sábado, 30 de maio de 2026

Classificação de PCC e CV como terroristas sobre políticos e Faria Lima pode prejudicar Flávio, diz professor

Professor de política internacional e comparada da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Dawisson Belém Lopes diz que ainda é cedo para estimar os impactos que a classificação do Comando Vermelho (CV) e do Primeiro Comando da Capital (PCC) como organizações terroristas pelos Estados Unidos deve ter nas eleições.

"Qualquer previsão neste momento é imprecisa, porque é preciso entender como essa decisão será lida pela imprensa, por Flávio Bolsonaro, por Lula e por outros agentes políticos que influenciam o debate", diz ele, que tem artigos e livros publicados sobre política externa ligada à América Latina e ao Brasil, escritos a partir de pesquisas em universidades na Alemanha, na Bélgica e na Índia.

O professor reconhece a possibilidade de o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) ganhar tração no tema da segurança pública, algo caro a grande parte dos brasileiros e área na qual o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) registrou sua pior avaliação em pesquisa Datafolha publicada há duas semanas.

Dois dias após Flávio se encontrar com Donald Trump e um dia após se reunir com Marco Rubio, secretário de Estado dos Estados Unidos, o governo americano decidiu classificar o PCC e o CV como organizações terroristas internacionais.

Por outro lado, Lopes avalia que Lula, mais experiente em debates, pode virar o jogo ao argumentar que a medida revela a incapacidade do adversário de lidar com problemas internos, a ponto de recorrer à ajuda externa.

"Essa medida pode ser vista como entreguismo, algo contra o Brasil, não a favor, porque prevê uma renúncia de soberania", analisa.

E esse foi, de fato, o tom adotado por Lula em sua primeira reação pública ao anúncio do Departamento de Estado.

Horas após a publicação original desta reportagem, o presidente afirmou que "não aceitamos ser tratados como republiquetas". Lula atacou Flávio: "Não tem vergonha na cara de trair a nossa pátria, de ir nos EUA pedir intervenção americana no Brasil".

Para estudiosos, facções como o PCC e o Comando Vermelho são criminosas, porque agem por interesses econômicos, sem qualquer motivação ideológica, diferentemente das organizações terroristas. Mas Trump tem contestado essa distinção, a exemplo do que também fez no México, com os cartéis, no ano passado.

<><> Sanções financeiras contra aliados

A partir do dia 5 de junho, as facções passarão a ser tratadas por Washington como uma ameaça à segurança dos Estados Unidos, o que poderia abrir a possibilidade de o republicano promover intervenções militares em território brasileiro e também impor sanções diversas ao país e a quem, mesmo sem saber, mantenha alguma relação com essas organizações.

É nesse sentido, diz o professor, que "o tiro pode sair pela culatra" para Flávio.

"Pode-se cogitar que a iniciativa vá alvejar pessoas ligadas à política, além de políticos profissionais, que mantenham interações com o PCC e o CV. Isso já tem vindo à tona nos últimos tempos. Já se sabe de algumas relações envolvendo a turma da Faria Lima, os investidores e os bancos com o crime organizado. Quem propôs essa medida pode estar jogando contra si."

Essas figuras, que em sua maioria apoiam a pré-candidatura do senador à Presidência, diz o professor, "se forem atingidas podem se voltar contra ele, porque são pessoas com muito dinheiro e influência para mexer nas alavancas do sistema político brasileiro".

Sua visão encontra amparo em investigações conduzidas por autoridades como a Receita Federal, a Polícia Federal e o Ministério Público.

Essas três entidades deflagraram no ano passado uma operação contra um esquema que se valia de fundos de investimentos e empresas financeiras que operam na Faria Lima para gerar, lavar, ocultar e blindar recursos da atuação do PCC no tráfico de drogas e no setor de combustíveis.

Ao todo, a estimativa da PF à época era de que o esquema tenha movimentado pelo menos R$ 52 bilhões entre 2020 e 2024.

Na ala política, o ex-presidente da Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj), Rodrigo Bacellar (União), foi preso suspeito de vazar informações sigilosas e obstruir investigações contra facções como o Comando Vermelho.

Possíveis sanções ao Brasil e a brasileiros após a decisão de Trump poderiam se assemelhar à Lei Magnitsky, usada contra indivíduos acusados de corrupção ou violações de direitos humanos. Foi ela que, no ano passado, Trump usou contra o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), dificultando sua relação com o sistema financeiro americano.

A sorte do senador é que as sanções financeiras, ao menos na avaliação do professor, devem ser brandas. Para ilustrar seu argumento, ele lembra que os bancos brasileiros se recusaram a se voltar contra Moraes e a atender ao desejo dos Estados Unidos.

"Os bancos brasileiros foram pressionados a quebrar negócios com ele, mas resistiram, porque foram instruídos pelo Ministério da Fazenda e pelo Banco Central para fazer isso. O Brasil já está vacinado contra esse tipo de pressão. Não vejo o sistema bancário sucumbindo e fazendo o jogo da diplomacia estadunidense, até pelas garantias que o governo brasileiro tem dado", diz o professor.

Ele recorda ainda que, na época, a conexão entre Brasília e Washington era mais delicada e vinha na esteira do "tarifaço". "Neste momento, a relação é bastante civilizada, e o nível de tensão, bastante controlado. Não vejo possibilidade de uma disrupção", opina.

Há, por fim, um terceiro argumento ao qual o professor recorre: a experiência do México, que teve seus cartéis classificados como organizações terroristas internacionais logo no início do segundo mandato de Trump, no ano passado.

Na ocasião, a presidente mexicana, Claudia Sheinbaum, atendeu a parte das demandas de Washington — como a extradição de criminosos e o reforço da segurança nas fronteiras — e afastou rapidamente qualquer retaliação mais profunda.

"Se no México o impacto foi modesto, no Brasil tende a ser menor ainda", diz Lopes, acrescentando que "as correntes de comércio exterior do México são, em sua maioria, com os Estados Unidos, e todos os dias centenas de milhares de mexicanos cruzam a fronteira, legalmente ou ilegalmente".

"Os Estados Unidos são importantíssimos para o Brasil, sim, mas não são nem sequer nosso maior parceiro comercial. A China faz mais do que o dobro de comércio com o Brasil do que os Estados Unidos", diz.

¨      A reação de Lula à decisão dos EUA de declarar CV e PCC como 'terroristas': 'Não aceitamos ser tratados como moleques'

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) disse nesta sexta-feira (29/5) que não vai aceitar que o Brasil seja tratado como "republiqueta", ao comentar a decisão dos EUA de designar o Comando Vermelho (CV) e o Primeiro Comando da Capital (PCC) como entidades terroristas

"Nós não aceitamos ser tratados como moleque. Não aceitamos ser tratados como uma republiqueta", disse Lula em uma agenda em Sergipe.

O discurso veio em consonância com uma nota também divulgada pelo governo nesta sexta.

O texto ressalta que "a soberania nacional é inegociável" e que "quem define como o crime é classificado e combatido dentro do Brasil são os brasileiros, com suas instituições, suas leis e suas forças de segurança".

No discurso, o presidente Lula disse também que se sentia "triste" com a decisão do governo americano e que havia entregado ao presidente americano, Donald Trump, na visita à Casa Branca no início do mês, um documento que tratava sobre medidas para combater o crime organizado.

O governo brasileiro sempre foi contra a classificação americana, argumentando que ela poderia colocar em risco a soberania nacional ao abrir espaço para ações militares dos EUA sob o pretexto de combate ao terrorismo.

Lula disse que o PCC e o CV "são terroristas para as comunidades brasileiras", mas que "não são os terroristas que o Trump quer".

"Eles incomodam as famílias, o bairro, a cidade, roubam tudo que tem direito do povo, o direito do povo viver livremente, então eles são terroristas. E nós vamos combatê-los aqui dentro", defendeu Lula.

A nota divulgada pelo governo também argumenta que a violência praticada pelas facções "não pode ser confundido com o tipo de ação por motivos ideológicos, políticos e religiosos do terrorismo internacional".

No discurso em Sergipe, o presidente Lula comentou ainda sobre o encontro entre o senador e pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e Trump três dias atrás.

Na reunião, Flávio defendeu que o governo dos EUA classificasse as facções como terroristas, uma bandeira defendida há mais de um ano por bolsonaristas, inclusive Eduardo Bolsonaro, filho do ex-presidente Jair Bolsonaro que vive atualmente em solo americano.

Dois dias após a visita de Flávio, o secretário de Estado americano, Marco Rubio, anunciou a classificação dos grupos criminosos como terroristas.

"O senhor Rubio não estava lá [na reunião com Lula], possivelmente porque ele tivesse preparado para ajudar o filho de um bolsonarista que é candidato a eleição aqui nesse país, que não tem vergonha na cara de trair a nossa pátria, de ir nos EUA pedir intervenção americana no Brasil", declarou o presidente brasileiro.

A nota do governo também menciona "traidores".

"A segurança da nossa população é importante demais para ser manipulada politicamente por traidores que tentam confundir esses conceitos. Por falsos patriotas, envolvidos com o crime organizado, que pedem a autoridades estrangeiras a interferência em assuntos brasileiros", diz o texto.

"É deplorável que mais uma vez integrantes da família Bolsonaro viajem aos Estados Unidos para defender intervenção estrangeira no Brasil, como já fizeram no tarifaço, que causou tantos danos ao nosso país."

Lula ainda argumentou que o combate ao crime organizado pelos EUA deveria acontecer entregando "os terroristas brasileiros" que estão no país.

"Sabe as armas importadas que são contrabandeadas pro Brasil? Vêm dos EUA", disse Lula, que ressaltou a aprovação do projeto de lei Antifacção.

Por fim, o presidente mencionou a situação de Alexandre Ramagem, ex-chefe da inteligência brasileira durante o governo Bolsonaro que fugiu para os EUA, e de Ricardo Magro, empresário controlador do Grupo Refit que é suspeito de elo com PCC e é o maior sonegador de impostos do Brasil.

<><> Derrota de Lula na batalha

A batalha em torno da classificação de PCC e CV como terroristas demorou mais de um ano, com idas e vindas.

Do lado do governo brasileiro, além do argumento do risco à soberania nacional, também se alegava que a medida iria contra a legislação brasileira.

Do outro lado, o grupo liderado por Flávio Bolsonaro vinha defendendo publicamente a medida há mais de um ano apontando a posição contrária do governo Lula à designação como uma suposta demonstração de conivência da administração petista com o crime organizado.

O governo brasileiro nunca havia considerado o assunto totalmente superado dentro da administração Trump dado o que assessores de Lula classificam como imprevisibilidade do presidente norte-americano.

Apesar disso, a BBC News Brasil apurou que a decisão dos EUA pegou de surpresa até mesmo diplomatas que acompanhavam parte das conversas entre os dois países sobre o assunto.

Durante sua passagem pelos Estados Unidos, Flávio disse ter defendido, para toda a equipe de Trump, que o país tomasse a medida contra as organizações criminosas brasileiras.

Antes da viagem de Flávio, interlocutores do presidente Lula afirmavam, em caráter reservado, que o governo interpretaria um anúncio da administração Trump considerado negativo como uma possível ingerência no processo eleitoral do Brasil e que o governo responderia a exemplo do que aconteceu durante o tarifaço em 2025.

>>>>> Cronologia da derrota

A ideia de adotar sanções contra organizações criminosas brasileiras como o PCC e o CV como entidades terroristas vinha sendo estudada pelo governo norte-americano há vários anos.

Em 2021, por exemplo, a Secretaria do Tesouro incluiu o PCC como uma entidade designada, uma classificação que permite impor sanções aos seus integrantes ou a empresas que mantivessem negócios com a facção.

Mas o plano de designar PCC e CV como entidades terroristas ganhou força, de fato, após o início do segundo mandato de Donald Trump, em 2025.

O plano vinha sendo discutido internamente pela área técnica do Departamento de Estado, com auxílio de oficiais da Embaixada dos Estados Unidos em Brasília.

Entre o final de 2025 e o início de 2026, o Departamento de Estado enviou assessores ao Brasil que se reuniram com promotores brasileiros especializados no combate ao crime organizado para obter mais informações sobre o assunto.

<><> Maio de 2025

Em maio de 2025, por exemplo, o governo norte-americano enviou o então chefe interino da estratégia de sanções do Departamento de Estado ao Brasil, David Gamble, e o assessor Ricardo Pitta.

Pitta chegou a se reunir com a família Bolsonaro e, segundo o senador Flávio Bolsonaro, já naquele momento, a família defendeu a designação do PCC e do CV como organizações terroristas.

O movimento foi monitorado pelo governo brasileiro que, já naquela época, via essa possibilidade como uma possível interferência norte-americana na política brasileira de combate ao crime organizado.

<><> Julho de 2025

Em julho de 2025, quando Trump impôs o tarifaço sobre produtos brasileiros, a expectativa na diplomacia brasileira era de que a medida sobre facções brasileiras poderia ser adotada naquela época, o que acabou não ocorrendo.

O governo Lula, por sua vez, tentou desmontar o discurso pró-designação adotando um discurso de que a classificação das facções como organização terrorista não seria efetiva no combate ao crime organizado.

Em setembro de 2025, por exemplo, Lula criticou a possível medida em seu discurso na Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU).

"É preocupante a equiparação entre a criminalidade e o terrorismo. A forma mais eficaz de combater o tráfico de drogas é a cooperação para reprimir a lavagem de dinheiro e limitar o comércio de armas. Usar força letal em situações que não constituem conflitos armados equivale a executar pessoas sem julgamento", disse Lula em uma referência a ataques que vinham sendo feito pelos Estados Unidos a embarcações na costa de países latino-americanos como Venezuela e Colômbia.

O assunto continuou a ser discutido em Washington.

<><> Março de 2026

A possibilidade de designação continuou a ser estudada pelo Departamento de Estado até que, no dia 8 de março deste ano, o portal UOL revelou que o governo norte-americano estava prestes a adotar a medida.

A notícia fez com que o governo brasileiro montasse uma espécie de "operação de emergência" para impedir a adoção da medida.

Naquele mesmo dia, o ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, conversou por telefone com Marco Rubio sobre o assunto.

Dois dias depois, no dia 10 de março, um porta-voz do Departamento de Estado divulgou uma nota reiterando que o governo norte-americano considerava as duas facções como ameaças ao país.

"Os Estados Unidos consideram as organizações criminosas do Brasil — incluindo o PCC e o CV — como ameaças significativas à segurança regional, devido ao seu envolvimento no tráfico de drogas, na violência e no crime transnacional", dizia o texto.

Lula passou então a defender, de forma ainda mais ostensiva, que os Estados Unidos cooperem com o Brasil no combate ao crime organizado como alternativa à designação.

Ao mesmo tempo, os governos dos dois países discutiam propostas de cooperação nessa área.

No dia 13 de março, o jornal Folha de S. Paulo revelou que os EUA haviam enviado um plano ao Brasil em que pediam que o país adotasse medidas para extinguir o PCC e o CV.

Nas semanas que se seguiram, o esforço da diplomacia brasileira parecia ter surtido efeito e a designação não veio.

<><> Maio de 2026

O assunto, no entanto, voltou à tona nesta semana durante a visita de Flávio Bolsonaro a Washington.

Ele se encontrou com o presidente Trump, seu vice, J.D. Vance e com Marco Rubio.

Nos encontros, disse Flávio, ele defendeu a designação do PCC e do CV como organizações terroristas.

"Batemos de novo na mesma tecla de que os Estados Unidos deveriam classificar, sim, CV e PCC como organizações terroristas. Dissemos que, se Deus quiser, a partir de 2027, o Brasil vai ser um aliado no combate ao crime organizado, diferente do atual governo, que parece proteger esses marginais", disse Flávio após o encontro com Marco Rubio, na quarta-feira.

Segundo ele, Rubio teria parecido até mais favorável à proposta que Trump.

Antes da viagem de Flávio, interlocutores do presidente Lula diziam que, ainda que o governo tivesse conseguido se aproximar de Trump nos últimos meses, inclusive com uma visita ocorrida há menos de um mês, a administração petista tinha a convicção de que diversos setores do governo norte-americano têm uma preferência clara pela candidatura de Flávio Bolsonaro em relação à de Lula.

 

Fonte: BBC News Brasil

 

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