Em
ato histórico, papa pede perdão pelo envolvimento da Igreja na escravidão
Pela
primeira vez na história, um papa pede perdão pelo envolvimento da Igreja
Católica na escravidão de milhões de
pessoas. Num texto publicado nesta segunda-feira, como parte de sua
argumentação sobre os riscos da Inteligência Artificial, Leão XIV surpreendeu
ao citar a situação da colonização.
Não é a
primeira vez que a Santa Sé condena a escravidão. Mas pontífices, ao longo de
décadas, têm sido cuidadosos em evitar implicar a própria Igreja na indústria
que transformou a história do mundo. Eles tampouco anularam bulas que permitiam
aos portugueses agir em suas colônias, entre elas o Brasil.
Em
1452, por exemplo, o Papa Nicolau V emitiu uma bula que concedeu ao rei
português e seus sucessores o direito de “invadir, conquistar, combater e
subjugar” e tomar todas as posses — incluindo terras — de “sarracenos, pagãos e
outros infiéis e inimigos do nome de Cristo” em qualquer lugar. A bula também
deu permissão aos portugueses para “reduzir suas pessoas à escravidão
perpétua”.
A lei
foi reforçada em novas bulas e decisões em 1456, em 1481 e em 1514, já com os
portugueses em solo brasileiro.
Agora,
o papa americano rompe com esse tabu, justamente num momento em que o
presidente Donald Trump desmonta qualquer ação de proteção às minorias ou de
combate ao racismo. Num trecho histórico, ele anuncia:
“É
impossível não sentir profunda tristeza ao contemplar o imenso sofrimento e a
humilhação suportados por tantos, em nítido contraste com sua imensurável
dignidade como pessoas infinitamente amadas pelo Senhor”, escreveu Leão XIV.
“Por isso, em nome da Igreja, peço sinceramente perdão.”
<><>
Ancestrais negros, vivência entre indígenas
No ano
passado, um genealogista nos EUA descobriu que o primeiro papa americano — cujo
nome é Robert Prevost — tinha ascendência crioula e que seus bisavós maternos
eram descritos como pessoas de cor nos registros do censo da Louisiana. A
pesquisa revelou que Leão XIV tinha ancestrais negros e brancos, incluindo
tanto pessoas escravizadas quanto proprietários de escravos.
Se não
bastasse, o novo papa viveu 18 anos no Peru e liderou igrejas que
compartilhavam espaço e cultura com indígenas locais. Para a diplomacia
brasileira, o americano passou a ser considerado como o primeiro “papa
amazônico”.
A
declaração desta segunda-feira ainda ocorre semanas depois de o papa retornar
de uma viagem pela África. Em Angola, ele relembrou a “dor e o grande
sofrimento” que os angolanos suportaram durante séculos.
As
palavras foram emitidas enquanto rezava em um santuário católico localizado em
um importante centro do comércio de escravos africanos durante o domínio
colonial português.
Falando
em português, ele lembrou que foi ali “onde, por séculos, muitos homens e
mulheres rezaram em momentos de alegria e também em momentos de tristeza e
grande sofrimento na história deste país”.
<><>
O que diz a encíclica
Sua
primeira encíclica, “Magnifica Humanitas” (Magnífica
Humanidade), foi lançada na segunda-feira. Segundo ele, ao longo da história,
milhões de pessoas foram alvo de diferentes formas de escravidão. Hoje, as
novas formas de escravidão e colonialismo estão sendo alimentadas pela
revolução digital, pelo trabalho não regulamentado necessário para a obtenção
de minerais raros indispensáveis para chips de IA.
No
texto, o papa lembrou que seu homônimo, o papa Leão XIII, foi o primeiro a
condenar explicitamente a escravidão em 1888.
Mas não
hesitou em denunciar o papel da Santa Sé e as bulas papais que autorizavam e
promoviam a escravidão.
“Já no
início da Idade Moderna, a Sé Apostólica de Roma, respondendo aos pedidos dos
soberanos, interveio diversas vezes para regular e legitimar formas de
subjugação e, em certos casos, incluindo a escravização de ‘infiéis’”, disse.
“Não
podemos negar ou minimizar a demora com que tanto a sociedade quanto a Igreja
vieram a denunciar o flagelo da escravidão”, disse ele.
Para o
papa, a Igreja levou “dezoito séculos para que sua plena incompatibilidade com
a escravidão fosse explicitamente reconhecida”.
“Isso
constitui uma ferida na memória cristã, da qual não podemos nos considerar
alheios”, concluiu.
Hoje,
ele pede que se condenem todas as formas de tráfico relacionadas à revolução
tecnológica digital “se quisermos evitar a necessidade de pedir perdão
novamente no futuro por termos falhado em respeitar o tesouro da dignidade
humana que é exigido por nossa fé”.
¨ PEC da Reparação
busca enfrentar ‘legado perverso’ da escravidão no Brasil
O 13 de
maio, data da assinatura da Lei Áurea em 1888, é
reconhecido como o dia da abolição do trabalho escravo, que perdurou por
358 anos, no Brasil. Essa data, entretanto, é encarada como mais um dia de luta
para o movimento negro, visto que a abolição do sistema escravocrata foi fruto
da resistência de líderes como Zumbi dos Palmares, Dandara, Zacimba Gaba, Tereza
de Benguela e Luísa Mahin, entre outros expoentes documentados.
Membros
do movimento negro salientam que a abolição se deu sem garantia de terra,
renda, educação ou inclusão social para tal população. Com o objetivo de trazer
para o Estado o reconhecimento e a responsabilidade pelas sequelas da
escravidão, a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 27/2024 constitucionaliza
o direito à igualdade racial e às políticas afirmativas.
A PEC
propõe a criação do Fundo Nacional de Reparação Econômica e de Promoção da
Igualdade Racial, financiado pelo orçamento público e por doações e
indenizações de empresas historicamente ligadas à escravidão. O valor do fundo
está previsto em R$ 20 bilhões, distribuídos ao longo de 20 anos de duração.
De
autoria do deputado Damião Feliciano, parlamentar da União Brasil, e sugerida
pela Bancada Negra da Câmara dos Deputados, a proposta foi construída pelos
movimentos populares e atualmente está pronta para ser votada em plenário na
Câmara dos Deputados.
Em
artigo recente divulgado para o presidente Lula, o deputado federal Orlando
Silva (PCdoB-SP), relator da proposta, acendeu um alerta para a necessidade de
medidas de reparação para a população negra do país. “A PEC da Reparação é um
passo decisivo para a materialização da promessa de igualdade da Constituição
Cidadã de 1988 e para a construção de um Brasil livre do racismo”, destaca o
parlamentar sobre a importância do projeto para corrigir o que ele classifica
como “legado perverso” da escravidão.
O
historiador e cofundador da Iniciativa Negra, Dudu Ribeiro, explica que a PEC
adiciona à Constituição Federal o Capítulo IX, dedicado exclusivamente à
promoção da igualdade racial, estabelecendo mecanismos permanentes de
financiamento para políticas culturais, sociais e econômicas voltadas à
população negra, e que a medida parte da construção da própria sociedade.
“Não é
um processo que iniciou agora, na tramitação da PEC, é resultado de um acúmulo
histórico e político das organizações ligadas à luta antirracista, e que vêm
travando as lutas centrais para a ampliação real da cidadania e dos direitos no
Brasil, como foi o caso das ações afirmativas”, avalia o historiador.
Para
ele, é urgente que esse tema seja fortalecido para além do parlamento, a fim de
dar um sentido ainda mais amplo aos seus resultados e permitir uma contribuição
de diversos setores. “A reparação não é uma dádiva, mas sim uma dívida, e não
apenas com o povo negro brasileiro, mas com a democracia no Brasil.”
Ribeiro
afirma que o processo de abolição no Brasil não permitiu a libertação da pessoa
escravizada, a reparação e a sua plena inclusão nos processos de cidadania no
país. Pelo contrário, ela se deu justamente como projeto de manutenção dos
privilégios sócio-raciais oriundos da colonialidade e escravidão, explica.
“Inclusive
com a recompensa financeira dos escravagistas, importação de colonos brancos
para o ‘branqueamento’ da população brasileira, construção de mecanismos de
restrição de cidadania e concentração de poder, forjando o redesenhado projeto
de subalternização de negros e indígenas para o século 20”, alega ele.
Nesse
sentido, ele explica que a abolição não se completou porque, apesar de
imaginada e impulsionada apenas pelos abolicionistas, negros e não negros, foi
contida pelas elites políticas e econômicas, que minaram o seu alcance e
produziram uma saída do escravismo que favorece a consagração da branquitude
como única expressão a ser perseguida para a pretensa “civilidade” brasileira.
“Um dos nítidos exemplos desse boicote é o próprio texto da lei que termina
aquela etapa da escravização no Brasil, resumida a apenas dois artigos com um
total de 21 palavras”, compreende.
Apesar
disso, o debate sobre a reparação histórica no Brasil ainda é cercado
por disputas e resistências, avalia Ribeiro, que explica que há ainda um
limitado reconhecimento a respeito do tema da reparação como algo urgente para
o conjunto da sociedade, e isso se reflete na baixa produção de iniciativas
públicas nesse sentido ao longo das últimas décadas. “Políticas de reparação
lidam com uma das questões centrais da desigualdade brasileira, que é a
reprodução histórica da concentração de riquezas nas mãos, e nas contas
bancárias, das pessoas brancas, que retroalimentam o ciclo financiando a
própria supremacia racial.”
Para
ele, a principal resistência será influenciar na interrupção de um ciclo que
compõe uma estrutura global de distribuição desigual de humanidade, e,
portanto, que financia a precariedade e a morte para a manutenção de
privilégios. “Não podemos perder de vista que as lutas travadas em torno dessa
questão devem permear o conjunto das políticas públicas brasileiras, mas também
estar conectadas e subsidiando ações nos mecanismos multilaterais que
interrompam o ciclo da supremacia”, conclui.
O
professor de Antropologia da Faculdade de Ciências e Letras da Universidade
Estadual Paulista (Unesp) e coordenador do programa “Reconhecer, Reparar,
Religar para Seguir: memória e história dos nossos – mundo Atlântico e em terra
firme”, Dagoberto José Fonseca, destaca a importância da reforma agrária como
uma medida de reparação.
“Não há
condição de falarmos em reparação sem distribuição de renda e de terra. Temos
cerca de seis mil comunidades quilombolas no Brasil, resultado de populações
que conseguiram seus espaços diante da ausência de reforma agrária. Por outro
lado, vemos movimentos como o MST [Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem
Terra] dentro desse processo de luta pela terra. Uma reforma agrária que não
houve naquele período faz-se urgente hoje para discutirmos reparação.”
Ele
avalia que é preciso discutir o direito à verdade histórica, à cultura e à
identidade. “A Lei 10.639 de 2003 mostra que a educação brasileira ainda é
refém de um pensamento eurocêntrico e branco, que não projeta uma identidade
negra ou indígena favorável”, alega.
Além
disso, há duas questões fundamentais: o direito à cultura e o direito à
cidadania internacional africana. “A imensa maioria da população negra não
conhece seus antepassados. Muitos não chegam sequer aos bisavós, pois não sabem
de onde vieram ou de qual região do continente africano partiram.”
Fonseca
sugere também que o governo discuta com as nações africanas um grande acordo
para que a população negra brasileira tenha uma cidadania internacional
africana e o desenvolvimento da ciência genética. “É necessário que o Estado, a
sociedade civil e a ciência genética se envolvam no reconhecimento desses
corpos e no cruzamento de dados para devolvê-los simbolicamente às suas
famílias.”
Lenny
Blue de Oliveira, advogada e cofundadora do Movimento Negro Unificado (MNU),
destaca a situação de vulnerabilidade da população negra no acesso à
previdência, ressaltando a informalidade e a exclusão. “A vulnerabilidade
previdenciária é tão intensa na população negra que, para citar um exemplo, uma
pesquisa da Oxfam aponta que 20% das mulheres negras ativas não terão direito a
nenhum benefício na velhice porque não contribuem. Portanto, é necessário
ampliar os mecanismos de proteção de renda na velhice e as reparações no campo
da saúde.”
Nesse
sentido, o papel das mulheres negras como provedoras de cuidado deve ser
abordado, juntamente com a necessidade de reconhecimento e redistribuição desse
trabalho, diz Oliveira. “Temos também 69% das mulheres negras como as
principais provedoras de cuidado, não só pelo serviço doméstico, mas também
pelo trabalho de cuidadoras. O Estado deve assumir também a responsabilidade
coletiva concreta no cuidado. Nesse sentido, é importante ressaltar que a
Política Nacional de Cuidados, que foi implantada recentemente e da qual faço
parte do comitê estratégico, busca valorizar cuidadores e garantir direitos com
foco especial na população negra.”
Para
ela, a discussão sobre o idadismo e as particularidades do envelhecimento da
mulher negra, especialmente no contexto do trabalho doméstico, são pontos
centrais. “É preciso enfrentar o racismo e o feminicídio que opera nas
instituições públicas em relação ao racismo e o idadismo, bem como o
feminicídio na sociedade. Também é preciso garantir a coleta de dados com
recorte racial, de idade e de gênero em instituições permanentes. Sem
visibilidade não há política pública e não há reparação.”
Leny
também lembra da relevância das cotas como um mecanismo fundamental de
reparação para combater as desigualdades históricas e promover a equidade.
“Diante do racismo estrutural, as cotas não são privilégios, são garantia de
acesso e equidade, além de abrirem caminho a novas formas de pensamento. Com
novos estudantes surgem novos escritores, filósofos e pensadores que vão
retomar a real história do povo negro no mundo. É um combate real e vivo ao
epistemicídio.”
Por
fim, a entrevista aborda a denúncia da falsa democracia racial e a violência
policial como reflexos da abolição incompleta e da contínua exclusão. “Em 7 de
julho, no lançamento do Movimento Negro Unificado, as faixas já denunciavam a
falsa democracia racial e a violência policial, porque a abolição ocorreu sem
reparação de terra, trabalho e inclusão. A violência policial é a prova
institucional da arma usada pelo Estado para confinar e estigmatizar o povo
negro, excluído, privado da dignidade, sem terra, sem educação, sem vida e sem
direito a envelhecer. Nesse sentido, o 13 de maio representa essa liberdade
incompleta e a contínua denúncia das desigualdades raciais.”
¨ Mulher etíope foge de
condomínio em SC e denuncia trabalho análogo à escravidão
O
Ministério Público do Trabalho em Santa Catarina assinou nesta
quinta-feira (21) um TAC (Termo de Ajuste
de Conduta) com
uma família de Florianópolis acusada de manter uma empregada doméstica etíope
em condições análogas
à escravidão. Sem falar
português, a mulher, de 34 anos, fugiu da casa em um condomínio e usou
aplicativos de tradução no celular para conseguir pedir ajuda.
Os
nomes dos suspeitos e o da vítima não foram divulgados. A fuga aconteceu em
maio, mas foi divulgada apenas nesta quinta, dia da assinatura do TAC. O
documento encerra uma força-tarefa realizada com o apoio de fiscais da
auditoria do trabalho na cidade.
A
trabalhadora fugiu durante a noite, levando apenas o celular e a roupa que
vestia. Ao pedir ajuda, ela contou que era submetida a jornadas diárias de até
15 horas de trabalho, passava por violência psicológica, e tinha a liberdade
restrita. Segundo a mulher, os documentos dela foram retidos pelos patrões.
De
acordo com a fiscalização, ela foi contratada em Dubai por meio de uma agência
e trazida ao Brasil pelo casal, formado por um homem brasileiro e uma mulher
árabe, sem visto regular de trabalho.
Ela
trabalhava os sete dias da semana, das 7h às 22h30, na limpeza e organização da
casa, preparo de alimentos, cuidados com os filhos do casal e com os animais da
família.
A
etíope contou que era alvo de gritos, ameaças, insultos, intimidações e
tentativas de agressão física. Com os documentos retidos, inclusive o
passaporte, a mulher enfrentou dificuldades para buscar ajuda. Segundo a
denúncia, o casal disse que só devolveria os documentos após receber pelo
pagamento de passagens aéreas, alimentação e emissão de visto.
Após
escapar e andar por várias ruas da capital catarinense, ela pediu socorro a
policiais e foi encaminhada a um centro de acolhimento. Uma intérprete ajudou
na formalização da denúncia.
A etíope relatou que mesmo após deixar a casa, localizada em um condomínio de alto padrão, contEm ato histórico, papa pede perdão pelo envolvimento da Igreja na escravidão
Pela
primeira vez na história, um papa pede perdão pelo envolvimento da Igreja
Católica na escravidão de milhões de
pessoas. Num texto publicado nesta segunda-feira, como parte de sua
argumentação sobre os riscos da Inteligência Artificial, Leão XIV surpreendeu
ao citar a situação da colonização.
Não é a
primeira vez que a Santa Sé condena a escravidão. Mas pontífices, ao longo de
décadas, têm sido cuidadosos em evitar implicar a própria Igreja na indústria
que transformou a história do mundo. Eles tampouco anularam bulas que permitiam
aos portugueses agir em suas colônias, entre elas o Brasil.
Em
1452, por exemplo, o Papa Nicolau V emitiu uma bula que concedeu ao rei
português e seus sucessores o direito de “invadir, conquistar, combater e
subjugar” e tomar todas as posses — incluindo terras — de “sarracenos, pagãos e
outros infiéis e inimigos do nome de Cristo” em qualquer lugar. A bula também
deu permissão aos portugueses para “reduzir suas pessoas à escravidão
perpétua”.
A lei
foi reforçada em novas bulas e decisões em 1456, em 1481 e em 1514, já com os
portugueses em solo brasileiro.
Agora,
o papa americano rompe com esse tabu, justamente num momento em que o
presidente Donald Trump desmonta qualquer ação de proteção às minorias ou de
combate ao racismo. Num trecho histórico, ele anuncia:
“É
impossível não sentir profunda tristeza ao contemplar o imenso sofrimento e a
humilhação suportados por tantos, em nítido contraste com sua imensurável
dignidade como pessoas infinitamente amadas pelo Senhor”, escreveu Leão XIV.
“Por isso, em nome da Igreja, peço sinceramente perdão.”
<><>
Ancestrais negros, vivência entre indígenas
No ano
passado, um genealogista nos EUA descobriu que o primeiro papa americano — cujo
nome é Robert Prevost — tinha ascendência crioula e que seus bisavós maternos
eram descritos como pessoas de cor nos registros do censo da Louisiana. A
pesquisa revelou que Leão XIV tinha ancestrais negros e brancos, incluindo
tanto pessoas escravizadas quanto proprietários de escravos.
Se não
bastasse, o novo papa viveu 18 anos no Peru e liderou igrejas que
compartilhavam espaço e cultura com indígenas locais. Para a diplomacia
brasileira, o americano passou a ser considerado como o primeiro “papa
amazônico”.
A
declaração desta segunda-feira ainda ocorre semanas depois de o papa retornar
de uma viagem pela África. Em Angola, ele relembrou a “dor e o grande
sofrimento” que os angolanos suportaram durante séculos.
As
palavras foram emitidas enquanto rezava em um santuário católico localizado em
um importante centro do comércio de escravos africanos durante o domínio
colonial português.
Falando
em português, ele lembrou que foi ali “onde, por séculos, muitos homens e
mulheres rezaram em momentos de alegria e também em momentos de tristeza e
grande sofrimento na história deste país”.
<><>
O que diz a encíclica
Sua
primeira encíclica, “Magnifica Humanitas” (Magnífica
Humanidade), foi lançada na segunda-feira. Segundo ele, ao longo da história,
milhões de pessoas foram alvo de diferentes formas de escravidão. Hoje, as
novas formas de escravidão e colonialismo estão sendo alimentadas pela
revolução digital, pelo trabalho não regulamentado necessário para a obtenção
de minerais raros indispensáveis para chips de IA.
No
texto, o papa lembrou que seu homônimo, o papa Leão XIII, foi o primeiro a
condenar explicitamente a escravidão em 1888.
Mas não
hesitou em denunciar o papel da Santa Sé e as bulas papais que autorizavam e
promoviam a escravidão.
“Já no
início da Idade Moderna, a Sé Apostólica de Roma, respondendo aos pedidos dos
soberanos, interveio diversas vezes para regular e legitimar formas de
subjugação e, em certos casos, incluindo a escravização de ‘infiéis’”, disse.
“Não
podemos negar ou minimizar a demora com que tanto a sociedade quanto a Igreja
vieram a denunciar o flagelo da escravidão”, disse ele.
Para o
papa, a Igreja levou “dezoito séculos para que sua plena incompatibilidade com
a escravidão fosse explicitamente reconhecida”.
“Isso
constitui uma ferida na memória cristã, da qual não podemos nos considerar
alheios”, concluiu.
Hoje,
ele pede que se condenem todas as formas de tráfico relacionadas à revolução
tecnológica digital “se quisermos evitar a necessidade de pedir perdão
novamente no futuro por termos falhado em respeitar o tesouro da dignidade
humana que é exigido por nossa fé”.
¨ PEC da Reparação
busca enfrentar ‘legado perverso’ da escravidão no Brasil
O 13 de
maio, data da assinatura da Lei Áurea em 1888, é
reconhecido como o dia da abolição do trabalho escravo, que perdurou por
358 anos, no Brasil. Essa data, entretanto, é encarada como mais um dia de luta
para o movimento negro, visto que a abolição do sistema escravocrata foi fruto
da resistência de líderes como Zumbi dos Palmares, Dandara, Zacimba Gaba, Tereza
de Benguela e Luísa Mahin, entre outros expoentes documentados.
Membros
do movimento negro salientam que a abolição se deu sem garantia de terra,
renda, educação ou inclusão social para tal população. Com o objetivo de trazer
para o Estado o reconhecimento e a responsabilidade pelas sequelas da
escravidão, a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 27/2024 constitucionaliza
o direito à igualdade racial e às políticas afirmativas.
A PEC
propõe a criação do Fundo Nacional de Reparação Econômica e de Promoção da
Igualdade Racial, financiado pelo orçamento público e por doações e
indenizações de empresas historicamente ligadas à escravidão. O valor do fundo
está previsto em R$ 20 bilhões, distribuídos ao longo de 20 anos de duração.
De
autoria do deputado Damião Feliciano, parlamentar da União Brasil, e sugerida
pela Bancada Negra da Câmara dos Deputados, a proposta foi construída pelos
movimentos populares e atualmente está pronta para ser votada em plenário na
Câmara dos Deputados.
Em
artigo recente divulgado para o presidente Lula, o deputado federal Orlando
Silva (PCdoB-SP), relator da proposta, acendeu um alerta para a necessidade de
medidas de reparação para a população negra do país. “A PEC da Reparação é um
passo decisivo para a materialização da promessa de igualdade da Constituição
Cidadã de 1988 e para a construção de um Brasil livre do racismo”, destaca o
parlamentar sobre a importância do projeto para corrigir o que ele classifica
como “legado perverso” da escravidão.
O
historiador e cofundador da Iniciativa Negra, Dudu Ribeiro, explica que a PEC
adiciona à Constituição Federal o Capítulo IX, dedicado exclusivamente à
promoção da igualdade racial, estabelecendo mecanismos permanentes de
financiamento para políticas culturais, sociais e econômicas voltadas à
população negra, e que a medida parte da construção da própria sociedade.
“Não é
um processo que iniciou agora, na tramitação da PEC, é resultado de um acúmulo
histórico e político das organizações ligadas à luta antirracista, e que vêm
travando as lutas centrais para a ampliação real da cidadania e dos direitos no
Brasil, como foi o caso das ações afirmativas”, avalia o historiador.
Para
ele, é urgente que esse tema seja fortalecido para além do parlamento, a fim de
dar um sentido ainda mais amplo aos seus resultados e permitir uma contribuição
de diversos setores. “A reparação não é uma dádiva, mas sim uma dívida, e não
apenas com o povo negro brasileiro, mas com a democracia no Brasil.”
Ribeiro
afirma que o processo de abolição no Brasil não permitiu a libertação da pessoa
escravizada, a reparação e a sua plena inclusão nos processos de cidadania no
país. Pelo contrário, ela se deu justamente como projeto de manutenção dos
privilégios sócio-raciais oriundos da colonialidade e escravidão, explica.
“Inclusive
com a recompensa financeira dos escravagistas, importação de colonos brancos
para o ‘branqueamento’ da população brasileira, construção de mecanismos de
restrição de cidadania e concentração de poder, forjando o redesenhado projeto
de subalternização de negros e indígenas para o século 20”, alega ele.
Nesse
sentido, ele explica que a abolição não se completou porque, apesar de
imaginada e impulsionada apenas pelos abolicionistas, negros e não negros, foi
contida pelas elites políticas e econômicas, que minaram o seu alcance e
produziram uma saída do escravismo que favorece a consagração da branquitude
como única expressão a ser perseguida para a pretensa “civilidade” brasileira.
“Um dos nítidos exemplos desse boicote é o próprio texto da lei que termina
aquela etapa da escravização no Brasil, resumida a apenas dois artigos com um
total de 21 palavras”, compreende.
Apesar
disso, o debate sobre a reparação histórica no Brasil ainda é cercado
por disputas e resistências, avalia Ribeiro, que explica que há ainda um
limitado reconhecimento a respeito do tema da reparação como algo urgente para
o conjunto da sociedade, e isso se reflete na baixa produção de iniciativas
públicas nesse sentido ao longo das últimas décadas. “Políticas de reparação
lidam com uma das questões centrais da desigualdade brasileira, que é a
reprodução histórica da concentração de riquezas nas mãos, e nas contas
bancárias, das pessoas brancas, que retroalimentam o ciclo financiando a
própria supremacia racial.”
Para
ele, a principal resistência será influenciar na interrupção de um ciclo que
compõe uma estrutura global de distribuição desigual de humanidade, e,
portanto, que financia a precariedade e a morte para a manutenção de
privilégios. “Não podemos perder de vista que as lutas travadas em torno dessa
questão devem permear o conjunto das políticas públicas brasileiras, mas também
estar conectadas e subsidiando ações nos mecanismos multilaterais que
interrompam o ciclo da supremacia”, conclui.
O
professor de Antropologia da Faculdade de Ciências e Letras da Universidade
Estadual Paulista (Unesp) e coordenador do programa “Reconhecer, Reparar,
Religar para Seguir: memória e história dos nossos – mundo Atlântico e em terra
firme”, Dagoberto José Fonseca, destaca a importância da reforma agrária como
uma medida de reparação.
“Não há
condição de falarmos em reparação sem distribuição de renda e de terra. Temos
cerca de seis mil comunidades quilombolas no Brasil, resultado de populações
que conseguiram seus espaços diante da ausência de reforma agrária. Por outro
lado, vemos movimentos como o MST [Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem
Terra] dentro desse processo de luta pela terra. Uma reforma agrária que não
houve naquele período faz-se urgente hoje para discutirmos reparação.”
Ele
avalia que é preciso discutir o direito à verdade histórica, à cultura e à
identidade. “A Lei 10.639 de 2003 mostra que a educação brasileira ainda é
refém de um pensamento eurocêntrico e branco, que não projeta uma identidade
negra ou indígena favorável”, alega.
Além
disso, há duas questões fundamentais: o direito à cultura e o direito à
cidadania internacional africana. “A imensa maioria da população negra não
conhece seus antepassados. Muitos não chegam sequer aos bisavós, pois não sabem
de onde vieram ou de qual região do continente africano partiram.”
Fonseca
sugere também que o governo discuta com as nações africanas um grande acordo
para que a população negra brasileira tenha uma cidadania internacional
africana e o desenvolvimento da ciência genética. “É necessário que o Estado, a
sociedade civil e a ciência genética se envolvam no reconhecimento desses
corpos e no cruzamento de dados para devolvê-los simbolicamente às suas
famílias.”
Lenny
Blue de Oliveira, advogada e cofundadora do Movimento Negro Unificado (MNU),
destaca a situação de vulnerabilidade da população negra no acesso à
previdência, ressaltando a informalidade e a exclusão. “A vulnerabilidade
previdenciária é tão intensa na população negra que, para citar um exemplo, uma
pesquisa da Oxfam aponta que 20% das mulheres negras ativas não terão direito a
nenhum benefício na velhice porque não contribuem. Portanto, é necessário
ampliar os mecanismos de proteção de renda na velhice e as reparações no campo
da saúde.”
Nesse
sentido, o papel das mulheres negras como provedoras de cuidado deve ser
abordado, juntamente com a necessidade de reconhecimento e redistribuição desse
trabalho, diz Oliveira. “Temos também 69% das mulheres negras como as
principais provedoras de cuidado, não só pelo serviço doméstico, mas também
pelo trabalho de cuidadoras. O Estado deve assumir também a responsabilidade
coletiva concreta no cuidado. Nesse sentido, é importante ressaltar que a
Política Nacional de Cuidados, que foi implantada recentemente e da qual faço
parte do comitê estratégico, busca valorizar cuidadores e garantir direitos com
foco especial na população negra.”
Para
ela, a discussão sobre o idadismo e as particularidades do envelhecimento da
mulher negra, especialmente no contexto do trabalho doméstico, são pontos
centrais. “É preciso enfrentar o racismo e o feminicídio que opera nas
instituições públicas em relação ao racismo e o idadismo, bem como o
feminicídio na sociedade. Também é preciso garantir a coleta de dados com
recorte racial, de idade e de gênero em instituições permanentes. Sem
visibilidade não há política pública e não há reparação.”
Leny
também lembra da relevância das cotas como um mecanismo fundamental de
reparação para combater as desigualdades históricas e promover a equidade.
“Diante do racismo estrutural, as cotas não são privilégios, são garantia de
acesso e equidade, além de abrirem caminho a novas formas de pensamento. Com
novos estudantes surgem novos escritores, filósofos e pensadores que vão
retomar a real história do povo negro no mundo. É um combate real e vivo ao
epistemicídio.”
Por
fim, a entrevista aborda a denúncia da falsa democracia racial e a violência
policial como reflexos da abolição incompleta e da contínua exclusão. “Em 7 de
julho, no lançamento do Movimento Negro Unificado, as faixas já denunciavam a
falsa democracia racial e a violência policial, porque a abolição ocorreu sem
reparação de terra, trabalho e inclusão. A violência policial é a prova
institucional da arma usada pelo Estado para confinar e estigmatizar o povo
negro, excluído, privado da dignidade, sem terra, sem educação, sem vida e sem
direito a envelhecer. Nesse sentido, o 13 de maio representa essa liberdade
incompleta e a contínua denúncia das desigualdades raciais.”
¨ Mulher etíope foge de
condomínio em SC e denuncia trabalho análogo à escravidão
O
Ministério Público do Trabalho em Santa Catarina assinou nesta
quinta-feira (21) um TAC (Termo de Ajuste
de Conduta) com
uma família de Florianópolis acusada de manter uma empregada doméstica etíope
em condições análogas
à escravidão. Sem falar
português, a mulher, de 34 anos, fugiu da casa em um condomínio e usou
aplicativos de tradução no celular para conseguir pedir ajuda.
Os
nomes dos suspeitos e o da vítima não foram divulgados. A fuga aconteceu em
maio, mas foi divulgada apenas nesta quinta, dia da assinatura do TAC. O
documento encerra uma força-tarefa realizada com o apoio de fiscais da
auditoria do trabalho na cidade.
A
trabalhadora fugiu durante a noite, levando apenas o celular e a roupa que
vestia. Ao pedir ajuda, ela contou que era submetida a jornadas diárias de até
15 horas de trabalho, passava por violência psicológica, e tinha a liberdade
restrita. Segundo a mulher, os documentos dela foram retidos pelos patrões.
De
acordo com a fiscalização, ela foi contratada em Dubai por meio de uma agência
e trazida ao Brasil pelo casal, formado por um homem brasileiro e uma mulher
árabe, sem visto regular de trabalho.
Ela
trabalhava os sete dias da semana, das 7h às 22h30, na limpeza e organização da
casa, preparo de alimentos, cuidados com os filhos do casal e com os animais da
família.
A
etíope contou que era alvo de gritos, ameaças, insultos, intimidações e
tentativas de agressão física. Com os documentos retidos, inclusive o
passaporte, a mulher enfrentou dificuldades para buscar ajuda. Segundo a
denúncia, o casal disse que só devolveria os documentos após receber pelo
pagamento de passagens aéreas, alimentação e emissão de visto.
Após
escapar e andar por várias ruas da capital catarinense, ela pediu socorro a
policiais e foi encaminhada a um centro de acolhimento. Uma intérprete ajudou
na formalização da denúncia.
A
etíope relatou que mesmo após deixar a casa, localizada em um condomínio de
alto padrão, continuou recebendo mensagens ameaçadoras. Foi acusada, por
exemplo, de furtar um cachorro da família.
No
acordo feito no Ministério Público do Trabalho, o casal reconheceu o vínculo de
emprego doméstico da imigrante no período de 13 de março a 8 de maio deste ano,
fez o registro do trabalho e aceitou pagar salários, férias proporcionais, FGTS
e outros direitos trabalhistas, além de R$ 10 mil de indenização por danos
morais, R$ 5 mil para o retorno ao local de origem e R$ 500 por despesas
adicionais da viagem.
Um
inquérito policial vai investigar possíveis crimes previstos no Código Penal,
na Lei de Migração e em tratados internacionais de direitos humanos.
Fonte:
ICL Notíciainuou recebendo mensagens ameaçadoras. Foi acusada, por
exemplo, de furtar um cachorro da família.
No
acordo feito no Ministério Público do Trabalho, o casal reconheceu o vínculo de
emprego doméstico da imigrante no período de 13 de março a 8 de maio deste ano,
fez o registro do trabalho e aceitou pagar salários, férias proporcionais, FGTS
e outros direitos trabalhistas, além de R$ 10 mil de indenização por danos
morais, R$ 5 mil para o retorno ao local de origem e R$ 500 por despesas
adicionais da viagem.
Um
inquérito policial vai investigar possíveis crimes previstos no Código Penal,
na Lei de Migração e em tratados internacionais de direitos humanos.
Fonte:
ICL Notícia

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