O
fim dos manicômios e os direitos dos pacientes
Poucos
meses antes dos 25 anos da Lei 10.216/2001, que instituiu a Reforma
Psiquiátrica brasileira, foi anunciada a desospitalização do “último morador”
do Hospital Psiquiátrico São Pedro-RS. Nesta reportagem, vimos o corpo nu de um
homem negro, cabisbaixo, mãos para trás, caminhando pelos corredores do
hospício, “escoltado” por funcionários com luvas brancas, com a seguinte
legenda: “O último morador do hospital psiquiátrico foi carinhosamente
preparado para a mudança no último dia, com banho e revisão da saúde.”
Em
outra foto, seu corpo é vestido com uma camisa branca pelos mesmos
funcionários, onde se lê a explicação: “dois antipsicóticos e um
anticonvulsivante são a base de sua medicação atual”. Neste abril, militantes
da luta antimanicomial e do cuidado em liberdade espalhados por todo o país
também festejaram outra conquista: o governo Lula sancionou a Lei nº 15.378,
que institui o Estatuto dos Direitos do Paciente, depois de 10 anos de debates
no Congresso brasileiro.
Tais
celebrações, em 2026, são fruto de décadas de movimentos sociais organizados,
tensas e essenciais lutas históricas que vão desde a redemocratização do Brasil
(ao custo das muitas vidas ceifadas nos longos anos de ditadura militar), até
os movimentos internacionais pelos direitos das pessoas com deficiência,
incluindo, a inspiradora Psiquiatria Democrática italiana. Alcançar a marca de
6.379 serviços habilitados na Rede de Atenção Psicossocial (RAPS), com
cobertura de, ao menos, 1 CAPS em 2.007 diferentes municípios, e um índice de
1,13 CAPS/100.000, não deixa dúvidas de que os esforços das gerações de
sanitaristas, mentaleira/os, defensora/es de direitos humanos, usuária/os e
familiares, que nos antecederam e nos incluem, não foram em vão.
A cena
descrita acima, entretanto, ocorrida meses antes das celebráveis conquistas
aqui listadas, também escancara enormes contradições que, apesar de
justificáveis na complexidade dos processos reformistas, como as reformas
sanitária e psiquiátrica aqui debatidas, precisam ser enfrentadas para ser
superadas. Não são poucos os dispositivos manicomiais que saltam aos olhos na
descrição da imagem estampada no referido jornal: tutela, segregação, racismo,
violação de direito à privacidade e anonimato na mídia, etc.
Um
conjunto de atitudes nada estranhas ao contexto manicomial da cena descrita,
não fosse a manchete ufanista acenando com o grande feito de finalizar o
arrastado processo de fechamento do maior hospício que o estado do RS já teve.
Mesmo assim, o Brasil ainda possui muitos manicômios em funcionamento, nomeados
de “hospitais psiquiátricos”, ou em suas atualizações disfarçadas sob o nome de
“comunidades terapêuticas”. Juntos, estes dois tipos de serviços que favorecem
a exclusão, na contramão do que o recém aprovado estatuto dos direitos do
usuário promulga, possuem a oferta de cerca de 100.000 vagas.
O
Brasil, em termos mundiais, está relativamente à vanguarda deste movimento. São
diversas as nações que ainda se valem do manicômio e do isolamento como
estratégias ditas de cuidado em saúde mental. De acordo com a Organização
Mundial de Saúde, 73% das nações do mundo ainda não iniciaram ou estão em
estágios bem iniciais de qualquer reforma psiquiátrica, ou seja, são países que
não possuem serviços comunitários de saúde mental e a quase a totalidade do
cuidado é realizada em hospitais/manicômios. Assim, o avanço brasileiro, após
25 anos da promulgação da reforma psiquiátrica deve, sim, ser exaltado.
O já
mencionado Estatuto dos Direitos do Paciente vai nesta linha. Mais do que
apenas uma nova regulamentação a somar-se aos diversos regramentos, como o
Estatuto da Criança e do Adolescente, o Estatuto da Pessoa Idosa, o Estatuto da
Pessoa com Deficiência, entre outros, este novo Estatuto aprofunda importantes
mudanças do âmbito das relações cidadã/os-Estado, estabelecendo, no ordenamento
jurídico brasileiro, que o poder decisório acerca de toda condução de um
processo de saúde não é prerrogativa exclusivamente médica/técnica e deve ser
compartilhado com o/a usuário/a.
Neste
âmbito, incluem-se o direito a ter a vida privada respeitada quando submetido a
cuidados em saúde; a recusar algum tratamento; a buscar alternativas; a ter
acesso aos seus prontuários sem necessidade de justificar; a indicar livremente
um(a) acompanhante em qualquer momento do atendimento; a ter respeitadas suas
vontades antecipadamente manifestas; incluindo o direito a escolher o local da
própria morte. O Estatuto é, assim, um instrumento de democratização da
qualidade do cuidado e implica uma mudança de paradigma no qual a linguagem dos
deveres deve dar espaço à linguagem do direito, na lógica, advinda do campo dos
direitos humanos, do respeito à autonomia e protagonismo dos sujeitos sobre a
própria vida. Enlaçam-se aí a própria Reforma Psiquiátrica, que em seu
horizonte utópico de uma sociedade livre de quaisquer formas de tutela,
radicaliza o direito à pluralidade da vida, defendendo o cuidado em liberdade
para todo e qualquer vivo.
Sabemos,
entretanto, que toda esta confluência de diretrizes éticas que justificam as
criações e sustentam a operacionalização de tais regulamentações no campo da
saúde, correm o risco de se transformarem em letras mortas da lei. Sem
articulações concretas com movimentos sociais, intensa vigilância popular e
articulações intersetoriais entre políticas públicas, as melhores intenções e
bem redigidas elaborações podem virar meras promessas de um mundo melhor, num
futuro vindouro, que, no entanto, nunca vem.
Assim,
a melhor forma de honrarmos estes 25 anos da Reforma Psiquiátrica é nos
mantendo atenta/os e fortes, festejando o que é conquista e apontando o que o
movimento antimanicomial tem de desafios a enfrentar. Ademais, se a imagem de
um corpo negro, desnudo e cabisbaixo, escoltado por funcionários de luvas
brancas que o vestem com a igualmente branca camisa, for exaltada como fim de
um tempo dos manicômios, sem causar espanto ou ferir um olhar minimamente
crítico, dificilmente veremos os direitos escritos no Estatuto servirem à
defesa de um/a paciente concreto.
Se
chegamos até aqui à revelia do crônico subfinanciamento do SUS e no contrafluxo
de toda sorte de movimentos conservadores, que nunca cessaram de clamar pela
volta dos manicômios, é porque soubemos organizar nossa luta. Neste maio,
devemos reconhecer que ainda temos muitos desafios, mas também honrar o fruto
das conquistas que tivemos até aqui.
Fonte:
Por Simone Mainieri Paulon e Deivisson Vianna Dantas dos Santos, em Outa Saúde
Políticas
de despossessão
A
“despossessão” marca os limites da autossuficiência e nos estabelece como seres
relacionais e interdependentes. “É o que acontece quando populações inteiras
perdem suas terras, sua cidadania e seus meios de subsistência, tornando-se
sujeitas à violência militar e legal”, diz a pensadora Judith Butler no livro
que relata um diálogo com a teórica política Athena Athanasiou, em
Despossessão: o performativo na política.
O
humano não tem lugar fora de uma situação e alocação sociais. Depende dos
ambientes e dos outros, o que inclui a eventualidade do esvanecimento. Ocorre
sempre que a heteronomia subjuga a autonomia dos indivíduos ou de uma nação,
estabelecendo o “eu” como ente social passível da privação de direitos e
vulnerável aos poderes capazes de extinguir alguém no piscar.
O
conceito de despossessão tem uma dimensão ontológica: só podemos ser
despossuídos (no luto, na paixão) porque já fomos despossuídos. Toda vida se
encontra desde o início fora de si, movida por forças anteriores que excedem
nossas identidades particulares. Significa que para avançar na compreensão de
nós mesmos devemos abdicar da ideia de que o fundamento e a causa da própria
experiência é o eu. Olhe para cima.
Quem
detém o lugar do humano? A humanidade de quem e por que é despossuída? Que
autoridade define os merecimentos e os castigos? Tais questões denunciam os
modos como a categoria do ‘humano’ se transforma em alavanca de apoio para as
cruzadas de expansão colonial, falocentrismo, heteronormatividade e, idem,
individualismo possessivo. Haja antropofagia.
Para um
fundador dos estudos pós-coloniais, Edward Said, em The politics of
dispossession: the struggle for palestinian self-determination, os bombardeios
na Faixa de Gaza acenam um apagamento histórico e territorial, administrando o
tempo e o espaço em detalhe, torturando a psique dos neocolonizados por meio da
expropriação cultural e epistemológica.
A
Palestina sofre o confisco de terras desde a instalação do Estado de Israel. A
ocupação israelense impõe um monoculturalismo nacional ao negar a diversidade
para criar um apartheid. O lema Free Palestine exalta a libertação dos grilhões
e o Estado-nação autorizado pela ONU, nunca erguido de fato.
A noção
de “Terra de ninguém” (Terra nulius) é aplicada às etnias indígenas das
Américas e da Austrália. Trata-se de uma técnica genocida para a apropriação
territorial e a expulsão das gentes originárias. Um processo de seleção separa
as pessoas de seus recursos, dinamita os afetos e normaliza o silêncio sob as
velhas estruturas de dominação e de subordinação.
A
decolonialidade do pensamento combate o rígido supremacismo eurocêntrico sobre
a cultura, a educação, a mentalidade. Incentiva a valorização das raízes, de
saberes e de trajetórias dos primeiros habitantes e dos afrodescendentes
naturalmente.
A
profecia que prevê o século XXI devorado pelo autoritarismo e pelos demagogos
ordinários se realiza em diversos quadrantes. As big techs monetizam o aumento
das desigualdades, o sadismo e o ressentimento. A violência urbana pinta a
desintegração social na paisagem orwelliana. Chovem anátemas para depreciar e
matar as mulheres e os membros de minorias. O mal banalizado se espalha em
ambos os hemisférios, ao Norte e ao Sul.
Já o
neoliberalismo globaliza a despossessão com a necropolítica. Moderniza as
formas contemporâneas de subjugar a vida à tutela da morte. Reconfigura o
sacrifício e o terror. O capital exige uma obediência dos sindicatos e partidos
progressistas, ao passo que o “regime de crise” ataca o direito a ter direitos.
Em tal contexto, a insubmissão é um dever moral inarredável.
A
globalização não contém o terrorismo internacional, a mudança climática, a
crise financeira e monetária ou os fluxos migratórios. Não institui na
subjetividade o sentimento cosmopolita. Propaga a renascença étnica,
nacionalista e confessional de todos conflitos. Rápido, a guerra cultural
sepulta a guerra fria.
O poder
neoliberal prega o dogma There is no alternative. A esquerda precisa apresentar
um programa de superação, em vez do receituário de conciliação para gestão da
crise. A “economia do abandono”, com novas tecnologias governamentais, leva a
uma destruição do eu e do nós. A racialização e a sexualização mantêm a máquina
de desconstituição da humanidade dos humanos para a precarização,
terceirização, exclusão existencial.
A
extrema direita agrava a crise. Vide a servidão voluntária do palhaço sociopata
aos interesses do imperialismo estadunidense, na Argentina. A austeridade
fiscal corta os investimentos e veta uma reindustrialização sustentável.
Gerações vêm crescendo com o discurso da crise para justificar a retração dos
horizontes, dos valores civilizacionais, enfim, do inferno astral.
A luta
dos movimentos contra-hegemônicos pelo reconhecimento recusa os arcabouços da
opressão. Desafia a apatia ideológica. A demanda pela escala 5×2 tem um caráter
humanitário, aproxima os trabalhadores da reserva afetiva (a família) e expõe a
engrenagem da “acumulação por espoliação” que reduz a força de trabalho a uma
mercadoria descartável. Tem potencial para desenvolver uma consciência
anticapitalista. E isso mete medo.
Novas
coletividades políticas mobilizadas nas ruas e redes sociais da webesfera dão
mostras de uma resiliência forte e comovente. Os Indignados da Espanha; o
Outraged da Grécia; o Occupy Wall Street nos Estados Unidos são provas
indeléveis de reconstrução subversiva da ordem. A cobrança é por uma
“democracia real” não mercadológica; sim participativa e pluralista.
Em
Atenas, o cerco simbólico ao Parlamento para impedir o plano de austeridade –
que se estenderia por cinco anos – condensa a coragem do povo em confronto com
os agentes a serviço de um sistema. A manifestação substitui o suspiro de
desânimo por um levante da dignidade dos justos. “Do rio que tudo arrasta se
diz que é violento / mas ninguém diz violentas as margens que o comprimem”,
lê-se no poema de Bertolt Brecht.
O
coletivo queer e feminista tem participação nas assembleias da praça Syntagma,
na capital grega, com orientações contrárias a uma idealização da democracia
antiga. Assim, acusa a dimensão patriarcal da pólis clássica ateniense a qual
excluía as mulheres, escravizados e estrangeiros. Não invalida a utopia de
priscas eras: propõe uma revolução mais radical e inclusiva.
No
Brasil, o impeachment golpista de 2016 retomou as políticas de despossessão
culminadas nos atos vândalos de 8 janeiro de 2023. As empresas públicas foram
privatizadas e a massa salarial arrochada. Enquanto falsos patriotas se
curvavam às bandeiras dos EUA e Israel, os brasileiros entravam na fila do
osso. Foi preciso Lula reassumir a Presidência para tirar o país do mapa da
fome. Hora de reafirmar a soberania popular e nacional. A democracia resgata a
esperança – os sonhos não morrem.
Fonte:
Por Luiz Marques, em A Terra é Redonda

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