A
quem interessa a soberania sanitária do Brasil?
Há uma
incompatibilidade profunda entre a lógica da maximização do lucro e a garantia
do direito à vida, entre a saúde pública e o interesse de mercado. Quando
medicamentos, vacinas e outras tecnologias de saúde são tratados como ativos
financeiros, alguém passa a decidir quem vive e quem morre. Os monopólios
matam, patentes matam. Isso não é uma abstração.
Durante
a epidemia de HIV/AIDS, especialmente nos anos 1990 e início dos anos 2000, as
patentes farmacêuticas e os preços abusivos dos antirretrovirais impediram o
acesso ao tratamento, contribuindo para a morte de milhões de pessoas que
poderiam ter sobrevivido caso os medicamentos estivessem disponíveis a preços
acessíveis. Durante a pandemia de covid-19, a história se repetiu, vimos
concentração e apartheid vacinal, monopólios tecnológicos e países inteiros sem
acesso.
Mas o
atual regime global de patentes não é natural, eterno ou inevitável.
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Soberania sanitária à brasileira
O
Brasil já teve — e ainda tem — uma tradição importante na produção pública de
tecnologias em saúde, possui uma rede de laboratórios farmacêuticos oficiais e
o maior sistema de saúde público do mundo, além de ser referência na política
de acesso universal ao HIV desde o início da epidemia. Essas conquistas não
surgiram por acaso, mas porque o desenvolvimento científico brasileiro foi
impulsionado, não sem tensões, por necessidades sanitárias concretas e luta
política.
No
início do século XX, o Brasil enfrentava epidemias devastadoras de febre
amarela, peste bubônica, varíola e outras doenças infecciosas que ameaçavam a
vida da população e a própria inserção econômica do país. Foi nesse contexto
que surgiu a Fiocruz, em Manguinhos, em 1900, inicialmente como Instituto
Soroterápico Federal. Em 1901, surgiu o Instituto Butantan, em São Paulo,
ligado à produção de soros, ao enfrentamento da peste bubônica e dos acidentes
com serpentes e animais peçonhentos.
Depois
tivemos a Fundação Ezequiel Dias, em Belo Horizonte, 1907, e o Instituto Vital
Brazil em Niterói em 1919. Em 1965, o Lafepe em Recife, a Biobrás em 1970 em
Montes Claros. A Furp em São Paulo em 1974, Farmanguinhos e Biomanguinhos em
1976, no Rio de Janeiro. Nesta época, as farmacêuticas públicas puderam copiar,
formular, adaptar e produzir tecnologias essenciais. Não havia um sistema
garantindo o privilégio das empresas transnacionais acima da vida e
necessidades da população brasileira.
Aliás,
algumas das grandes conquistas sanitárias do século XX nasceram como bens
públicos, não como ativos financeiros. Quando perguntaram a Jonas Salk quem
possuía a patente da vacina contra poliomielite, ele respondeu: “Bem, eu diria
que são as pessoas. Não há patente. Você poderia patentear o sol?” Albert Sabin
desenvolveu a vacina oral contra pólio — mais barata e mais fácil de distribuir
em campanhas massivas — também sem patente. A vacina BCG, fundamental no
combate à tuberculose, foi desenvolvida antes da consolidação do atual sistema
internacional de propriedade intelectual.
A 8ª
Conferência Nacional de Saúde ocorreu antes da consolidação do atual regime
internacional de patentes. O SUS foi pensado em um momento em que ainda não
existia um sistema global capaz de transformar medicamentos e tecnologias
essenciais em monopólios juridicamente protegidos. O horizonte da Reforma
Sanitária pressupunha ampliação da capacidade pública, fortalecimento produtivo
nacional e redução da dependência externa — não a submissão da política de
saúde às regras de um mercado global controlado por grandes corporações
farmacêuticas.
Naquele
contexto, existia uma disputa fundamental entre público e privado, entre
direito e mercadoria, entre soberania e dependência. O Movimento da Reforma
Sanitária discutia a estatização da indústria farmacêutica, o fortalecimento
progressivo do setor público e a subordinação do setor privado ao papel
diretivo do Estado. Havia uma compreensão muito avançada de que o SUS não
deveria ser apenas comprador de tecnologias, e sim produtor de soberania.
Quarenta
anos depois, a pergunta é: por que não conseguimos efetivar a soberania na
dimensão produtiva do SUS e por que seguimos dependentes de importações,
patentes e decisões de empresas transnacionais?
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A ruptura dos anos 1990 e o momento de enfrentamento
Entre
1996 e 2001, a política de acesso universal ganhou as capas de jornais e
revistas no Brasil e no mundo afora. A capacidade produtiva pública funcionava
como instrumento de soberania e de pressão política contra monopólios
farmacêuticos. Lia-se nas manchetes dos jornais e revistas da época: “QG da
batalha das patentes enfrenta o teste mais difícil”; “Luta em nome da Vida:
referência nacional, o laboratório Farmanguinhos briga para reduzir o preço de
um remédio do coquetel”; “A Guerra dos Remédios: Como o laboratório
Farmanguinhos ajuda o governo a dobrar as grandes multinacionais de
medicamentos”; “Briga contra Titãs: Farmanguinhos dribla limitações e ameaça o
domínio das multinacionais”. À época, Farmanguinhos era comandado por Eloan
Pinheiro, química que era descrita como “pequenina, mas boa de briga, ela
nocauteou gigantes”.
O
Brasil ousou enfrentar o poder das farmacêuticas multinacionais, economizamos
recursos públicos, reduzimos drasticamente mortes pelo HIV e mostramos ao mundo
que os povos do chamado “terceiro mundo” sabem produzir medicamentos. Fizemos
isso não apenas com diplomacia ou ação judicial, mas com produção pública,
engenharia reversa, uso da licença compulsória e investimento científico
nacional.
A
soberania sanitária brasileira não é uma utopia futura, é um projeto político
que foi descontinuado, fragmentado e subordinado, especialmente a partir dos
anos 1990, quando a abertura econômica, o regime de patentes e a dependência
tecnológica passaram a limitar a capacidade do Estado brasileiro em garantir
soberania sanitária.
Vamos a
um caso concreto. A Biobrás foi criada em Montes Claros em 1971, com apoio da
Sudene e participação de pesquisadores ligados à UFMG. Tornou-se pioneira na
produção de insulina no Brasil e chegou a ser uma das principais fabricantes
mundiais do insumo farmacêutico ativo (IFA). Em 2001, foi vendida para a
dinamarquesa Novo Nordisk e, a partir de 2007, a farmacêutica passou a fazer
somente a formulação e o envase no Brasil, importando o IFA.
Nos
últimos anos, o Brasil passou a ser dependente da importação de insulina e a
enfrentar escassez no fornecimento. O Brasil desenvolveu capacidade local em
biotecnologia, mas essa capacidade foi desmontada por uma multinacional. Hoje,
três empresas transnacionais (Novo Nordisk, Eli Lilly e Sanofi) concentram 90%
do mercado oligopolizado de insulina. Trata-se do mercado de um produto
historicamente marcado pela recorrência de práticas anticoncorrenciais e pelo
exercício abusivo de poder econômico, incluindo estratégias de dumping —
prática vedada no comércio internacional em que produtos são vendidos
temporariamente a preços artificialmente baixos para eliminar concorrentes
locais, ampliar o controle de mercado e aprofundar a dependência tecnológica.
Em
2026, completamos 30 anos da Lei de Propriedade Industrial brasileira e 31 anos
do Acordo Trips. Três décadas depois, a pergunta permanece: esse sistema
fortaleceu nossa autonomia tecnológica ou consolidou o Brasil como mercado
consumidor de tecnologias protegidas por monopólios?
Neste
ano também completamos 30 anos da política de acesso universal aos
antirretrovirais — uma das maiores conquistas da saúde pública brasileira, que
só foi possível por meio da mobilização social e da capacidade produtiva
nacional. A contradição é histórica: se, por um lado, o Brasil avançava na
universalização do tratamento ao HIV, por outro, consolidava-se um regime
internacional que ampliava o poder monopolista da indústria farmacêutica
transnacional e restringia o espaço para políticas tecnológicas soberanas.
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A contradição atual
A
pandemia mostrou que soberania sanitária não é abstração. Quando faltou vacina,
IFA, reagente, máscara, respirador e medicamentos para intubação, o Brasil
percebeu que o mercado global não garante acesso. Em momentos de crise, cada
país protege seus próprios interesses, suas cadeias produtivas e suas
populações. E os países dependentes ficam esperando.
Hoje o
Brasil importa cerca de 90% da matéria-prima necessária para fabricar vacinas e
medicamentos, e em alguns casos a dependência de IFAs chega a 95%.
A
indústria farmacêutica global tenta se apresentar como parceira estratégica da
saúde pública, mas seguimos subordinados à lógica da “boa vontade” das empresas
para transferir tecnologia, reduzir preços, garantir abastecimento e produzir
medicamentos pouco lucrativos.
Voltando
ao caso da insulina. Entre 1991 e 2010, houve redução de mais de 70% da
mortalidade por complicações agudas do diabetes, fruto da disponibilização de
insulina e da organização do cuidado no SUS. Todavia, inequidades regionais e
raciais no acesso ao tratamento permanecem.
Desde
2023, o SUS vem enfrentando desabastecimento de insulina, já que a dinamarquesa
Novo Nordisk reduziu as vendas e anunciou que iria deixar de fabricar
nacionalmente o produto até o final de 2026, já que seu foco estava em um
mercado muito mais lucrativo: as canetas emagrecedoras. Aqui vale um parêntese
na história: não é trivial destacar que, antes do lançamento das canetas
emagrecedoras, a Novo Nordisk financiou diversas organizações e pesquisadores
do debate sobre obesidade, em uma nítida tentativa de construir o discurso que
a obesidade é uma questão de medicamento, e não de alimentação (portanto,
social e economicamente determinada).
Para
lidar com essa escassez, o governo brasileiro passou a importar a insulina de
outros produtores internacionais e retomou esforços para produção local por
meio de transferências de tecnologia de empresas indiana (Wockhardt – Biomm –
Funed, para insulina regular e NPH) e chinesa (Gan & Lee – Biomm –
Biomanguinhos, para insulina glargina) no âmbito das Parcerias para o
Desenvolvimento Produtivo (PDP). Em 2025, foi entregue o primeiro lote da
produção fruto dessas parcerias.
Surpreendendo
zero pessoas, em abril deste ano, a dinamarquesa mudou o discurso do
desinteresse na continuidade da produção de insulina no Brasil, voltando a
negociar a oferta de insulina com o governo e prometer investimentos
bilionários na fábrica de Montes Claros em troca da garantia do mercado
público. Será a história se repetindo como farsa?
O
isolamento e a purificação da insulina em 1922, creditados a um grupo de
pesquisadores da Universidade de Toronto, foi resultado do conhecimento
cumulativo de décadas anteriores. Em 1923, os pesquisadores foram premiados com
o Prêmio Nobel de Fisiologia e a patente foi vendida à Universidade de Toronto
por um dólar. Hoje, temos um mercado oligopolizado e tentativas de enfrentar a
dependência interrompidas, subordinadas ou desnacionalizadas.
O
debate sobre Complexo Econômico-Industrial da Saúde não pode se limitar à
atração de investimentos privados, precisamos discutir quem controla a
tecnologia, quem decide o que será produzido, para quem será produzido e em
quais condições.
Nesse
sentido, preocupa que propostas apresentadas como política de fortalecimento do
Complexo Econômico-Industrial da Saúde acabem, na prática, transferindo
recursos públicos e compras estratégicas do SUS para o setor privado. O que se
apresenta como fortalecimento da soberania sanitária pode significar, na
realidade, a entrega da demanda pública de saúde e do fundo público às grandes
empresas privadas. O recente avanço do PL 2583/2020 no Congresso Nacional
explicita essa contradição: sob o discurso da soberania sanitária, consolida-se
um modelo que amplia a centralidade do mercado e reduz o papel estratégico da
produção pública.
Afinal,
a quem interessa a soberania brasileira?
Fonte:
Por Susana van der Ploeg e Carolinne Scopel, para a coluna do GTPI

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