As
fechaduras enferrujadas de “A história da loucura”
Para
além da efeméride de 18 de maio, a leitura de História da loucura na idade
clássica, de Michel Foucault, enseja um debate extremamente necessário sobre o
caráter violento com que as instituições sociais, sobretudo a família e o
Estado, enquadram os doentes psiquiátricos dentro da lógica manicomial.
Tal
debate ganha força no Brasil, diante do que alguns profissionais de saúde
acusam como sendo o desmantelamento da reforma psiquiátrica e uma recorrente
propaganda a respeito dos supostos benefícios das comunidades terapêuticas e de
certa complacência política em relação a elas. Contudo, por mais fundamental
que seja esta discussão, gostaríamos de trazer a baila um outro aspecto
derivado da leitura de Michel Foucault.
Num
esforço imaginativo, pensemos no pleno funcionamento da reforma psiquiátrica,
em tempos políticos menos obscuros. Quais seriam as características de um
cenário de ampliação do paradigma antimanicomial dentro do debate público? E
qual a realidade dos momentos em que a reforma esteve de fato em vigor?
Interessa-nos investigar como se estruturam as formas de manutenção do poder
asilar numa ‘sociedade sem manicômios’ (em última instância, como se atualizam
as formas de exercício de poder, em contextos ditos democráticos).
Dentro
de um enquadre que pensa o manicômio como Estado de exceção permanente,
interessa-nos refletir sobre o que faz persistir a lógica de exclusão e
estigmatização em relação aos ditos transtornos mentais, mesmo numa sociedade
que não encarcera, mas que medicaliza e que segue moralizando a diferença.
Para
tal tarefa, recortamos o nosso problema da seguinte maneira: falaremos
brevemente sobre o caráter epistêmico do diagnóstico, e do diagnóstico
psiquiátrico em específico, e sustentaremos que as indeterminações diagnósticas
do século XVIII, que sustentaram os internamentos na “Segunda divisão”
explorada por Foucault em seu estudo, seguem vigentes como “incessantes
oscilações” que a psiquiatria clássica não equacionou.
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Michel Foucault revê suas fechaduras enferrujadas
Um
importante momento autocrítico de Michel Foucault em relação aos limites de sua
própria abordagem em História da loucura está presente em sua aula proferida em
7 de novembro de 1973, em seu curso no Collège de France, a respeito do poder
psiquiátrico.
Nesta
exposição, Michel Foucault busca falar sobre o dispositivo de poder como
instância produtora da prática discursiva e reconhece problemas em sua antiga
elaboração, por ter usado “violência”, “instituição” e “família” como noções
centrais. Diz ele: “era muito ignorante acerca da antipsiquiatria e,
principalmente, da psicossociologia da época -, apelei, implícita ou
explicitamente, para três noções que me parecem ferraduras enferrujadas com as
quais não dá pra ir muito longe”.
E, mais
adiante, se reposiciona: “Em vez de falar de violência, eu preferiria falar de
microfísica do poder; em vez de falar de instituição, preferiria procurar ver
quais são as táticas que são postas em ação nessas forças que se enfrentam; em
vez de falar de modelo familiar ou de ‘aparelho de Estado’, o que eu gostaria
de procurar ver é a estratégia dessas relações de poder e desses enfrentamentos
que desenrolam na prática psiquiátrica”.
Tal
revisão é importante na medida em que avança na possibilidade de compreendermos
como as formações discursivas podem materializar hoje uma malha de relações de
poder. Os golpes de força dos internamentos terapêuticos preservam-se “na
unidade confusa” que a ciência diagnóstica opera mesmo fora dos asilos e dos
manicômios.
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O diagnóstico como problema
Não é
somente nessas graúdas expressões institucionais do arbítrio que a violência se
manifesta. Os diagnósticos surgem como selos discursivos poderosos, capazes de
cristalizar formas de marginalização. Em Diagnóstico e destino, o psiquiatra e
psicanalista italiano Vittorio Lingiardi nos lembra que o “conhecer através” do
diagnóstico é um processo cognoscitivo que pode gerar um importante
conhecimento de si, mas que pode também gerar subjugação e impotência.
O autor
nos traz, como um dos eixos desse tema, a problematização da visão da “doença
como metáfora”, tal qual aparece em Susan Sontag, para quem a compreensão
psicológica de uma doença muitas vezes corrói sua realidade. Em tal problema
reside justamente o caráter corrosivo daquela unidade confusa aludida por
Michel Foucault.
Para
Vittorio Lingiardi, História da Loucura deve ser valorizado por nos ajudar a
refletir sobre como nossa visão sobre os “desconfortos psíquicos” é, em
verdade, fruto das deformações de nossos medos. De qualquer maneira, para
Vittorio Lingiardi e Susan Sontag[, há diagnósticos que salvam e diagnósticos
que condenam à morte. A AIDS e o câncer, quando se estabelecem enquanto
sentenças de morte, desvitalizam a experiência de enfrentamento da doença por
parte dos pacientes; da mesma maneira, os diagnósticos psiquiátricos podem
muitas vezes objetificar aquele que sofre.
Nas
palavras do autor: “A doença descrita nos tratados e a pessoa que dela sofre
não coincidem, e a chamada evidence-based medicine não é suficiente para
representar a realidade clínica, que é mais heurística que algorítmica. Não
precisamos somente de uma medicina baseada na ‘evidence’, escreve Rugarli, mas
também de ‘uma teorização sobre a medicina na ausência de evidence’”.
Esse
pensar sobre a prática clínica, estando cientes dos limites da abordagem
científica, é central para compreender como o diagnóstico pode ser mero vetor
do preconceito e do poder.
A esse
respeito, não apenas a história social de uma doença pode gerar leituras que
restrinjam uma patologia à reverberação de uma metáfora alienante; também o
método científico que se fia demasiadamente na observação dos sintomas também
pode fazer do diagnóstico um elemento de confusão. O próprio Foucault flagra a
onipotência desse método no nascimento da clínica, ao distinguir como o signo
patognomônico surge como revelador de uma doença em busca de uma verdade
inquestionável.
Diz
Michel Foucault, “na percepção de Zimmermam ou de Pinel, o signo era tanto mais
eloquente e certo quanto mais ocupava uma superfície nas manifestações de uma
doença”.
O
centro do diagnóstico enquanto prática discursiva do poder está na apresentação
dos doentes como fragmentos alijados de sua totalidade. Ao se objetificar um
baço, um fígado, um timo ou um neurotransmissor, preserva-se –mesmo fora dos
hospitais ou dos manicômios – a minoridade dos doentes. Como nos lembra Michel
Foucault: “Tuke e Pinel abriram o asilo ao conhecimento médico. Não
introduziram uma ciência, mas um personagem, cujos poderes atribuíam a esse
saber apenas um disfarce ou, no máximo, sua justificativa. Esses poderes são de
ordem moral e social; estão enraizados na minoridade do louco, na alienação de
sua pessoa, e não de seu espírito. Se a personagem do médico pode delimitar a
loucura, não é porque a conhece, é porque a domina”.
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O conhecimento e a falta de conhecimento que definem a loucura
Fica
evidente, diante do exposto, que aquilo que define o que é loucura é,
propriamente, uma oportuna mescla entre conhecimento e não conhecimento. A
cientificidade que demarcou o nascimento do asilo e que fez da psiquiatria uma
ciência à espera de ser respeitada no século XIX preservou em sua atuação boa
parte das arbitrariedades que supostamente teriam sido abandonadas por Pinel ao
retirar as correntes e cadeados de seus doentes. Vejamos, por um momento,
alguns antecedentes a isso.
Michel
Foucault demonstra que ao longo do século XVIII, até as vésperas da revolução
francesa, o número de internados seguia relativamente estável. Entre outras
possíveis explicações para isso, o autor sublinha o elemento que influiu sobre
esses números: “o que diminuiu, guardadas as devidas proporções, o número de
loucos encerrados nos antigos asilos, foi a abertura, nos meados do século
XVIII, de toda uma série de casas destinadas a receber exclusivamente os
insensatos”.
Nessa
fase, os parâmetros do senso comum e dos preconceitos correntes se confundem
nas justificativas de confinamento com os de suposta cientificidade. Pululam as
tipologias variadas que misturam os “furiosos”, os “imbecis”, “o homem com
mente infantil” e fazem um pareamento destes com a “libertinagem”, com os “de
má conduta” e com “os sem religião”. Supostamente, ali, não haveria mais
confusão entre desarranjo, desregramento e sentimentos extraordinários e seria
permitido que surgisse uma diferença entre alienados e insensatos. Mas uma
diferença que, segundo Michel Foucault, “permanece um enigma”.
Para
desdobrar a diferenciação que o autor faz aqui entre alienados e insensatos e
buscar desvendar tal enigma, precisaríamos estudar com mais calma como a
perspectiva dialética enquadra a questão da contradição em relação àquilo que
Foucault diz ser a essência (sic) da loucura: “uma revelação do não-ser”. Tal
problema não será enfrentado por nós aqui, mas merece ser assinalado. Por ora,
permanece enquanto certa aporia. O que merece, por enquanto, destaque é a
percepção de Foucault de que o século XIX não resolveu as ambivalências entre a
dimensão epistemológica e a de ordem prática nos tratamentos dos doentes. Vale,
aqui, esta longa citação: “E durante muito tempo, aquilo que tradicionalmente
se chama “Psiquiatria Clássica” – aproximadamente, a que vai de Pinel a Bleuler
– formará conceitos que no fundo são apenas compromissos, incessantes
oscilações entre esses dois domínios da experiência que o século XIX não
conseguiu unificar: o campo abstrato de uma natureza teórica na qual é possível
isolar os conceitos da teoria médica, e o espaço concreto de um internamento
artificialmente estabelecido, onde a loucura começa a falar por si mesma. Houve
como que uma “analítica médica” e uma “percepção asilar” que nunca se adequaram
uma à outra, e a mania classificatória dos psiquiatras do século passado indica
provavelmente um incômodo sempre renovado diante dessas duas fontes de
experiência psiquiátrica e da impossibilidade de conciliá-las. Não é o conflito
entre experiência e teoria, entre a familiaridade e o saber abstrato, o bem
conhecido e o conhecido; de um modo mais secreto, é um dilaceramento na
experiência que tivemos e talvez tenhamos sempre, da loucura – dilaceramento
que separa a loucura considerada por nossa ciência com doença mental daquilo
que ela pode entregar de si mesma no espaço em que nossa cultura a alienou.
Fiel a ameaças da morte e ao sentido da linguagem, a percepção asilar sem
dúvida fez mais do que toda a nosografia do século XVIII para que um dia se
viesse a prestar atenção àquilo que a loucura podia dizer de si mesma. Um
trabalho mais profundamente médico do que a medicina estava em vias de
realização lá mesmo onde a medicina não tinha curso, lá mesmo onde os loucos
não eram doentes”.
Tal
problema, da indeterminação do conhecimento psiquiátrico, e do aspecto
prevalente do poder em detrimento do conhecimento científico, tende a se
imiscuir também na forma como a arte diagnóstica é tratada na clínica, mesmo a
que se coloca como antimanicomial. Na prescrição de um fármaco ou na aceitação
de uma conduta médica ambulatorial interdisciplinar também podem ser
preservadas as formações discursivas do poder asilar.
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Um paralelo arriscado e a microfísica do poder diagnóstico
Um
paralelo a isso, que nos parece válido, está na vinculação que Karl Marx
estabelece em O capital entre a extrema violência extra-econômica presente nos
momentos de acumulação originária e a “pacífica” e regular aceitação do que
seria a troca de equivalentes num contrato de trabalho. A rigor, a cada manhã,
um trabalhador que se coloca num ônibus lotado para ir ao serviço ritualiza (de
maneira oculta e fetichizada) a violência originária que separou, a ferro e
fogo, vendedores da força de trabalho da propriedade dos meios de produção.
É claro
que fazemos aqui um salto arriscado. Não se pretende comparar propriamente o
método dialético que Marx traz em seu modo de exposição e a arqueologia
realizada por Michel Foucault. Mas é necessário reconhecer a necessidade de se
identificar com acuidade as formas de dominação, mesmo quando estamos diante de
expressões menos gritantes do poder. Uma farmácia, um rótulo nas redes sociais,
a antessala de um médico com suas revistas de moda – poderíamos provocar aqui,
alicerçados nesse paralelo – podem ser tão aviltantes à dignidade de alguém que
sofre quanto as amarras de uma camisa de força.
Muito
longe de relativizar a importância do movimento antimanicomial, a leitura de
Michel Foucault pode também nos capacitar para uma atuação interventiva mais
transversal e não tão submissa a fechaduras interpretativas enferrujadas, capaz
de confrontar com mais efetividade o poder psiquiátrico onde quer que ele se
instale.
Fonte:
Por Rodrigo de Oliveira Antonio, em A Terra é Redonda

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