sexta-feira, 29 de maio de 2026

Oliveiros Marques: Estratégia de um derrotado

Há algo de profundamente revelador na notícia de que os estrategistas de Flávio Bolsonaro decidiram apostar novamente no “bolsonarismo raiz”. Não revelador sobre o país. Revelador sobre a sua campanha.

Porque ninguém volta para a trincheira mais estreita quando acredita que pode conquistar terreno novo. Ninguém troca a ampliação pela radicalização quando está vencendo. E ninguém abraça apenas os 30% mais fiéis quando acredita ser capaz de falar para a maioria do Brasil.

A movimentação descrita pela coluna de Daniela Lima é menos uma estratégia de vitória e mais uma operação de contenção de danos. O objetivo já não parece ser ganhar a eleição. Parece ser sobreviver politicamente ao naufrágio.

Quando uma campanha decide “voltar às raízes”, muitas vezes o que ela está dizendo é: perdemos a capacidade de crescer. O bolsonarismo raiz funciona como bunker emocional de um eleitorado fiel, mas insuficiente. Serve para manter patrimônio político, preservar influência, garantir bancada, proteger o sobrenome e impedir deserções. Serve para administrar o espólio.

Mas não serve, necessariamente, para vencer uma eleição presidencial.

Talvez os estrategistas de Flávio saibam disso melhor do que ninguém. Talvez tenham percebido que o desgaste provocado pelo caso envolvendo Daniel Vorcaro não foi episódico, mas estrutural. As contradições públicas, os áudios, os recuos e as versões desencontradas corroeram justamente aquilo que o bolsonarismo sempre vendeu como sua principal mercadoria: a ideia de autenticidade brutal, do político que “fala a verdade” e que posa de probo.

Quando até aliados começam a discutir alternativas dentro da direita, é porque o problema deixou de ser apenas eleitoral. Passou a ser sucessório.

E aí surge a pergunta inevitável: será que o comando interno virou apenas “não posso chegar em terceiro lugar”?

Porque toda a estética recente da campanha aponta nessa direção. Menos construção de maioria. Mais fidelização de núcleo duro. Menos diálogo com o centro. Mais guerra cultural. Menos futuro. Mais ressentimento. Concentre-se na “multidão”, dentro do conceito desenvolvido por Gustave Le Bon, que já desceu “vários degraus na escala da civilização” e que nos segue, contagiada que já está.

É uma estratégia defensiva. E, no fundo, covarde.

Covarde porque não busca convencer quem pensa diferente. Não tenta ampliar horizontes. Não propõe reencontro nacional. Apenas cava uma trincheira ideológica para resistir ao avanço da realidade.

Mas deve ser realista. É o que lhes resta a fazer. Dada a qualidade profissional dos estrategistas entrantes, eles sabem onde pisam.

O bolsonarismo raiz sempre funcionou melhor como identidade emocional do que como projeto de país. Em momentos de força, ele se expandia graças ao antipetismo, ao colapso da velha direita e à crise econômica. Mas, isolado em si mesmo, tende ao encolhimento. É uma lógica de seita política: quanto maior o cerco, maior a radicalização dos fiéis.

Só que eleição presidencial não se vence apenas com os convertidos.

E talvez esteja aí a admissão mais melancólica dessa guinada: a de que até Flávio e seus próprios estrategistas já entenderam que a vaca foi para o brejo. Resta, então, garantir que o sobrenome sobreviva forte o suficiente para continuar comandando uma parcela barulhenta da direita brasileira — mesmo que já não consiga liderar o país.

No fim, o “retorno às origens” pode acabar sendo apenas isso: o discurso elegante para não admitir publicamente que o sonho de vitória virou gerenciamento de derrota.

        Banco Master expõe as entranhas do sistema bolsonarista. Por Florestan Fernandes Jr

A 8ª fase da Operação Compliance Zero, realizada pela Polícia Federal, com mandados de busca e apreensão na suntuosa cobertura do ex-governador Cláudio Castro, revela onde a chamada “Ponte para o Futuro”, do governo golpista de Michel Temer, levou o país. A verdadeira gangue que operava havia décadas nos governos e na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, atravessou a ponte, contaminando boa parte do Estado brasileiro.

Nos últimos anos, o Brasil conheceu alguns dos milicianos que frequentavam a cozinha dos Bolsonaro. Entre eles, o ex-policial militar Ronnie Lessa, um dos executores do assassinato da vereadora Marielle Franco, e Fabrício Queiroz, ex-policial militar reformado, apontado pelo Ministério Público como operador do esquema de “rachadinha” no gabinete do então deputado estadual Flávio Bolsonaro.

A chegada de Jair Bolsonaro à Presidência levou para o coração do poder não apenas uma estrutura política voltada ao desvio de recursos públicos, mas também lideranças forjadas em décadas de atuação no submundo político do Rio de Janeiro.

O vírus da corrupção bolsonarista espalhou-se por parte da Esplanada dos Ministérios e pelo próprio Congresso Nacional, onde emendas orçamentárias distribuídas sem transparência passaram a servir ao desvio de dinheiro público, por meio de operações superfaturadas e fraudes escancaradas em licitações. Formou-se uma verdadeira máquina de saque aos cofres públicos, bilhões de reais que só começaram a ser rastreados e desmontados pelas investigações da Polícia Federal, determinadas pelo STF, sob relatoria do ministro Flávio Dino.

No escândalo do Banco Master, a cada dia surgem novas revelações sobre essa engrenagem de corrupção, assustando o país pelos valores envolvidos nas falcatruas. A operação que levou, nesta terça-feira, a Polícia Federal à casa de Cláudio Castro revelou o aporte de nada menos que R$ 3,7 bilhões do Rioprevidência em fundos do banco de Daniel Vorcaro. Dinheiro retirado de aposentados que sequer contam com a proteção do Fundo Garantidor de Créditos.

Recursos públicos que alimentaram o sistema fraudulento do Banco Master durante os anos do bolsonarismo. Parte desse dinheiro teria atendido demandas de políticos ligados ao grupo, como os R$ 134 milhões cobrados de Vorcaro pelo senador Flávio Bolsonaro que, segundo o próprio parlamentar, seriam destinados ao financiamento do filme “Dark Horse”. Soma-se a isso o caso do ex-ministro de Jair Bolsonaro, senador Ciro Nogueira, que recebeu pagamentos mensais da ordem de R$ 500 mil de Daniel Vorcaro.

Na casa dos bilhões aparece também o empresário Ricardo Magro, dono do Grupo Refit, apontado como um dos maiores devedores fiscais do país, com dívidas estimadas em mais de R$ 52 bilhões. Segundo a Polícia Federal, há indícios de que as atividades ilícitas do conglomerado contaram com a anuência de Cláudio Castro. Vale lembrar que o ex-governador foi condenado pelo TSE por contratar, com recursos públicos, milhares de funcionários que teriam atuado como cabos eleitorais em sua campanha de reeleição, em 2022.

Por essas e outras, a tentativa de golpe de Estado articulada sob o comando de Jair Bolsonaro não tinha apenas o objetivo de implantar uma ruptura institucional, mas também o de preservar mecanismos de corrupção que, segundo as investigações, contaram inclusive com a participação de setores do mercado financeiro.

Nestes três anos e meio do governo do presidente Lula, mais do que os avanços econômicos e sociais, o combate à corrupção teve um papel fundamental ao expor ao país a verdadeira face do bolsonarismo: as entranhas de um Estado corroído por esquemas de enriquecimento ilícito e por grupos especializados em transformar a máquina pública em instrumento permanente de saque aos cofres públicos. Um esquema que só será definitivamente extirpado com a reeleição de Lula.

        Banco Master, roubalheira e ódio de classe. Por Jair de Souza

As recentes sondagens exibem dados que apontam no sentido de uma vitória do atual presidente Lula no próximo pleito eleitoral, previsto para outubro do corrente ano. No entanto, elas também indicam que é menor a probabilidade de que o resultado venha a ser definido já no primeiro turno.

Contudo, o que mais nos chama a atenção nas citadas sondagens é o detalhe aterrador de que, caso a decisão se adie para o segundo turno, o candidato do clã bolsonarista alcançaria 41% dos votos, contra os 47% dados a Lula.

Realmente, não é fácil entender como, mesmo após terem sido divulgados indícios irrefutáveis do completo envolvimento do bolsonarismo com a estrutura criminosa do Banco Master e a mais tenebrosa estrutura de banditismo financeiro de que se tem notícia no Brasil, ainda assim haja tal percentual de eleitores dispostos a sufragar nas urnas o nome de um dos membros do citado clã.

Vários analistas dizem acreditar que esta absurda incoerência lógica se deve ao elevadíssimo nível de desinformação imperante em nossa sociedade, o qual possibilita que uma significativa parcela de nossa população não tenha tomado conhecimento da profunda e umbilical vinculação do bolsonarismo e seus principais expoentes com a roubalheira que anda à solta pelo país.

Entretanto, não obstante eu admita que existe de fato um expressivo grau de carência informativa que precisa ser levado em conta, tendo a crer que as justificativas para que tantas pessoas persistam com sua disposição de votar em alguém do bolsonarismo se devem a outros fatores, muito mais sórdidos que a mera falta de informação.

A bem da verdade, com uma olhada mais seletiva sobre o panorama e os dados de que dispomos, vamos poder constatar que a maioria daqueles que declaram firme e abertamente sua preferência e determinação em trazer o bolsonarismo de volta ao poder político não o fazem por ignorar a vinculação dos próceres bolsonaristas com a criminalidade financeira capitaneada pelo Banco Master, nem com o banditismo organizado em geral.

Via de regra, o núcleo bolsonarista realmente resiliente é composto de pessoas que têm plena ciência dessas ligações do bolsonarismo. Porém, isto lhes parece irrelevante diante de outro fator que as molesta com muitíssimo mais intensidade: o ódio que nutrem contra Lula, o PT e, principalmente, contra os setores sociais com eles identificados.

Como aprendemos dos estudos antropológicos e sociais, não há força humana com potencial mais mobilizador do que o ódio. E faz tempo que os formuladores políticos das classes dominantes têm se dedicado a aperfeiçoar suas técnicas de manipulação com vistas a atiçar certos grupos de pessoas para lançá-los contra quem possa estar ameaçando a continuidade de seus privilégios.

A partir do momento em que é dominado pelo sentimento de fúria, a pessoa passa a colocar em primeiríssimo lugar o objetivo de destruir o alvo de sua ira. E, para atingir esse objetivo, vale tudo, inclusive fazer uso de tudo aquilo de que se acusa o odiado. Por exemplo, se pessoas forem induzidas a odiar alguém por ele estar supostamente envolvido na propriedade de um tríplex que custe, como máximo, dois milhões de reais, não se fará nenhum reparo no fato real, indiscutível e inegável, que o escolhido para eliminá-lo tenha adquirido de forma inexplicável um imóvel por um valor que, mesmo subfaturado, é três vezes superior ao atribuído sem provas ao odiado antes mencionado.

Para semear, difundir e intensificar o ódio com fins manipulativos, os opressores recorrem a vários instrumentos. Dentre estes, estão os meios de comunicação, tanto os tradicionais (rádio, televisão, jornais e revistas) como os mais recentes (as redes sociais de internet – whatsapp, Instagram, TikTok, etc.); mas muitas entidades de caráter formalmente religioso também exercem um papel de grande relevância nessa atividade.

Em relação com o aspecto recém mencionado, devemos ter clareza de que não se trata de nenhuma casualidade, nem mera incompreensão espiritual, o fato de que em várias instituições ditas religiosas, como as que compõem o neopentecostalismo, a figura do diabo tenha alcançado a expressão máxima. Sem sua presença, tais correntes não teriam como existir nem sobreviver. Quase tudo por ali gira em torno da figura do rei do inferno. E, para combatê-lo, pode-se fazer uso de tudo, mesmo e especialmente, as próprias artimanhas que dizem ser características do senhor das trevas.

Portanto, basta acusar e destilar o ódio contra alguém acusando-o de estar ligado ao diabo, e nos será permitido lançar contra ele as mentiras tidas como típicas do mesmo. Assim, quando odiamos alguém e o acusamos de ser ladrão associado ao diabo, podemos justificar e louvar o roubo de centenas de bilhões de recursos públicos de aposentados e pensionistas. Mesmo que a roubalheira seja revelada, a bronca nutrida contra nosso desafeto não deixará que nos sintamos envergonhados ou arrependidos.

E, para resumir e ressaltar o teor do que vínhamos buscando esclarecer, precisamos dizer que o ódio assume seu potencial máximo quando ele é dirigido contra as classes exploradas de uma sociedade. Por isso, tudo ou todos os que estejam nitidamente identificados com as camadas populares e seus interesses serão sempre os alvos preferenciais do ódio de classe dos exploradores. E contra eles, vale tudo e se justifica tudo!

        Flávio Bolsonaro não assinou três das cinco CPIs sobre o Master que poderia apoiar

O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pré-candidato à Presidência da República, não assinou três dos cinco requerimentos de criação de comissão parlamentar de inquérito para investigar o Banco Master disponíveis para os integrantes do Senado.

Flávio deixou de apoiar requerimentos de uma CPI de autoria até mesmo de um aliado dele, o senador Eduardo Girão (Novo-CE), e outros duas iniciativas governistas – uma do senador Rogério Carvalho (PT-SE) e uma comissão mista, das deputadas Heloísa Helena (Rede-RJ) e Fernanda Melchionna (PSOL-RS).

Esse fato contradiz declaração do próprio Flávio, que disse ter assinado todos os requerimentos de CPI sobre o Master. “Nenhum de vocês (governistas) assinou. Eu assinei todas, porque não tenho nada a esconder. Porque tem uma grande diferença. Vocês entendem muito de corrupção”, disse.

Flávio assinou os requerimentos de CPI Mista de autoria do deputado Carlos Jordy (PL-RJ) e de CPI no Senado, de Carlos Viana (PSD-MG). Esse último requerimento ainda não foi protocolado.

Hoje, há seis pedidos de abertura de CPI sobre o Master no Congresso – três da oposição e três do governo. Além das cinco CPIs já mencionadas, o deputado Rodrigo Rollemberg (PSB-DF), protocolou na Câmara um requerimento para investigar as relações do Banco Master com o Banco de Brasília (BRB).

O senador passou a defender uma comissão parlamentar de inquérito após a divulgação dos diálogos entre ele e Vorcaro na semana passada.

O site Intercept Brasil revelou que Flávio enviou mensagens a Daniel Vorcaro, dono do Master, em que pedia dinheiro para o financiamento do filme”Dark Horse”, produção que conta a história do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).

Para ser instaurada, uma comissão parlamentar de inquérito precisa do aval do presidente da respectiva Casa onde foi apresentado o requerimento – no caso da comissão mista, do presidente do Senado.

Como mostrou o Estadão, governo e oposição travam uma disputa pelo protagonismo pela criação do colegiado, mas está emperrada especialmente por causa da resistência dos presidentes da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB), e do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP).

 

Fonte: Brasil 247/JB

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