como se estivessem agindo em defesa
dos mais legítimos interesses do cidadão. O relator da Minirreforma Eleitoral,
deputado Rodrigo Gambale (Podemos/SP), que fez alterações no projeto
apresentado pelo deputado Pedro Lucas (União/MA), disse que o texto promove
"alterações estruturais e necessárias" para otimizar a gestão
partidária. A intenção, segundo ele, é proporcionar segurança jurídica às
legendas e “adequar as regras de fiscalização” aos princípios da
proporcionalidade e da razoabilidade.
Esse
palavreado empolado, no entanto, não esconde a intenção de livrar os partidos
políticos e seus dirigentes de toda e qualquer responsabilidade sobre o uso das
verbas eleitorais. Nos países de democracia consolidada, em que o dinheiro do
povo é tratado com mais seriedade do que no Brasil, os partidos e as campanhas
eleitorais são financiados com recursos dos próprios filiados ou com doações
dos apoiadores mais abonados. No Brasil, ao contrário, os políticos entendem
que o contribuinte tem a obrigação de trabalhar e pagar impostos para sustentar
suas regalias.
Antes
de prosseguir, um aviso: tratar o dinheiro público com descaso não é uma
exclusividade do Poder Legislativo. O Executivo também não perde a mania de
gastar dinheiro a rodo não com os programas estruturantes que deveriam ser
financiados pelo Erário, mas com medidas assistencialistas e populistas
destinadas exclusivamente a cortejar o eleitor e manter a situação como está. O
Judiciário, por sua vez, também não parece muito preocupado com isso e, com
raras e honrosas exceções, como é o caso do ministro Dino, parece não agir com
rigor para fechar as frestas existentes na legislação. É por essas frestas que
escoa o dinheiro público que deveria ser destinado a melhorar a qualidade da
infraestrutura, a bancar a segurança pública e a fazer investimentos que resultem
em melhorias reais na qualidade de vida da população.
Em meio
a tudo isso, um aspecto chama atenção. O governo tem batido um recorde de
arrecadação atrás do outro. Na sexta-feira passada, a Receita Federal divulgou
os números referentes à coleta de impostos em abril deste ano e o valor é
impressionante. Foram R$ 278 bilhões recolhidos em impostos federais — o que
significa quase 8% acima da arrecadação de abril do ano passado, já abatido o
efeito da inflação. O problema é que, quanto mais dinheiro entra no caixa, mais
aumenta a impressão de que não há dinheiro para nada.
Um dia
depois de anunciar o recorde de arrecadação, o Ministério do Planejamento
anunciou o “contingenciamento” de R$ 23,7 bilhões no orçamento federal. O valor
previsto anteriormente era de R$ 1,6 bilhão. “Contingenciamento” é o termo
técnico usado para se referir a despesas que estavam previstas mas que, por
falta de dinheiro, o governo decide não autorizar.
A
justificativa mais comum para essa decisão é a necessidade de manter os gastos
federais dentro dos limites estabelecidos pela meta fiscal. A pergunta que fica
é: se a despesa já estava prevista e a arrecadação superou as expectativas,
qual é a razão da falta de dinheiro? De duas, uma: ou as contas foram feitas
sem o devido cuidado e as despesas previstas no orçamento não refletem a
realidade ou, então, novas despesas foram incluídas depois que o texto já
estava pronto e consumiram os recursos que deveriam ser destinados aos
programas previstos inicialmente. Simples assim. A verdade, porém, é que,
enquanto o dinheiro do contribuinte não for levado a sério, o país andará em
círculos e a sociedade verá seus sonhos de uma vida melhor e mais segura
reduzidos a pó.
Fonte:
Por Nuno Vasconcellos, em O Dia

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