Donos
de fornecedora de batata frita para Assaí e Madero têm histórico de multas
ambientais
A BEM
BRASIL, gigante brasileira do ramo de batata congelada pré-frita, tem entre
seus fornecedores produtores rurais alvos de multas e embargos ambientais —
incluindo dois de seus donos.
A
empresa vende para grandes varejistas do país como Assaí e Atacadão e abastece
grandes redes de fast food, como Madero, Bob’s e Johnny Rockets. A lista de
fornecedores da Bem Brasil consta em uma oferta pública, de outubro de 2025, de
um CRA (Certificado de Recebíveis do Agronegócio), título financeiro negociado
no mercado de capitais.
Segundo
o documento que explica a oferta do CRA, o dinheiro obtido com a emissão do
título seria usado “integral e exclusivamente” para comprar batatas inglesas
dos produtores citados.
Entre
eles, estão os acionistas da empresa João Emílio Rocheto e José Paulo Rocheto,
dois dos três donos do Grupo Rocheto, controlador da Bem Brasil e fornecedor de
70% das compras de batata in natura, de acordo com a oferta pública.
Segundo
informações do site da Bem Brasil, ambos integram o Conselho Administrativo da
empresa — João Emílio ocupa o cargo de presidente.
Em 2024
e 2025, eles receberam multas ambientais que somam mais de R$ 200 mil, segundo
informações públicas do Sisema (Sistema Estadual de Meio Ambiente e Recursos
Hídricos de Minas Gerais) consultadas até a publicação desta reportagem.
As
sanções foram motivadas, no caso de João Emílio, por operar atividade rural
“potencialmente poluidora” sem licenciamento. José Paulo, por sua vez, foi
multado por suprimir vegetação sem autorização do órgão ambiental — inclusive
em APP (Área de Preservação Permanente).
Procurados,
a Bem Brasil e os irmãos Rocheto afirmaram que a companhia tem um sistema
estruturado de rastreabilidade que “garante o monitoramento das matérias-primas
desde a origem até a unidade industrial, com total visibilidade sobre
fornecedores e práticas adotadas”.
Também
disseram que seus fornecedores passam por “rigoroso processo de homologação,
incluindo verificação de conformidade e regularidade junto aos órgãos
ambientais”.
Ainda
segundo a nota da Bem Brasil, a companhia afirmou que, ao identificar “qualquer
potencial de não conformidade, a empresa atua de forma diligente junto aos
fornecedores para a devida apuração dos fatos, adoção de medidas corretivas e
regularização das situações perante os órgãos competentes”.
A
companhia e os irmãos Rocheto não esclareceram se as propriedades autuadas pelo
órgão ambiental de Minas Gerais fornecem batata à Bem Brasil.
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Mais sanções ambientais
Também
de acordo com informações do Sisema, outro fornecedor da Bem Brasil sancionado
por danos ambientais é Antonio Roberto Bergamasco, ex-prefeito de Perdizes
(2021-2024), município mineiro onde a empresa tem fábrica.
Em
2024, Bergamasco foi multado em R$ 118 mil por operar “atividade potencialmente
poluidora ou degradadora do meio ambiente sem autorização”. Em 2023, ele
recebeu duas multas — nos valores de R$ 1,9 milhão e R$ 200 mil — e teve áreas
embargadas (proibidas para uso).
Procurado
pela Repórter Brasil, Bergamasco afirmou, por meio de seus advogados, que
firmou um TAC (Termo de Ajustamento de Conduta) com a Feam (Fundação Estadual
de Meio Ambiente), órgão do governo mineiro responsável por executar a política
de regularização e licenciamento ambiental no estado.
De
acordo com a defesa do produtor, o acordo teria autorizado a continuidade das
atividades concomitantemente ao processo de regularização ambiental. Ainda
segundo o posicionamento, atualmente não haveria mais embargos em nome de
Bergamasco.
Procurada,
a assessoria da Feam não respondeu até o fechamento desta reportagem.
Sobre o
cultivo de batata, os advogados de Bergamasco afirmaram que o plantio teria se
iniciado em abril de 2025, “em momento posterior a todas as autuações
mencionadas e já inteiramente sob o amparo do TAC vigente, que permite a
continuidade adequada de plantio deste gênero”. A resposta completa pode ser
lida aqui.
Também
listado na oferta pública de CRA da Bem Brasil como fornecedor de batata, o
produtor rural Vicente Roxo Nobre Dias teve duas áreas embargadas em 2024.
De
acordo com o sistema de consulta pública do Ibama (Instituto Brasileiro do Meio
Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis), ele desmatou, sem autorização, um
total de 4,1 hectares em uma fazenda na zona rural de Perdizes.
Já
Gustavo Guimaraes Vasconcelos, cujo nome também consta no documento, foi
multado em R$ 178 mil e teve uma área de sua propriedade embargada por desmatar
24 hectares de mata nativa em 2025, segundo base de dados do Sisema. De acordo
com a mesma base, em 2026 ele teria desmatado 24 hectares, recebendo, por esse
motivo, uma multa de R$ 20 mil e a determinação de embargo até a regularização.
Os
produtores Dias e Vasconcelos são donos do Grupo Gran Milho, uma empresa de
grãos e pecuária sediada em Araxá (MG). Eles foram procurados pela Repórter
Brasil e em seus nomes o consultor ambietal Carlos Eduardo Borges de Oliveira
afirmou que “todas as providências cabíveis de adequação e regularização já
foram adotadas junto aos órgãos ambientais competentes”. O consultor também
disse que atualmente os processos encontram-se em fase de análise para o
“encerramento formal da regularização. Também disse que o grupo “reafirma
compromisso” com a legislação ambiental vigente e com a adoção de boas práticas
agrícolas em todos os seus empreendimentos. “A conformidade legal e a
responsabilidade socioambiental são pilares fundamentais da nossa atuação”,
disse.
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Ao ‘vendedor’, as batatas
Na
oferta pública do título financeiro, a Bem Brasil afirma que é responsável por
metade do mercado de batata pré-frita do país. Entre seus principais clientes,
estão as grandes redes varejistas Assaí e Atacadão e as redes de fast food
Madero, Bob’s e Johnny Rockets.
Procurado
pela reportagem, o Assaí informou que solicitou à Bem Brasil esclarecimentos
sobre as sanções ambientais de seus fornecedores e que está avaliando as
informações “à luz dos critérios internos de responsabilidade socioambiental”.
Também afirmou que seus fornecedores passam por processos de “homologação e
monitoramento contínuo”.
Dono do
Atacadão, o Grupo Carrefour Brasil também afirmou que notificou a Bem Brasil e
“iniciou processo de apuração para verificar a conformidade de suas operações
com suas políticas e com a legislação vigente”. O grupo também disse que exige
de seus fornecedores a adesão à sua Carta Ética de Fornecedores e às suas
políticas de compras responsáveis.
Já o
Bob’s respondeu que iniciou uma análise interna sobre possíveis irregularidades
ambientais relacionadas à Bem Brasil. E destacou “seu compromisso com a ética,
a transparência e a sustentabilidade, conduzindo a análise com a seriedade que
o tema exige”.
As
redes Johnny Rockets e Madero não se pronunciaram até a publicação desta
reportagem. O texto será atualizado caso se manifestem.
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Financiando o agronegócio
Os
recursos financeiros obtidos com o título emitido pela Bem Brasil serão
destinados para a compra de batata in natura, segundo o documento de oferta do
CRA aos investidores.
O
título tem a Ecoagro como securitizadora, responsável por estruturar a operação
e emitir o CRA, e o Banco Safra como instituição financeira líder da oferta.
À
Repórter Brasil, a EcoAgro disse que atuou “exclusivamente como prestadora de
serviços de securitização, não tendo exercido a função de estruturadora da
oferta”. A securitizadora também afirmou que “se pautou nas diligências
conduzidas pelos assessores legais da oferta”.
O
escritório Mattos Filho foi o assessor jurídico do Banco Safra na operação.
Procurado, preferiu não se pronunciar.
Ao
Banco Safra, a Repórter Brasil perguntou como é feita a análise de riscos da
operação e se a avaliação da regularidade ambiental da cadeia de fornecedores
faz parte do processo.
Também
foi questionado se a instituição financeira avalia que os investidores tinham
conhecimento sobre os riscos reputacionais associados à existência de autuações
ambientais na cadeia produtiva da devedora do título. A instituição financeira
não quis se manifestar.
A
emissão de CRAs e outros títulos financeiros voltados à produção agropecuária
no Brasil tem crescido nos últimos anos. Para Merel van der Mark, coordenadora
da Florestas & Finanças, o banco e a securitizadora têm a obrigação de
realizar a devida diligência sobre a operação — análise prévia dos créditos,
garantias, lastro, riscos jurídicos, financeiros e socioambientais para
verificar se o título é consistente e seguro para investidores.
Florestas
& Finanças é uma coalizão internacional que monitora financiamentos e
avalia as possíveis conexões dessas operações com desmatamento.
“A
existência de multas ambientais altas, não só por parte do devedor [a Bem
Brasil], mas também por parte dos fornecedores que serão beneficiados pelo CRA,
além de criar risco reputacional para o banco e a securitizadora, pode ter
impacto na capacidade da devedora de honrar financeiramente as obrigações
contidas no CRA, e como tal, cria risco financeiro”, explica van der Mark.
“Esse risco é uma informação crucial para investidores e no mínimo deve ser
publicado no prospecto [documento de oferta pública do título].”
Fonte:
Repórter Brasil

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