Gustavo
Tapioca: O Salão Oval de Trump é o bunker de Flávio Bolsonaro
A
viagem de Flávio Bolsonaro a Washington não é apenas um gesto de campanha. É
uma confissão política. Quem acredita que está ampliando sua base fala com o
país. Quem teme perder a própria base corre para o bunker trumpista da
ultradireita global.
Há
momentos em que uma fotografia vale menos pelo que mostra do que pelo que tenta
esconder. A imagem de Flávio Bolsonaro ao lado de Donald Trump, depois de dias
de expectativa, desgaste e constrangimento, não deve ser lida apenas como
demonstração de força internacional. Deve ser lida, sobretudo, como operação de
defesa. A foto não prova que Flávio cresceu. Revela que ele precisou se
refugiar.
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Depois
do escândalo envolvendo Daniel Vorcaro, Banco Master e o financiamento suspeito
do filme Dark Horse, a candidatura de Flávio entrou em nova fase. A aposta
inicial era apresentá-lo como um Bolsonaro mais palatável, menos explosivo,
mais aceitável para o mercado, para a mídia conservadora e para setores da
direita que desejavam derrotar Lula sem carregar todo o peso tóxico do
bolsonarismo raiz.
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Essa operação sofreu um abalo profundo
O
Brasil 247 publicou nesta quarta-feira, 27, que, após o encontro com Trump,
Flávio teria reuniões no Departamento de Estado dos Estados Unidos e poderia
cumprir agendas com parlamentares republicanos em Washington. No mesmo dia, o
artigo “Estratégia de um derrotado” apontou a mudança essencial: Flávio estaria
retomando o bolsonarismo raiz como estratégia defensiva para conter danos e
preservar força política.
Daniela
Lima, no UOL, chegou ao mesmo ponto por outro caminho. Segundo ela, rivais veem
Flávio mudando a rota para buscar amparo no núcleo duro bolsonarista, tentando
impedir que os eleitores mais fiéis a Jair Bolsonaro se desgarrem do herdeiro
do clã antes da campanha oficial no rádio e na TV.
É aqui
que a fotografia com Trump ganha seu verdadeiro sentido. Ela não é expansão. É
contenção. Não é ponte com o centro. É trincheira para a extrema direita. Não é
demonstração de segurança. É tentativa de recompor a moral da tropa.
Flávio
não foi a Washington para convencer o eleitor moderado brasileiro. Foi para
dizer ao bolsonarismo que ainda é o herdeiro reconhecido pelo chefe da
ultradireita global. O Salão Oval de Trump é o bunker de Flávio Bolsonaro.
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A candidatura que mudou de função
A
pergunta que começa a circular nos bastidores é dura: a campanha de Flávio já
teria concluído que a eleição de outubro está perdida para Lula? Não há prova
pública disso. Nenhuma campanha presidencial admite derrota antes da hora. Mas
os sinais apontam para uma mudança de função política da candidatura. Flávio
ainda disputa para vencer. Mas talvez já esteja, ao mesmo tempo, disputando
para não morrer.
Essa
diferença é decisiva.
Vencer
Lula em 2026 continua sendo o objetivo máximo da direita. Mas, se a vitória
parecer cada vez menos provável, o objetivo realista passa a ser outro: chegar
ao segundo turno, perder por margem administrável, manter a base bolsonarista
unida, eleger um Congresso ainda mais hostil ao governo Lula e sair da eleição
como líder natural da oposição para 2030.
Nesse
cenário, uma derrota apertada não seria tratada como derrota. Seria
transformada em narrativa.
Flávio
diria que enfrentou Lula, a máquina federal, a Justiça, a imprensa, o sistema,
o “globalismo”, os “comunistas” e quase venceu. Diria que foi vítima de
perseguição. Diria que o escândalo Vorcaro foi armação. Diria que o povo
conservador resistiu. Diria que 2030 começou no dia seguinte à apuração de
2026.
É por
isso que a foto com Trump importa tanto. Ela não serve apenas para outubro.
Serve para novembro. Serve para os quatro anos seguintes. Serve para preservar
Flávio como ativo político, mesmo em caso de derrota.
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Valdemar olha para Flávio, mas pensa no PL
A
entrevista de Valdemar Costa Neto, presidente do PL, à GloboNews acrescenta
outra camada à crise. Na leitura do professor João Cezar de Castro Rocha,
Valdemar não parece empenhado em salvar a candidatura de Flávio Bolsonaro a
qualquer custo. Parece empenhado em salvar o próprio PL. Essa diferença muda
tudo.
Valdemar
é menos um ideólogo do bolsonarismo do que um operador profissional da máquina
partidária. Enquanto o sobrenome Bolsonaro rende votos, bancada, dinheiro
público e poder de barganha, ele é protegido. Quando começa a contaminar o
projeto eleitoral, passa a ser administrado como risco.
É nesse
ponto que a foto com Trump ganha ainda mais sentido. Flávio não correu a
Washington apenas para enfrentar Lula ou responder ao escândalo Vorcaro, ao
qual está profundamente ligado. Correu também para mandar um recado ao próprio
PL: ainda tenho Trump, ainda tenho base, ainda tenho valor eleitoral.
O Salão
Oval virou bunker porque o perigo já não vem só de fora. Vem também de dentro
da direita.
Valdemar
pode até defender Flávio publicamente enquanto isso for conveniente. Mas sua
prioridade é preservar o PL como maior máquina da direita brasileira. Se Flávio
se mostrar inviável, o partido buscará outra saída. Valdemar Costa Neto não
morre abraçado a candidato ferido. Ele calcula, recua, reposiciona-se e
negocia. Afinal, o PL foi o partido que mais recebeu recursos do Fundo
Partidário em 2025.
Segundo
dados oficiais do TSE, o PL, partido do qual Valdemar é presidente, recebeu R$
192,1 milhões em dotações orçamentárias do Fundo Partidário, mais R$ 16,4
milhões provenientes de multas eleitorais. Somando as duas fontes, o total
chegou a R$ 208,6 milhões em 2025.
Flávio,
portanto, precisava da foto. Precisava provar que ainda vale o custo político
de ser mantido como candidato.
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A burguesia dividida
A
análise de Breno Altman, no Opera Mundi, ajuda a organizar o quadro eleitoral.
Segundo ele, aquilo que chama de burguesia — os donos do dinheiro e do poder —
estaria hoje dividido em três frações.
A
primeira é a que queria uma terceira via com força real, especialmente Tarcísio
de Freitas. Tarcísio era o candidato ideal para parte do mercado e da direita
liberal: conservador, privatista, com discurso de gestão, sem o estilo
destrutivo de Jair Bolsonaro e com capacidade de dialogar com setores
empresariais que temem a instabilidade do bolsonarismo puro-sangue. Mas
Tarcísio preferiu disputar novamente o governo de São Paulo e esperar 2030.
Sem
Tarcísio, essa fração do andar de cima ficou sem seu candidato dos sonhos. E,
na falta de alternativa forte, passou a aceitar Flávio Bolsonaro como o
candidato possível. Não por entusiasmo. Por cálculo. Não porque Flávio seja
confiável. Mas porque carrega o sobrenome Bolsonaro, segura a base radical e
pode levar a disputa ao segundo turno.
A
segunda fração ainda procura uma terceira via. Olha para Ronaldo Caiado, Romeu
Zema, Renan Santos, Aécio Neves, Joaquim Barbosa e outros nomes que aparecem ou
tentam aparecer nas pesquisas. Mas essa terceira via continua com o mesmo
problema de sempre: existe nos editoriais, nos salões, nos institutos de
pesquisa, nos seminários acadêmicos e nas conversas do mercado e do bar, mas
não se transforma em força popular capaz de romper a polarização.
A
terceira fração já trabalha com a hipótese de Lula vencer. Essa parte do poder
econômico pode combater Lula publicamente e negociar com ele reservadamente.
Pode financiar adversários e, ao mesmo tempo, abrir pontes com o governo. Pode
fazer discurso contra o PT e pedir cargos, influência, garantias, juros,
orçamento, obras, marcos regulatórios, controle sobre estatais, agronegócio,
mineração, energia e sistema financeiro.
É o
velho realismo das elites brasileiras: hostilidade no palanque, negociação na
sala fechada e sem celular. A crise Vorcaro acelerou essa divisão. Antes dela,
Flávio tentava ser candidato de ampliação. Depois dela, passou a ser candidato
de contenção. Essa talvez seja a mudança mais importante.
O
objetivo imediato não é mais convencer o Brasil de que Flávio é moderado. Essa
fantasia perdeu força. O objetivo agora é convencer o bolsonarismo de que
Flávio ainda é Bolsonaro. Que ainda tem Trump. Que ainda tem Washington. Que
ainda tem a bênção simbólica da ultradireita global. Que ainda pode ser o nome
de 2026. Ou, se necessário, de 2030.
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A eleição de 2030 já começou
Se Lula
vencer em 2026, não poderá disputar uma nova reeleição consecutiva em 2030
pelas regras eleitorais. O campo democrático terá de construir outro nome, sem
o mesmo recall popular, sem a mesma ligação afetiva com os setores mais
vulneráveis da população e sem a biografia que fez de Lula uma exceção na
história política brasileira.
Lula
chegaria ao fim de um eventual quarto mandato com idade avançada, submetido ao
desgaste natural de qualquer governo, ainda mais se cercado por um Congresso
dominado pela direita. A oposição sabe disso. A burguesia sabe disso. O
bolsonarismo também. Daí a estratégia provável: mesmo que Lula vença, ele
precisa vencer cercado.
Cercado
por uma Câmara mais conservadora. Cercado por um Senado mais bolsonarista.
Cercado por CPIs, chantagens orçamentárias, sabotagens legislativas, bloqueios
institucionais, crises fabricadas, guerra cultural permanente e pressão da
mídia empresarial.
A
direita pode aceitar perder o Planalto em 2026 se ganhar as condições políticas
para inviabilizar o governo Lula e preparar 2030 como a eleição do “fim de
ciclo”. Nesse sentido, 2026 pode deixar de ser apenas uma eleição presidencial.
Pode se tornar a primeira batalha de 2030.
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O bunker e o futuro
Para
Lula, o perigo não está apenas em Flávio vencer. Está também em Flávio perder
preservando força.
Uma
vitória de Lula contra um bolsonarismo desmoralizado abriria espaço para
governar com mais legitimidade. Mas uma vitória apertada contra uma direita
radicalizada, com bancada ampliada no Congresso e narrativa de revanche para
2030, poderia produzir um governo sitiado desde o primeiro dia. Esse é o plano
possível da direita: se não puder derrotar Lula agora, que ao menos o impeça de
governar.
Se não
puder conquistar o Executivo, que capture o Legislativo.
Se não
puder vencer 2026, que transforme 2026 em preparação para 2030.
Nesse
desenho, Flávio Bolsonaro não precisaria sair de outubro como presidente.
Bastaria sair como chefe da oposição. Bastaria chegar vivo. Bastaria perder sem
ser destruído. Bastaria manter o sobrenome Bolsonaro como senha de mobilização
permanente.
A foto
com Trump, portanto, é mais do que uma imagem. É uma estratégia condensada. Ela
diz que Flávio voltou ao lugar de onde nunca saiu: o bolsonarismo raiz. Diz que
a direita liberal continua órfã de um candidato plenamente confiável.
Diz que
a burguesia se divide entre o bolsonarismo possível, a terceira via improvável
e a negociação pragmática com Lula.
Diz que
Valdemar Costa Neto já calcula menos a salvação de Flávio do que a
sobrevivência do PL. Diz que 2026 pode ser disputado como eleição presidencial,
mas também como ensaio geral de 2030. E diz, sobretudo, que Flávio Bolsonaro já
não tenta apenas parecer forte. Tenta impedir que sua fraqueza vire colapso.
O Salão
Oval de Trump é o bunker de Flávio Bolsonaro porque abriga uma candidatura
ferida, uma direita sem rumo único e um projeto autoritário que ainda não
desistiu do Brasil.
Lula
pode vencer 2026. Mas a pergunta decisiva é outra: vencerá com força suficiente
para governar? Ou vencerá cercado por uma direita que já terá transformado sua
derrota em plano de guerra para 2030?
Esse é
o verdadeiro sentido da viagem a Washington.
Flávio
foi buscar em Trump não apenas uma foto. Foi buscar oxigênio. Foi buscar
abrigo.
Foi
buscar tempo.
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"Factóide bolsonarista para desviar atenção do caso
Master', diz Alckmin após EUA classificarem PCC e CV como terroristas
O
vice-presidente da República, Geraldo Alckmin (PSB), criticou nesta sexta-feira
(29) a decisão dos Estados Unidos de classificar o Primeiro Comando da Capital
(PCC) e o Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas.
Segundo
ele, a medida pode provocar impactos econômicos negativos para o Brasil sem
representar avanços concretos no combate ao crime organizado e que aliados de
Jair Bolsonaro (PL) estariam utilizando o tema para desviar a atenção de
denúncias relacionadas ao Banco Master e ao banqueiro Daniel Vorcaro.
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Ao
comentar a repercussão da decisão estadunidense, o vice-presidente fez críticas
ao entorno político de Bolsonaro e associou a mobilização em torno do tema a
uma tentativa de mudar o foco do debate público. “O que eu lamento nesse
episódio é que, infelizmente, membros do clã Bolsonaro pensam mais em si do que
no país. Então, para sair desse tema do Banco Master, o maior caso de corrupção
e sonegação de tributos, aí ficam gerando factoides para desviar a atenção.
Pensam mais em si do que no país, isso é ruim para o Brasil”, disse Alckmin
durante coletiva de imprensa em Caraguatatuba, no litoral norte de São Paulo.
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Impactos econômicos preocupam o governo
Alckmin
afirmou que a classificação das facções como organizações terroristas pode
trazer consequências para a economia brasileira, especialmente no sistema
financeiro. “Pode ter consequências na área do sistema financeiro, na área da
economia, não vai resolver nada em termos de combate ao crime e pode prejudicar
a economia”, afirmou.
Na
avaliação do vice-presidente, o enfrentamento ao crime organizado já é
realizado pelas autoridades brasileiras por meio de operações permanentes e
ações integradas entre órgãos de segurança.
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Operação Fluxo Oculto foi citada como exemplo
Na
entrevista, Alckmin destacou a Operação Fluxo Oculto, deflagrada nesta semana
pela Polícia Federal em um desdobramento da Operação Carbono Oculto, como uma
demonstração da capacidade do Estado brasileiro de combater organizações
criminosas em diferentes níveis. “A Operação Fluxo Oculto não pegou só quem
estava ali na ponta, mas pegou toda a cadeia, envolvendo importadores, navios,
refinarias. Então esse é um trabalho permanente”, disse.
Fonte:
Brasil 247

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