sexta-feira, 29 de maio de 2026

Após denúncias, gestão Nunes aditou R$ 49 mi à ONG de produtora de Dark Horse

A gestão de Ricardo Nunes (MDB) na Prefeitura de São Paulo fez um aditamento de R$ 49 milhões ao contrato com a ONG Instituto Conhecer Brasil (ICB). A entidade é presidida por Karina Ferreira da Gama, proprietária da Go Up Entertainment, produtora do filme Dark Horse — cinebiografia do ex-presidente Jair Bolsonaro.

A renovação dos valores ocorreu poucos dias após a publicação das primeiras denúncias de irregularidades no contrato assinado em 2024 que previa a instalação de 5 mil pontos de Wi-Fi em áreas periféricas da cidade de São Paulo, com um custo inicial de R$ 108 milhões.

Ao longo de 2025, a prefeitura firmou quatro aditamentos ao contrato original, uma vez que a meta contratada não seria atingida. Os três primeiros termos serviram para estender os prazos de entrega e antecipar pagamentos. O quarto aditamento, assinado em 16 de dezembro de 2025, elevou o valor total para mais de R$ 157 milhões.

A meta foi reduzida para atender 3,2 mil pontos, o equivalente a 64% do volume originalmente contratado. A justificativa apresentada no documento foi a manutenção dos pontos já instalados até o final de 2026. O texto não apresenta previsão para a entrega do restante da meta à população.

Além do montante, o momento da assinatura do quarto aditamento também chama a atenção. Seis dias antes, o Intercept Brasil publicou uma reportagem que revelou a relação entre a prefeitura e a entidade presidida por Karina Ferreira da Gama. O texto destacou que a dirigente não tinha atuação comprovada no fornecimento de redes Wi Fi e expôs que era dona da Go Up Entertainment, responsável por Dark Horse.

A reportagem também mostrou que Karina presidia a Academia Nacional de Cultura (ANC). A instituição recebeu R$ 2,6 milhões em emendas parlamentares dos deputados federais do PL Bia Kicis, Marcos Pollon, Carla Zambelli e Alexandre Ramagem (os dois últimos atualmente foragidos da Justiça), além do deputado estadual Gil Diniz. O recurso era destinado à produção de uma série conservadora, que não foi realizada. A ANC também recebeu R$ 1 milhão do então vereador Atílio Francisco (Republicanos) para um festival de dança ligado à Igreja Universal. Karina não respondeu aos contatos feitos pela reportagem.

O próprio ICB obteve duas emendas parlamentares, no valor de R$ 1 milhão cada, para projetos de naturezas distintas: incentivo ao esporte e letramento digital. O autor dos repasses foi o deputado federal Mario Frias (PL-SP), creditado como produtor-executivo e roteirista de Dark Horse. Ele também atua no filme, interpretando o médico que opera Bolsonaro.

Outra empresa de Karina, a Conhecer Brasil Assessoria, Produção e Marketing Cultural, prestou serviços à campanha de Mário Frias à Câmara dos Deputados em 2022, no valor de R$ 54 mil. A mesma empresa atendeu à campanha de Felipe Carmona, então número 2 da Secretaria de Cultura, que foi candidato a deputado estadual e não se elegeu, e recebeu R$ 13 mil.

<><> Alertas prévios e investigações em curso

No dia 10 de dezembro do ano passado, o vereador Nabil Bonduki (PT) ingressou com uma representação no Ministério Público de São Paulo (MP-SP). Ele solicitou a investigação do chamamento público para a seleção da empresa fornecedora de Wi-Fi, processo no qual apenas a entidade de Karina apresentou proposta. No dia seguinte, a deputada federal Luciene Cavalcante, o deputado estadual Celso Giannazi e o vereador Carlos Giannazi (todos do PSOL) pediram ao MP-SP a apuração da responsabilidade de Ricardo Nunes.

O inquérito civil que investiga o caso foi instaurado em janeiro. A 2ª Delegacia da Divisão de Investigações sobre Crimes contra a Administração do DPPC (Departamento de Polícia de Proteção à Cidadania), da Polícia Civil de São Paulo, também conduz uma apuração.

As reportagens e os pedidos de investigação não foram os primeiros sinais de problemas na contratação. Um relatório do Tribunal de Contas do Município (TCM) já havia apontado falhas antes da assinatura do contrato. O documento destacou a ausência de estudo técnico preliminar e de comprovação de que o chamamento público para organizações da sociedade civil era a melhor solução técnica. O TCM também criticou a fragilidade dos critérios para avaliar a capacidade técnica e operacional da entidade, bem como a ausência de audiências e de consultas públicas.

Os auditores do TCM alertaram para a possibilidade, prevista no edital, de a organização subcontratar empresas privadas para prestar o serviço, o que foi efetivado pela entidade de Karina. O tribunal defendeu que o mapeamento deveria ter sido realizado previamente pelo poder público, e não pela própria contratada. O relatório apontou a ausência de parâmetros técnicos fundamentais para a utilização da internet, a segurança de dados, a fiscalização e o monitoramento da qualidade do serviço, além de falhas na estruturação da execução orçamentária.

<><> Financiamento e conexões políticas

O caso ganhou novos desdobramentos neste mês. Um áudio divulgado pelo Intercept revelou que o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) pediu R$ 134 milhões ao banqueiro Daniel Vorcaro, acusado de fraudes na gestão do Banco Master, para financiar o filme sobre seu pai, produzido pela empresa de Karina.

Em outro áudio, Mario Frias agradece a Daniel Vorcaro pelo apoio ao filme. Atualmente, o deputado é alvo de apuração preliminar no Supremo Tribunal Federal (STF) por suposto desvio de finalidade na destinação de R$ 2 milhões ao Instituto Conhecer Brasil, recursos que poderiam ter sido destinados à produção cinematográfica.

Nesta segunda-feira, 25 de maio, Frias enviou uma manifestação ao STF negando qualquer irregularidade nas emendas. Antes disso, um oficial de Justiça tentou intimá-lo cinco vezes, sem êxito. O parlamentar está em viagem ao exterior, que não é considerada oficial pela Câmara dos Deputados.

Recentemente, a Agência Pública mostrou que Karina estreitou laços com a administração paulistana após a eleição de Nunes. Os pagamentos por serviços prestados pelas empresas e entidades ligadas a ela continuaram, mesmo após funcionários da prefeitura registrarem dificuldades de contato.

<><> O que diz a gestão Nunes

Em nota, a gestão Nunes afirmou que “os pontos de Wi Fi Livre viabilizados pelo Termo de Colaboração com o ICB seguem em pleno funcionamento com 3.200 pontos instalados, que registram cerca de 760 milhões de acessos”. Sobre o aditamento, a prefeitura declarou que “teve por finalidade a continuidade da prestação dos serviços dos pontos já em operação, o que inclui manutenção, fornecimento contínuo de sinal de internet, monitoramento de rede em tempo real, substituição de ativos vandalizados ou furtados, eventuais remanejamentos técnicos para melhoria do sinal, entre outros”.

•        PSOL quer CPI para investigar elo de Ricardo Nunes com o Banco Master

Bancada Feminista do PSOL e o deputado estadual Guilherme Cortez (PSOL) iniciaram a coleta de assinaturas na Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp) para a abertura de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) na Casa. O objetivo principal é apurar a aplicação de recursos públicos junto ao Banco Master.

No requerimento, os parlamentares defendem a necessidade de investigar possíveis vínculos entre a instituição financeira e as concessionárias do serviço funerário na capital paulista, que foram contratadas durante a gestão do prefeito Ricardo Nunes (MDB).

<><> Ação no STF e resposta da gestão Ricardo Nunes

O caso ganhou repercussão a partir de uma ação no Supremo Tribunal Federal (STF) que contesta a privatização dos cemitérios em São Paulo. No processo, o ministro Flávio Dino cobrou explicações da gestão Nunes sobre a atuação de Fabiano Zettel, cunhado de Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, como conselheiro da concessionária Cortel entre os anos de 2022 e 2025.

“Considerando-se que, ao que se indica, o Município de São Paulo apura a eventual interferência do Banco Master em empresas concessionárias dos cemitérios municipais, e que a Cortel nega a existência de vínculo com a referida instituição financeira ou com o subscritor dos documentos mencionados, revela-se imprescindível o esclarecimento desses fatos, pelo Município, por ocasião da audiência designada”, dizia trecho do despacho do magistrado.

A cobrança de Dino irritou o prefeito paulistano. Em nota divulgada no dia 8 de abril, a administração municipal rebateu a decisão. “A Prefeitura de São Paulo sugere ao ministro Flávio Dino que pergunte aos colegas do Supremo Tribunal Federal sobre o Banco Master, que é onde se encontra a investigação sobre ações e atos do banco”, dizia o texto.

“Os serviços funerários e cemiteriais na cidade de São Paulo estão em pleno funcionamento, sem nenhuma intercorrência, e o município seguirá cumprindo o seu papel de gestor e fiscalizador”, afirmava ainda a nota.

O escopo da investigação na Alesp, no entanto, não deve se limitar à capital. Segundo a deputada estadual Paula, da Bancada Feminista, a CPI também pretende apurar de que forma as prefeituras de Cajamar, Santa Rita d’Oeste, Santo Antônio de Posse, Araras e São Roque mantiveram operações financeiras com o banco de Vorcaro.

<><> Investigação de contrato de wi-fi

Paralelamente à articulação política, a Polícia Civil de São Paulo abriu um inquérito para investigar a ONG Instituto Conhecer Brasil para apurar possíveis irregularidades em um contrato de R$ 108 milhões com a prefeitura de São Paulo para a instalação de 5 mil pontos de wi-fi gratuito na periferia da capital paulista, em um prazo de 12 meses.

O contrato chamou a atenção pelo fato de a proprietária da ONG, Karina Ferreira da Gama, comandar a produtora Go Up Entertainment, responsável pelo filme Dark Horse, baseado na autobiografia do ex-presidente Jair Bolsonaro. As duas empresas funcionam no mesmo endereço.

 

Fonte: Por Por Leonardo Fuhrmann, da Agência Pública/Fórum

 

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