UFBA:
um projeto para superar a universidade neoliberal
O
resultado da primeira eleição direta para a Reitoria das universidades
federais, realizada na Universidade Federal da Bahia (UFBA), conforme a nova
regra que aboliu a lista tríplice a partir da qual o Presidente de República
escolhia o seu indicado dentre os mais votados em uma consulta à comunidade
universitária, consagrou a vitória de uma conquista democrática histórica,
reafirmando a autonomia das universidades.
No dia
22 de maio, após dois dias de votação, com a participação recorde de 13.211
votantes, foi proclamada a vitória da chapa “Somos UFBA” formada pelos
professores João Carlos Salles (Filosofia) e Jamile Borges (Educação), que
obteve 68% do total de votos e foi vencedora nas três categorias, com o
comparecimento de 77% dos docentes, 65% dos técnicos administrativos e 25% dos
estudantes. As demais chapas concorrentes obtiveram a seguinte votação: 23,4%
(chapa 1); 3% (chapa 3) e 4,4% (chapa 4); os votos nulos e brancos
representaram 1,6%.
Para
além dos distintos programas e plataformas apresentados pelas quatro chapas que
concorreram, com diferenças importantes na forma de compreender as diversas
dimensões que constituem a Universidade (ensino, pesquisa e extensão), a
questão central em debate, explícita ou subjacente a todas as demais, esteve
focada na autonomia e financiamento da Universidade, na sua relação com o
Estado (em especial a sua obrigação constitucional de sustentá-la) e com a
sociedade que a garante através do pagamento de seus impostos. E, relacionada
diretamente a ela, a prática da democracia no interior da Instituição, que se
expressa em sua autogestão coletiva através de seus diversos órgãos colegiados.
E nesse
debate, princípios e valores fundamentais defendidos claramente pelo movimento
“Somos Ufba” foram reafirmados e legitimados pela comunidade universitária: a
centralidade e importância da Universidade Pública (gratuita e de qualidade)
para a sociedade brasileira; a recusa de políticas e ações, externas e interna,
no sentido de privatizá-la; a impossibilidade científica e acadêmica de ser
substituída por Instituições Privadas, quase todas restritas ao ensino e com
relações trabalhistas precarizadas; a obrigação constitucional do Estado em
garantir, financeiramente, o seu funcionamento; o caráter insubstituível dos
recursos orçamentários para a sua manutenção; a defesa, conservação e
valorização de seu patrimônio físico, sempre cobiçado pela especulação
imobiliária; a crítica à obtenção de recursos extraorçamentários, em especial
as emendas parlamentares tipo PIX, endereçadas sem a transparência (para que e
para quem) e o controle da administração central da Universidade e de seus
órgãos colegiados (acompanhamento e prestação de contas); a recusa em trazer
para o interior da Universidade relações personalistas, apoiadas em práticas
políticas-partidárias fisiológicas; e a importância do convívio presencial no
campus dos três segmentos que constituem a comunidade universitária.
Em
suma, a recusa clara em aceitar o ideário neoliberal, em geral travestido de
“moderno”, “ágil” e “eficiente”, expresso em uma “Universidade Operacional”; e,
em sentido contrário, a afirmação da Universidade Pública e Autônoma, como
patrimônio do povo brasileiro e um dos instrumentos fundamentais no esforço de
se obter e garantir a soberania do país: nos campos econômico, do conhecimento
e produção/uso das tecnologias de comunicação e informação, da educação, da
saúde, da cultura e das artes.
A
eleição inédita também evidenciou a capacidade da Universidade, de forma
autônoma, organizar democraticamente a escolha de seu dirigente máximo, sem
interferência institucional do Governo, através do voto presencial (dados no
interior da universidade) dos integrantes de seus três segmentos – que
participaram dos debates presenciais e nas redes, e que deram uma resposta
muito significativa de comparecimento à votação. O que deixa o seguinte
aprendizado: a Universidade não pode ser encarada como simples local de estudo
e trabalho, que pode ser contornado pela tecnologia digital (on line),
transformando-a em uma entidade fantasma; em sentido contrário, a Universidade
tem que ser vivida em sua totalidade, enquanto espaço de convivência,
conhecimento, cultura e formação profissional e política – reforçado por
políticas e ações que estimulem a presença e sociabilidade no seu interior.
A
eleição de João Carlos Salles e Jamile Borges para a UFBa foi possível porque
foi construída por um movimento – Somos UFBa – que reuniu os três seguimentos
da universidade e as mais diferentes forças políticas que se unificaram contra
a universidade neoliberal mercantilizada. Uma luta que não se esgota no
processo eleitoral. Na atual conjuntura política no país, há quatro meses para
as eleições presidenciais e para o Congresso Nacional, as universidades
públicas têm um papel chave na mobilização nacional em defesa da democracia, do
Estado de direito e da soberania nacional. Defender a autonomia das
universidades é rejeitar qualquer interferência e repressão aos seus
movimentos, a exemplo da invasão da Polícia Militar na Universidade de São
Paulo para retirar estudantes que ocupavam a reitoria e em greve por melhoria
na assistência estudantil.
A
experiência com o governo bolsonarista, entre 2018 e 2022, foi dramática e
trágica: ataque às Universidades Públicas, com cortes orçamentários,
desrespeito às eleições realizadas na maioria delas e ameaça e agressões a seus
dirigentes; negação da ciência e da gravidade da pandemia do Coronavírus, com
campanha de descrédito contra a vacinação e desqualificação dos órgãos
relacionados à saúde pública; desestruturação de órgãos importantes em diversos
setores do poder público (Funai, Incra, Fundação Palmares, IBGE, entre outros)
e de programas sociais como o Bolsa-Família; e, após a derrota eleitoral de
2022, a tentativa desesperada de um golpe de Estado derrotado.
A
defesa das Universidades Públicas, em particular da UFBa, passa necessariamente
pela imperiosa derrota da extrema direita na eleição deste ano para Presidente
da República. Mas, ao mesmo tempo, é preciso reconhecer, tendo por referência o
3º Governo Lula, que a vitória das forças democráticas não é suficiente para se
garantir a implementação de políticas públicas alinhadas com os interesses da
maioria da sociedade. A ocupação de espaços estratégicos do Estado e da
sociedade pelas forças neoliberais e seus prepostos dificultam enormemente, e
até mesmo impedem, a execução do Programa defendido e divulgado durante as
eleições. Daí, a necessidade inadiável de construção de uma mobilização
permanente em defesa da Universidade Pública.
Nesta
perspectiva, a UFBA, junto às demais universidades públicas no país, é um
espaço fértil de debate e de ações estratégicas, aliada aos demais setores da
sociedade, em defesa da educação pública, do orçamento público e da democracia
no país.
Fonte:
Por Por Graça Druck e Luiz Filgueiras, em Outras Palavras

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