Governo
Trump declara PCC e CV organizações terroristas: o que pode acontecer agora?
O
governo dos Estados
Unidos decidiu
classificar as facções brasileiras Comando Vermelho (CV) e Primeiro Comando da
Capital (PCC) como organizações terroristas.
Analistas
ouvidos pela BBC News Brasil consideram improvável uma intervenção militar nos
moldes da que foi feita na
Venezuela em janeiro para depor Nicolás
Maduro. Ainda assim, afirmam que haveria formas menos explícitas de
pressionar as facções e, em alguma medida, o governo brasileiro.
Em
comunicado publicado nesta quinta-feira (28/5), o secretário
de Estado americano, Marco Rubio, afirmou que CV e o PCC "são
duas das organizações criminosas mais violentas do Brasil"
e que serão designadas como Organizações Terroristas Estrangeiras a partir do
dia 5 de junho.
"A
administração Trump continuará a usar todas as ferramentas disponíveis para
proteger nossa nação e nossos interesses de segurança nacional, mantendo drogas
ilícitas fora de nossas ruas e interrompendo os fluxos de receita que financiam
narcoterroristas violentos", afirmou.
O
anúncio ocorre um dia após o senador e pré-candidato à Presidência da
República Flávio
Bolsonaro (PL-RJ) ter se reunido com Rubio e na mesma semana em
que solicitou ao presidente Donald Trump que
designasse as facções brasileiras como terroristas durante encontro na Casa
Branca.
Três
semanas atrás, o presidente Luiz Inácio
Lula da Silva (PT)
esteve em Washington e tentou,
entre outras coisas, evitar esse movimento, segundo interlocutores
de seu governo.
Diplomatas
ouvidos pela BBC News Brasil avaliam, sob condição de anonimato, que uma medida
desse tipo não é tecnicamente correta, uma vez que não haveria
indícios de que as duas facções pratiquem terrorismo sob a lei brasileira.
Para
estudiosos, facções como o PCC e o
Comando Vermelho são criminosas, porque agem por interesses
econômicos, sem qualquer motivação ideológica, diferentemente das organizações
terroristas. Mas Trump tem contestado essa distinção, a exemplo do que fez
no México,
com os cartéis, no ano passado.
Nos
bastidores, o temor é que a classificação seja usada para justificar ações,
inclusive militares, na região, a exemplo dos bombardeios a
barcos na costa de países como Colômbia e Venezuela sob
o pretexto de combater o narcotráfico.
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O que Trump poderia fazer contra o Brasil?
Os
Estados Unidos podem lançar mão de instrumentos jurídicos, financeiros,
diplomáticos e militares na tentativa de ampliar sua influência sobre Brasília e,
de alguma forma, sobre as eleições, segundo especialistas ouvidos pela BBC News
Brasil — o que, em última análise, pode desgastar Lula.
Trump poderia valer-se, por exemplo, das leis RICO (Racketeer
Influenced and Corrupt Organizations Act) e Kingpin (Foreign Narcotics
Kingpin Designation Act).
A RICO
(Lei sobre Organizações Influenciadas por Atividades Criminosas e Corruptas)
foi criada para combater a máfia americana, mas permite processar organizações
envolvidas nos chamados crimes continuados — aqueles que não se esgotam em um
ato, mas persistem ao longo do tempo, como corrupção,
lavagem de dinheiro, extorsão e tráfico.
Já a
Kingpin Act (Lei de Designação de Chefes do Narcotráfico Estrangeiro) é voltada
ao narcotráfico internacional. Ela autoriza o governo a perseguir traficantes,
cartéis e seus facilitadores financeiros, bloqueando bens, transações e acesso
ao sistema bancário americano.
Ambas
são profundamente reguladas e exigem investigação formal, produção de provas e
revisão judicial para que suas sanções sejam de fato aplicadas.
No
entanto, quando um grupo passa a ser classificado como terrorista, ou um país é
visto como abrigo dessas organizações, as autoridades ganham margem mais ampla
de atuação. O tema, afinal, passa a ser tratado como uma ameaça à segurança
nacional.
Esses
instrumentos se assemelham à Lei Magnitsky,
que impõe sanções financeiras a acusados de corrupção ou violações de direitos
humanos. Foi ela que, no ano passado, Trump usou
contra o ministro Alexandre de
Moraes, do Supremo
Tribunal Federal (STF), dificultando sua relação com o sistema
financeiro americano.
Na
visão do professor Carlos Gustavo Poggio, especialista em política externa
americana para a América
Latina, não é impossível imaginar que Trump possa recorrer a alguma
dessas leis para impor sanções a bancos brasileiros, por exemplo.
Afinal,
mesmo que indiretamente e até sem saber, muitos deles mantêm relações
financeiras ou comerciais que podem cruzar, em algum nível, com integrantes do
PCC e do CV.
É nesse
mesmo sentido, diz Poggio, que civis também poderiam ser prejudicados.
"Muitas pessoas que moram em comunidades, por exemplo, podem ter relação
com alguma empresa que tem ligação com o Comando Vermelho sem nem saber disso e
estariam sujeitas a sanções", explica o professor, que vive nos Estados
Unidos e realizou seu pós-doutorado na Universidade Georgetown, em Washington.
As
sanções poderiam incluir, entre outras medidas, restrições para que empresas
americanas como Visa e Mastercard mantenham relações com brasileiros, o que
poderia asfixiar a vida financeira do país mesmo sem uso de força militar.
Outra
consequência seria que o enfrentamento das facções poderia se tornar mais
difícil, sobretudo no que diz respeito às suas atuações internacionais — algo
para que o Brasil conta com a ajuda de instituições estrangeiras como o FBI, a
polícia federal americana.
"Se
o Brasil define PCC e CV como organizações criminosas e os Estados Unidos dizem
que elas são terroristas, há uma discordância. A partir disso, instituições
como o FBI deixariam de cooperar com o Brasil, até porque isso passaria a ser
um assunto da CIA, que age de forma secreta", ele explica, citando a
agência de inteligência estrangeira americana.
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Quais são as chances reais de retaliações?
O
professor Carlos Gustavo Poggio considera as possibilidades de retaliação
improváveis, mesmo após a gestão Trump classificar o PCC e o Comando Vermelho
como terroristas.
Leonardo
Trevisan, também professor de Relações Internacionais, faz a mesma avaliação.
Ele diz que, embora Trump seja imprevisível, não seria viável adotar uma
postura tão agressiva contra o Brasil, sobretudo diante da experiência do
"tarifaço",
que gerou
prejuízos ao governo americano.
"Não
estou falando somente de exportação de café ou
de commodities, mas de toda a cadeia produtiva integrada entre
Brasil e Estados Unidos. Há centenas de empresas que atuam em parceria nos dois
países, e não interessa ao governo americano ver essa relação econômica ser
prejudicada", afirma.
Trevisan
é mestre em História Econômica e doutor em Ciência Política pela Universidade
de São Paulo (USP), com pós-doutorado na Universidade de Londres. Para ele,
essas medidas, embora possíveis, seriam tão disruptivas que é até difícil
imaginar seus efeitos práticos.
O caso
do México é
ilustrativo. Depois que Trump classificou os cartéis como terroristas, a
presidente mexicana, Claudia
Sheinbaum, atendeu a parte das demandas de Washington — como a
extradição de criminosos e o reforço da segurança nas fronteiras — e afastou
rapidamente qualquer retaliação mais profunda.
Para
ilustrar seu argumento, Trevisan se lembra das ações recentes dos Estados
Unidos contra a Venezuela — com a prisão de Maduro — e Cuba —
com o indiciamento
do ex-presidente Raúl Castro por ter mandado, há 30 anos,
derrubar um avião com três cidadãos americanos que morreram.
"Em
ambos os casos, não existe uma balança comercial comparável à que os Estados
Unidos mantêm com o Brasil. No caso da Venezuela, o interesse americano sempre
esteve ligado ao petróleo",
diz.
"Em
relação a Cuba, há um componente eleitoral, principalmente por parte de Marco
Rubio, secretário de Estado de Trump e um possível sucessor político. Rubio é
descendente de cubanos e defende mudanças no regime", acrescenta.
Poggio
faz eco a Trevisan e avalia que ambos os ataques serviram mais para gerar um
espetáculo e fidelizar os eleitores expatriados desses países que vivem nos
Estados Unidos, mais numerosos e relevantes do que os brasileiros.
"O
eleitorado venezuelano e cubano que vive na Flórida é extremamente contra seus
próprios países. Muitas dessas famílias fugiram da ditadura e nutrem uma enorme
simpatia pelo governo dos Estados Unidos. Tanto que o secretário da Justiça fez
o anúncio do indiciamento de Castro diante de uma plateia de cubanos, que o
aplaudiram", conta.
"A
comunidade brasileira nos Estados Unidos não tem influência política, então o
Brasil não tem a mesma relevância internamente", finaliza o professor.
Em nota
à imprensa, o Fórum Brasileiro de Segurança Pública afirmou que a classificação
do PCC e do CV como terroristas é uma decisão soberana dos Estados Unidos, mas
criticou o uso político do tema.
"O
FBSP lamenta que um tema com implicações profundas na soberania e autonomia do
Brasil, na sua economia, sistema financeiro e nos mecanismos de cooperação
regional e internacional tenha sido capturado pela disputa eleitoral e a medida
norte americana incentivada como solução de um problema bem mais complexo, sem
considerar os riscos de saídas unilaterais de outras nações para uma economia
do porte da brasileira."
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Resposta do Brasil
A BBC
News Brasil apurou que o governo brasileiro pretende modular a resposta à
medida adotada pelos EUA para evitar um desgaste ainda maior junto ao público
interno a poucos meses das eleições.
A
resposta oficial do governo só devera sair a partir desta sexta (29/05), após
reuniões internas.
As
reuniões vão incluir integrantes do MRE, da presidência e há possibilidade de
que outras pastas façam parte do debate, como a da Fazenda.
Na
resposta, o governo deverá defender medidas adotadas recentemente contra o
crime organizado e afirmar que o país estaria aberto a cooperação internacional
no combate às facções.
Um
integrante do governo ouvido pela BBC News Brasil em caráter reservado afirmou
que o governo reconhece que decisão dos EUA foi resultado da ação da ala
bolsonarista com acesso ao governo norte-americano.
A
interpretação é que a ala bolsonarista teria atuado para criar um
constrangimento ao governo, levando a administração petista a se manifestar
contra a medida para depois ser criticada por supostamente defender facções
criminosas.
Ele
disse ainda que um dos aspectos que mais estaria preocupando o governo são os
possíveis impactos da medida junto ao sistema financeiro brasileiro. O governo
teme que empresas ou bancos brasileiros possam ser sancionados por conta de
eventuais vínculos comerciais ainda que involuntários com essas facções.
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Eduardo Bolsonaro insinua possível ação militar dos EUA ao dizer que PCC e CV
poderão ser "combatidos como Bin Laden foi"
O
deputado federal cassado Eduardo Bolsonaro usou as redes sociais para comentar
a decisão do governo dos Estados Unidos de classificar as facções criminosas
Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como organizações
terroristas estrangeiras.
Segundo
a coluna da jornalista Mirelle Pinheiro, do Metrópoles, em um vídeo publicado após o
anúncio da medida, Eduardo Bolsonaro afirmou que a nova classificação permitirá
o uso de mecanismos semelhantes aos adotados peas forças militares
estadunidenses no combate ao terrorismo internacional. “Vão poder ser
combatidos igual o Bin Laden foi”, disse o ex-parlamentar.
A
classificação do PCC e do CV como organizações terroristas estrangeiras
representa um novo enquadramento jurídico por parte do governo dos Estados
Unidos. A medida pode ampliar instrumentos de cooperação internacional e
endurecer ações de combate às facções. .
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Riscos à soberania brasileira
Integrantes
do governo brasileiro avaliam que a medida pode abrir margem jurídica para
sanções e intervenções militares dos EUA em território nacional. Há também
preocupação com o potencial uso político do tema por setores bolsonaristas
durante a campanha eleitoral.
Nos
bastidores, o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) vinha
tentando evitar que os Estados Unidos adotassem esse enquadramento. Segundo
avaliação de integrantes do Palácio do Planalto, a classificação das facções
como organizações terroristas poderia abrir espaço para medidas mais rígidas
por parte do governo estadunidense.
A Lei
Antiterrorismo, sancionada em 2016, estabelece que terrorismo envolve atos
motivados por xenofobia, discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia ou
religião, com o objetivo de provocar terror social ou generalizado. A avaliação
do governo brasileiro é de que as organizações criminosas brasileiras não
possuem motivação ideológica, política ou religiosa, nem atuam para derrubar o
sistema institucional.
Nesta
linha, as facções criminosas atuam prioritariamente para obter lucro por meio
de crimes e esquemas de lavagem de dinheiro. Por essa razão, pela legislação
brasileira, facções como PCC e Comando Vermelho são classificadas como
organizações criminosas, e não como grupos terroristas.
O PCC e
o Comando Vermelho são apontados por autoridades brasileiras e estrangeiras
como organizações envolvidas em tráfico de drogas, lavagem de dinheiro e crimes
transnacionais.
Fonte: Por
Pedro Martins, da BBC News Brasil em Londres/Brasil 247

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