A
“tentativa Messias” e o evangelicalismo como problema brasileiro
O
problema não é o evangelicalismo por si só, mas como ele participa da
reorganização da direita no Brasil...
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I – Pequeno relato de 2022
Na sua
última eleição vitoriosa, Lula fez de tudo para se aproximar do eleitorado
evangélico, seja lá o que isso significasse exatamente. Foram muitas as
tentativas. Eu, que naquele tempo estava ao redor de gente que trabalhava na
campanha, vi de perto as diversas investidas que iam em quase todas as
direções, desde panfletagens em portas de igrejas, divulgando a mensagem de que
“não é pecado votar em Lula”; até campanhas mais partidárias de lideranças
evangélicas com o então candidato, como o “Encontro de Lula com apoiadores
evangélicos”. Não coloco nesse balaio os milhares de posts e coisas afins que
foram despejados nas ditas redes sociais, aos montes. Um mutirão de cientistas
sociais da religião foi convocado. Uma das principais indicações que esses cientistas
davam à campanha era focar na “conversão” de votos de mulheres, sobretudo as
periféricas. Ao final, com a vitória tão celebrada de 1,8%, o trabalho foi
considerado vitorioso. Eu também fui para a Paulista naquele 30 de novembro,
mesmo com o gosto amargo da eleição do Tarcísio na boca, e acompanhado do medo
de ser assaltado naquela cidade. Encontrei amigos e vi que muitos postaram nas
redes que estavam lá, enquanto outros também faziam festa em cada parte do
país. Claro que estava feliz. E aliviado, talvez? Quando me deparei com a
política enquanto um problema, com o qual passei a me envolver, já se tinha
aberto o boeiro de 2016. Como se sabe, desde então foi um mar de derrotas para
os nossos lados. Mas parecia (ao menos era isso que saía da boca dos nossos
pensantes) que finalmente havia chegado o tempo do revide. Reconstrução do
país. Do lado dos cientistas sociais da religião e adjuntos, foi sugerida até a
criação de um escritório voltado aos evangélicos em Brasília, assim como foi
criado um para a reforma agrária, para a questão racial e para os Direitos
Humanos. Não há nenhum problema no Brasil que não possa ser remediado por uma
parcela dos fundos públicos.
Ninguém
pode dizer que os quase quatro anos que vivemos desde então tenham sido um Céu
na Terra. Nada de novo, senão a forma cada vez mais frágil e pasteurizada que o
projeto político do governo petista teve que adotar para construir sua
coalizão. Claro, com a oposição no encalço e uma tentativa de golpe na conta,
cancelada pelo sinal vermelho do Big Brother lá de cima. Mas tudo aquilo que o
pensamento crítico já havia identificado sobre a administração petista — gestão
da barbárie, neoliberalismo progressista ou como quer que se chame — aparece,
mais uma vez. Mais uma morfologia do ornitorrinco? A questão é que, como era de
se esperar, mais uma vez a promessa se desfez em desgraça. Não que o mercado
não tenha tido boa reação. Em termos econômicos, o governo petista foi melhor
do que o esperado. Acontece que a vitória no Executivo não anulou a vitória do
outro lado no Legislativo. E a proposição do governo, para cada pauta sua, se
tornou um jogo de xadrez para saber de onde se poderia retirar forças do outro time.
Segundo o próprio governo, algumas vitórias foram conquistas. Agora vimos uma
grande derrota desse projeto.
A
“tentativa Messias” foi calculada com a mesma racionalidade que estava sendo
operada nas eleições de 2022. Claro, sem a chance de apostar em diferentes
frentes ao mesmo tempo. Buscou-se um possível indicado para o STF que fosse
evangélico. Se tivesse sido eleito, seria o segundo a entrar na corte em razão
do seu credo. Para que maioria numérica, se eles têm essa hegemonia? O
candidato à cadeira tinha apoio do alto escalão da elite evangélica: foto com o
bispo Samuel Ferreira, pastor-presidente de uma das maiores denominações
brasileiras, a Assembleia de Deus Madureira; na sabatina da Comissão de
Constituição e Justiça do Senado, o líder do PL na Câmara dos Deputados,
Sóstenes Cavalcante, foi saudar o indicado; e contava além disso com o apoio do
seu irmão em fé no magistrado, André Mendonça. Foi aprovado na CCJ, mas barrado
no Senado. O primeiro indicado a ministro do Supremo rechaçado desde 1894 —
mais de 130 anos. Tudo isso, faltando 150 dias para as eleições, cujas
pesquisas apontam empate técnico entre o atual presidente e o filho do
ex-presidente, atual presidiário, derrotado em 2022. Se essa derrota importa, é
muito pouco pelas peças movimentadas por ambos os lados envolvidos, e muito
mais pela própria forma como a disputa se organizou.
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II – As almas do petismo e o lulismo
Nos
termos já muito bem conhecidos de André Singer, a Carta ao Povo Brasileiro,
escrita por Lula em 2002 para os agentes do mercado, marcaria a criação de uma
outra alma do Partido dos Trabalhadores. Outra porque a primeira teria sido
inventada no auge dos anos 1980, em uma confluência entre o novo sindicalismo
do ABC, as Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) da Igreja Católica e
intelectuais marxistas. Era uma mobilização política que se fundava em uma
visão crítica do modo de reprodução do capital e apostava no enfrentamento
político como força de mobilização, que daria chance à construção socialista do
Brasil. Um sonho de país. Nos termos do autor, um reformismo forte. Essa
história é bem conhecida por todos nós, e a força que o cristianismo de
libertação teve no Brasil está relacionada a essa força produtora de política
que o cientista chama de “alma”. Já a tal segunda alma, criada nas voltas da
eleição de 2002, surgiria com a aceitação do petismo em jogar dentro das regras
delimitadas pela economia neoliberal dominante. De um lado, a alma original, do
sonho político a ser realizado na prática do conflito social; de outro, a
segunda alma, da gestão dos instrumentos estatais de dominação capitalista na
busca de uma pequena melhoria. Assim, de um lado, a mobilização em torno da
esperança de transformação da sociedade; de outro, os esforços de manutenção
dessa mesma sociabilidade. Como demonstra Singer, enquanto o governo Lula
formava alianças com as alas mais conservadoras do país, em seus congressos
internos continuava-se falando em socialismo, transformação societária, projeto
popular, reforma agrária. A coisa estava tão estranha que fomos até a biologia
para encontrar alguma metáfora explicativa; ornitorrinco é pouco.
No meio
disso tudo, André Singer vai nos dizer que surge algo diferente. O partido
passa a ter uma migração do seu apoio eleitoral em 2006. Desconfiada com o
mensalão e com suas políticas, a classe média do Sul e do Sudeste retira seu
apoio, que passa a vir das populações mais pobres do Norte e do Nordeste — o
subproletariado, nos termos de Paul Singer —, que foi enfim integrado às
cadeias de valor via Bolsa Família, crescimento da disponibilidade de crédito e
aumento significativo do salário mínimo. A tal “classe C” ascendia à
possibilidade de ter uma casa, um carro, uma TV. Estava todo mundo com Lula. E
ninguém se esquece da foto de Silas Malafaia com o então candidato, em 2002,
que logo ganhou o pleito. Mas o que ele quer apontar com essa mudança geográfica
do apoio ao petista — do Sul ao Norte, dos ricos aos pobres — é a construção de
outra coisa: o lulismo. Esse seria um fenômeno eleitoral sem precedentes. E a
chance de ser eleito pela quarta vez demonstra a força desse projeto. Temos,
então, a primeira e a segunda almas do petismo, e o lulismo. Não é nada
complicado ver o funcionamento dessas três dimensões no partido hoje, nas ações
do próprio governo. Também não é nenhum escândalo apontar que 2016 quebrou o
equilíbrio entre essas tendências, na derrota do próprio campo. Mas o que
apareceu depois disso parece não trazer grandes novidades.
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III – Os evangélicos como problema e o problema dos evangélicos
Depois
de quatro eleições vitoriosas, o campo democrático-popular perde para um
ex-capitão defensor da ditadura. Mas não só isso: venceu não por quartelada ou
coisa que o valha, mas por votação, e só ganhou porque teve força também nas
periferias. E quem foi visto como vetor dessa adesão popular ao bolsonarismo?
Os evangélicos.
Os
evangélicos são um problema, seja no sentido de serem inimigos a serem
combatidos, seja como uma questão a ser desvendada. Por isso, aparecem em todos
os cantos, desde o lançamento de livros de história da filosofia por acadêmicos
catedráticos até as notícias diárias do jornalismo esclarecido paulista. É um
problema que, por não ter solução, continua sendo debatido. Contrariamente,
para outra parcela da população, especialmente aquela que vive nos subúrbios
das grandes cidades e no interior, os evangélicos estão presentes. Não são um
problema, em nenhum dos dois sentidos já citados. Eles estão por aí, seja na
figura de um familiar, de um amigo da escola, da faculdade, do trabalho ou até
mesmo do próprio leitor hipotético, que pode ser o tão famigerado evangélico. É
certo que essa identidade religiosa se tornou uma questão pela primeira vez
quando foi reduzida, pelo senso comum da grande mídia, a interesses econômicos
nos anos 1990, com a famosa “teologia da prosperidade”, mas ganhou seu estatuto
atual a partir de 2016, como parte significativa do que se consolidou como
bolsonarismo. É claro que, como todos sabem, essa situação culmina em 2018.
Evangélicos são conservadores, radicais, bolsonaristas. Ao mesmo tempo, vemos
um crescimento vertiginoso da comunidade evangélica desde os anos 1980, que
ganhou novos tons nos anos 2000.
O
problema, portanto, não é o evangelicalismo por si só, mas como ele participa
da reorganização da direita no Brasil. O que deixa estarrecidas nossas mentes
bem-pensantes, ou deveria deixar, é que essa identidade religiosa cresce e tem,
como boa parte de seus membros, mulheres trabalhadoras, em sua maioria negras.
A resposta mais fácil, e, portanto, mais repetida, é a culpabilização das
lideranças, vistas como perversas manipuladoras das desprotegidas massas
incultas, daqueles que ainda não lograram sua própria iluminação e, portanto,
seguem um mestre. Em sentido contrário a esse senso comum vai, para citar um
entre muitos exemplos, o caso já bem comentado do projeto de lei antiaborto
(que ficou conhecido como “PL do estupro”), proposto pela bancada evangélica, e
que teve 66% de rejeição entre evangélicas maiores de 16 anos. Não que os
evangélicos sejam defensores da descriminalização do aborto, muito pelo
contrário; mas como essa pauta não nasceu de dentro do campo evangélico, e sim
da suposição de um político, sua rejeição demonstra que não se trata de
dominação ou instrumentalização, mas de adesão e coerência de expectativas. É
claro: a tese da dominação existe para amortecer nossos cérebros iluminados
diante do fato de que essas parcelas das classes dominadas se identificam com
as “forças do atraso”, não com o nosso discurso. Mais bem me explico.
O que o
nosso grande Antonio Candido chamou de radicalismo (de classe média) tinha como
pressuposto a contraposição entre esses radicais e seus irmãos de classe, que
faziam a bagaceira e achavam bonito o estalo do chicote. Uma dissidência
interna às classes abastadas que, no Brasil, nunca conseguiu realizar uma
revolução — como foi feito no México, a título de exemplo. É claro que muita
coisa aconteceu desde que surgiram os radicais e a geração de 1930, analisada
por Candido, mas talvez não fosse muito exagero ver, nas franjas progressistas
que consomem crítica de Brasil e veem o evangelicalismo como um “problema”
hoje, seus netos e bisnetos. Se o radicalismo brasileiro não logrou a revolução
nacional, o que restava era a esperança de que o povo estava com ele. Não era
essa a esperança do jovem Roberto Schwarz, em Cultura e política? Também não
era essa a expectativa que Gabriel Feltran tinha ao estudar a periferia de São
Paulo no final dos anos 1990? Feltran esperava encontrar os movimentos
populares como desenhados nos anos 1980, mas o que encontrou foi o mundo do
crime e da igreja, e preferiu estudar o primeiro. O povo brasileiro, celebrado
e cantado, não compareceu, ou, ao menos, não era exatamente como se esperava.
É bom
lembrar que esses radicais e seus descendentes — que parecem ir ficando cada
vez menos inteligentes a cada geração — estavam ao lado dos padres católicos
quando caminhavam na mesma direção. O problema, portanto, não é meramente a
relação entre religião e política, ou o fato de se fazer política sob os termos
da imaginação da fé, mas que a direção política dessa mistura seja a
considerada correta. Como uma pequena ala dissidente das classes abastadas, o
pior para esses é que os populares evangélicos não se identificam com eles, mas
com os seus primos exploradores, e não querem nada além da reprodução do que
existe. Os que sobrevivem ao Brasil parecem lutar por si e pelos seus e se
identificam com os seus algozes, sempre vivendo o sonho de um dia ser como eles
— claro que só com a bênção divina para isso acontecer. Por isso, têm que orar
cedo para Deus escutar sua voz e não parar de lutar para não dar brecha para o
inimigo.
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IV – Acordos e dissensões
Sendo
aqui bastante impreciso quanto à definição de Singer, os marcos de cada uma
dessas “almas políticas” do petismo seriam produzidos por novas contingências,
nas quais cada nova alma aparece como resultado político para lidar com elas.
Seria possível comparar a Carta ao Povo Brasileiro, de 2002, que sintetiza a
segunda alma do partido, com a Carta Compromisso ao Povo Evangélico, de 2022?
Quem sabe a análise de cartas escritas a centenas de mãos sirva para alguma
coisa. Senão, vejamos.
A carta
de 2002 é um texto de fôlego, com parágrafos extensos e um encadeamento lógico
de causa e consequência no argumento. Seu léxico pertence à economia política
(vulnerabilidade, juros, superávit primário, compromisso em honrar contratos),
e o ritmo da leitura é deliberadamente uniforme. Não há apelo a categorias
extrínsecas ao Estado ou ao mercado. Trata-se de uma ferramenta de contenção da
volatilidade financeira. Para viabilizar a transição de poder, a “segunda alma”
petista precisou registrar em cartório que o reformismo social operaria dentro
das margens contábeis do capital.
Vinte
anos depois, o alvo da contenção muda. A carta de 2022 abandona a arquitetura
argumentativa sobre o Estado para focar no indivíduo e no espaço privado.
Fragmenta-se em parágrafos mais curtos, introduz vocativos de proximidade
(“Meus amigos e minhas amigas”) e faz uso contínuo de negrito para destacar
garantias específicas. O léxico migra para o campo moral e bíblico: vida,
órfãos, viúvas, mentiras, família; e o uso de citações do Novo Testamento serve
como chancela de pertencimento a um mesmo código linguístico. Mas ao assumir
essa postura dialogal, aceitando os termos postos do debate, tampouco existe
qualquer visualização que possa ser feita com os olhos da fé. O texto convida
seus leitores a guardarem sua imaginação religiosa nos termos estritos da vida
íntima e deixarem o jogo político nas mãos dos administradores, como fez Lula
nos seus mandatos. Mesmo reiterando que iria pagar a conta, na carta de 2002
ainda havia algum tipo de expectativa em relação ao país, a se realizar. Na
mais recente, temos meramente a reiteração das políticas de contenção social já
existentes. Em outras palavras, ao mesmo tempo em que adota o vocabulário
religioso, o texto se apressa em neutralizá-lo. Afirma, reiteradamente, que não
fará uso político da religião, que respeitará a liberdade de crença, que não
instrumentalizará a fé. Aceita falar a língua do interlocutor, mas recusa o
terreno em que essa língua opera como força.
Essa
força, a mistura entre fé e política, fica na conta do campo adversário. Esses,
sim, afirmam que a fé dessa gente implica em defender um determinado projeto
político. Mas voltemos ao escorregadio passaggio entre a imaginação religiosa
privada de cada crente e o sujeito político que disputa Brasília. Miremos uma
imagem. Ainda na campanha de 2022, Jair Bolsonaro e sua primeira-dama são
convidados especiais em um evento na Igreja Batista Lagoinha. Era o aniversário
de 50 anos de pastoreio de Márcio Valadão, pastor-presidente da igreja durante
todo esse tempo. Michelle Bolsonaro sobe ao palco e começa a agradecer aos
presentes na primeira fila.
Lá no
começo dos anos 2000, nasce o Diante do Trono, resultado do esforço da filha do
Márcio, Ana Paula Valadão, em fazer um grupo de louvor de qualidade. Grupos de
louvor são aqueles que se organizam nas igrejas para conduzir os cânticos nos
cultos. Depois de uma viagem aos Estados Unidos, Ana Paula aprendeu a produzir
uma forma musical chamada Praise & Worship. Foram eles os primeiros a
trazer essa forma musical, em sua inteireza, ao Brasil. A coisa deu tão certo
que tiveram CDs com mais de 2 milhões de cópias vendidas. Nos eventos, que
percorreram todo o país, eram gravados CDs e DVDs. As músicas dos álbuns, que
saem anualmente, tornaram-se louvores dominicais nas mais diversas tradições
evangélicas. Se quiser tirar a prova dos nove, basta assistir aos dez primeiros
álbuns do grupo — tudo disponível no YouTube. É muito nítida a criação de uma
visão sobre o Brasil. Os álbuns iniciais falam do fiel, de Deus, da salvação
individual; quem topar o percurso, porém, verá os momentos em que as
referências ao Brasil deixam de ser exceções e passam a ser o mote das orações
e letras. As canções começam a anunciar um novo tempo para o Brasil. Um
avivamento. Um país que será transformado pelo Senhor. Mas deixemos essa
pequena formação do Brasil avivado para o momento correto.
Foi
esse Brasil avivado que Michelle Bolsonaro aprendeu com eles, e por isso os
agradece. Quando ela utiliza o vocabulário evangélico para falar de política,
para muitos crentes, isso não parece uma posição “ideológica”, mas uma
derivação da fé que já se tem como modo de orientação da própria vida. A fé que
organiza a sobrevivência, sobretudo no pentecostalismo, oferece modos de
subjetivação para uma realidade periférica que não dá espaço para a falta de
fé. Ao mesmo tempo, os termos dessa própria fé, que não vieram do nada e são
produzidos diariamente, apontam para esse novo país que há de nascer.
Era
isso que Gabriel Feltran dizia acontecer no nascimento da primeira alma
petista. O projeto familiar operário de integração à classe média, enquanto
horizonte que dava força à reivindicação sindical, era uma visão defendida no
âmbito da fé por uma face da Igreja nova e considerada racionalmente válida
pela intelectualidade de esquerda, que via aí a realização do seu projeto de
formação nacional. Não foi pouca coisa. A expectativa de melhorar a condição de
vida da própria família era a força motriz da luta. Passados alguns anos, ainda
entre 1990 e 2000, o que o sociólogo vai apontar como nova forma de defender a
melhora da vida familiar é o empreendedorismo. A busca pela vitória, nos termos
evangélicos. Um conflito absoluto de todos contra todos, no qual compete ao
Estado a mera administração da violência, que deve conter os que ficaram de
fora e que vão usar o que têm para entrar. A batalha diária da sobrevivência,
subjetivada nos termos da fé, que lhes dá experiências de esperança. Não só a
mudança é visível, mas também a batalha diária se torna racionalizável. É essa
fé como práxis que opera no nível cotidiano de mais de 30% da população, que a
mobiliza. Nela se produz a gramática cotidiana, seu modo de encarar as
desgraças e de anunciar as melhoras. A esperança da sua redenção pela cruz de
Cristo torna-se motor da sua adesão política.
Como
reagir a isso? Bom, ao menos sabemos que uma carta não chega nem perto do que
está acontecendo. E que esse Brasil avivado só pode ser combatido com uma outra
imaginação de Brasil que também tenha uma matriz prática, que derive em uma
imaginação radical do que haverá de ser. Para nós, da intelectualidade de
esquerda, talvez um primeiro passo seja admitir que o evangelicalismo é um
problema brasileiro como qualquer outro. Temos um longo arsenal crítico de
interpretação dos modos como formas culturais do centro do capitalismo são
nacionalizadas à sua maneira no Brasil, e também uma sólida tradição de
interpretação da relação entre a prática da fé e a imaginação da política. Mas
quando se trata dessa forma de religiosidade, parece que esquecemos de tudo isso
e voltamos aos frágeis termos de importação, cópia, manipulação, dominação.1
Eis uma
nova visão de Brasil, que dá gramática a um outro sujeito político. Os petistas
e suas almas parecem não conseguir reagir à altura da coisa. A rejeição de
Messias, redigida pelos interesses eventuais dos políticos de então, parece ser
um pequeno anúncio das eleições de outubro. O lulismo poderá fazer acordos com
todas as lideranças evangélicas do país; sem um outro Brasil para se sonhar
enquanto se encaram os problemas diários, onde as soluções da vida privada
serão dadas pela visualização do país a ser construído, nada feito. É curioso
que o campo democrático-popular tenha esquecido disso tudo: não foi ele filho
dessa mesma intangível e concreta mescla entre imaginação religiosa popular e
ação política própria da nossa vida popular periférica?
Fonte:
Por André Castro, no Blog da Boitempo

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