Oliveiros
Marques: Estratégia de um derrotado
Há algo
de profundamente revelador na notícia de que os estrategistas de Flávio
Bolsonaro decidiram apostar novamente no “bolsonarismo raiz”. Não revelador
sobre o país. Revelador sobre a sua campanha.
Porque
ninguém volta para a trincheira mais estreita quando acredita que pode
conquistar terreno novo. Ninguém troca a ampliação pela radicalização quando
está vencendo. E ninguém abraça apenas os 30% mais fiéis quando acredita ser
capaz de falar para a maioria do Brasil.
A
movimentação descrita pela coluna de Daniela Lima é menos uma estratégia de
vitória e mais uma operação de contenção de danos. O objetivo já não parece ser
ganhar a eleição. Parece ser sobreviver politicamente ao naufrágio.
Quando
uma campanha decide “voltar às raízes”, muitas vezes o que ela está dizendo é:
perdemos a capacidade de crescer. O bolsonarismo raiz funciona como bunker
emocional de um eleitorado fiel, mas insuficiente. Serve para manter patrimônio
político, preservar influência, garantir bancada, proteger o sobrenome e
impedir deserções. Serve para administrar o espólio.
Mas não
serve, necessariamente, para vencer uma eleição presidencial.
Talvez
os estrategistas de Flávio saibam disso melhor do que ninguém. Talvez tenham
percebido que o desgaste provocado pelo caso envolvendo Daniel Vorcaro não foi
episódico, mas estrutural. As contradições públicas, os áudios, os recuos e as
versões desencontradas corroeram justamente aquilo que o bolsonarismo sempre
vendeu como sua principal mercadoria: a ideia de autenticidade brutal, do
político que “fala a verdade” e que posa de probo.
Quando
até aliados começam a discutir alternativas dentro da direita, é porque o
problema deixou de ser apenas eleitoral. Passou a ser sucessório.
E aí
surge a pergunta inevitável: será que o comando interno virou apenas “não posso
chegar em terceiro lugar”?
Porque
toda a estética recente da campanha aponta nessa direção. Menos construção de
maioria. Mais fidelização de núcleo duro. Menos diálogo com o centro. Mais
guerra cultural. Menos futuro. Mais ressentimento. Concentre-se na “multidão”,
dentro do conceito desenvolvido por Gustave Le Bon, que já desceu “vários
degraus na escala da civilização” e que nos segue, contagiada que já está.
É uma
estratégia defensiva. E, no fundo, covarde.
Covarde
porque não busca convencer quem pensa diferente. Não tenta ampliar horizontes.
Não propõe reencontro nacional. Apenas cava uma trincheira ideológica para
resistir ao avanço da realidade.
Mas
deve ser realista. É o que lhes resta a fazer. Dada a qualidade profissional
dos estrategistas entrantes, eles sabem onde pisam.
O
bolsonarismo raiz sempre funcionou melhor como identidade emocional do que como
projeto de país. Em momentos de força, ele se expandia graças ao antipetismo,
ao colapso da velha direita e à crise econômica. Mas, isolado em si mesmo,
tende ao encolhimento. É uma lógica de seita política: quanto maior o cerco,
maior a radicalização dos fiéis.
Só que
eleição presidencial não se vence apenas com os convertidos.
E
talvez esteja aí a admissão mais melancólica dessa guinada: a de que até Flávio
e seus próprios estrategistas já entenderam que a vaca foi para o brejo. Resta,
então, garantir que o sobrenome sobreviva forte o suficiente para continuar
comandando uma parcela barulhenta da direita brasileira — mesmo que já não
consiga liderar o país.
No fim,
o “retorno às origens” pode acabar sendo apenas isso: o discurso elegante para
não admitir publicamente que o sonho de vitória virou gerenciamento de derrota.
• Banco Master expõe as entranhas do
sistema bolsonarista. Por Florestan Fernandes Jr
A 8ª
fase da Operação Compliance Zero, realizada pela Polícia Federal, com mandados
de busca e apreensão na suntuosa cobertura do ex-governador Cláudio Castro,
revela onde a chamada “Ponte para o Futuro”, do governo golpista de Michel
Temer, levou o país. A verdadeira gangue que operava havia décadas nos governos
e na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, atravessou a ponte, contaminando
boa parte do Estado brasileiro.
Nos
últimos anos, o Brasil conheceu alguns dos milicianos que frequentavam a
cozinha dos Bolsonaro. Entre eles, o ex-policial militar Ronnie Lessa, um dos
executores do assassinato da vereadora Marielle Franco, e Fabrício Queiroz,
ex-policial militar reformado, apontado pelo Ministério Público como operador
do esquema de “rachadinha” no gabinete do então deputado estadual Flávio
Bolsonaro.
A
chegada de Jair Bolsonaro à Presidência levou para o coração do poder não
apenas uma estrutura política voltada ao desvio de recursos públicos, mas
também lideranças forjadas em décadas de atuação no submundo político do Rio de
Janeiro.
O vírus
da corrupção bolsonarista espalhou-se por parte da Esplanada dos Ministérios e
pelo próprio Congresso Nacional, onde emendas orçamentárias distribuídas sem
transparência passaram a servir ao desvio de dinheiro público, por meio de
operações superfaturadas e fraudes escancaradas em licitações. Formou-se uma
verdadeira máquina de saque aos cofres públicos, bilhões de reais que só
começaram a ser rastreados e desmontados pelas investigações da Polícia
Federal, determinadas pelo STF, sob relatoria do ministro Flávio Dino.
No
escândalo do Banco Master, a cada dia surgem novas revelações sobre essa
engrenagem de corrupção, assustando o país pelos valores envolvidos nas
falcatruas. A operação que levou, nesta terça-feira, a Polícia Federal à casa
de Cláudio Castro revelou o aporte de nada menos que R$ 3,7 bilhões do
Rioprevidência em fundos do banco de Daniel Vorcaro. Dinheiro retirado de
aposentados que sequer contam com a proteção do Fundo Garantidor de Créditos.
Recursos
públicos que alimentaram o sistema fraudulento do Banco Master durante os anos
do bolsonarismo. Parte desse dinheiro teria atendido demandas de políticos
ligados ao grupo, como os R$ 134 milhões cobrados de Vorcaro pelo senador
Flávio Bolsonaro que, segundo o próprio parlamentar, seriam destinados ao
financiamento do filme “Dark Horse”. Soma-se a isso o caso do ex-ministro de
Jair Bolsonaro, senador Ciro Nogueira, que recebeu pagamentos mensais da ordem
de R$ 500 mil de Daniel Vorcaro.
Na casa
dos bilhões aparece também o empresário Ricardo Magro, dono do Grupo Refit,
apontado como um dos maiores devedores fiscais do país, com dívidas estimadas
em mais de R$ 52 bilhões. Segundo a Polícia Federal, há indícios de que as
atividades ilícitas do conglomerado contaram com a anuência de Cláudio Castro.
Vale lembrar que o ex-governador foi condenado pelo TSE por contratar, com
recursos públicos, milhares de funcionários que teriam atuado como cabos
eleitorais em sua campanha de reeleição, em 2022.
Por
essas e outras, a tentativa de golpe de Estado articulada sob o comando de Jair
Bolsonaro não tinha apenas o objetivo de implantar uma ruptura institucional,
mas também o de preservar mecanismos de corrupção que, segundo as
investigações, contaram inclusive com a participação de setores do mercado
financeiro.
Nestes
três anos e meio do governo do presidente Lula, mais do que os avanços
econômicos e sociais, o combate à corrupção teve um papel fundamental ao expor
ao país a verdadeira face do bolsonarismo: as entranhas de um Estado corroído
por esquemas de enriquecimento ilícito e por grupos especializados em
transformar a máquina pública em instrumento permanente de saque aos cofres
públicos. Um esquema que só será definitivamente extirpado com a reeleição de
Lula.
• Banco Master, roubalheira e ódio de
classe. Por Jair de Souza
As
recentes sondagens exibem dados que apontam no sentido de uma vitória do atual
presidente Lula no próximo pleito eleitoral, previsto para outubro do corrente
ano. No entanto, elas também indicam que é menor a probabilidade de que o
resultado venha a ser definido já no primeiro turno.
Contudo,
o que mais nos chama a atenção nas citadas sondagens é o detalhe aterrador de
que, caso a decisão se adie para o segundo turno, o candidato do clã
bolsonarista alcançaria 41% dos votos, contra os 47% dados a Lula.
Realmente,
não é fácil entender como, mesmo após terem sido divulgados indícios
irrefutáveis do completo envolvimento do bolsonarismo com a estrutura criminosa
do Banco Master e a mais tenebrosa estrutura de banditismo financeiro de que se
tem notícia no Brasil, ainda assim haja tal percentual de eleitores dispostos a
sufragar nas urnas o nome de um dos membros do citado clã.
Vários
analistas dizem acreditar que esta absurda incoerência lógica se deve ao
elevadíssimo nível de desinformação imperante em nossa sociedade, o qual
possibilita que uma significativa parcela de nossa população não tenha tomado
conhecimento da profunda e umbilical vinculação do bolsonarismo e seus
principais expoentes com a roubalheira que anda à solta pelo país.
Entretanto,
não obstante eu admita que existe de fato um expressivo grau de carência
informativa que precisa ser levado em conta, tendo a crer que as justificativas
para que tantas pessoas persistam com sua disposição de votar em alguém do
bolsonarismo se devem a outros fatores, muito mais sórdidos que a mera falta de
informação.
A bem
da verdade, com uma olhada mais seletiva sobre o panorama e os dados de que
dispomos, vamos poder constatar que a maioria daqueles que declaram firme e
abertamente sua preferência e determinação em trazer o bolsonarismo de volta ao
poder político não o fazem por ignorar a vinculação dos próceres bolsonaristas
com a criminalidade financeira capitaneada pelo Banco Master, nem com o
banditismo organizado em geral.
Via de
regra, o núcleo bolsonarista realmente resiliente é composto de pessoas que têm
plena ciência dessas ligações do bolsonarismo. Porém, isto lhes parece
irrelevante diante de outro fator que as molesta com muitíssimo mais
intensidade: o ódio que nutrem contra Lula, o PT e, principalmente, contra os
setores sociais com eles identificados.
Como
aprendemos dos estudos antropológicos e sociais, não há força humana com
potencial mais mobilizador do que o ódio. E faz tempo que os formuladores
políticos das classes dominantes têm se dedicado a aperfeiçoar suas técnicas de
manipulação com vistas a atiçar certos grupos de pessoas para lançá-los contra
quem possa estar ameaçando a continuidade de seus privilégios.
A
partir do momento em que é dominado pelo sentimento de fúria, a pessoa passa a
colocar em primeiríssimo lugar o objetivo de destruir o alvo de sua ira. E,
para atingir esse objetivo, vale tudo, inclusive fazer uso de tudo aquilo de
que se acusa o odiado. Por exemplo, se pessoas forem induzidas a odiar alguém
por ele estar supostamente envolvido na propriedade de um tríplex que custe,
como máximo, dois milhões de reais, não se fará nenhum reparo no fato real,
indiscutível e inegável, que o escolhido para eliminá-lo tenha adquirido de
forma inexplicável um imóvel por um valor que, mesmo subfaturado, é três vezes
superior ao atribuído sem provas ao odiado antes mencionado.
Para
semear, difundir e intensificar o ódio com fins manipulativos, os opressores
recorrem a vários instrumentos. Dentre estes, estão os meios de comunicação,
tanto os tradicionais (rádio, televisão, jornais e revistas) como os mais
recentes (as redes sociais de internet – whatsapp, Instagram, TikTok, etc.);
mas muitas entidades de caráter formalmente religioso também exercem um papel
de grande relevância nessa atividade.
Em
relação com o aspecto recém mencionado, devemos ter clareza de que não se trata
de nenhuma casualidade, nem mera incompreensão espiritual, o fato de que em
várias instituições ditas religiosas, como as que compõem o neopentecostalismo,
a figura do diabo tenha alcançado a expressão máxima. Sem sua presença, tais
correntes não teriam como existir nem sobreviver. Quase tudo por ali gira em
torno da figura do rei do inferno. E, para combatê-lo, pode-se fazer uso de
tudo, mesmo e especialmente, as próprias artimanhas que dizem ser
características do senhor das trevas.
Portanto,
basta acusar e destilar o ódio contra alguém acusando-o de estar ligado ao
diabo, e nos será permitido lançar contra ele as mentiras tidas como típicas do
mesmo. Assim, quando odiamos alguém e o acusamos de ser ladrão associado ao
diabo, podemos justificar e louvar o roubo de centenas de bilhões de recursos
públicos de aposentados e pensionistas. Mesmo que a roubalheira seja revelada,
a bronca nutrida contra nosso desafeto não deixará que nos sintamos
envergonhados ou arrependidos.
E, para
resumir e ressaltar o teor do que vínhamos buscando esclarecer, precisamos
dizer que o ódio assume seu potencial máximo quando ele é dirigido contra as
classes exploradas de uma sociedade. Por isso, tudo ou todos os que estejam
nitidamente identificados com as camadas populares e seus interesses serão
sempre os alvos preferenciais do ódio de classe dos exploradores. E contra
eles, vale tudo e se justifica tudo!
• Flávio Bolsonaro não assinou três das
cinco CPIs sobre o Master que poderia apoiar
O
senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pré-candidato à Presidência da República, não
assinou três dos cinco requerimentos de criação de comissão parlamentar de
inquérito para investigar o Banco Master disponíveis para os integrantes do
Senado.
Flávio
deixou de apoiar requerimentos de uma CPI de autoria até mesmo de um aliado
dele, o senador Eduardo Girão (Novo-CE), e outros duas iniciativas governistas
– uma do senador Rogério Carvalho (PT-SE) e uma comissão mista, das deputadas
Heloísa Helena (Rede-RJ) e Fernanda Melchionna (PSOL-RS).
Esse
fato contradiz declaração do próprio Flávio, que disse ter assinado todos os
requerimentos de CPI sobre o Master. “Nenhum de vocês (governistas) assinou. Eu
assinei todas, porque não tenho nada a esconder. Porque tem uma grande
diferença. Vocês entendem muito de corrupção”, disse.
Flávio
assinou os requerimentos de CPI Mista de autoria do deputado Carlos Jordy
(PL-RJ) e de CPI no Senado, de Carlos Viana (PSD-MG). Esse último requerimento
ainda não foi protocolado.
Hoje,
há seis pedidos de abertura de CPI sobre o Master no Congresso – três da
oposição e três do governo. Além das cinco CPIs já mencionadas, o deputado
Rodrigo Rollemberg (PSB-DF), protocolou na Câmara um requerimento para
investigar as relações do Banco Master com o Banco de Brasília (BRB).
O
senador passou a defender uma comissão parlamentar de inquérito após a
divulgação dos diálogos entre ele e Vorcaro na semana passada.
O site
Intercept Brasil revelou que Flávio enviou mensagens a Daniel Vorcaro, dono do
Master, em que pedia dinheiro para o financiamento do filme”Dark Horse”,
produção que conta a história do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).
Para
ser instaurada, uma comissão parlamentar de inquérito precisa do aval do
presidente da respectiva Casa onde foi apresentado o requerimento – no caso da
comissão mista, do presidente do Senado.
Como
mostrou o Estadão, governo e oposição travam uma disputa pelo protagonismo pela
criação do colegiado, mas está emperrada especialmente por causa da resistência
dos presidentes da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB), e do
Senado, Davi Alcolumbre (União-AP).
Fonte:
Brasil 247/JB

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