Trump
transforma eleições latino-americanas em frente de disputa geopolítica
Três
dias antes das eleições em Honduras, Donald Trump publicou duas
mensagens em sua rede social, a Truth Social. Na primeira, ameaçou
com uma intervenção militar. Na segunda, condicionou a ajuda dos EUA à vitória
de Nasri Asfura, seu candidato, do Partido Nacional:
“Se
Tito Asfura ganhar a presidência de Honduras, porque os Estados Unidos têm
tanta confiança nele, em suas políticas e no que vai fazer pela grande gente de
Honduras, lhe daremos muito apoio. Se não ganhar, os Estados Unidos não vão
continuar jogando dinheiro bom atrás de dinheiro ruim.”
Asfura
pertence ao mesmo partido do ex-presidente Juan Orlando Hernández, que cumpria uma
sentença de 45 anos em uma prisão federal por narcotráfico, até que Trump o
indultou dois dias antes da votação no país centro-americano.
Quando
a contagem dos votos mostrou um empate técnico e o rival centrista, Salvador
Nasralla, ameaçava crescer, Trump voltou às redes:
“Parece
que Honduras está tentando mudar os resultados de sua eleição presidencial. Se
o fizerem, haverá um inferno a pagar.”
Não
apresentou evidência alguma; mas o Conselho Nacional Eleitoral declarou Asfura
vencedor em 24 de dezembro.
A
congressista estadunidense de origem somali Ilhan Omar e o representante de
origem mexicana Jesús García denunciaram a ingerência como “totalmente
inaceitável” e advertiram que a congressista republicana María Elvira Salazar
chegou a apoiar “um golpe militar como em 2009”. O The Intercept documentou
que integrantes da MS-13, a mesma organização que Trump havia designado como
terrorista, ameaçaram de morte moradores de bairros populares de San Pedro Sula
e Tegucigalpa para que votassem em Asfura. Disseram:
“Se não
obedecerem, vamos matar suas famílias, e até seus cachorros.”
Isso
foi Honduras.
No
Chile, o embaixador estadunidense Brandon Judd, um ex-chefe da
patrulha fronteiriça sem experiência diplomática, usou sua primeira coletiva de
imprensa para atacar o presidente Gabriel Boric, que deixava o cargo, e
declarar que “com governos ideologicamente alinhados, será mais fácil
trabalhar”.
O
chanceler Alberto van Klaveren assegurou que “as declarações […] são
inapropriadas e infelizes” e apresentou uma nota formal de protesto, afirmando
que tais palavras “representam uma intervenção em assuntos internos de nosso
país”.
José
Antonio Kast ganhou o segundo turno das presidenciais do país austral com 58%
dos votos. Trump comemorou no dia seguinte:
“Há
algumas horas fiquei sabendo que, no Chile, a pessoa que eu apoiei, que não
liderava as pesquisas, acabou ganhando com bastante facilidade.”
Kast
chegou ao poder em 11 de março de 2026. Naquele mesmo dia, assinou seis
decretos. O primeiro transforma a migração irregular em delito. O segundo envia
militares com “faculdades plenas para deter, reconduzir e expulsar qualquer
estrangeiro que cruze ilegalmente”. O texto diz:
“Nada
de permissões, benefícios nem apelações eternas. Nada de ONGs entorpecendo
expulsões.”
Na
noite de sua vitória, Kast pronunciou a frase que resume seu programa:
“Sem
segurança não há paz, sem paz não há democracia, e sem democracia não há
liberdade.”
É o
primeiro presidente pinochetista desde o retorno da democracia. Fez campanha
por Augusto Pinochet no plebiscito de 1988 e prometeu não apenas indultar os
condenados por crimes de lesa-humanidade, como também propor uma Lei de
Segurança Integral e Controle Fronteiriço que dará mais poderes às Forças
Armadas e aos Carabineiros nas zonas onde existem tensões com indígenas mapuche
desde 2021, e na Macrozona Norte, pela presença de grupos de narcotráfico.
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O caso de Honduras e o do Chile foram apenas um ensaio
Em 5 de
março de 2026, Pete Hegseth, secretário de Guerra dos Estados Unidos,
pronunciou, na conferência Anticartel das Américas, no Comando Sul de Doral, na
Flórida, palavras que deveriam tirar nosso sono:
“Trump
desenhou um novo mapa estratégico, da Groenlândia ao Golfo da América e ao
Canal do Panamá. No Departamento de Guerra chamamos esse mapa de Grande América
do Norte. Cada nação soberana ao norte do Equador, da Groenlândia ao Equador e
do Alasca à Guiana, já não faz parte do Sul Global. É nosso perímetro imediato
de segurança.”
Dois
dias depois, em 7 de março, no hotel National Doral, realizou-se a cúpula
“Escudo das Américas”. Trump assinou um acordo de colaboração militar com 12
mandatários latino-americanos: Javier Milei, Nayib Bukele, Daniel Noboa, o
recém-empossado Kast, Santiago Peña, do Paraguai, Luis Abinader, da República
Dominicana, Kamla Persad-Bissessar, de Trinidad e Tobago, Mohamed Irfaan Ali,
da Guiana, Rodrigo Chaves Robles, da Costa Rica, Rodrigo Paz Pereira, da
Bolívia, e José Raúl Mulino, de Honduras.
Ali
disse:
“É um
dia histórico. Nos unimos para anunciar uma nova coalizão militar para
erradicar os cartéis criminosos que infestam nossa região.”
Marco
Rubio foi claro no almoço:
Continua
após o anúncio
“Os
países representados aqui, os 12 líderes, são aliados. Mas são mais que
aliados: são amigos. Estes são os países que sempre respondem quando há uma
necessidade e trabalham conosco.”
A
mensagem do secretário de Guerra foi mais direta:
“A
razão pela qual esta é uma conferência de liderança militar e não de advogados
é porque estas organizações só podem ser derrotadas com poder militar.”
Nem o
Brasil, nem o México, nem a Colômbia foram convidados. Trump disse, sem nenhum
pudor, durante a cúpula:
“Os
cartéis estão dirigindo o México. Não podemos permiti-lo.”
Hegseth
traçou paralelos com a Segunda Guerra Mundial:
“Isto é
o que fizemos na Segunda Guerra Mundial. Chamamos de ‘defesa do quarto de
esfera’, e voltaremos a fazê-lo se levarmos a sério nossa segurança nacional e
se priorizarmos a geografia.”
Também
disse aos líderes latino-americanos participantes que a região deve permanecer
como “nações cristãs sob Deus” e manter-se unida frente ao “narco-comunismo
radical e à tirania anarquista”.
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Está em jogo a própria noção de soberania
Sobre a
Colômbia, Trump, no Air Force One, disse:
“Me cai
bem uma operação militar.”
E
assegurou:
“A
Colômbia está governada por um homem enfermo, que gosta de fabricar cocaína e
vendê-la aos Estados Unidos, mas não vai continuar fazendo isso por muito mais
tempo.”
Trump
retirou o visto de Gustavo Petro e o incluiu na Lista Clinton, junto com sua
esposa, seu filho e o ministro do Interior, Armando Benedetti.
O
presidente Petro denunciou em dezembro:
“A
presença de mandatários regionais nos Estados Unidos tem a ver com a decisão do
governo dos Estados Unidos de entrar nas eleições da Colômbia.”
O
governador de Antioquia, Andrés Julián Rendón, foi a Washington reunir-se com
funcionários da Casa Branca e congressistas norte-americanos em dezembro.
Antes, fizeram o mesmo os prefeitos de Medellín e Cali, Federico Gutiérrez e
Alejandro Eder, respectivamente.
Mas a
intromissão não vem só de Washington. Também cruza pela fronteira sul. O
presidente Daniel Noboa transformou o Equador na plataforma operativa dos
Estados Unidos contra a Colômbia.
Em
dezembro de 2025, pessoal da força aérea estadunidense chegou com equipamentos
à base aérea de Manta, a 330 quilômetros da fronteira com a Colômbia. A
embaixada dos Estados Unidos apresentou a operação como uma “operação
temporária” para “o fortalecimento da luta contra o narcotráfico”, apesar de os
eleitores equatorianos terem rejeitado, em referendo, a instalação de bases
militares estrangeiras.
Em
janeiro de 2026, começaram as explosões em laboratórios de cocaína nos
departamentos de Nariño e Putumayo, no sul da Colômbia.
A
revista Proceso informou que funcionários colombianos
consideram, em privado, que se trata de ataques com drones estadunidenses que
partem de Manta. Petro advertiu os camponeses cocaleiros:
“Substituam
os cultivos antes que nos queimem com drones.”
Depois
apareceram 27 corpos calcinados na fronteira. Em março, uma bomba MK-82 de 250
quilos, do mesmo tipo usado no bombardeio de Angostura contra Raúl Reyes em
2008, foi encontrada ainda sem explodir em um cultivo de folha de coca em
Putumayo, a poucos metros da linha fronteiriça.
O
comandante da Força Aeroespacial Colombiana disse que a bomba “não foi colocada
deliberadamente”, mas que “obedece a um efeito físico”, porque não detonou e
seguiu sua trajetória.
Petro
respondeu que os bombardeios “não parecem ser dos grupos armados, que não têm
aviões, nem muito menos da força pública da Colômbia”.
O
Equador já é, de fato, um laboratório militar dos Estados Unidos na fronteira
colombiana. Um escritório permanente do FBI opera em Quito; Washington entregou
helicópteros Bell 505 e treinou militares equatorianos no contexto do Plano
Fênix.
Além
disso, o subsecretário de Guerra Joseph Humire visitou o Equador para “orientar
os esforços na fronteira norte com a Colômbia”. Depois, o ministro equatoriano
do Interior, John Reimberg, confirmou que se realizam “bombardeios” contra
estruturas vinculadas ao narcotráfico.
E agora
Noboa entrou em cheio na campanha eleitoral colombiana. Em entrevista para a
revista Semana, publicada em 18 de abril de 2026, o presidente
equatoriano nomeou seus candidatos favoritos: Paloma Valencia, do Centro
Democrático, e Abelardo de la Espriella, do movimento Defensores da Pátria.
Disse:
“Tenho
uma boa relação com Paloma, com Abelardo. Creio que os dois têm boas intenções.
No final, respeitarei a decisão dos colombianos e trabalharei junto com
qualquer presidente de algum desses dois.”
Sobre
Iván Cepeda, o candidato do Pacto Histórico que lidera todas as pesquisas, foi
categórico:
“Vem
até com um discurso mais ideológico e mais carregado do que o próprio Petro.”
Noboa
não se deteve aí. Insinuou que o presidente Petro reuniu-se com pessoas
vinculadas ao narcotraficante equatoriano Adolfo Macías Villamar, conhecido
como Fito, líder dos Choneros, durante uma visita a Manta depois da posse
presidencial.
Petro
respondeu que só foi ao Equador para assistir à posse, que foi o próprio
governo equatoriano que dispôs a escolta militar, e anunciou que processaria
penalmente Noboa por calúnia.
Em uma
mensagem na rede social X (ex-Twitter), Petro também acusou o mandatário
equatoriano de apoiar o narcotráfico na Colômbia. Publicou uma foto de De la
Espriella e escreveu:
“Estes
são os candidatos que Daniel Noboa menciona, presidente do Equador, como se
tivesse direito de intervir na política da Colômbia.”
O
presidente Petro também denunciou que “há uma ordem de um escritório
estrangeiro e da oposição colombiana” contra ele.
Os
candidatos de direita já responderam ao chamado. Paloma Valencia foi a Ipiales
com o ex-presidente Álvaro Uribe (2002-2010), até a ponte internacional de
Rumichaca, e anunciou:
“No
primeiro dia, a primeira ligação que vou fazer é para o presidente Noboa. E vou
lhe dizer que aqui há com quem compartilhar o narcoterrorismo e que
imediatamente suspenda as taxas.”
No dia
seguinte, De la Espriella visitou a mesma fronteira e disse o mesmo.
A
guerra tarifária entre Colômbia e Equador, escalada a 100% por ambos os lados
em abril de 2026, é a ferramenta perfeita de pressão. O eleitorado fronteiriço
de Nariño sofre o bloqueio comercial, e os candidatos de direita oferecem a
solução imediata: alinhar-se com Noboa, que já se alinhou com Trump e assinou o
acordo do Escudo das Américas. A cadeia está completa.
Petro
disse em Barcelona, no painel “Democracia e civilizações”:
“Nos
sentimos rodeados. Fizeram assim para que não se reconstitua o projeto da
Grande Colômbia.”
Até o
momento, nenhum candidato apoiado por Trump perdeu uma eleição na América
Latina. Na Argentina, Milei venceu as eleições legislativas condicionadas por
um resgate de US$ 40 bilhões. Na Bolívia, as eleições presidenciais foram
vencidas pela direita. O Equador reelegeu Noboa. No Chile, Kast arrasou. Em
Honduras, impôs-se Asfura. E, no Peru, o país esteve a ponto de um segundo
turno para eleger um presidente entre dois candidatos de direita.
O
internacionalista Abelardo Rodríguez Sumano sintetizou:
“Quando
os Estados Unidos decidem que vão intervir, há uma grande quantidade de
escalas: diplomática, econômica, taxas, intervenção militar, exercícios de
inteligência. Têm um leque extraordinário.”
O
acadêmico peruano Farid Kahhat foi mais direto:
“Trump
basicamente extorque os eleitores.”
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Colômbia votará no próximo 31 de maio
Quarenta
e sete por cento da população da América Latina vai às urnas este ano: além da
Colômbia, Brasil, Peru, Haiti e Costa Rica.
Uma
linha ininterrupta de governos de direita já se estende do Equador à Argentina.
Só restam Colômbia, Brasil e Uruguai. Se a direita ganhar na Colômbia,
consolidará a guinada continental. O México ficaria sozinho com Claudia
Sheinbaum, cercada por todos os lados, e Lula chegaria encurralado às eleições
de outubro próximo.
Se o
progressismo colombiano resistir; se a herança dos processos populares que
levaram Petro ao poder conseguir produzir um candidato capaz de vencer, não
apenas a direita colombiana, mas a Casa Branca, Rubio, o Escudo das Américas,
Noboa e suas bombas MK-82; se a Colômbia votar em maio e demonstrar que a
extorsão eleitoral de Trump tem um limite — então Brasil e México respirarão, e
a doutrina da Grande América do Norte vai se esfarelar diante de um eleitorado
que não tem medo dela.
O que
chega para a Colômbia não é apenas mais uma eleição. É uma pergunta sobre se
este continente terá permissão para eleger seus governantes ou se o mapa de
Hegseth se tornará a nova fronteira do decadente império estadunidense.
Trump
já tem sua coalizão militar, seus aliados e a Venezuela como precedente. De
modo que cada voto nas eleições de maio será um ato de soberania ou um ato de
rendição: não há meio-termo.
Fonte:
El Turbión

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