Por
que a Europa rejeita a carne brasileira
Assim
que surgiu a primeira notícia de que a União Europeia (UE) fechou as portas
para a carne brasileira, a reação imediata foi: seria cômico se não fosse
trágico, ou soaria melhor o contrário: seria trágico se não fosse cômico? Na
dúvida, ambas parecem descrever bem essa situação em que tudo aquilo que a
“moderna” pecuária defende, fomenta e, a partir disso, exclui, desqualifica e
invisibiliza, passou a justificar novas barreiras econômicas, agora sustentadas
por argumentos sanitários apresentados como meramente técnicos e objetivos. Mas
aquilo que os “agentes da modernização” sempre fizeram acabou se voltando
contra eles. Irônico, não? O “grande” que exclui vira o “pequeno” que é
excluído, não porque não se modernizou, mas justamente porque se modernizou
demais. O que nos lembra uma das características centrais desses sistemas de
produção: a criação contínua de suas próprias crises. Como a imagem da serpente
que devora a própria cauda, a expansão desenfreada do sistema acaba produzindo
as tensões que ameaçam suas condições de estabilidade. Infla tanto que uma hora
explode (Fraser, 2023).
Isso
significa que até mesmo o sucesso do sistema, medido em milhares e bilhões de
frangos, porcos e bois abatidos e carnes exportadas, torna-se uma fonte real de
crise e potencial colapso. Mas tratando-se de mercados, e em especial, do
mercado global de carne, a questão nunca é apenas sanitária. Faz diferença que
esse grande produtor seja um país latino-americano que sempre precisou seguir
os ensinamentos dos países hegemônicos, que construíram o modelo e agora o
devolvem em chamas, tentando separar criador e criatura sob um manto verde de
preocupação que não sabemos ao certo se é ambiental, ética,
econômica-protecionista ou política – talvez todas juntas.
Quando
colocamos como epígrafe a frase do poeta Paulo Leminski (com todas as desculpas
que o uso merece), a intenção era brincar com essa inversão: o “além” alcançado
depois “de ser exatamente o que se é” talvez seja descobrir que é possível
sofrer sanções por ser demasiadamente moderno. Em outras palavras, trata-se de
um modelo que, ao buscar produzir uma vida cada vez mais industrial,
tecnológica e uniformizada, maximizando a eficiência e a produtividade, acaba
por produzir suas próprias vulnerabilidades (Blanchette, 2020). Ao tratar a
natureza como recurso infinito, organismos animais e vegetais como
absolutamente passíveis de serem manipulados, e ao se embrenhar no mundo
microbiológico realizando “truques de Deus” (Haraway, 1995), a economia
capitalista está sempre à beira de desestabilizar suas condições de existência.
Definitivamente
não é tarefa fácil, e talvez nem possível, se preocupar com problemas
sanitários e catástrofes ecológicas sem abrir mão das ambições econômicas.
Muito antes das atuais crises socionaturais, o próprio Karl Marx já anunciava o
colapso do capitalismo diante do acirramento de suas contradições. Mas aqui,
tais contradições permitem qualificar o capitalismo como “canibal”, nos termos
de Nancy Fraser, por necessitar da natureza, mas depreciá-la ao mesmo tempo,
mantendo uma relação que consome, transforma e, por que não, também subverte a
riqueza do planeta para acumular mais valor. E não para por aí, pois trata-se
de um modelo que deposita nos meios técnico-econômicos (Hui, 2020) a
expectativa de resolver os problemas que eles mesmos produzem.
Mas o
que temos visto é que esse otimismo não se comprova. Ao longo do século XX, os
problemas foram se sobrepondo e se complexificando, a ponto de vivermos hoje
aquilo que alguns pesquisadores descrevem como “o tempo das doenças infecciosas
emergentes” (Fortané e Keck, 2015; Grisotti, 2010). Mas isso não significa que
o modelo tenha perdido legitimidade, mesmo diante de crises que não são
pontuais, mas constitutivas. No entanto, as peças se movem no tabuleiro e, no
caso brasileiro, o modelo que sempre excluiu agora se vê excluído por seguir
até as últimas consequências o destino para o qual foi preparado.
Apesar
dessas considerações sobre a relação entre Brasil e Europa, não se trata de
opor um agronegócio brasileiro “bárbaro” a um mercado europeu “civilizado”.
Pois se estamos falando de um modelo hegemônico, de uma pecuária que se fez
moderna e industrial, ela se constituiu do casamento entre economia liberal,
ciência (principalmente saberes zootécnicos) e racionalidade técnica
instrumental. Foi em razão das transformações ancoradas nesses pressupostos que
o Brasil passou a ocupar um papel central na produção global de carne, à medida
que inaugurou modos inéditos de criação, abate e produção (Perrota, 2019).
A
promessa era resolver, por meio dos saberes zootécnicos, a “ineficiência” da
pecuária brasileira praticada até então. E, de fato, ao longo do século XX,
essa rede produtiva se expandiu exponencialmente, mas isso exigiu uma
infraestrutura cada vez mais artificial, com sabor de controle microbiológico,
antibióticos, protocolos sanitários, alterações genéticas, tecnologias de
biossegurança e sistemas intensivos de confinamento. Frangos modificados para
desenvolver megapeitos e grandes coxas em tempo recorde vêm acompanhados de uma
orientação zootécnica por alimentos batizados com analgésicos, antibióticos e
promotores de crescimento (Haraway, 2022). Mas junto dessa expansão, uma série
de novos problemas sanitários emergiram.
Embora
a relação entre criação animal e doenças infecciosas não seja uma novidade do
nosso tempo – afinal, com o processo de domesticação, novas formas de
coexistência entre múltiplos seres criaram as condições para o surgimento de
enfermidades ligadas à intensificação do contato com animais (Ujvani, 2020;
Weiss, 2001; Horwitz e Smith, 2000) – essa história ganha um novo capítulo com
o modelo inaugurado no século XX.
Desde o
início, os empreendimentos agropecuários modernos precisaram lidar com esse
incômodo estrutural. Apesar da ideia de que os novos conhecimentos
técnico-científicos acabariam com ele, a invenção da criação intensiva e da
monocultura genética (Wallace, 2020) fizeram desse modelo produtivo um lócus
ideal para a mutação e proliferação de pragas e patógenos. Em vez de eliminar
as ameaças, a modernização possibilitou transformações epidemiológicas que
criaram formas de virulência antes inexistentes (Blanchette, 2020; Mitman et
al., 2019).
Desse
modo, em vez de pensar que o inferno são os outros (os pequenos que, no
discurso modernizador, não alcançam nem a eficiência produtiva nem a segurança
sanitária), o problema é que os mesmos mecanismos mobilizados para aumentar a
produtividade e controlar os riscos criam continuamente novas patologias e
problemas sanitários, além de inúmeros problemas sociais e ambientais. Então,
se hoje a Europa precisa se preocupar em restringir mercados, isso acontece
também como consequência do que essa parte privilegiada do globo inventou e
agora colhe os frutos de sua criação.
Desde o
surgimento do mal da vaca louca, identificado no Reino Unido em 1986 e
transformado em uma grande crise sanitária nos anos 1990, países europeus
mudaram as relações de produção e consumo de alimentos. A população passou a
tomar decisões cada vez mais orientadas pela ideia de rastreabilidade, numa
tentativa de escapar do tecnomonstro que o sistema ajudou a criar. Isso porque
a doença surgiu justamente do uso otimizado dos recursos na pecuária, que foi
alimentar o gado confinado com farinha de sangue e ossos dos próprios bovinos.
O “nada se perde, tudo se aproveita”, lema positivo em debates sobre
alimentação, adquire aqui um viés assustador, como diria Lévi-Strauss, já que
essa prática significou tornar os bovinos canibais. O que nos lembra outra frase
da música popular brasileira: “nos perderemos entre monstros da nossa própria
criação”. E, de fato, a Europa sentiu na pele esses monstros depois de
convidá-los para jantar e até servir chá: os microrganismos, as superbactérias
e as doenças mutantes que podem surgir daí. Agora, como se fosse possível,
tenta frear o trem desgovernado. Mas nesse caminho de uma geopolítica tortuosa,
há quem chegue ao precipício primeiro (embora todo o planeta caia junto).
A
expansão exponencial da produção e da exportação nos últimos anos por países
como o Brasil reflete uma reconfiguração econômica, política e energética
global, marcada pela transferência de indústrias para países do chamado “Sul
Global” – Ásia, África e América Latina – e por uma redistribuição desigual de
recursos e atividades. Para os propósitos da lucratividade, essa organização
tem funcionado brilhantemente. Países com bastante terra e vidas convertidas em
recursos são apresentados e se apresentam, orgulhosamente, como grandes
celeiros do mundo (afinal, o agro é pop), enquanto países do “Norte Global” se
especializam em setores financeiros, tecnológicos e de serviços, com capacidade
de construir métricas verdes e discursos preocupados com o futuro do planeta. O
curioso é que, enquanto supervisionam, rastreiam e fiscalizam os celeiros, são
os do Norte os maiores responsáveis pelo aumento do consumo de carbono, seja
com viagens aéreas, pavimentação, produtividade material e, claro, consumo de
carne (Fraser, 2023).
Portanto,
a mobilização de questões sanitárias para se referir a produção de certos
territórios nunca é inocente. O recente acontecimento nos lembra quem tem
autoridade para definir o que é um risco legítimo e, por que não, uma
modernidade e uma circulação legítimas de mercadorias no sistema global. Mais
uma vez, vemos a Europa transformar seus padrões em condicionantes de acesso
aos mercados. Durante muito tempo, o modelo imposto atendeu aos interesses de
muitas das elites do agronegócio, mas agora essa relação parece ter se
estremecido.
Há
décadas, o Brasil segue regulamentações internacionais e certificados exigidos
pela União Europeia para exportar seus produtos, principalmente na rede de
produção da carne bovina. Mas o que aparece como uma simples regulação
horizontal do mercado global funciona também como uma relação de poder, em que
grandes produtores agropecuários precisam se adequar constantemente às
exigências dos países compradores para garantir a abertura dos mercados. Na
avicultura, em que a Europa não figura entre os cinco principais compradores, o
mercado asiático se destaca pelo rigor sobre o uso de antibióticos nas aves,
realizando seleções criteriosas dos frigoríficos e impondo suas condições. O
que evidencia como as agroestratégias estão profundamente conectadas a modalidades
de relações transnacionais e à segurança alimentar global, muitas vezes às
custas da insegurança dos países produtores.
Mas se
essa aliança comercial se mantém há anos, com regras contra antimicrobianos que
existem na UE desde 2006 – quando o bloco proibiu oficialmente antibióticos
promotores de crescimento – qual é exatamente o problema agora? Ao que tudo
indica, o Brasil não ofereceu garantias de controle ao longo da vida dos
animais exportados. Uma questão de confiabilidade, rastreabilidade e
governança, mas também de timing político. Afinal, os países europeus estão
mesmo tão preocupados com o destino do planeta?
A
exclusão do Brasil veio poucos dias após a entrada em aplicação provisória do
acordo entre UE e Mercosul, justamente em um momento em que agricultores
franceses intensificaram críticas ao tratado, por temerem a concorrência de
carnes e outros produtos sul-americanos produzidos em larga escala e a custos
menores. Parece que, de fato, o modernizador vira ameaça porque modernizou
demais. Se antes éramos os selvagens, bárbaros, primitivos e fundamentalmente
ineficientes – aqueles que a sociedade das luzes deveria ensinar com seus
valores universais – agora o ímpeto modernizador nos transformou em um risco,
porque o mercado brasileiro se tornou altamente eficiente em elevar a
produtividade a níveis recordes, com as lições técnico-científicas e liberais.
Esse
episódio evidencia como o deslocamento das peças do tabuleiro faz emergir as
contradições da ideologia liberal em torno da abertura de mercados e da
flexibilização das regulamentações estatais. Os efeitos imediatos de um acordo
de livre-comércio recém assinado, depois de anos de debate, soam quase como uma
proclamação europeia: liberais do mundo, uni-vos! (mas não no meu quintal).
Aqui no
Brasil, por sua vez, o que embaralhou o liberalismo diz respeito ao papel do
Estado como agente regulador. Periódicos jornalísticos, notoriamente defensores
do liberalismo, como a Veja, apressaram-se em afirmar que a culpa é do Estado,
incapaz de fiscalizar a venda indiscriminada de antibióticos. Enquanto isso,
setores do agronegócio preocupados em flexibilizar regulações para si próprios
e, ao mesmo tempo, endurecer para excluir os pequenos (Cintrão, 2016), recorrem
agora ao Estado para mediar esse “problema diplomático” que resultou em sua
própria exclusão.
Produzir
para o mundo às custas da exploração de humanos, animais e do ambiente
tornou-se uma especialidade dos setores ligados ao agronegócio brasileiro. Mas
todo celeiro precisa conhecer o seu lugar quando começa a ameaçar mercados
hegemônicos. Nesses casos, o processo civilizatório parece agora dizer que
talvez seja melhor conter um pouco “nosso” impulso modernizador e voltar a
ocupar um lugar de subalternidade dentro da divisão global da produção,
enquanto seguimos ouvindo lições sobre ecologia e soberania.
Essa
não é, no entanto, uma defesa do uso de antibióticos como promotores de
crescimento, mas uma reflexão de que não será a abertura ou o fechamento do
mercado europeu que resolverá o problema. Uma situação de “lobo cuidando das
ovelhas” parece se adequar a este caso, em que países hegemônicos e grandes
criadores do atual modelo de produção intensiva concentram o poder de extrair
matéria-prima, definir o uso da terra, controlar sistemas alimentares inteiros,
estabelecer regulamentações e abrir ou fechar mercados a partir de suas
conveniências econômicas e políticas. Enquanto isso, os países que adotaram
esse modelo e se especializaram em sua lógica são, vez ou outra, convidados a
participar de um jogo cujas regras não controlam, além de lhes ser atribuída
uma responsabilidade de conter a criação alheia, a degradação ambiental,
reduzir o uso de antimicrobianos, evitar desperdícios e “salvar o planeta”.
Interna
e externamente, é característica das sociedades capitalistas deixar nas mãos de
uma classe com fortes interesses em destruir a natureza o poder de administrar
nossas relações com ela. Nisso, os agronegócios brasileiro e mundial se
entrelaçam, mas com posições muito diferentes em termos de poder e capacidade
de decisão. Acreditando que a tecnologia não é antropologicamente universal
(Hui, 2020), talvez soluções vindas de fora dos meios técnico-econômicos possam
ser mais eficazes para repensar tais impasses estruturais. O que temos visto é
que, sem retirar o poder de definir os rumos da produção global de alimentos
das mãos desses setores hegemônicos, dificilmente algum tipo de transformação
será possível.
Fonte:
Por Ana Paula Perrota e Maria Isabel Trivilin, em Outras Palavras

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