Luís
Nassif: Lula 4 e os ensinamentos da história
Marcos
Nobre é um cientista político bastante articulado, um dos melhores observadores
da cena política. Em entrevista à BBC ele analisa as eleições, à luz da
descoberta das relações Master-Flávio Bolsonaro. E diz, acertadamente, que o
timing do escândalo foi bom para Flávio, porque dará tempo de corrigir
problemas de comunicação e, até às eleições, haverá a diluição do escândalo.
Traz,
também, um bom diagnóstico dos governos Lula, mas com uma conclusão discutível.
Em
linhas gerais, ele divide a polarização brasileira, pós-Lula, em dois campos:
os distributivistas (sem afrontar os interesses do andar de cima) e os
não-distributivistas. Lula teve sucesso na primeira fase do distributivismo,
contando com folga no orçamento, em função do boom das commodities. Essa folga
permitiu o Bolsa Família sem afrontar os interesses das classes altas.
Em Lula
3 não havia mais esse espaço, e houve a necessidade das trocas: isenção de
Imposto de Renda para quem ganha menor em troca de tributação sobre os altos
ganhos e sobre os dividendos.
Um Lula
4 teria que aprofundar esse conflito, se não quiser perder a base eleitoral.
A
grande questão é: como enfrentar essa batalha sendo minoritário no Congresso e
com um Supremo Tribunal Federal disposto a desconstruir a legislação
trabalhista?
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Os pactos políticos
A
história não recomenda esse tipo de confronto.
O
segundo governo Vargas conseguiu lançar as bases da industrialização e
conquistar o apoio de grandes grupos empresariais, como os Matarazzo, os
Klabin, os Lafer, Walther Moreira Salles. Sua bancada apoiou a CPI da Última
Hora, sabendo que os demais grupos jornalísticos haviam recebido muito mais
favores do que o jornal de Samuel Wainer.
De nada
adiantou. A CPI gerava uma profusão de notícias, mas o controle das narrativas
era do cartel de jornais. Com todos esses apoios, Vargas terminou esmagado pela
campanha midiática, liderada pela rádio Globo, aliada ao militarismo golpista.
Já
Juscelino Kubitscheck recorreu a uma estratégia absolutamente inovadora, para
períodos democráticos.
No
Brasil, a emergência de setores empresariais novos sempre acaba esmagado pela
ação da mídia, empenhada em defender os setores já estabelecidos. O que JK fez
foi cooptar os donos do dinheiro, para que participassem da empreitada de
industrialização.
O Plano
de Metas foi desenhado por técnicos, abrigados no recém-criado BNDE. Eles
planejavam os novos setores e o espaço que caberia ao capital nacional, com o
apoio adicional do BNDE.
O Plano
criou três camadas distintas de beneficiários nacionais:
(1) as
estatais herdadas de Vargas, que foram expandidas e capitalizadas;
(2) as
empreiteiras de obras públicas, que cresceram institucionalmente com o
rodoviarismo e Brasília; e
(3) a
indústria de base privada nacional em setores como cimento, celulose e metais.
O
capital estrangeiro ficou concentrado nos bens de consumo duráveis — e mesmo
aí, como no caso da Vemag, havia sócios nacionais. A Instrução 113 da SUMOC
beneficiou multinacionais, mas os incentivos cambiais, fiscais e creditícios
beneficiaram a todos, inclusive aos estados onde se localizariam os
empreendimentos.
Os
exemplos:
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1. Energia (Furnas, Três Marias, Paulo Afonso)
JK
investiu maciçamente em energia, realizando as obras de Três Marias,
multiplicando o potencial da hidrelétrica de Paulo Afonso e cuidando da
primeira etapa de Furnas. O setor de energia elétrica tinha dois grandes
projetos: a construção da barragem de Três Marias (480 MW) e a Central Elétrica
de Furnas S.A. (1.100 MW), ambas em Minas Gerais, num projeto de interligação
da produção e distribuição no Centro-Sul.
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Beneficiários nacionais:
-
Estado diretamente, via Chesf, Furnas e Cemig — empresas de capital nacional
estatal. O setor de engenharia pesada nacional se capitalizou nas obras civis
das barragens.
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2. Transportes (rodovias)
A
construção de Brasília ampliou a malha rodoviária, gerando a Belém-Brasília
(2.400 km), a Brasília-Rio via Belo Horizonte (1.200 km), a São Paulo via
Goiânia (1.150 km), além de eixos para o Acre e Fortaleza. Esse conjunto
estimulou a engenharia brasileira em todas as suas vertentes e multiplicou as
atividades das empresas construtoras e empreiteiras.
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Beneficiários nacionais:
-
Beneficiamento e fortalecimento do componente privado na relação entre o
sistema DNER/DER e as empreiteiras de obras públicas. Os crescentes contatos
levaram à capitalização das empresas, que puderam comprar equipamentos,
incrementar produtividade e ampliar seu poder de influência com a burocracia. É
nesse período que empreiteiras como Camargo Corrêa, Andrade Gutierrez e Queiroz
Galvão dão um salto qualitativo de porte e articulação institucional.
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3. Siderurgia e Indústria de Base
O setor
siderúrgico recebeu investimentos na Companhia Siderúrgica Nacional e na
Belgo-Mineira (capital misto), com crescimento de 80%. A indústria de base
abrangia siderurgia, alumínio, cimento, álcalis, papel e celulose, borracha,
metais não ferrosos, mecânica e material elétrico.
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Beneficiários nacionais:
- A
siderurgia se montou com capitais nacionais estatais (BNDE) e japoneses
(Usiminas). Ao final do governo JK, os principais setores industriais
brasileiros, à exceção de automóveis, autopeças e farmacêuticas, tinham
participação majoritária de capital nacional. Além disso, não houve
desnacionalização de nenhuma das empresas estatais criadas por Vargas:
Petrobras, Vale do Rio Doce, BNDE, FNM, CSN, Cosipa e Álcalis permaneceram
estatais e foram fortalecidas, sendo cruciais para o êxito do Plano.
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4. Indústria Automobilística (GEIA)
Um dos
maiores legados do Plano de Metas foi a criação do parque industrial
automotivo. Empresas como Volkswagen, Ford e General Motors se estabeleceram no
país. O governo incentivou a produção nacional por meio de políticas de isenção
fiscal e construção de estradas.
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Beneficiários nacionais:
- A
automobilística se montou predominantemente com capitais alemães (Volkswagen),
franceses (Simca) e nacionais (Vemag), mas com participação de capital nacional
em todas as montadoras. O setor de autopeças, por exigência de índice de
nacionalização progressivo estabelecido pelo GEIA, gerou um amplo parque
nacional de fornecedores no ABC paulista. Entre as empresas responsáveis
figuravam também a Fábrica Nacional de Motores, de capital estatal.
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5. Construção Naval (GEICON)
A
indústria de construção naval se montou com capitais japoneses, holandeses e
brasileiros. O GEICON tinha como objetivo coordenar e aprovar as medidas
necessárias à realização dos projetos de estaleiros.
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Beneficiários nacionais:
-
estaleiros de capital misto, especialmente no Rio de Janeiro (Ilha do
Governador), com participação do Lloyd Brasileiro e da Petrobras como âncoras
da demanda.
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6. Brasília (meta-síntese)
Setor
de maior acumulação concentrada de capital nacional, com o Estado como
contratante exclusivo via NOVACAP. O DNER promoveu a adjudicação dos serviços
por concorrências públicas por especialidade, agrupando firmas para
pavimentação, terraplanagem e obras de arte especiais, em várias frentes
simultâneas para adequar ao cronograma. A acusação de corrupção nas contratadas
foi constante desde o início — mas o resultado estrutural foi a formação das
grandes empreiteiras nacionais como atores políticos permanentes.
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A nova indústria
O
segredo está em desenhar o Plano de Metas do Lula 4, para terras raras,
datacenters e energia verde, economia da Amazônia, indústria de defesa,
indústria de bem estar, e abrir espaço para dois atores relevantes: o capital
industrial nacional e a transição do capital financeiro para as novas
oportunidades. Tratando de incluir em cada plano metas para pequenas e médias
empresas e para emprego.
¨
O custo político do recuo ideológico no terceiro mandato.
Por Paulo Nogueira Batista Jr.
Um tema
do momento é a dificuldade de traduzir os resultados econômicos do governo Lula
em intenções de voto para outubro. A recente crise da candidatura do principal
opositor, Flávio Bolsonaro, tranquilizou os apoiadores de Lula, mas a eleição
está longe de ganha, como sabemos, e o problema persiste.
O
governo Lula 3 produziu, de fato, resultados razoáveis, até bons, na área
econômica – crescimento do PIB (ainda que modesto, próximo de 3% a.a. em
média), desemprego aberto em queda (para os menores níveis registrados),
inflação controlada (embora com preços elevados de produtos críticos como
alimentos), entre outros feitos. É nítida a melhora em relação à situação que
vigorava nos governos Michel Temer e Jair Bolsonaro. Como explicar que a
eleição se mostre apertada, com grande parte das intenções de voto direcionada
a Flávio Bolsonaro?
But it’s not the economy, stupid! (mas não é a economia,
estúpido!),poderíamos dizer, invertendo o célebre chavão oriundo dos Estados
Unidos. Fatores não econômico pesam. E mesmo a economia não está lá essas
coisas – vide os juros escorchantes, o elevado endividamento das famílias, as
políticas governamentais inibidas pelo arcabouço fiscal, o reduzido
investimento público e privado etc. E não vamos perder de vista que a base de
comparação Temer/Bolsonaro é bem modesta, para dizer o mínimo.
Mas,
para além da economia, falta algo fundamental que talvez ajude a entender as
intenções de voto – o governo não tem marca, não tem audácia, não tem alma.
Desde o
seu início, em 2023, o governo federal e a sua precária base parlamentar estão
infestados de pessoas que pouco ou nada têm a ver com a transformação real do
país. Temos de tudo: neoliberais, carreiristas, fisiológicos, até sionistas. E,
meio perdidos nesse ambiente hostil, uma minoria de brasileiros que lutam
dentro do governo para defender e mudar o Brasil.
Não sei
se preciso dar exemplos, mas vamos lá. O Ministério do Desenvolvimento,
Indústria e Comércio (MDIC), ficou quase totalmente dominado por neoliberais. Uma
recente entrevista de página inteira do atual chefe do MDIC, Elias Rosa, ao
jornal Valor (4 de maio, p. A6) é sintomática do estado das
artes nesse ministério. Rosa foi secretário-executivo durante toda a gestão de
Geraldo Alckmin, ele próprio um neoliberal. Na entrevista, o flamante ministro
defende o desvantajoso acordo econômico com a União Europeia – no qual abrimos
nossos mercados industriais em troca de concessões pequenas e facilmente
revogáveis para o setor agroexportador – e se vangloria de ter assinado acordos
do mesmo naipe com Singapura e EFTA (European Free Trade Association – a associação
de livre comércio que inclui alguns países europeus não-membros da União
Europeia). Para completar o quadro, promete um acordo com o Canadá até o final
do ano. Com essa condução da política comercial, o Brasil terminará
amarrado a uma teia de acordos de corte neoliberal em que abrimos nossos
mercados à competição irrestrita com as empresas de países desenvolvidos,
condenando ao fracasso qualquer tentativa de reindustrialização do país. Na
verdade, seria melhor passar a chamar o MDIC de Ministério do
Subdesenvolvimento e da Desindustrialização.
O
Itamaraty, apesar dos esforços de muitos bons diplomatas, ficou prejudicado
pela presença insuficiente de quadros ligadas à tradição
nacional-desenvolvimentista, que já foi tão forte na casa. Isso se reflete na
condução das já referidas negociações comerciais externas, que foram levados a
cabo principalmente pelo Itamaraty e pelo MDIC. Os diplomatas envolvidos nessa
negociação são corresponsáveis pelo desastre.
No
Ministério da Fazenda, também faz falta a presença de quadros menos
comprometidos com o neoliberalismo e o carreirismo. Há exceções, notadamente
entre os mais jovens da equipe, mas foi fraca a atuação da Fazenda em vários
temas candentes – na construção do arcabouço fiscal (que acabou ficando
excessivamente ambicioso), na definição da diretoria do Banco Central (com a
escolha de nomes que não trazem qualquer perspectiva de mudança) e na quase
total omissão nas negociações comerciais externas. Foi fraca, também, a
participação do ministério no processo BRICS que o Brasil presidiu em 2025.
Juntamente com o Itamaraty e o Banco Central, a Fazenda liderou uma presidência
vazia de resultados importantes.
No
Ministério do Planejamento, pelos menos no tempo da ministra Simone Tebet que
deixou o cargo há pouco, a equipe quase inteira, com poucas exceções, era de
orientação neoliberal – e se existe algo que não combina de jeito nenhum com
planejamento é precisamente o neoliberalismo. E do Banco Central, bem, deste
nem preciso falar mais. Já tratei dele em artigo recente (“A
política de juros do Banco Central é um desastre”, 1 de maio de
2026).
Meu
pai, que morreu em 1994, costumava dizer: “O problema do Brasil é que deixamos
o adversário escalar nosso time.” Esse problema crônico, que se manifestou, em
maior ou menor medida, em todos os governos nas décadas recentes, aparece
claramente no atual. Um dos maiores diplomatas, se não o maior da sua geração,
meu pai era um exemplo notável desse problema. Ele teve carreira brilhante, mas
nunca chegou a ser ministro de Estado e nem secretário-geral. E, no entanto,
posso dizer com tranquilidade, e sem favor de filho para pai: ele era, como
diplomata e homem público, muito superior à maioria dos que exerceram essas
funções. Havia um problema, entretanto. A sua nomeação incomodaria os nossos
amigos do Norte. Melhor não arriscar, pensaram sucessivos presidentes.
Imagine,
leitor ou leitora, quantos brasileiras e brasileiros existem em todas as áreas
que têm inclinação para atuar no setor público, que possuem qualidades para
tal, mas não são convocados por serem honestos demais, independentes demais,
combativos demais! São vetados por políticos venais, por interesses econômicos
e por forças estrangeiras e seus aliados domésticos. Refiro-me ao sistema
financeiro e outros lobbies empresariais, à mídia corporativa, e a entidades
locais que representam ou são controladas por ideologias e interesses
estrangeiros. Da Febraban à Conib, da Fiesp à Rede Globo, da CNA à CNI.
Resultado:
o time escalado fica, na melhor das hipóteses, repleto de pessoas hábeis,
jeitosas, mas sem coragem e imaginação. São poucos os que entram em bola
dividida. E há muito cabeça de bagre. No fundo, no fundo, infelizmente, a
escalação é a própria imagem do Brasil – país em que sobra jogo de cintura, mas
falta espinha dorsal.
Na
nossa seleção atual, temos como centroavante, capitão e técnico do time um
presidente da República experiente, tarimbado, um jogador de fama
internacional. Perde uns gols incríveis, é verdade, mas a sua capacidade é
inegável. Eis o problema, porém: a bola chega nele? Ou ele é forçado a voltar à
intermediária para buscá-la? A verdade é que o centroavante acaba sem opções de
jogo, uma vez que boa parte do resto do time passa a bola para o lado ou para
trás – quando não faz gol contra!
Porém,
convenhamos, o capitão pode reclamar? Afinal, quem senão ele permitiu que os
adversários escalassem a nossa seleção?
E
ficamos assim com um time que joga para o empate ou até para perder de
pouco. Com esse tipo de time, claro, não se ganha partida nenhuma e muito menos
campeonato.
Fonte:
Jornal GGN/A Terra é Redonda

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