quinta-feira, 28 de maio de 2026

Luís Nassif: Lula 4 e os ensinamentos da história

Marcos Nobre é um cientista político bastante articulado, um dos melhores observadores da cena política. Em entrevista à BBC ele analisa as eleições, à luz da descoberta das relações Master-Flávio Bolsonaro. E diz, acertadamente, que o timing do escândalo foi bom para Flávio, porque dará tempo de corrigir problemas de comunicação e, até às eleições, haverá a diluição do escândalo.

Traz, também, um bom diagnóstico dos governos Lula, mas com uma conclusão discutível.

Em linhas gerais, ele divide a polarização brasileira, pós-Lula, em dois campos: os distributivistas (sem afrontar os interesses do andar de cima) e os não-distributivistas. Lula teve sucesso na primeira fase do distributivismo, contando com folga no orçamento, em função do boom das commodities. Essa folga permitiu o Bolsa Família sem afrontar os interesses das classes altas.

Em Lula 3 não havia mais esse espaço, e houve a necessidade das trocas: isenção de Imposto de Renda para quem ganha menor em troca de tributação sobre os altos ganhos e sobre os dividendos.

Um Lula 4 teria que aprofundar esse conflito, se não quiser perder a base eleitoral.

A grande questão é: como enfrentar essa batalha sendo minoritário no Congresso e com um Supremo Tribunal Federal disposto a desconstruir a legislação trabalhista?

<><> Os pactos políticos

A história não recomenda esse tipo de confronto.

O segundo governo Vargas conseguiu lançar as bases da industrialização e conquistar o apoio de grandes grupos empresariais, como os Matarazzo, os Klabin, os Lafer, Walther Moreira Salles. Sua bancada apoiou a CPI da Última Hora, sabendo que os demais grupos jornalísticos haviam recebido muito mais favores do que o jornal de Samuel Wainer.

De nada adiantou. A CPI gerava uma profusão de notícias, mas o controle das narrativas era do cartel de jornais. Com todos esses apoios, Vargas terminou esmagado pela campanha midiática, liderada pela rádio Globo, aliada ao militarismo golpista.

Já Juscelino Kubitscheck recorreu a uma estratégia absolutamente inovadora, para períodos democráticos.

No Brasil, a emergência de setores empresariais novos sempre acaba esmagado pela ação da mídia, empenhada em defender os setores já estabelecidos. O que JK fez foi cooptar os donos do dinheiro, para que participassem da empreitada de industrialização.

O Plano de Metas foi desenhado por técnicos, abrigados no recém-criado BNDE. Eles planejavam os novos setores e o espaço que caberia ao capital nacional, com o apoio adicional do BNDE.

O Plano criou três camadas distintas de beneficiários nacionais:

(1) as estatais herdadas de Vargas, que foram expandidas e capitalizadas;

(2) as empreiteiras de obras públicas, que cresceram institucionalmente com o rodoviarismo e Brasília; e

(3) a indústria de base privada nacional em setores como cimento, celulose e metais.

O capital estrangeiro ficou concentrado nos bens de consumo duráveis — e mesmo aí, como no caso da Vemag, havia sócios nacionais. A Instrução 113 da SUMOC beneficiou multinacionais, mas os incentivos cambiais, fiscais e creditícios beneficiaram a todos, inclusive aos estados onde se localizariam os empreendimentos.

Os exemplos:

>>> 1. Energia (Furnas, Três Marias, Paulo Afonso)

JK investiu maciçamente em energia, realizando as obras de Três Marias, multiplicando o potencial da hidrelétrica de Paulo Afonso e cuidando da primeira etapa de Furnas. O setor de energia elétrica tinha dois grandes projetos: a construção da barragem de Três Marias (480 MW) e a Central Elétrica de Furnas S.A. (1.100 MW), ambas em Minas Gerais, num projeto de interligação da produção e distribuição no Centro-Sul.

## Beneficiários nacionais:

- Estado diretamente, via Chesf, Furnas e Cemig — empresas de capital nacional estatal. O setor de engenharia pesada nacional se capitalizou nas obras civis das barragens.

>>> 2. Transportes (rodovias)

A construção de Brasília ampliou a malha rodoviária, gerando a Belém-Brasília (2.400 km), a Brasília-Rio via Belo Horizonte (1.200 km), a São Paulo via Goiânia (1.150 km), além de eixos para o Acre e Fortaleza. Esse conjunto estimulou a engenharia brasileira em todas as suas vertentes e multiplicou as atividades das empresas construtoras e empreiteiras.

## Beneficiários nacionais:

- Beneficiamento e fortalecimento do componente privado na relação entre o sistema DNER/DER e as empreiteiras de obras públicas. Os crescentes contatos levaram à capitalização das empresas, que puderam comprar equipamentos, incrementar produtividade e ampliar seu poder de influência com a burocracia. É nesse período que empreiteiras como Camargo Corrêa, Andrade Gutierrez e Queiroz Galvão dão um salto qualitativo de porte e articulação institucional.

>>> 3. Siderurgia e Indústria de Base

O setor siderúrgico recebeu investimentos na Companhia Siderúrgica Nacional e na Belgo-Mineira (capital misto), com crescimento de 80%. A indústria de base abrangia siderurgia, alumínio, cimento, álcalis, papel e celulose, borracha, metais não ferrosos, mecânica e material elétrico.

## Beneficiários nacionais:

- A siderurgia se montou com capitais nacionais estatais (BNDE) e japoneses (Usiminas). Ao final do governo JK, os principais setores industriais brasileiros, à exceção de automóveis, autopeças e farmacêuticas, tinham participação majoritária de capital nacional. Além disso, não houve desnacionalização de nenhuma das empresas estatais criadas por Vargas: Petrobras, Vale do Rio Doce, BNDE, FNM, CSN, Cosipa e Álcalis permaneceram estatais e foram fortalecidas, sendo cruciais para o êxito do Plano.

>>> 4. Indústria Automobilística (GEIA)

Um dos maiores legados do Plano de Metas foi a criação do parque industrial automotivo. Empresas como Volkswagen, Ford e General Motors se estabeleceram no país. O governo incentivou a produção nacional por meio de políticas de isenção fiscal e construção de estradas.

## Beneficiários nacionais:

- A automobilística se montou predominantemente com capitais alemães (Volkswagen), franceses (Simca) e nacionais (Vemag), mas com participação de capital nacional em todas as montadoras. O setor de autopeças, por exigência de índice de nacionalização progressivo estabelecido pelo GEIA, gerou um amplo parque nacional de fornecedores no ABC paulista. Entre as empresas responsáveis figuravam também a Fábrica Nacional de Motores, de capital estatal.

>>> 5. Construção Naval (GEICON)

A indústria de construção naval se montou com capitais japoneses, holandeses e brasileiros. O GEICON tinha como objetivo coordenar e aprovar as medidas necessárias à realização dos projetos de estaleiros.

## Beneficiários nacionais:

- estaleiros de capital misto, especialmente no Rio de Janeiro (Ilha do Governador), com participação do Lloyd Brasileiro e da Petrobras como âncoras da demanda.

>>> 6. Brasília (meta-síntese)

Setor de maior acumulação concentrada de capital nacional, com o Estado como contratante exclusivo via NOVACAP. O DNER promoveu a adjudicação dos serviços por concorrências públicas por especialidade, agrupando firmas para pavimentação, terraplanagem e obras de arte especiais, em várias frentes simultâneas para adequar ao cronograma. A acusação de corrupção nas contratadas foi constante desde o início — mas o resultado estrutural foi a formação das grandes empreiteiras nacionais como atores políticos permanentes.

<><> A nova indústria

O segredo está em desenhar o Plano de Metas do Lula 4, para terras raras, datacenters e energia verde, economia da Amazônia, indústria de defesa, indústria de bem estar, e abrir espaço para dois atores relevantes: o capital industrial nacional e a transição do capital financeiro para as novas oportunidades. Tratando de incluir em cada plano metas para pequenas e médias empresas e para emprego.

¨      O custo político do recuo ideológico no terceiro mandato. Por Paulo Nogueira Batista Jr.

Um tema do momento é a dificuldade de traduzir os resultados econômicos do governo Lula em intenções de voto para outubro. A recente crise da candidatura do principal opositor, Flávio Bolsonaro, tranquilizou os apoiadores de Lula, mas a eleição está longe de ganha, como sabemos, e o problema persiste.

O governo Lula 3 produziu, de fato, resultados razoáveis, até bons, na área econômica – crescimento do PIB (ainda que modesto, próximo de 3% a.a. em média), desemprego aberto em queda (para os menores níveis registrados), inflação controlada (embora com preços elevados de produtos críticos como alimentos), entre outros feitos. É nítida a melhora em relação à situação que vigorava nos governos Michel Temer e Jair Bolsonaro. Como explicar que a eleição se mostre apertada, com grande parte das intenções de voto direcionada a Flávio Bolsonaro?

But it’s not the economy, stupid! (mas não é a economia, estúpido!),poderíamos dizer, invertendo o célebre chavão oriundo dos Estados Unidos. Fatores não econômico pesam. E mesmo a economia não está lá essas coisas – vide os juros escorchantes, o elevado endividamento das famílias, as políticas governamentais inibidas pelo arcabouço fiscal, o reduzido investimento público e privado etc. E não vamos perder de vista que a base de comparação Temer/Bolsonaro é bem modesta, para dizer o mínimo.

Mas, para além da economia, falta algo fundamental que talvez ajude a entender as intenções de voto – o governo não tem marca, não tem audácia, não tem alma.

Desde o seu início, em 2023, o governo federal e a sua precária base parlamentar estão infestados de pessoas que pouco ou nada têm a ver com a transformação real do país. Temos de tudo: neoliberais, carreiristas, fisiológicos, até sionistas. E, meio perdidos nesse ambiente hostil, uma minoria de brasileiros que lutam dentro do governo para defender e mudar o Brasil.

Não sei se  preciso dar exemplos, mas vamos lá. O Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio (MDIC), ficou quase totalmente dominado por neoliberais. Uma recente entrevista de página inteira do atual chefe do MDIC, Elias Rosa, ao jornal Valor (4 de maio, p. A6) é sintomática do estado das artes nesse ministério. Rosa foi secretário-executivo durante toda a gestão de Geraldo Alckmin, ele próprio um neoliberal. Na entrevista, o flamante ministro defende o desvantajoso acordo econômico com a União Europeia – no qual abrimos nossos mercados industriais em troca de concessões pequenas e facilmente revogáveis para o setor agroexportador – e se vangloria de ter assinado acordos do mesmo naipe com Singapura e EFTA (European Free Trade Association – a associação de livre comércio que inclui alguns países europeus não-membros da União Europeia). Para completar o quadro, promete um acordo com o Canadá até o final do ano.  Com essa condução da política comercial, o Brasil terminará amarrado a uma teia de acordos de corte neoliberal em que abrimos nossos mercados à competição irrestrita com as empresas de países desenvolvidos, condenando ao fracasso qualquer tentativa de reindustrialização do país. Na verdade, seria melhor passar a chamar o MDIC de Ministério do Subdesenvolvimento e da Desindustrialização.

O Itamaraty, apesar dos esforços de muitos bons diplomatas, ficou prejudicado pela presença insuficiente de quadros ligadas à tradição nacional-desenvolvimentista, que já foi tão forte na casa. Isso se reflete na condução das já referidas negociações comerciais externas, que foram levados a cabo principalmente pelo Itamaraty e pelo MDIC. Os diplomatas envolvidos nessa negociação são corresponsáveis pelo desastre.

 No Ministério da Fazenda, também faz falta a presença de quadros menos comprometidos com o neoliberalismo e o carreirismo. Há exceções, notadamente entre os mais jovens da equipe, mas foi fraca a atuação da Fazenda em vários temas candentes – na construção do arcabouço fiscal (que acabou ficando excessivamente ambicioso), na definição da diretoria do Banco Central (com a escolha de nomes que não trazem qualquer perspectiva de mudança) e na quase total omissão nas negociações comerciais externas. Foi fraca, também, a participação do ministério no processo BRICS que o Brasil presidiu em 2025. Juntamente com o Itamaraty e o Banco Central, a Fazenda liderou uma presidência vazia de resultados importantes.

No Ministério do Planejamento, pelos menos no tempo da ministra Simone Tebet que deixou o cargo há pouco, a equipe quase inteira, com poucas exceções, era de orientação neoliberal – e se existe algo que não combina de jeito nenhum com planejamento é precisamente o neoliberalismo. E do Banco Central, bem, deste nem preciso falar mais. Já tratei dele em artigo recente (“A política de juros do Banco Central é um desastre”, 1 de maio de 2026).

Meu pai, que morreu em 1994, costumava dizer: “O problema do Brasil é que deixamos o adversário escalar nosso time.” Esse problema crônico, que se manifestou, em maior ou menor medida, em todos os governos nas décadas recentes, aparece claramente no atual. Um dos maiores diplomatas, se não o maior da sua geração, meu pai era um exemplo notável desse problema. Ele teve carreira brilhante, mas nunca chegou a ser ministro de Estado e nem secretário-geral. E, no entanto, posso dizer com tranquilidade, e sem favor de filho para pai: ele era, como diplomata e homem público, muito superior à maioria dos que exerceram essas funções. Havia um problema, entretanto. A sua nomeação incomodaria os nossos amigos do Norte. Melhor não arriscar, pensaram sucessivos presidentes.

Imagine, leitor ou leitora, quantos brasileiras e brasileiros existem em todas as áreas que têm inclinação para atuar no setor público, que possuem qualidades para tal, mas não são convocados por serem honestos demais, independentes demais, combativos demais! São vetados por políticos venais, por interesses econômicos e por forças estrangeiras e seus aliados domésticos. Refiro-me ao sistema financeiro e outros lobbies empresariais, à mídia corporativa, e a entidades locais que representam ou são controladas por ideologias e interesses estrangeiros. Da Febraban à Conib, da Fiesp à Rede Globo, da CNA à CNI.

Resultado: o time escalado fica, na melhor das hipóteses, repleto de pessoas hábeis, jeitosas, mas sem coragem e imaginação. São poucos os que entram em bola dividida. E há muito cabeça de bagre. No fundo, no fundo, infelizmente, a escalação é a própria imagem do Brasil – país em que sobra jogo de cintura, mas falta espinha dorsal.

Na nossa seleção atual, temos como centroavante, capitão e técnico do time um presidente da República experiente, tarimbado, um jogador de fama internacional. Perde uns gols incríveis, é verdade, mas a sua capacidade é inegável. Eis o problema, porém: a bola chega nele? Ou ele é forçado a voltar à intermediária para buscá-la? A verdade é que o centroavante acaba sem opções de jogo, uma vez que boa parte do resto do time passa a bola para o lado ou para trás – quando não faz gol contra!

Porém, convenhamos, o capitão pode reclamar? Afinal, quem senão ele permitiu que os adversários escalassem a nossa seleção?

E ficamos  assim com um time que joga para o empate ou até para perder de pouco. Com esse tipo de time, claro, não se ganha partida nenhuma e muito menos campeonato.

 

Fonte: Jornal GGN/A Terra é Redonda

 

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