Em
vez de recuar diante do preconceito, geração prateada cria as próprias
oportunidades
Às 11h
de uma quarta-feira, Maurício Ferreira esperava para se encontrar com a
reportagem em frente à Livraria do Chico, no prédio principal da Universidade
de Brasília (UnB). Com um fichário e um livro, escrito por ele próprio, em
mãos, dispensou ser chamado de senhor e avisou que a próxima aula seria apenas
às 14h. Durante a conversa, ao menos cinco pessoas o reconheceram e o
cumprimentaram. Aos 67 anos, Maurício é um fenômeno. Com 13 mil seguidores no
Instagram, ele movimenta o perfil @IdosonaUnB, onde conta com irreverência os
causos e desafios de um estudante 60 .
"Só
faltei uma vez quando precisei viajar a trabalho, mas detesto perder
aulas", comenta. Aluno do terceiro semestre de ciências econômicas, o
morador de Sobradinho diz sentir-se em casa na universidade. "Nunca
percebi qualquer situação que remetesse a preconceito por idade. Ao contrário,
sou muito querido. Sinto que, se eu levantar a mão, os 'meninos' vêm me ajudar.
Eu aprendo com eles e eles, comigo. É uma troca de experiências", afirma.
E a cumplicidade não se restringe à sala de aula. "Outro dia, joguei
ping-pong com eles (demais alunos) no centro acadêmico e dei uma 'surra' no
pessoal", conta, orgulhoso.
O
profissional da área de tecnologia, aposentado há dois anos do Ministério da
Saúde, é um dos 594 estudantes idosos da UnB ingressos no Vestibular 60 .
"Como não consigo ficar parado, escutei o conselho do meu filho e fiz a
prova. Depois que terminar esse curso, quero fazer dupla diplomação com
psicologia", revela. Foram os três filhos, inclusive, que o incentivaram a
criar o perfil na rede social.
"Muitas
pessoas da minha idade mandam mensagens falando que ficaram animadas para
voltar a estudar após assistir a meus vídeos. Curiosas, perguntam como o
processo funciona. Os jovens também gostam, mostram aos pais. Isso me enche de
satisfação e me motiva a continuar gravando. Agora, estou no TikTok
também", avisa. Fora da universidade e das redes, no entanto, as pessoas
nem sempre são tão amistosas.
Esta é
a quarta reportagem da série Envelhecer é moderno, que traça um diagnóstico
sobre o que significa ter mais de 60 anos no Distrito Federal em 2026. Nesta
edição, o Correio aborda o etarismo, preconceito que tenta rotular a terceira
idade, mas que esbarra na energia de quem decidiu ignorar os estereótipos de
incapacidade, infantilização e perda de produtividade. Maurício e Sylvia Yano
são exemplos.
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Viajante bem-vivida
Foi na
farra dentro do Fusca da mãe, a caminho de diferentes cidades no Brasil, que
Sylvia Yano descobriu o gosto pelas viagens. Mais velha de cinco irmãos, ela
adorava passar o tempo ao lado da família. "Era emocionante conhecer novos
destinos com quem amamos", comenta. No decorrer de cada ano, ela esperava
ansiosamente as férias, quando teria a oportunidade de ver de perto São Paulo
(SP) ou Teresina (PI). "O 'bichinho' de viajar foi instaurado em mim
ali", conta.
Sylvia
visitou todas as capitais do Brasil — "menos Palmas" — e conhece 56
países. Aos 67 anos, aposentada, ela e a amiga Lilian Azevedo são as vozes no
podcast Viajantes Bem-Vividas, no qual dão dicas de viagens e procuram
incentivar as pessoas, independentemente da idade, a se aventurar no mundo. Com
103 episódios, o programa também desmistifica os mitos em torno de viajar
sozinha depois dos 60.
O
projeto nasceu há cinco anos, durante a pandemia. As duas, que tinham os
próprios blogs, decidiram unir forças para alimentar a imaginação do público em
um período de isolamento. Sylvia, além de viajar acompanhada, passou a conhecer
lugares mais distantes somente depois dos 40. "Uma das principais
dificuldades advindas da idade é a vulnerabilidade a golpes e furtos.
Criminosos costumam enxergar o público 60 como alvo mais fácil. O essencial é
ter malícia e atenção redobrada para não se deixar enganar", alerta.
Suas
aventuras, com frequência, despertam o receio de amigas, que perguntam como
superar o medo, e o julgamento de terceiros, que rotulam suas experiências como
loucura. Para Sylvia, o essencial é se planejar. Ela defende que o preparo
minucioso, muitas vezes negligenciado pelos jovens, é indispensável para a
segurança. "Medo tem que ser um estímulo para não se deixar congelar. Cada
vez que você viaja sozinha, você se empodera", destaca.
Para
acompanhar o ritmo de caminhadas nas viagens, a podcaster diz fazer musculação
toda semana. Com a idade, ela reconhece que seus limites físicos mudaram, mas a
prática de exercícios físicos a permite seguir na ativa. Com relação à
aparência, Sylvia não se preocupa. "Deixei de ser uma gatinha para virar
uma 'gatosa'", brinca. O importante, segundo a viajante bem-vivida, é não
deixar as ideias do que corresponde a cada idade ditarem seu comportamento.
"Limitante é a forma de ver a vida, tanto para jovens quanto para
idosos", destaca.
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Competição desleal
De
acordo com Otávio de Toledo Nóbrega, professor da UnB e conselheiro titular dos
direitos do idoso do DF, estudos mostram que o contato frequente entre
diferentes gerações estimula a memória, a linguagem e a atenção, além de
reduzir a solidão e o sentimento de inutilidade. "Esse convívio ajuda a
desconstruir o etarismo e favorece relações mais empáticas. Idosos com uma rede
familiar ativa e próxima de filhos e netos tendem a preservar a memória e a
funcionalidade por mais tempo", defende.
O
pesquisador da área do envelhecimento e longevidade também destaca que o DF tem
idosos mais escolarizados e de renda mais alta, mas que sofrem com a exclusão
laboral. "Há um paradoxo: profissionais qualificados e estáveis são vistos
como ultrapassados. Isso ocorre porque o Brasil é um país maduro que ainda lida
com angústias adolescentes, valorizando apenas a juventude. As empresas operam
focadas na jovialidade, desperdiçando um capital humano experiente e
valioso", explica Otávio.
"Brinco
que tenho o dom de fazer os jovens dormirem. Basta eu subir no ônibus para
todos pegarem no sono. Alguns até babam", conta o estudante 60 da UnB
Maurício Ferreira. A atitude, porém, não o chateia. "Não ligo. Eu mesmo já
dei lugar para pessoas mais novas sentarem, até porque, muitas vezes, me vejo
com mais energia do que elas. Mas, claro, não é assim com todos os idosos.
Então, é preciso ter bom senso", recomenda.
Se no
transporte público a reação dissimulada dos passageiros não o incomoda tanto,
no mercado de trabalho o preconceito assume contornos financeiros. Maurício
recorda que o "peso" da idade começou a se fazer sentir logo após os
50 anos, momento em que as entrevistas de emprego passaram a dar lugar a
justificativas corporativas veladas.
Na
dinâmica do setor privado, ele percebeu que a bagagem acumulada em décadas de
atuação na área de tecnologia encontrava uma barreira no comodismo das
empresas, que tendem a priorizar profissionais mais jovens por questões de
custo salarial. "A desculpa era sempre de que preferiam alguém começando
para poder expandir e viajar. Eu dizia que também podia viajar, não teria
impedimentos. Ficou um sentimento de marginalização", relembra.
Diante
de uma competição desleal, a saída encontrada pelo estudante de ciências
econômicas não foi o recuo, mas o empreendedorismo. Ao criar o próprio negócio,
que presta serviços tecnológicos para empresas privadas, Maurício passou a
ditar o ritmo da própria carreira. Quanto aos estudos, ele projeta: "Quero
continuar estudando na UnB para, daqui a alguns anos, dividir os corredores com
o meu neto, que hoje tem 15 anos, assim que ele passar no vestibular".
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Três perguntas para Otávio de Toledo Nóbrega, professor da UnB, conselheiro
titular dos Direitos do Idoso do DF e pesquisador da área do envelhecimento e
longevidade
• Como a convivência intergeracional
impacta cognitiva e socialmente a saúde de quem está envelhecendo?
Estudos
mostram que o contato frequente entre diferentes gerações estimula a memória, a
linguagem e a atenção, além de reduzir a solidão e o sentimento de inutilidade.
Esse convívio ajuda a desconstruir o etarismo e favorece relações mais
empáticas. Idosos com uma rede familiar ativa e próxima de filhos e netos
tendem a preservar a memória e a funcionalidade por mais tempo.
• Quais são as consequências da busca
incessante por procedimentos estéticos e pelo "antienvelhecimento"? A
sociedade tolera melhor o envelhecimento masculino do que o feminino?
O
envelhecimento feminino é julgado de forma mais severa porque a nossa cultura
associa o valor social da mulher à juventude. Homens grisalhos são vistos como
maduros; já as mulheres enfrentam invisibilidade e forte pressão estética. O
cuidado estético é saudável para a satisfação pessoal, mas a cobrança excessiva
gera ansiedade e agrava desigualdades, punindo quem não tem recursos para
acessar esses procedimentos.
• O que falta para Brasília se tornar, de
fato, uma cidade "amiga do idoso" no que diz respeito à cultura e ao
mercado de trabalho?
O DF
tem idosos mais escolarizados e de renda mais alta, mas que sofrem com a
exclusão laboral. Há um paradoxo: profissionais qualificados e estáveis são
vistos como ultrapassados. Isso ocorre porque o Brasil é um país maduro que
ainda lida com angústias adolescentes, valorizando apenas a juventude. As
empresas operam focadas na jovialidade, desperdiçando um capital humano
experiente e valioso.
Fonte:
Correio Braziliense

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