Brasil
vive nova onda industrial? Chegada de multinacionais reacende debate
Especialistas
apontam que interesse estrangeiro cresce por escala, recursos e energia, mas
alertam para entraves estruturais da economia brasileira.
No
final de abril, a Whirlpool, dona de marcas de eletrodomésticos como Brastemp,
fechou uma fábrica na Argentina, em Pilar, e transferiu a produção para Rio
Claro, no interior de São Paulo. A escolha, feita para melhorar a eficiência
operacional e otimizar recursos segundo um comunicado da empresa, no entanto,
não alteraria o fornecimento de produtos para o mercado argentino.
O
movimento, porém, ocorre em um contexto mais amplo de reposicionamento
industrial na América do Sul e coincide com a chegada e expansão de outras
multinacionais no Brasil.
Nos
últimos anos, o país tem atraído investimentos de grupos estrangeiros
interessados tanto no mercado consumidor brasileiro quanto na possibilidade de
transformar o território nacional em uma plataforma regional de produção. Em
dados, o setor industrial brasileiro passa por um processo de recuperação e
modernização, com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE)
registrando crescimento de 1,8% na produção industrial e a Confederação
Nacional da Indústria (CNI) projetando alta de 1,6% para o setor em 2026.
Entre
os casos mais emblemáticos está a expansão da chinesa BYD em Camaçari, na
Bahia, onde a companhia assumiu o antigo complexo industrial da Ford para
instalar aquela que promete ser uma das maiores fábricas de veículos elétricos
da América Latina.
Outro
exemplo é a GWM, também chinesa, que iniciou operações na antiga planta da
Mercedes-Benz em Iracemápolis, no interior paulista, além de novos aportes
internacionais em setores como energia, mineração, infraestrutura e tecnologia.
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O que atrai empresas para o Brasil?
Juliana
Inhasz, professora e coordenadora do curso de graduação em economia do Insper,
afirma que o principal ponto atrativo para essas companhias é o tamanho do
mercado brasileiro — mais de 200 milhões de potenciais consumidores —,
ressaltando também a posição do Brasil como uma das maiores economias do mundo
e maior da América Latina.
"O
segundo ponto é o fato de nós termos uma base agro muito forte, com muitos
recursos naturais, energia relativamente diversificada e muitas possibilidades
de projetos em transição energética", diz Inhasz, pontuando também preços
relativamente baratos de produção no Brasil. Ou seja, além do grande mercado
consumidor — que ainda possui demanda reprimida em alguns setores —, o país
oferece vantagens como proximidade da matéria-prima, custos salariais
relativamente menores e condições geográficas favoráveis, explica.
"É
um lugar atrativo, com clima relativamente bom, grande extensão territorial e
sem problemas extremos, como terremotos."
Para a
especialista, o conjunto desses fatores reforça a atratividade econômica do
país, mas o tamanho do mercado interno e a disponibilidade de recursos seguem
sendo os principais diferenciais para investidores e empresas.
Complementando,
Haroldo da Silva, presidente do Conselho Regional de Economia do Estado de São
Paulo (Corecon-SP), diz que o atual cenário de incerteza política e geopolítica
internacional também tem sido outro ponto que tem levado empresas multinacionais
a enxergarem o Brasil como alternativa estratégica para investimentos. "O
Brasil não está envolvido diretamente nesses conflitos, tem autonomia em
relação ao petróleo e uma matriz energética relativamente verde", afirma.
Haroldo
destaca ainda a disponibilidade de serviços industriais e logísticos,
especialmente no Sudeste, citando o caso da Whirlpool como exemplo desse
movimento. "Não é uma fábrica nova, mas um incremento de investimentos
naquela região", observa. Na avaliação dele, a junção de todos esses
elementos traz "algum nível de vantagem comparativa para o Brasil" em
relação a outros países na América Latina.
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Potencial industrial
Agora,
poderia o Brasil converter esse interesse em um novo ciclo de
reindustrialização? Inhasz explica que, embora o país reúna fatores atrativos
para investidores, ainda enfrenta barreiras estruturais importantes que limitam
a capacidade de transformar esse cenário em uma industrialização mais robusta e
duradoura.
Segundo
a especialista, o principal desafio é o baixo ganho de produtividade,
considerado por ela o "calcanhar de Aquiles" da economia brasileira.
Para Inhasz, avanços nessa área dependem diretamente de investimentos em
inovação, tecnologia e aumento da competitividade — fatores que também
ampliariam a inserção internacional da indústria nacional.
Juros
elevados, alto custo da dívida pública e financiamento caro reduzem o apetite
ao risco dos investidores, que também precisam lidar com incertezas fiscais e
oscilações da demanda.
"Apesar
de todos os pontos positivos, existem muitos poréns."
Outro
obstáculo apontado por Inhasz é a burocracia brasileira, que se soma aos custos
econômicos e institucionais enfrentados pelo setor produtivo. Para a
economista, embora parte das empresas consiga aproveitar as oportunidades
existentes, muitas indústrias ainda dependem de uma base institucional mais
sólida para expandir investimentos e consolidar resultados.
Sem
enfrentar essas fragilidades, avalia Inhasz, o país pode deixar escapar parte
do atual interesse internacional sem convertê-lo plenamente em benefícios para
a indústria e para a economia. Ela compara o cenário brasileiro ao mexicano
que, segundo sua avaliação, tem atraído investimentos em manufatura e logística
por contar com uma indústria de transformação mais integrada e competitiva.
Por
outro lado, o presidente do Corecon-SP ressalta que, apesar dos entraves
ligados à produtividade, juros e burocracia, o Brasil possui ativos estruturais
importantes que podem sustentar um processo de reindustrialização. Segundo ele,
o país conta com uma engenharia industrial relevante e já alcançou níveis
expressivos de complexidade econômica em determinados segmentos produtivos.
Ele
cita empresas como WEG e Embraer como exemplos da capacidade nacional de
desenvolver tecnologia e produção sofisticada. Para ele, essa força está ligada
não apenas ao parque industrial, mas também à formação técnica da mão de obra
brasileira, apoiada por universidades, centros de pesquisa e instituições como
o Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai) — presente em diversas
regiões do país.
Na
avaliação dele, a recorrente instabilidade política, tributária e econômica
brasileira acabou criando um setor produtivo mais resiliente e habituado a
operar sob condições de incerteza. Essa flexibilidade seria um dos diferenciais
do país para atrair e sustentar investimentos industriais.
Por
outro lado, ele reconhece que o setor segue enfrentando gargalos estruturais,
dizendo que políticas de financiamento e juros — como a Nova Indústria Brasil
(NIB) — ainda limitam o potencial industrial. A NIB, por exemplo, prevê cerca
de R$ 600 bilhões em recursos ao longo de quatro anos, envolvendo instituições
como Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e
Financiadora de Estudos e Projetos (Finep).
Para
ele, embora o montante seja expressivo, o setor recebe menos proporcionalmente
do que outros setores, como o agronegócio, que recebe R$ 500 bilhões ao longo
de um ano. Haroldo destaca ainda que a indústria tem peso significativo na
arrecadação da Previdência Social, contribuindo com cerca de 25% do total
devido ao pagamento de salários mais elevados. "A indústria paga melhores
salários do que o agro e do que o setor de serviços", afirma.
Inhasz,
por outro lado, pondera que o agronegócio não deve ser visto como responsável
pelas dificuldades da indústria brasileira. Segundo ela, o principal obstáculo
está no Custo Brasil — conjunto de dificuldades estruturais, burocráticas e
econômicas que encarece a produção e a contratação do país, estimado em cerca
de R$ 1,7 trilhão ao ano —, que reduz produtividade e competitividade.
Para a
economista, o agro é um ativo estratégico por atrair capital e impulsionar
exportações. Em 2025, o setor respondeu por quase metade das vendas externas
brasileiras, com US$ 169 bilhões (cerca de R$ 852 bilhões) exportados —,
enquanto a indústria depende de uma infraestrutura e coordenação mais
complexas, historicamente insuficientes no país.
"Não
é que o agro seja o vilão. A infraestrutura necessária para a indústria ficou
faltando."
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Reforma tributária e escala de trabalho
Haroldo
da Silva avalia que a reforma tributária pode contribuir para melhorar o
cenário da indústria brasileira nos próximos anos. Segundo ele, a
redistribuição da carga tributária entre os setores tende a beneficiar a
atividade industrial, hoje mais pressionada pelo pagamento de tributos.
"O
cenário para a indústria pode melhorar também por conta da reforma
tributária", afirma. Para o economista, a mudança deve tornar os produtos
industriais gradualmente mais baratos e competitivos, embora o processo seja
lento e só esteja totalmente consolidado em 2033.
Ainda
assim, ele observa que a perspectiva de alívio tributário já aparece nas
pesquisas de percepção empresarial e ajuda a sustentar expectativas mais
positivas para o setor.
Sobre a
possível substituição da escala 6 x 1 pela 5 x 2, Haroldo afirma que os
impactos serão diferentes entre setores e companhias. "Dizer que vai ser
bom ou ruim para a indústria seria uma desonestidade intelectual", diz,
citando estudos do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) sobre o
tema.
Segundo
ele, parte da indústria já opera em modelos semelhantes, enquanto segmentos
mais dependentes da presença contínua do trabalhador podem enfrentar maiores
dificuldades, especialmente micro e pequenas empresas. Para o presidente do
Corecon-SP, a transição pode ser suportável se houver negociação entre empresas
e sindicatos e o apoio do Estado para a adaptação dos negócios.
Haroldo
argumenta que, apesar das dificuldades e turbulências esperadas no curto prazo,
a redução da jornada pode trazer ganhos de produtividade e melhorar as
condições de trabalho no longo prazo, sobretudo diante da crescente atenção aos
riscos psicossociais no ambiente laboral.
"O
Estado brasileiro deveria ajudar nesse processo de transição, especialmente as
pequenas e micro empresas."
• Política industrial: qual a escolha
brasileira? Por Celso Pinto de Melo
A
rivalidade entre Estados Unidos e China deixou de ser apenas diplomática,
militar ou comercial. Ela se tornou estruturalmente produtiva. O conflito
central deslocou-se para o terreno da capacidade industrial, da densidade
tecnológica e do controle de cadeias estratégicas.
Em
2022, os Estados Unidos aprovaram o CHIPS and Science Act, mobilizando cerca de
US$ 280 bilhões para fortalecer a produção doméstica de semicondutores e
ampliar o investimento científico. No mesmo ano, o Inflation Reduction Act
destinou aproximadamente US$ 369 bilhões a incentivos para a transição
energética e a manufatura verde. Não se trata de políticas anticíclicas
convencionais. Trata-se de reorganização deliberada da base produtiva em escala
histórica .
A
China, por sua vez, intensificou sua estratégia de autossuficiência
tecnológica, reforçando investimentos em semicondutores, baterias, inteligência
artificial e equipamentos industriais avançados.
A disputa por litografia de ponta e chips
avançados tornou-se explícita, com restrições comerciais e sanções
tecnológicas.
A
globalização dispersiva dos anos 1990, baseada na fragmentação de cadeias
produtivas e na primazia do custo, está sendo substituída por uma reorganização
seletiva e estratégica.
Como
observa Gala, a promessa dos anos 1990 de que bastaria “abrir a economia” para
alcançar convergência revelou-se historicamente inconsistente: as economias que
hoje lideram a reorganização produtiva global nunca abandonaram a coordenação
estratégica do investimento.
O
centro da geopolítica voltou a se organizar em torno da capacidade produtiva. É
nesse novo terreno que a posição relativa dos países está sendo redefinida.
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A variável que quase ninguém discute
No
debate econômico brasileiro, inflação, juros e resultado fiscal dominam o
noticiário. São variáveis relevantes, mas de horizonte curto. Pouco se discute
a Formação Bruta de Capital Fixo (FBCF), indicador que mede o investimento em
ativos produtivos – máquinas, equipamentos, fábricas, infraestrutura,
tecnologia – e, portanto, a expansão da capacidade futura de produção.
Segundo
dados do IBGE e do World Development Indicators, a FBCF brasileira oscilou
majoritariamente entre 17% e 22% do PIB nas últimas quatro décadas. Em 2017 e
2020, aproximou-se de 15%. Em 2022, situava-se em torno de 18% do PIB .
No
mesmo intervalo – aproximadamente as últimas quatro décadas – a Coreia do Sul
sustentou taxas de investimento superiores a 30% do PIB por longos períodos,
enquanto a China manteve patamares frequentemente acima de 35%, alcançando
picos superiores a 45% nos anos 2000.
A mesma
figura permite observar não apenas a diferença de investimento, mas também sua
consequência acumulada: a divergência das trajetórias de renda per capita ao
longo do período.
Em
termos analíticos, esse processo é conhecido como convergência: a capacidade de
economias de menor renda de crescer de forma sistematicamente mais rápida do
que as economias avançadas, reduzindo ao longo do tempo a distância que as
separa. Mais do que crescer, convergir significa alterar a posição relativa no
sistema internacional.
A
evidência empírica é consistente com o diagnóstico apresentado por Gala: países
que sustentaram regimes persistentes de investimento elevado e orientado à
complexificação produtiva foram capazes de multiplicar sua renda per capita;
aqueles que mantiveram patamares baixos e voláteis ficaram presos à chamada
armadilha da renda média.
Entre
investir 18% e 35% do PIB há uma diferença de 17 pontos percentuais. Mantida
por décadas, essa diferença transforma o estoque de capital, a produtividade e
a renda per capita.
Naturalmente,
em macroeconomia, a correlação entre dois indicadores não implica causalidade
automática. O crescimento econômico depende de múltiplos fatores
institucionais, tecnológicos e demográficos. Ainda assim, a persistência de
níveis elevados de investimento produtivo constitui um dos traços mais
consistentes nas experiências históricas de convergência bem-sucedida.
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O custo da persistência
Um
baixo investimento não resulta em um colapso imediato. Produz crescimento
medíocre persistente.
Entre
1980 e 2023, o Brasil apresentou um crescimento médio anual do PIB
substancialmente menor que o das economias asiáticas que adotaram regimes
persistentes de investimento elevado. A renda per capita brasileira, que nos
anos 1970 superava amplamente a chinesa e era comparável à sul-coreana, passou
a divergir estruturalmente.
Segundo
o Banco Mundial, a renda per capita chinesa ultrapassou a brasileira em termos
de paridade de poder de compra ao longo da década de 2010. A Coreia do Sul
multiplicou sua renda per capita por várias vezes nesse período,
distanciando-se de forma irreversível.
O
Brasil deixou de convergir quando interrompeu a expansão sistemática de sua
capacidade produtiva e passou a depender crescentemente de ciclos de
commodities, confundindo prosperidade conjuntural com desenvolvimento
estrutural.
A
divergência não decorreu de um evento isolado. Decorreu da manutenção de
regimes de investimento distintos ao longo de décadas.
Além da
magnitude, a composição do investimento importa. No Brasil, a construção civil
representa uma parcela significativa da FBCF, enquanto máquinas e equipamentos
mantêm participação menor do que em economias que realizaram o salto
tecnológico. Construção impulsiona ciclos. Máquinas, equipamentos e tecnologia
alteram produtividade estrutural e densidade industrial.
Essa
diferença é menos visível no curto prazo, mas decisiva no longo.
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O mundo não está esperando
Enquanto
o Brasil mantém um regime de investimento baixo e volátil, as grandes economias
coordenam políticas industriais explícitas. Os Estados Unidos subsidiam
semicondutores e baterias. A China investe pesadamente em manufatura avançada.
A União Europeia cria mecanismos para evitar uma dependência tecnológica
excessiva.
Semicondutores,
inteligência artificial, minerais críticos, hidrogênio verde e baterias não são
apenas setores econômicos. São instrumentos de poder nacional.
A
política industrial deixou de ser tabu. Tornou-se linguagem comum das
potências.
A
experiência coreana, ilustra que proteção temporária combinada com exigência de
desempenho e disciplina institucional pode produzir transformação estrutural
quando sustentada ao longo do tempo. A neutralidade produtiva, nesse contexto,
revela-se uma abstração.
Se
grandes economias reorganizam suas bases produtivas e o Brasil permanece sob
regime estruturalmente insuficiente de acumulação, a divergência tende a
ampliar-se.
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A janela brasileira
O
Brasil possui vantagens estruturais relevantes. Sua matriz energética é
relativamente limpa. Detém reservas importantes de minerais estratégicos. Reúne
condições especialmente favoráveis para expandir a produção de biocombustíveis
e hidrogênio verde. Possui mercado interno de grande escala e sistema
universitário consolidado.
Mas
vantagens estruturais não se convertem automaticamente em poder econômico.
O
sucesso do agro brasileiro – tecnicamente sofisticado e competitivo – não
resolve, por si, o problema estrutural do câmbio valorizado e da perda relativa
de densidade industrial. Sem contrapeso estratégico, o êxito setorial pode
reforçar a especialização primária.
Sem um
regime consistente de investimento produtivo, as oportunidades tendem a se
traduzir em exportação de commodities e dependência tecnológica.
Nesse
contexto, o lançamento da Nova Indústria Brasil (NIB), em 2024, representa uma
inflexão relevante ao recolocar a política industrial no centro da agenda. Ao
definir missões estratégicas e instrumentos de financiamento direcionado, o
programa reconhece explicitamente que a reorganização produtiva exige
coordenação.
A
questão decisiva, contudo, não é a existência formal da estratégia, mas sua
escala e sua compatibilidade com o regime macroeconômico vigente. Sem elevação
estrutural da taxa de investimento e redução do custo do capital, a política
industrial tende a operar na margem, com impacto limitado sobre a trajetória de
longo prazo.
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A decisão que ainda não foi tomada
Elevar
gradualmente a FBCF brasileira para um patamar entre 25% e 27% do PIB ao longo
de uma década não seria exceção internacional. Seria aproximação ao padrão
observado em economias que realizaram o salto estrutural.
Ampliar
o investimento público direto para cerca de 4% do PIB – com foco em
infraestrutura logística, digital e energética – poderia funcionar como indutor
de investimento privado e eixo coordenador de expectativas.
Reequilibrar
a composição da FBCF, elevando a participação de máquinas e equipamentos, teria
impacto direto na produtividade e na capacidade tecnológica.
Não se
trata de voluntarismo, mas de mudança de regime. O desenvolvimento não emerge
espontaneamente da abertura irrestrita; resulta de estratégia persistente,
coordenação institucional e investimento contínuo .
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O que está em jogo
No
século XX, as grandes inflexões históricas ocorreram quando as nações alteraram
deliberadamente seu padrão de investimento. Hoje, em um mundo marcado pela
reconfiguração de cadeias produtivas e pela disputa tecnológica, essa lógica
retorna ao centro da dinâmica global.
O
Brasil não atravessa uma crise aguda. O que se observa é algo mais sutil – e
talvez mais preocupante: um processo contínuo de deslocamento relativo no
sistema internacional.
Se
persistir operando sob um padrão de acumulação baixo e volátil, essa trajetória
tende a se aprofundar. A perda de posição não se dá por ruptura, mas por erosão
gradual.
Nesse
contexto, a ausência de decisão não é neutralidade – é, na prática, uma
escolha.
O
regime de investimento costuma aparecer como um tema técnico, restrito a
especialistas. Mas, no plano histórico, ele expressa uma decisão fundamental
sobre o tipo de economia que se deseja construir.
É essa
decisão – frequentemente implícita – que define o lugar de um país na
geopolítica produtiva do século XXI.
No
próximo artigo, o foco se desloca para o interior desse problema: se a
necessidade de investir mais parece evidente, por que o Brasil tem encontrado
tanta dificuldade em sustentar, de forma persistente, um regime de investimento
compatível com essa transformação?
Fonte:
Sputnik Brasil/Outras Palavras

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