Líder
neonazista da Escandinávia vive em liberdade no Brasil
Criar
uma colônia de supremacistas brancos e nazistas em Santa Catarina e, a partir
de uma rede online, instigar ataques terroristas, tendo como alvos judeus e
negros. Estes eram os objetivos de Vincent Alexander Pacheco Weidlich. Filho de
mãe brasileira e pai alemão, nascido nos Estados Unidos, o homem de 36 anos foi
preso pela Polícia Federal em Blumenau (SC), no fim de 2024, e condenado, em
setembro de 2025, pela Justiça Federal, sob a acusação de terrorismo e
incitação ao genocídio por meio da veiculação de material relacionado ao
nazismo e ao discurso de ódio. Mas, menos de um ano depois, foi solto e segue
em liberdade, em São Paulo.
Naquele
ano, a partir de uma denúncia no TikTok, a Polícia Federal interceptou
publicações na rede social e grupos nas plataformas de mensagem Telegram e
Signal em que ele convocava atos terroristas para o dia 16 de outubro – mesma
data em que Adolf Hitler faz seu primeiro discurso público em uma reunião
política e em que dez dos principais líderes nazistas foram executados após os
Julgamentos de Nuremberg.
De
acordo com os documentos processuais aos quais a Agência Pública teve acesso,
os alvos dos atentados convocados por Weidlich seriam grandes bancos,
corporações de mídia e diversas empresas, além de sinagogas e mesquitas, “com
vistas a propagar terror social e generalizado”, conforme destacou um dos
documentos do processo judicial. Tudo isso teria como pano de fundo uma suposta
revolução neonazista. “Vamos fazer deste um dia inesquecível”, afirmava ele nos
grupos de mensagem.
Os
grupos mantidos pelo neonazista reuniam pelo menos 140 pessoas de vários
estados brasileiros e até de outros países, como Alemanha, Suécia, Rússia e
Estados Unidos. Ele se apresentava como um facilitador, oferecendo meios para
aquisição de armas e também arquivos ensinando como fazer bombas. Segundo as
investigações da PF, Weidlich operava ao menos dois perfis no TikTok para
divulgar seus planos de criar a colônia neonazista e cooptar membros para
grupos no Signal e no Telegram.
Os
dados levantados pela polícia apontam conexões diretas de números de celular e
de IPs vinculados a Weidlich com a criação de ao menos dois perfis no TikTok,
entre agosto e setembro de 2024, em que ele publicava supostas receitas de um
possível explosivo caseiro com a mistura de diversos produtos químicos – um dos
números cadastrados estava registrado justamente no endereço que ele apresentou
à Justiça Federal em 2023 como sua residência, para justificar seu pedido de
nacionalidade brasileira.
Um dos
grupos, no Telegram, segundo o processo, era intitulado “Black Sun Rising
Militia”. O Sol Negro (Black Sun) é um símbolo frequentemente associado ao
movimento neonazista e ornava a sede da SS (Schutzstaffel/Esquadrão de
Proteção), organização paramilitar e polícia política do regime nazista. Todos
os grupos foram extintos após a prisão dele, segundo a polícia.
A PF
fez buscas em um endereço ligado a Weidlich em São Paulo e encontrou uma
máscara de gás, além de diversos materiais químicos que, de acordo com as
investigações, poderiam ser utilizados para fazer bombas.
Segundo
os documentos, após a detenção em Santa Catarina, Weidlich passou pouco mais de
um ano recolhido, entre um Centro de Detenção Prisional e o Hospital de
Custódia e Tratamento Psiquiátrico Doutor Arnaldo Amado Ferreira, em Taubaté.
Em 5 de
fevereiro deste ano, ele foi liberado pela Justiça de São Paulo, após cumprir
período de internação em um hospital psiquiátrico. “Em outras palavras, embora
tenha cometido o crime, a falta de culpabilidade exclui a reprovabilidade da
conduta”, registrou o juiz federal Marcelo Duarte da Silva. No dia 20 de
fevereiro, já em liberdade, ele requisitou liberação de viagem para deixar o
Brasil. Além do passaporte alemão, Weidlich também tem documentos
norte-americanos e, desde 2023, a cidadania brasileira, que foi concedida
também pela Justiça Federal.
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Por que isso importa?
• Weidlich mantinha grupos e perfis em
plataformas como Signal e TikTok, com participantes de vários estados
brasileiros e de outros países, onde convocava atos terroristas em bancos,
sinagogas e mesquitas;
• Apontado como um dos principais
articuladores do movimento neonazista da Escandinávia, ele foi preso em
Blumenau (SC), mas solto pouco tempo depois por alegação de insanidade mental.
Agora, vive em São Paulo, onde aguarda liberação para sair do Brasil.
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Colônia supremacista
No dia
21 de fevereiro de 2024, Weidlich lançou a seguinte proposta em um grupo do
Telegram: “E se começarmos uma espécie de cidade nossa, como conseguir
empregos/comprar terras/casas em uma cidade específica que já existe? Eu tive
uma ideia parecida antes de começar uma micronação dentro da Noruega, mas isso
não funcionou por causa dos ‘judeus’, pelo menos por enquanto. E Blumenau no
Brasil?”. A ideia seria direcionada a “ultratradicionalistas,
nacional-socialistas, nórdicos, germânicos e eslavos do oeste” – em suma,
códigos para supremacistas brancos e neonazistas.
No
Google Maps, um perfil vinculado a ele chegou a criar um local no bairro Velha,
em Blumenau, que seria uma espécie de ponto de organização do projeto da
colônia supremacista, com a oferta de serviços de aquisição de visto de
trabalho e investimento imobiliário. Poucos dias antes de ser preso pela
Polícia Federal, Weidlich informava nas redes sociais que estava abandonando os
planos de Blumenau por um local na Rússia, nas imediações de Moscou, segundo as
investigações.
A
mensagem de “boas-vindas” do grupo no Telegram era direta: “Recém-chegados. O
objetivo de nossa milícia é matar todos os judeus do mundo, enviar todos os
negros e peles de merda de volta para onde vieram (ou matá-los se eles se
recusarem). O caminho para o nosso objetivo inclui aumentar nossos números e
nos armar com fogo, bombas, balas, etc., e obter mais exposição por meio do
ativismo comunitário e clubes ativos, outros grupos nacional-socialistas e
muito mais. Também estaremos intervindo para preencher os vácuos de poder que
se abrirão em muitas de nossas nações, quando os governos entrarem em colapso”,
destacava o trecho inicial, que se seguia. “Sim. Eu sou claramente um
terrorista, isso deveria ser óbvio pelo nome do grupo, bem como pela mensagem
de boas-vindas”.
Aparentemente
temeroso de uma exposição por meio do Telegram e do Signal, Weidlich chegou a
montar um grupo menor, com cerca de 40 membros, intitulado “Pátria do Passado”,
no Signal. Nele estaria o núcleo principal da rede neonazista, que seria
formado por empresários e por lideranças do partido “A Pátria”, agremiação
alemã de extrema direita tida como a sucessora do partido nazista, apontam os
documento do processo. O objetivo do grupo não seria ações terroristas, mas sim
a criação da colônia “ariana” no sul do Brasil. Todo o plano de criação da
comunidade, com 140 páginas, segue disponível on-line na plataforma Weebly,
sediada nos EUA.
A
reportagem fez contato com o TikTok e o Signal para saber como os grupos
neonazistas foram mantidos ativos sem nenhuma intervenção das plataformas, mas
não conseguiu retorno até a publicação. Também tentamos contato com a Weebly
sobre a manutenção das informações da comunidade neonazista, mas não tivemos
retorno até a publicação.
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Conexões brasileiras
A
primeira passagem de Weidlich no Brasil foi em 2007. Aqui, ele fez trabalhos
como DJ e conseguiu o registro do seu CPF. No ano anterior, a mãe dele
estabeleceu negócios e residência no Rio Grande do Norte. A empresa São Jorge
Empreendimentos teve sede inicial em uma residência de alto padrão nos
arredores do campus central da Universidade Federal do RN, com direito a
piscina e guarita de segurança.
Ele
viveu na Inglaterra e em Kongsberg, na Noruega, onde passou cerca de dois anos.
A cidade de 27 mil habitantes abriga o grupo Kongsberg, importante produtor de
armas e sistemas de defesa do país. Uma investigação conduzida pela jornalista
sueca My Vingren, publicada em 2023, aponta que ele mudou-se para a cidade
justamente pela presença da empresa e que tentou abordar diversos membros da
companhia, além de ter alugado a casa de um diretor do grupo.
Vingren
identificou Weidlich como o principal articulador do movimento neonazista
escandinavo na época, através de um grupo chamado Federação Nórdica, que
disseminava conteúdos racistas, LGBTfóbicos e xenofóbicos. A história foi
transformada no documentário “Hacking Hate”, dirigido por Simon Klose, que
venceu o prêmio de sua categoria no Festival de Tribeca, em Nova York, já na
sua estreia mundial, em junho de 2024.
De
acordo com a reportagem de Vingren, nos grupos da chamada Federação Nórdica ele
falava constantemente sobre a importância do apoio militar aos grupos de
extrema direita, que seria mais central até do que apoio político. “Primeiro
tentamos votar pela mudança. Se isso não funcionar, então é uma tomada
militar”, escreveu Weidlich. Após a exposição de sua atuação como mobilizador
da extrema direita na Escandinávia, Weidlich passou a apagar seus rastros
digitais. Contas em redes sociais foram deletadas ou fechadas.
Mesmo
depois do documentário, Weidlich não foi preso. Ele deixou a região já perto do
fim do primeiro semestre de 2022. Passou por Moscou e São Petersburgo, na
Rússia, e Istambul, na Turquia, sempre frequentando locais de luxo. Isso tudo a
poucos meses após a invasão russa à Ucrânia. Na época, sua companheira era
russa. Ela esteve no Brasil até novembro de 2024, retornando ao seu país após a
prisão de Weidlich, como apontam registros da Justiça Federal.
Ainda
em 2022, o neonazista voltou ao Brasil, mais especificamente no Rio Grande do
Norte. Imagens publicadas em redes sociais dele e da pessoa que seria sua
namorada, mostram registros nas praias do estado nordestino, incluindo a
estadia em um dos mais caros hotéis da praia da Pipa, destino famoso da região,
compras em shopping, visita a cafés e cabeleireiros da capital.
Para
além das redes sociais, naquele período, Weidlich também estabelecia-se como
sócio de sua mãe na São Jorge Empreendimentos, que permanece em atividade. A
empresa, no início de 2025, concluiu a infraestrutura de um condomínio de casas
localizado a poucos quilômetros do Aeroporto Internacional de Natal, no que é o
único registro de empreendimento da empresa no Rio Grande do Norte em 17 anos.
A área, no entanto, até a publicação desta reportagem não dava sinais de
ocupação ou construção de casas, nem muito menos anúncio de vendas dos lotes.
Segundo os documentos de registro, o terreno tem mais de 69 mil m² e o
loteamento terá 200 terrenos de 200 m².
Outros
rastros mostram a conexão permanente de Weidlich no Brasil, mais
especificamente em São Paulo, nos meses seguintes à sua passagem pelo Rio
Grande do Norte. Novamente, registros nas redes sociais dele indicam diversos
passeios e estadias em hotéis na capital e no interior paulista, bem como
visitas a Gramado, no Rio Grande do Sul. Em março de 2023, por intermédio de um
advogado, ele apresentou à Justiça Federal em São Paulo uma petição pela opção
de nacionalidade brasileira.
A
alegação central era de que não ter a nacionalidade estava causando
constrangimento e impedindo a vida plena dele no país, incluindo nisso abertura
de conta bancária, e que a “vida civil” estaria dependente da mãe. Na condição
de filho de brasileira e apresentando o contrato de aluguel de um apartamento
com valor mensal superior aos R$ 6 mil, ele conseguiu que seu pedido fosse
atendido cinco meses após a abertura do processo.
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A vida no Brasil
Assim
que voltou ao Brasil, em meados de 2022, também por meio de um perfil no
TikTok, Weidlich postava vídeos e mensagens em português sobre o Grupo Wagner,
algumas delas tratando de convocação para atuar na organização paramilitar
russa. O Grupo Wagner notabilizou-se mundialmente a partir da invasão à Ucrânia
como um importante braço armado de Vladimir Putin, mas que antes atuava em
missões na Síria e em países da África utilizando, para além dos fuzis e
pistolas, táticas de desinformação e desestabilização social e política. O time
de mercenários também é conhecido por frequentemente contar com neonazistas em
suas fileiras – o próprio nome do grupo é em homenagem ao músico alemão Richard
Wagner, antissemita e compositor de ópera favorito de Hitler.
A
presença em Blumenau também dá pistas das intenções de Weidlich. A cidade
catarinense, que já passou por diversas operações policiais de combate a
células neonazistas, foi a primeira visitada pelo Conselho Nacional de Direitos
Humanos (CNDH) em 2024 dentro do trabalho da relatoria especial criada pelo
órgão para o enfrentamento ao neonazismo no Brasil.
A
missão é chefiada pelo advogado Carlos Nicodemos. “Quando assumi essa relatoria
não tinha ideia do tamanho do problema. São inúmeros casos. A crescente
presença do neonazismo na nossa sociedade precisa ser enfrentada de forma
sistemática. No caso de Blumenau, encontramos dificuldade até com as
autoridades, que, em tese, investigariam os crimes, mas questionavam a
existência do problema. Ainda temos muito trabalho pela frente, mas já tenho
claro que precisamos de mudanças de postura, de legislação, e o neonazismo deve
ser combatido a nível federal”, disse ele, que representa os movimentos sociais
dentro do CNDH.
Ainda
segundo Nicodemos, o fato de Vincent Weidlich já estar solto após pouco tempo
da operação policial que o prendeu reforça a necessidade da mudança de olhar
institucional para a questão do neonazismo no Brasil. “A sentença retrata o
cenário nacional quanto à ausência de uma política nacional para o efetivo
enfrentamento ao tema. A ausência de uma institucionalidade normativa objetiva
leva o Judiciário à busca de ajustes normativos penais atípicos. É deste
contexto que nascem decisões judiciais como nesse caso, que atacam a questão
normativamente, mas se furtam, se omitem no campo das políticas públicas”,
completou o relator.
Procurada
por e-mail e por telefone, a defesa de Vincent Weidlich não deu retorno à
reportagem até o fechamento da matéria. Procuradoria do MPF e delegacia da PF
em São Paulo alegaram sigilo no caso e não quiseram comentar.
Fonte:
Por Paulo Nascimento, da Agência Pública

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