O
irmão de 1º líder da Ku Klux Klan que foi um dos últimos traficantes de
escravizados para o Brasil
Um dos
últimos episódios de tráfico transatlântico ilegal de escravizados registrados
nos arquivos do Império do Brasil envolve um imigrante americano que viveu no
interior de São Paulo.
O
episódio teria acontecido após o fim da escravidão nos EUA e quando ela ainda
era permitida no Brasil, mas já após a proibição do tráfico para o país.
Ao
investigar a identidade do traficante, o historiador Célio Antonio Alcantara
Silva se deparou com um célebre sobrenome: William Hezekiah Forrest, major do
exército confederado ao final da Guerra de Secessão e, antes de 1865,
traficante de escravos.
Chamado
de Bill nos Estados Unidos e Guilherme no Brasil, Forrest era irmão do lendário
general confederado Nathan Bedford Forrest (1821-1877), também comerciante de
cativos antes da guerra e primeiro líder da organização supremacista branca Ku
Klux Klan (KKK), fundada em 1865 nos EUA.
Em
artigo publicado na revista Bulletin of Latin American Research, em 2024, o
professor da Universidade Federal do Tocantins (UFT) mencionou pela primeira
vez a passagem de Bill Forrest pelo Brasil.
Os
Estados Unidos Confederados da América foram uma coligação de 11 Estados que se
separaram da União por não aceitar o avanço da causa abolicionista representado
pela eleição do presidente Abraham Lincoln (1809-1865).
O
resultado foi a Guerra de Secessão (1861-1865), o mais sangrento conflito da
história americana, que deixou como saldo, além do fim da escravidão, mais de
600 mil mortos (cerca de 2% da população do país) e 400 mil mutilados.
A
imigração confederada para o Brasil foi efetivamente organizada em torno de
líderes de alto escalão da Confederação, como o ex-senador e coronel
confederado William Huntchinson Norris, do Alabama.
<><>
'Nenhum vivente pode dizer quando Bill vai perder a cabeça'
A
incursão brasileira de Forrest insere-se, de acordo com Silva, no contexto
histórico do que o pesquisador chama de "crise da escravidão no Hemisfério
Ocidental".
"O
Brasil serviu como atrativo para esses indivíduos [confederados] por apresentar
escravidão legal e melhores condições de reprodução do sistema de plantagem
(plantation) em virtude da disponibilidade de terras em comparação com o outro
único ponto das Américas que permitia trabalho cativo, a então colônia
espanhola de Cuba", afirma o historiador, de Palmas (TO), por
videoconferência, à BBC News Brasil.
Assim
como outros irmãos do general Forrest, Bill serviu sob as ordens do irmão mais
velho no Exército Confederado.
No
cinema, o primogênito forneceu a irônica inspiração para o nome do personagem
Forrest Gump no filme homônimo de 1994 feito por Robert Zemeckis.
Na vida
real, sua trajetória teve pouco em comum com as peripécias cômicas do tipo
interpretado pelo ator Tom Hanks.
O
general, chamado de Mago da Sela por seus talentos de cavaleiro e chefe
militar, foi um dos mais notórios integrantes da Ku Klux Klan. Na organização,
era cultuado como "Grande Mago" (Grand Wizard) em razão do apelido
dos anos de guerra.
Celebrando
o antigo ideal de um Sul branco e escravista, o grupo permanece até hoje
envolvido em crimes de ódio contra afrodescendentes, judeus e outras minorias.
O
historiador e escritor norte-americano Shelby Foote (1916-2005) afirma que,
embora tenha revelado inúmeros comandantes notáveis, a guerra civil americana
conheceu apenas dois gênios autênticos: Nathan Forrest e Lincoln.
Quando
Forrest morreu, em 1877, um jornalista escreveu em um periódico de Cincinnati,
Ohio, que o intrépido comandante só temera um indivíduo ao longo da vida: o
irmão Bill.
"Apenas
um dos sete [filhos da família Forrest que combateram nas fileiras da
Confederação], porém, tornou-se o que realmente podemos nomear de desperado
(bandido perigoso), e esse foi Bill Forrest, o único homem de quem o general
Forrest costumava dizer que sentia medo", afirmou.
"'Nenhum
vivente', disse o general, 'pode dizer quando Bill vai perder a cabeça'."
Um
biógrafo do comandante confederado produziu em 1902 o seguinte retrato de Bill:
"William Forrest, o terceiro filho, um alto capitão de batedores durante a
guerra, era um homem grande e vistoso, um combatente temível, e foi ferido
várias vezes. Ele era muito quieto em maneiras, mas rápido na ação, e em
dificuldades pessoais, às quais tinha apenas em razão de algum amigo mais
fraco, era um antagonista perigoso".
Outro
biógrafo de Forrest narra um episódio que dá ideia da audácia do irmão: o
ataque ao Hotel Gayoso, em Memphis, Tennessee, então ocupada pelas forças da
União, com o objetivo de capturar o general Stephen A. Hurlburt.
"O
capitão Bill galopou para o Gayoso e, sem a formalidade de apear do cavalo,
invadiu o lobby. Um oficial resistiu e foi alvejado. Parte do estado-maior de
Hurlburt foi capturada, mas o general escapou", afirma o autor.
<><>
'Deslocou-se da vizinhança de Santa Bárbara para a costa da África'
No
trabalho de Silva, intitulado "Entre o Mago e os Pirófagos: Os Últimos
Registros de Tráfico Ilegal de Escravizados para o Brasil, 1866-1870", o
autor cita duas cartas de um diplomata britânico no Rio de Janeiro com
referências a "[...] um cidadão dos Estados Unidos chamado Forrest (um
irmão da pessoa designada como General Forrest)".
Esse
indivíduo, escreve George Buckley Mathew nos dias 3 e 18 de maio de 1870,
"deslocou-se alguns meses atrás da vizinhança de Santa Bárbara para a
costa da África", de acordo com informação atribuída ao então cônsul
britânico em exercício em Santos (SP), Elliot Bushby.
O
destinatário de uma das cartas de Mathew foi João Maurício Wanderley, o Barão
de Cotegipe, que, na condição de ministro da Marinha, era responsável pela
apreensão de embarcações associadas ao tráfico.
A
polícia de Limeira e Constituição, hoje Piracicaba, não conseguiu localizar
Bill.
Autoridades
da última vila recolheram, porém, depoimentos de quatro imigrantes americanos
atestando que um certo Guilherme, que vivia na propriedade da "viúva
Barbe", em Santa Bárbara, era o Forrest nomeado pelo cônsul.
"No
Brasil do século 19, era prática comum atribuir o nome Guilherme a estrangeiros
ao traduzir seus nomes com o equivalente em português de William ou
Wilhelm", afirma o pesquisador.
Em seu
trabalho, Silva salienta que, em 1871, o general Forrest foi ouvido pelo
Congresso dos Estados Unidos em uma investigação sobre as atividades do grupo
no Brasil.
O
militar disse que as únicas informações de que dispunha sobre o assunto
provinham "de um homem morto na Carolina do Norte e de um imigrante que
estava na época no Brasil", afirma o historiador.
"Seria
esse imigrante William Hezekiah Forrest?", questiona Silva.
Qualquer
que seja a resposta, a biografia de Bill torna-se opaca depois dos registros
descobertos pelo professor até sua morte, no Tennessee.
<><>
Cerca de 6 milhões de africanos foram embarcados como cativos para o Brasil
O
tráfico foi o tema dominante da política externa do Brasil de 1822 a 1850, com
o agravante de que, na maior parte desse período, a prática foi ilegal.
A
proibição, expressa em lei de 1831, não impediu o transporte de mais de um
milhão de indivíduos em navios negreiros sob a complacência das autoridades
imperiais.
Cerca
de seis milhões de africanos foram embarcados como escravos para o Brasil, de
longe o maior destino de cativos nas Américas.
A
principal pressão contra o tráfico vinha do Reino Unido, que, por meio da Lei
Aberdeen, de 1845, passou a apreender embarcações com destino ao Brasil,
provocando reações indignadas dos proprietários de escravizados.
Em
1850, a Assembleia Geral do Império, que reunia a Câmara e o Senado, aprovou a
apreensão de navios envolvidos na operação.
A lei
de 1850 foi batizada de Lei Eusébio de Queirós em homenagem a seu proponente,
senador e ex-chefe de polícia do Rio de Janeiro que, ironicamente, ganhara fama
pela leniência em relação à prática.
O texto
que levou seu nome foi, porém, efetivamente cumprido e teve como consequência a
eliminação praticamente completa do trânsito de escravizados pelo Atlântico.
Enquanto
a aprovação da Lei Eusébio de Queirós em 1850 e a rendição do Sul escravista
nos Estados Unidos em 1865 apontam, segundo Silva, para uma convergência
histórica, o fato de o Império permitir o emprego de escravos nas colônias
oficiais habitadas por americanos revela uma conexão entre o Brasil e a
Confederação.
Nas
áreas destinadas pelo Império a colonos alemães, italianos e outros, a
escravidão era proibida.
"Ao
mesmo tempo que eles [os confederados] dirigiam-se ao Brasil buscando
reconstituir as condições do Sul escravista, essas condições aqui já tinham
sido alteradas pela derrota da Confederação nos Estados Unidos", afirma
Silva.
<><>
Segunda maior imigração em massa da história dos EUA fixou-se em solo
brasileiro
Pesquisadores
calculam que entre dois mil e quatro mil habitantes dos Estados que formaram a
Confederação (Carolina do Sul, Mississipi, Flórida, Alabama, Geórgia, Texas,
Louisiana, Virginia, Arkansas, Carolina do Norte e Tennessee) tenham escolhido
o Brasil como destino após a guerra.
O país
foi o principal ponto de chegada de antigos confederados fora dos Estados
Unidos. Com isso, abrigou a segunda maior imigração em massa da história
americana, superada apenas pela diáspora rumo ao Canadá durante a Guerra de
Independência, no século 18.
Questionada
sobre a existência de registros a respeito de William Hezekiah Forrest em Santa
Bárbara d'Oeste, Natália Novaes, coordenadora do Centro de Memórias Historiador
Antonio Carlos Angolini, vinculado à Secretaria Municipal de Cultura e Turismo,
disse à BBC News Brasil que não há informações sobre o militar nos arquivos da
instituição.
O
presidente da Fraternidade Descendência Americana, Rogério Seawright, afirmou
que não conhece William Hezekiah Forrest nem sabe nada sobre sua passagem pelo
Brasil.
A
respeito de um imigrante em Santa Bárbara d'Oeste ter sido apontado como
envolvido em tráfico ilegal de escravizados, Seawright disse que não pode se
posicionar.
"Não
posso falar nada sobre esse assunto, não tenho nenhum conhecimento do assunto.
Quando eu nasci, a escravidão tinha acabado havia mais de cem anos",
declarou por telefone à BBC News Brasil.
Seawright
argumentou que, na época, a escravidão era legal "de norte a sul do
Brasil" e que a maioria dos imigrantes americanos era pobre e sem recursos
para compra de cativos.
Fonte:
Por Luiz Antônio Araujo, de Porto Alegre para a BBC News Brasil

Nenhum comentário:
Postar um comentário