A
jornada da semente e a economia ainda invisível da restauração de florestas no
Brasil
O
Brasil tem quatro anos para cumprir um grande compromisso internacional:
plantar novas florestas. Muitas novas florestas. O país assumiu como uma de
suas metas do Acordo de Paris, principal tratado global para enfrentar a crise
climática, recuperar a vegetação nativa de 12 milhões de hectares. Quase uma
Inglaterra de novas matas. É uma área equivalente à soma dos estados de
Pernambuco e Sergipe em campos e florestas. Passados nove anos desde o
lançamento do Plano Nacional de Recuperação da Vegetação Nativa, menos de 30%
da meta foi cumprida até agora – são pelo menos 8,6 milhões de hectares que
ainda precisam ser plantados.
Depois
da conservação de florestas em pé, a restauração – ou recuperação – de áreas
desmatadas e degradadas é um dos meios mais eficazes e baratos de enfrentar as
mudanças climáticas. Com o tempo, as novas plantas fazem o trabalho
indispensável de regular o clima e absorver o gás carbônico que aquece o
planeta. A contribuição humana a esse processo ainda gera frutos como renda e
emprego: pelo menos 42 postos de trabalho diretos são gerados a cada 100
hectares restaurados no Brasil, estima estudo de pesquisadores de universidades
como Universidade de São Paulo (USP) e Universidade Federal do Rio de Janeiro
(UFRJ) publicado na revista British Ecological Society, em 2022.
O
Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA) anunciou, em novembro de
2025, que o país conta com 3,4 milhões de hectares em recuperação. No entanto,
mais da metade (52%) se dá pela regeneração natural e espontânea da vegetação
em áreas protegidas, como terras indígenas e unidades de conservação. Por mais
que a natureza faça a maior parte da mágica sozinha, ainda há muito a ser
plantado para cumprir o compromisso assumido há uma década. Isso implica dar
escala a iniciativas ainda muito localizadas, pouco articuladas e dispersas
pelo país.
<><>
Por que isso importa?
• O Brasil tem menos de cinco anos para
meta de reflorestamento, mas atual capacidade produtiva teria que ser
multiplicada em quase 200 vezes para atingi-la. Entender os gargalos da cadeia
joga luz sobre focos prioritários a serem desenvolvidos.
Há
anos, o setor enfrenta um problema-raiz: a falta de demanda, que a lei,
sozinha, não foi capaz de resolver. Desde 2012, pelo Código Florestal, as
propriedades rurais devem manter parte da vegetação nativa e, caso essa parcela
obrigatória tenha sido desmatada, devem recuperá-la para fazer a regularização
ambiental do imóvel. Muitos proprietários, no entanto, ainda não fizeram esse
trabalho. Afinal, restaurar exige conhecimento técnico, custa caro, dá trabalho
e leva tempo.
Até
2030, ainda há pelo menos 8,75 milhões de hectares a serem restaurados em
imóveis rurais, de um total de 10 milhões, estipulados pela revisão, em 2024,
do Plano Nacional de Recuperação da Vegetação Nativa. Mas a área que deveria
ser restaurada nas propriedades privadas pode ser ainda maior, já que, segundo
o Observatório do Código Florestal, há pelo menos 20 milhões de hectares que
não estão em acordo com a lei. “O grande gargalo da restauração é ter cliente”,
resume o fundador e diretor do viveiro Primaflora, Rafael Marinho Rocha, em
Prado (BA). “Não adianta você coletar semente, produzir muda se não tiver
saída. E por mais que a gente esteja falando da Década da Restauração [da ONU],
a cadeia da restauração ainda não está estruturada”.
Na base
dessa economia invisível estão grupos de coleta de sementes e viveiros de
árvores nativas que trabalham sem saber quanto, quando e para quem vão vender.
Sem contratos de longo prazo, eles lutam para se manter ano após ano. A Agência
Pública ouviu 15 coletores, viveiristas, produtores, engenheiros florestais e
especialistas para entender a dimensão do problema.
E tudo
começa pela semente.
>>>
1. Da árvore para a mão
A
agricultora familiar Leila de Cássia, 40, tinha pressa. Ela e a família tinham
aquele mês de agosto de 2025 para cumprir uma missão trabalhosa: coletar
sementes de itaúba. Era o período final de amadurecimento dos frutos da árvore
nativa da Amazônia, cujo nome em tupi significa “árvore-pedra”, de madeira
resistente muito usada na construção civil – não à toa classificada como
vulnerável na Lista Oficial de Espécies da Flora Brasileira Ameaçadas de
Extinção.
Perto
da pequena propriedade da família em Alvorada D’Oeste (RO), onde cultiva café,
cacau e castanha, ela identificou quatro itaúbas com galhos baixos o suficiente
para, com ajuda de varas, alcançar os frutos, pequenos e escuros, parecidos com
azeitonas. Dentro deles, estavam as sementes que lhe interessavam. Pilar da
floresta, a itaúba prospera em áreas onde a floresta já está mais madura, por
isso é tão importante para a restauração.
As
quatro, no caso, só tinham frutos em agosto, porque, além de terem crescido em
um lugar que escapou das motosserras, tiveram florzinhas polinizadas por
insetos meses antes. “Quando diminuem os exemplares de árvores de uma mesma
espécie, temos menos diversidade genética. Precisamos primeiro ter florestas
conservadas para garantir diversidade e, assim, sementes de qualidade”, explica
o gerente de restauração ecológica na TNC Brasil (The Nature Conservancy),
Rubens Benini, que também é coordenador nacional do Pacto pela Restauração da
Mata Atlântica.
Leila,
o marido, as filhas e o genro coletaram só alguns cachos – deixaram a maior
parte para os morcegos, pássaros e formigas. Aquela era só a primeira etapa de
um longo trabalho.
>>>
2. De mão em mão, no improviso
Leila
brinca que sementes exigem tantos cuidados quanto crianças. Primeiro, os
frutinhos ficam de molho na água por horas para amolecer o interior esverdeado
e oleoso, como o do abacate. Depois, com as mãos, ela amassa cada um para
extrair a polpa. Por fim, lava as sementes várias vezes, usando uma peneira de
cozinha. Tudo com muita delicadeza para não furar a película que envolve as
sementes. Só então, as põe para secar. Foram 14,5 kg de sementes de itaúba,
além de outros 50 kg de sementes de outras 13 espécies.
A
técnica foi aprendida em um curso de coleta da Ecoporé, uma organização da
sociedade civil de interesse público que atua em Rondônia há 38 anos com
restauração de ponta a ponta: capacita coletores, desenvolve mudas em viveiro
próprio, trabalha com produtores rurais interessados em restaurar e também
conduz projetos de restauração em áreas públicas.
“Agora,
a gente faz um planejamento, pegamos as árvores matrizes [das quais as sementes
são coletadas] e fazemos um acompanhamento do tempo de floração, quando os
frutos vão ficar bons”, conta Leila, que se tornou uma entre 700 coletores – a
maioria mulheres – da rede da organização.
Trabalhar
com sementes requer improviso. Cada árvore exige uma forma diferente de
coletar, limpar e armazenar, e não há equipamentos específicos para isso. “As
pessoas vão inovando. Eu até já recebi vídeos de coletor que colocou as
sementes na máquina de lavar para limpar”, diz a engenheira florestal Aline
Smychniuk, que coordena a rede da Ecoporé, que apenas em 2025 reuniu 67
toneladas de sementes, que renderam R$ 3 milhões aos coletores.
Para a
família de Leila, o trabalho rendeu R$ 10 mil, que fizeram “muita diferença na
renda” ao ajudar a custear uma viagem, um eletrodoméstico e o tratamento
dentário de uma das filhas. São ganhos repetidos Brasil afora nos 19 estados
onde há redes estabelecidas, conforme o Redário, articulação que reúne grupos e
redes de coletores.
>>>
3. A esperança que pega a estrada
Uma vez
preparadas, as sementes requerem um planejamento logístico complexo. Já era
novembro de 2025 quando Smychniuk organizou uma verdadeira operação para fazer
as compras na região da família de Leila, bem como outros coletores de
municípios num raio de 120 km de Rolim de Moura (RO), onde a sede da Ecoporé
centraliza essa etapa do processo. Além de caminhões, antenas de internet
móvel, computadores e vários outros recursos, é preciso traçar um longo caminho
para visitar centenas de coletores, distribuídos em nove terras indígenas, duas
comunidades quilombolas e pequenas propriedades rurais.
De
posse das sementes, é hora do preparo das receitas de muvuca. A técnica de
plantio, inspirada na natureza e no conhecimento tradicional dos povos
indígenas, consiste em misturar sementes de várias espécies que têm diferentes
tempos de crescimento e plantá-las de uma só vez diretamente no solo. “É como
se fosse uma receita de bolo mesmo. Eu faço uma lista: vamos precisar de 50
quilos de feijão-de-porco, 1 quilo de aroeira, e assim vai”, pontua Smychniuk.
Para
essa receita funcionar, é necessária uma grande quantidade de espécies de
cobertura, como diferentes tipos de feijão e gergelim, que são as primeiras a
brotar. Elas cobrem o solo, criando um ambiente propício para que as chamadas
árvores pioneiras, de crescimento rápido, possam nascer. Essas, por sua vez,
fazem sombra para as espécies secundárias e clímax, árvores de crescimento mais
lento e tempo de vida mais longo, como a itaúba.
Enquanto
isso, a Ecoporé estava abrindo os outros caminhos para viabilizar a
restauração. No viveiro, com capacidade de produção de 500 mil mudas por ano,
ela desenvolve as mudas de espécies cujas sementes não podem ser armazenadas e
precisam ser plantadas imediatamente, usadas para restaurar áreas úmidas, que
alagam, além das mudas de espécies para a restauração produtiva, como cacau,
cupuaçu, castanha.
“Quando
começamos o nosso viveiro, nossa diversidade era de 25 espécies. Hoje, temos
mais de 100 espécies. Foi a rede de sementes que impulsionou esse aumento”,
conta Marcelo Ferronato, há 15 anos na Ecoporé e secretário-executivo da
Aliança pela Restauração da Amazônia. “Do ponto de vista biológico, é
importante para a restauração ter ampla diversidade e evitar que as sementes
transitem muito de um território para outro”.
Ou
seja, a semente coletada em uma área deve ser plantada naquela mesma região, o
que representa outro desafio para escalar a restauração no país: ter
fornecedores de sementes e mudas espalhados por diferentes microrregiões, o que
ainda não é uma realidade.
Atualmente,
o Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA) está trabalhando desde o
início de 2026 em um mapeamento dos chamados “territórios da restauração” para
justamente entender onde estão coletores, viveiros, organizações, produtores e
empresas que já restauram.
>>>
4. A busca por novos terrenos
A 56
quilômetros de Alvorada D’Oeste (RO), onde Leila e sua família passaram meses
coletando sementes, mais um caminho se abriu: o das fazendas. Em Castanheiras
(RO), município com nome de árvore, o produtor de gado de corte e de leite
Helio Dias, 62, foi um dos proprietários rurais que se convenceu a restaurar
seu passivo ambiental – uma área que, segundo ele, foi desmatada há mais de 30
anos, antes de ele ser o proprietário.
“Meu
grande objetivo é recuperar as nascentes para voltar água para a propriedade. A
gente sabe que a cada dia está secando mais”, afirma Dias. Sozinho, porém, ele
não teria condições de fazer a restauração. São várias as etapas: identificar
qual a técnica de plantio mais adequada, encontrar os fornecedores de sementes
e mudas mais próximos, aprontar a área – eliminar o capim invasor, preparar o
solo, construir cercas. Tudo isso exige recursos, tempo e conhecimento técnico.
Segundo
os viveiristas, é comum ouvir de proprietários rurais que eles só vão restaurar
quando precisarem pegar crédito rural – ou quando são multados pelos órgãos
ambientais e obrigados a tomar uma atitude. “Muitas vezes o proprietário rural
olha para a restauração como uma atividade que não gera divisas, não gera
lucro”, explica o diretor do Departamento de Florestas da Secretaria Nacional
de Biodiversidade, Florestas e Direitos Animais do MMA, Thiago Belote.
Uma
aposta para resolver esse problema é o Pagamento por Serviços Ambientais (PSA),
que já é realizado por alguns estados e programas e que, segundo Belote, o
governo vai regulamentar ainda este ano. Outro incentivo é a restauração
produtiva, possibilidade que animou Helio Dias. Ele recebeu mudas de açaí e de
cacau e espera que, em dois anos, elas já estejam dando frutos para
diversificar suas fontes de renda.
>>>
5. Plantar e esperar brotar
No
começo de dezembro, Helio Dias mobilizou quatro pessoas para fazer o plantio de
11 hectares. Só na beira do córrego, foram 2,5 mil mudas, “para segurar a água
e ajudar os passarinhos”. E, no restante, toneladas de sementes plantadas por
meio da muvuca.
Agora,
passados alguns meses do plantio, Dias já observa o feijão-de-porco e o
gergelim na área de muvuca e diz que os primeiros brotos de outras espécies já
começaram a nascer. “Está muito bonito, terra boa, nasce bem, né? É bom demais.
Daqui uns três anos eu te mando mais fotos”, brinca.
Trabalhar
com restauração é lidar com o tempo da natureza, tão diferente do nosso. As
etapas que envolvem humanos levam meses – para coletar as sementes de
diferentes espécies, para desenvolver as mudas nos viveiros, para preparar o
plantio, além de meses para acompanhar o resultado e evitar problemas, como
invasão de capim ou formigas.
>>>
6. A hora da colheita
Para um
setor que lida com esses diferentes tempos e cujos resultados duram gerações, a
previsibilidade da demanda é essencial, mas ela ainda não se firmou. “Não tem
compradores querendo mudas para restaurar nessa escala”, afirma o diretor
jurídico da Associação Brasileira dos Produtores de Sementes e Mudas Nativas
(Nativas), Renato Ximenes. “Os viveiros trabalham muito perto das suas linhas
de custo para sobreviver. É raro um setor que assuma tanto risco”, diz.
Para a
Nativas, faltam contratos de longo prazo com compartilhamento maior do risco,
algo que a associação está trabalhando para mudar. Além da falta da demanda,
outra dificuldade é fazer com que o dinheiro hoje disponível para a
restauração, principalmente por meio de programas do BNDES e do Tesouro
Nacional, chegue às organizações certas, que já estão com a mão na terra.
“É
transformar essas pequenas empresas e pequenas organizações do terceiro setor
em médios e grandes empreendedores”, diz Rubens Benini, que está trabalhando em
uma iniciativa para destinar recursos para organizações que já fazem projetos
de restauração na Mata Atlântica. “Pode ser um caminho para aumentar a demanda
de quem está na ponta, por meio dessas organizações que já abrem porteiras e
convencem os produtores a restaurar. A gente teria 200 organizações ao invés de
meia dúzia”.
Boa
parte do trabalho será feito pela própria natureza. Em algumas décadas, ela
terá transformado essa jornada em florestas. E isso parece não ter preço para
pessoas que trabalham com restauração, como José Francisco Azevedo Júnior, um
dos sócios-fundadores do Grupo Ambiental Natureza Bela, que tem seis viveiros
na Bahia: “É indescritível passar por um lugar que há 20 anos era uma área
completamente degradada, triste e sem vida e que hoje já é uma floresta com
mico, com tatu”.
E tudo
começa pequeno, como Leila de Cássia resume bem: “Semente é vida”.
Fonte:
Por Isabel Seta, da Agência Pública

Nenhum comentário:
Postar um comentário