quinta-feira, 28 de maio de 2026

Fernando Capotondo: China, Taiwan e a armadilha do "520”

No xadrez da política asiática, o 520 funciona como um número carregado de sinais. Em 20 de maio — mês 5, dia 20 — as autoridades taiwanesas inauguram um novo mandato ou apresentam balanços de gestão que costumam ser observados de Pequim, Washington e de boa parte da região Ásia-Pacífico. Neste ano, o segundo aniversário da administração de Lai Ching-te chegou atravessado por um clima bem mais áspero do que o habitual. A tensão voltou a escalar após a recente cúpula entre Xi Jinping e Donald Trump, na qual o presidente chinês lançou um alerta que ainda segue repercutindo: “A independência de Taiwan e a paz no Estreito são tão irreconciliáveis quanto fogo e água”.

A frase foi repetida nos últimos dias em grande parte das coletivas de imprensa, comunicados oficiais e declarações políticas do governo chinês. Do Ministério das Relações Exteriores, o porta-voz Guo Jiakun a citou literalmente ao responder ao discurso do 520 de Lai, a quem classificou como um “perturbador, criador de crises e sabotador da paz”.

“As forças separatistas da ‘independência de Taiwan’ constituem o maior destruidor do status quo no Estreito e a maior fonte de interrupção da paz e da estabilidade na região”, denunciou o diplomata.

No que poderia ser interpretado como as “Quatro verdades da China sobre Taiwan”, Guo explicou que “há apenas uma China no mundo, Taiwan é uma parte inalienável do território chinês, o Governo da República Popular da China é o único governo legal que representa toda a China e os dois lados do Estreito pertencem a uma só e mesma China”.

Essa ofensiva discursiva incluiu porta-vozes de outros organismos chineses, que — com certa veemência — afirmaram que Lai “mostra uma atitude agressiva por fora, mas fraca por dentro” e que seu discurso está cheio de “mentiras, hostilidade e confrontação”.

<><> Cúpula tempestuosa

Durante a cúpula Xi-Trump, Taiwan voltou a ocupar o centro da discussão bilateral. O mandatário chinês exigiu de seu homólogo norte-americano que deixasse de enviar sinais ambíguos sobre a ilha e respeitasse estritamente o princípio de uma só China, a fórmula diplomática que sustenta a relação bilateral desde os anos 1970.

Trump, longe de endurecer o discurso contra Pequim, escolheu agir com um pragmatismo quase transacional. Dias depois, em entrevista à Fox News, deixou uma declaração que em Taipé provocou um calafrio imediato em mais de um funcionário:

“Não busco que ninguém se torne independente. E, sabem?, devemos viajar 9.500 milhas para travar uma guerra? Não estou buscando isso”.

Em Washington, alguns analistas começaram a alertar que o problema já não passa apenas pelas intenções de Pequim, mas também pelo quanto os Estados Unidos estão dispostos a sustentar seu apoio histórico à ilha. Ryan Hass, ex-diretor para China no Conselho de Segurança Nacional durante o governo Obama e atual pesquisador da Brookings Institution, vem afirmando que as próximas decisões de Trump sobre Taiwan podem redefinir o alcance real da tradicional “ambiguidade estratégica” norte-americana.

Nos programas políticos da televisão taiwanesa, as declarações de Trump circularam por horas como um sinal, no mínimo, preocupante. Alguns comentaristas falaram diretamente em uma possível “fadiga estratégica” de Washington em relação à ilha. Outros interpretaram que os EUA começavam a relativizar seu compromisso histórico com Taiwan.

<><> Contrastes

Nesse contexto complexo, Lai Ching-te aproveitou o segundo aniversário de sua administração para reafirmar que Taiwan “não será sacrificada nem objeto de troca” em qualquer negociação entre China e Estados Unidos. “Nosso futuro não pode ser decidido por forças estrangeiras”, insistiu, após afirmar que a ilha “não pode ser tomada como refém pelo medo, pelas divisões ou por interesses de curto prazo”.

Lai defendeu a continuidade do vínculo militar com Washington, mas sem parecer um dirigente disposto a estimular uma escalada: “Taiwan não provocará nem intensificará o conflito, mas também não renunciaremos à nossa soberania, nossa dignidade nacional e nosso modo de vida democrático”.

O líder taiwanês, de fato, insistiu em uma definição que Pequim considera politicamente explosiva: “A República da China e a República Popular da China não estão subordinadas entre si”, afirmou, reafirmando a posição de seu governo de que Taiwan já funciona, na prática, como um Estado soberano. Mais adiante, foi ainda mais longe: “Não existe a chamada questão da independência”, declarou, argumentando que a ilha já possui instituições, governo, sistema político e forças armadas próprios.

Um editorial do Global Times afirmou que a autoapresentação de Lai como “guardião da paz e da estabilidade” poderia enganar aqueles que desconhecem as relações entre China e Taiwan. “Toda essa narrativa reproduz perfeitamente o esquema retórico utilizado por certas forças nos Estados Unidos e em outros países ocidentais nos últimos anos”, assinalou o veículo oficialista chinês.

Seu discurso também contrastou com uma série de episódios que a diplomacia chinesa classificou como “pequenas grandes vitórias”. O chanceler Wang Yi agradeceu publicamente às Seychelles por revogarem permissões de voo vinculadas a Lai. No Pacífico Sul, o primeiro-ministro eleito das Ilhas Salomão, Matthew Wale, ratificou o reconhecimento ao princípio de uma só China. Quase ao mesmo tempo, a Assembleia Mundial da Saúde voltou a rejeitar, pelo décimo ano consecutivo, a proposta de incorporar Taiwan como observador.

Ainda assim, é impossível ignorar que os Estados Unidos mantêm cooperação militar, presença naval e vínculos estratégicos com a ilha, enquanto vários governos ocidentais continuam apoiando a estabilidade do Estreito.

<><> A questão militar

A pressão diplomática já convive com sinais militares cada vez mais visíveis. A Marinha do Exército Popular de Libertação deslocou nesta semana um grupo de combate liderado pelo porta-aviões Liaoning para águas do Pacífico Ocidental a fim de realizar exercícios de voo tático e fogo real, segundo informou a agência Xinhua. Em alguns vídeos, puderam ser vistos decolagens noturnas a partir do convés e caças atravessando o Pacífico Ocidental. Ninguém mencionou Taiwan explicitamente; tampouco era necessário.

Especialistas militares consultados pela imprensa chinesa reconheceram que as manobras buscam reforçar a dissuasão frente a Taiwan e aos atores externos. Em Taipé, cresce a percepção de que a margem para sustentar o equilíbrio entre Washington e Pequim se tornou mais estreita.

Também mudou a discussão em torno do complexo tema das vendas de armas norte-americanas. Embora a administração Trump tenha aprovado em dezembro um pacote recorde de armamentos de 11 bilhões de dólares — que inclui desde mísseis e drones até sistemas de artilharia e softwares militares —, outro lote adicional avaliado em cerca de 14 bilhões de dólares ainda permanece sem autorização definitiva.

Em outra declaração de arrepiar as autoridades taiwanesas, o presidente dos EUA sugeriu que o tema poderia ficar atrelado à evolução de sua relação com a China: “É uma ficha de negociação muito boa para nós, francamente”, admitiu em outra entrevista, alimentando ainda mais as dúvidas na ilha.

<><> Desgaste interno

Toda essa pressão externa coincidiu com uma situação delicada dentro de Taiwan. Apenas um dia antes do “520”, Lai enfrentou uma moção de destituição impulsionada pelo Kuomintang e pelo Partido Popular de Taiwan. A iniciativa acabou fracassando, mas expôs o desgaste político atravessado por sua administração. A oposição reuniu 56 votos favoráveis ao impeachment, longe dos 76 necessários para avançar, embora suficientes para transformar a sessão parlamentar em um alerta para o governismo.

As pesquisas também não parecem ajudar muito Lai. Um levantamento da TVBS, publicado poucos dias antes do segundo aniversário de seu mandato, mostrou que 38% dos entrevistados estavam satisfeitos com sua gestão, enquanto 45% se declararam insatisfeitos e 17% não expressaram opinião. Em relação ao futuro da administração, o estudo revelou que 51% já não têm confiança nele.

Para acadêmicos da Universidade de Tsinghua, como Zhu Guilan, o núcleo desse mal-estar civil reside no custo econômico e estratégico de sustentar uma confrontação direta com o continente. No entanto, a analista taiwanesa Yi-Chuan Chiu, especialista em política do Indo-Pacífico e colunista da The Diplomat, afirma que o verdadeiro teste para Taipé não foi a foto da cúpula entre Xi e Trump, mas a capacidade real de resistência que a ilha demonstre para sobreviver à pressão simultânea de Pequim e às dúvidas de Washington.

Durante décadas, o 520 funcionou sob uma lógica relativamente estável: China reafirmava suas reivindicações sobre a ilha, Taiwan defendia sua autonomia política e os EUA mantinham a ambiguidade suficiente para sustentar o equilíbrio. Desta vez, porém, essa dinâmica começou a mudar. Pequim elevou a pressão, Trump introduziu dúvidas que há muito tempo não eram ouvidas na ilha e Taipé voltou a perceber até que ponto sua estratégia depende de fatores externos que não controla.

Aí está a verdadeira armadilha.

¨      China e Rússia inauguram nova etapa de cooperação e projetam crescimento sólido e constante das relações bilaterais

A visita do presidente russo Vladimir Putin a Pequim abre uma nova etapa para a cooperação bilateral e a coordenação estratégica entre China e Rússia, em um momento em que os dois países buscam consolidar uma parceria considerada por ambos como central para a estabilidade internacional, destaca o Global Times em editorial.

Putin chegou à capital chinesa na terça-feira (19), para uma visita de dois dias, a convite do presidente chinês Xi Jinping. A reunião entre os dois líderes deve definir diretrizes e traçar um novo plano para o desenvolvimento das relações sino-russas na nova era.

O jornal afirma que a condução direta de Xi e Putin tem sido o principal fator político para o avanço das relações entre os dois países. De acordo com o editorial, a comunicação frequente entre os presidentes ajudou a consolidar uma relação marcada por estabilidade, maturidade e resiliência, mesmo diante de mudanças profundas no cenário internacional.

O encontro ocorre no ano em que se completam 30 anos do estabelecimento da parceria estratégica de coordenação entre China e Rússia. Para Pequim e Moscou, a relação bilateral é um exemplo de vínculos entre grandes potências, sustentada por boa vizinhança, coordenação estratégica abrangente e cooperação mutuamente benéfica.

<><> Coordenação entre Xi e Putin

O editorial ressalta que Xi Jinping considera a relação China-Rússia uma parceria que resistiu ao teste das transformações globais. A avaliação chinesa é de que os dois países conseguiram construir uma relação de longo prazo baseada em amizade permanente, cooperação prática e alinhamento em temas internacionais.

Antes da viagem, Putin divulgou um pronunciamento em vídeo no qual destacou a importância dos contatos regulares entre os dois governos. “Visitas mútuas regulares e conversas de alto nível entre a Rússia e a China são uma parte importante e integrante de nossos esforços conjuntos para promover toda a gama de relações entre nossos dois países e desbloquear seu potencial verdadeiramente ilimitado”, afirmou o presidente russo.

De acordo com o Global Times, foi a primeira vez que Putin fez uma declaração em vídeo antes de uma viagem ao exterior. Para o jornal, o gesto demonstra a importância atribuída por Moscou à visita e evidencia o impulso interno que sustenta o desenvolvimento estável das relações bilaterais.

<><> Boa vizinhança e fronteira comum

China e Rússia compartilham uma fronteira de mais de 4.300 quilômetros e são os maiores vizinhos uma da outra. O editorial lembra que, há 25 anos, a assinatura do Tratado de Boa Vizinhança e Cooperação Amistosa consolidou em termos legais o compromisso de “amizade eterna” e de não tratamento mútuo como inimigos.

A publicação também aponta que os contatos entre as populações dos dois países se tornaram mais frequentes, com expansão de canais transfronteiriços, facilidades de circulação e maior fluxo de pessoas e mercadorias. Nesse contexto, o lançamento dos Anos de Educação China-Rússia é apresentado como uma iniciativa voltada a fortalecer os laços sociais e culturais entre os dois povos.

Para o Global Times, essa relação de proximidade oferece uma base considerada confiável para o desenvolvimento e a revitalização de ambos os países em um ambiente internacional descrito como complexo.

<><> Multilateralismo e ordem internacional

A parceria estratégica abrangente entre China e Rússia é apresentada pelo editorial como um elemento relevante para a estabilidade global, a defesa do multilateralismo e a preservação da ordem internacional. A publicação afirma que a relação foi construída sobre igualdade, respeito e benefício mútuo.

Segundo o texto, China e Rússia mantêm independência estratégica, respeitam interesses fundamentais uma da outra e não buscam impor agendas próprias. O editorial também ressalta que os dois países defendem uma relação baseada em não aliança, não confrontação e não direcionamento contra terceiros.

Como membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU, China e Rússia mantêm coordenação em espaços multilaterais como as Nações Unidas, a Organização de Cooperação de Xangai e o BRICS. O Global Times afirma que os dois países atuam juntos em temas internacionais e defendem o sistema centrado na ONU, ao mesmo tempo em que promovem uma ordem global considerada mais justa e equilibrada.

<><> Comércio bilateral supera US$ 200 bilhões

A cooperação prática entre China e Rússia também é destacada como uma das bases da relação. Segundo o editorial, apesar de um ambiente externo complexo e em rápida transformação, o comércio bilateral superou US$ 200 bilhões por três anos consecutivos.

De janeiro a abril de 2026, o volume do comércio entre os dois países cresceu quase 20% em comparação com o mesmo período do ano anterior, de acordo com o Global Times. A publicação afirma que a cooperação sino-russa passa de uma fase de expansão quantitativa para uma etapa de melhoria qualitativa, com avanços tanto em setores tradicionais quanto em áreas emergentes.

A 10ª Exposição China-Rússia, realizada em Harbin, é citada como exemplo recente dessa cooperação. O evento reuniu mais de 1.500 empresas de 46 países e regiões, reforçando, segundo o editorial, a dimensão econômica da parceria entre Pequim e Moscou.

<><> Novo ponto de partida

O Global Times avalia que boa vizinhança duradoura, coordenação estratégica abrangente e cooperação mutuamente benéfica formam os três pilares das relações China-Rússia. Para o jornal, esses elementos explicam a estabilidade do vínculo bilateral e sustentam sua expansão em um novo momento histórico.

A reunião entre Xi Jinping e Vladimir Putin, em Pequim, é apresentada como um marco para consolidar conquistas anteriores e abrir uma nova fase de cooperação. Segundo o editorial, o “grande navio” das relações China-Rússia está preparado para avançar rumo ao futuro.

¨      Xi Jinping propõe coordenação estratégica abrangente com a Rússia

O presidente chinês, Xi Jinping, recebeu o presidente russo, Vladimir Putin, nesta quarta-feira (20), em Pequim, e defendeu um avanço estratégico entre China e Rússia por meio de uma coordenação bilateral de maior qualidade, com foco no desenvolvimento e na revitalização dos dois países, as informações são da Xinhua.

Segundo a Xinhua, a reunião ocorreu no Palácio Presidencial, em Pequim, em um momento simbólico para as relações bilaterais. Xi destacou que 2026 marca o 30º aniversário da parceria estratégica de coordenação entre China e Rússia e o 25º aniversário da assinatura do Tratado de Boa Vizinhança e Cooperação Amistosa entre os dois países.

Xi afirmou que a relação entre Pequim e Moscou chegou ao atual patamar como resultado de um processo contínuo de aprofundamento da confiança política mútua e da coordenação estratégica. Para o presidente chinês, os dois países avançaram “passo a passo” porque mantiveram uma disposição constante de ampliar a cooperação, buscar novos patamares e defender princípios de justiça e equidade no cenário internacional.

O líder chinês também associou a parceria bilateral à construção de uma comunidade com futuro compartilhado para a humanidade, conceito fundamental na diplomacia chinesa. Na avaliação de Xi, China e Rússia têm responsabilidade especial na defesa de uma ordem global mais equilibrada, especialmente por serem membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU e potências de peso no sistema internacional.

“A situação internacional é fluida e turbulenta”, afirmou Xi Jinping, ao comentar o atual cenário global. Em seguida, ele advertiu para o ressurgimento de práticas que, segundo sua avaliação, pressionam a estabilidade internacional. “O unilateralismo e o hegemonismo estão ressurgindo, mas a paz, o desenvolvimento e a cooperação continuam sendo a aspiração do povo e a tendência predominante de nossa época”, disse.

Xi também defendeu que China e Rússia adotem uma visão estratégica de longo prazo para fortalecer suas respectivas trajetórias nacionais. “Como membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU e importantes potências mundiais, a China e a Rússia devem adotar uma perspectiva estratégica de longo prazo, impulsionar o desenvolvimento e a revitalização de seus respectivos países por meio de uma coordenação estratégica abrangente de ainda maior qualidade e trabalhar para tornar o sistema de governança global mais justo e equitativo”, declarou.

A fala de Xi reforça a centralidade da parceria China-Rússia na política externa de Pequim e Moscou. Ao mencionar os marcos históricos da relação bilateral, o presidente chinês buscou situar o encontro com Putin como parte de uma trajetória de cooperação de longo prazo, baseada em confiança política, coordenação estratégica e atuação conjunta em temas internacionais.

O encontro também evidenciou a disposição dos dois governos de ampliar a cooperação em meio a um ambiente internacional descrito por Xi como instável. Para o líder chinês, a resposta de Pequim e Moscou deve passar pelo fortalecimento da coordenação estratégica e pela defesa de uma governança global mais justa e equitativa.

 

Fonte: Brasil 247

 

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