sábado, 30 de maio de 2026

O jornalismo que cobre acessibilidade, mas não pratica: as contradições das redações brasileiras

Eram pouco mais de sete da manhã quando Luiz Sampaio abriu o celular. O leitor de tela já estava ativo. Ele foi direto a um portal de notícias. Tinha visto a notificação na noite anterior: uma grande reportagem sobre o Dia Nacional de Luta da Pessoa com Deficiência. Queria ler. Tinha o direito de ler. O leitor de tela tentou navegar pelo menu e travou. A imagem de abertura da reportagem não tinha descrição alternativa. O vídeo não tinha legenda. A narração do apresentador começou, mas as imagens que ele descrevia como “este cenário que vocês estão vendo agora” não chegavam até ele por nenhum canal. Luiz fechou o navegador. A reportagem sobre seus direitos não tinha chegado até ele. Presidente da Associação dos Cegos do Piauí, Luiz conhece esse obstáculo melhor do que qualquer pauta jornalística já foi capaz de descrever – porque ele o enfrenta todos os dias, não como fonte, mas como cidadão que tenta simplesmente se informar.

A alguns estados de distância, outro homem acordou com o celular vibrando. Uma notificação do Instagram: o perfil de um dos maiores telejornais do país tinha postado um corte de dois minutos sobre a sanção de uma nova lei de inclusão para pessoas surdas. Ele tocou no vídeo. Nenhuma legenda. Nenhuma janela de Libras. A legenda automática da plataforma estava desativada. Na tela, um apresentador movia os lábios com expressão de seriedade, apontava para uma arte gráfica com números que Marcos não conseguia acompanhar na velocidade em que passavam, e o vídeo terminou. Ele não sabia o que havia sido aprovado. Mas fez questão de contar o que sentiu. “É como ser convidado para uma festa e chegar lá com a porta trancada”, disse. A Lei 14.191/2021, que instituiu a Educação Bilíngue para surdos, era sobre ele. A notícia, não.

Essas duas cenas não são casos isolados. São o cotidiano de milhões de brasileiros. O Censo 2022 do IBGE mostrou que o Brasil tem 14,4 milhões de pessoas com deficiência – equivalente a 7,3% da população com dois anos ou mais. A maior dificuldade funcional registrada foi a visual, com 7,9 milhões de pessoas. Pela primeira vez, o mesmo Censo identificou 2,4 milhões de brasileiros diagnosticados com autismo — 1,2% da população. O levantamento também revelou desigualdades: pessoas com deficiência têm taxa de analfabetismo de 21,3%, quatro vezes maior que a das pessoas sem deficiência, e apenas 7,4% haviam concluído o ensino superior.

Os dados deixam claro: acessibilidade não é pauta de nicho. É uma necessidade real para milhões de brasileiros que ainda enfrentam barreiras para estudar, trabalhar, se informar e participar da vida pública. E quando o jornalismo trata esses números como curiosidade estatística – sem conectá-los às suas próprias práticas, sem questionar se o conteúdo produzido sobre essas pessoas chega até elas – ele reproduz, na forma, exatamente a exclusão que denuncia no conteúdo.

A mesma redação que manda um repórter cobrir a falta de rampas nas calçadas publica seus vídeos no Instagram sem legenda. O mesmo portal que entrevista especialistas em inclusão digital não tem descrição de imagem em nenhuma fotografia do seu site. É a expressão mais concreta do capacitismo institucional – a crença, raramente verbalizada, mas praticada, de que pessoas com deficiência são objeto de cobertura jornalística, não sujeitos dela. Não são público. São pauta.

E enquanto essa crença seguir operando nas estruturas das redações brasileiras – nas políticas editoriais, nas grades de programação, nos fluxos de publicação digital, nas decisões de quem nunca precisou de um leitor de tela para ler uma notícia – Luiz Sampaio vai continuar fechando o navegador. E Marcos vai continuar vendo lábios se moverem numa tela muda.

<><> 2025: o ano em que a lei completou dez anos e os dados chegaram

Há datas que deveriam parar uma redação, gerar reuniões de pauta, séries especiais, editoriais, coberturas aprofundadas. O décimo aniversário de uma lei considerada um dos marcos legais mais completos do mundo em direitos das pessoas com deficiência deveria ser uma dessas datas. Não foi.

Em 2025, a Lei Brasileira de Inclusão (LBI), nº 13.146/2015, completou dez anos – um documento técnico, exigente e juridicamente preciso. Seu Artigo 3º define acessibilidade como condição para utilização, com segurança e autonomia, de espaços, mobiliários, transportes, informação e comunicação – inclusive seus sistemas e tecnologias. Sites jornalísticos, vídeos de telejornais, postagens em redes sociais, newsletters, podcasts – tudo isso está dentro do alcance da lei. O Artigo 63 é ainda mais direto: determina que é obrigatória a acessibilidade nos sites da internet mantidos por empresas com sede ou representação comercial no Brasil. O Artigo 67 obriga os serviços de radiodifusão a oferecer subtitulação por legenda oculta, janela com intérprete de Libras e audiodescrição.

Dez anos depois, a distância entre o texto da lei e a prática das redações segue sendo, ela mesma, uma pauta não contada. O aniversário da LBI revelou também uma contradição que vai além da acessibilidade técnica: o jornalismo que deveria celebrar a lei como marco democrático não foi capaz de fazer isso de forma democrática. As matérias comemorativas foram publicadas. Mas chegaram ao público sem os recursos que a própria lei exige. A reportagem sobre a lei da inclusão excluiu, mais uma vez, milhares de pessoas.

<><> Falam sobre nós, mas não falam para nós

Existe um teste simples que qualquer pessoa pode fazer. Abra o site de um dos maiores portais de notícias do Brasil. Use apenas o teclado – sem mouse. Tente navegar pelas manchetes, abrir uma reportagem, assistir a um vídeo. Assim, vai descobrir o que milhões de brasileiros enfrentam toda vez que tentam se informar. Menus que não respondem ao teclado. Imagens sem descrição. Vídeos sem legenda. Players que travam. Formulários de cadastro que leitores de tela não conseguem interpretar. A experiência é frustrante e constrangedora para quem está testando por curiosidade. Para quem depende dela todos os dias, é exclusão.

Segundo levantamento do Movimento Web para Todos em parceria com a BigDataCorp, em 2024, apenas 2,9% das páginas brasileiras foram consideradas acessíveis segundo os critérios internacionais do WCAG – as diretrizes de acessibilidade para conteúdo web reconhecidas mundialmente. Num país de 14,4 milhões de pessoas com deficiência. Num país onde a lei que obriga essa acessibilidade já tem dez anos. A proporção não é apenas um dado técnico – é uma sentença sobre as prioridades reais de quem produz e distribui informação no Brasil.

Grandes portais de notícias, por exemplo, não cumprem as recomendações quanto à oferta de recursos de acessibilidade e tecnologias assistivas. Apresentam erros de navegação e de construção que impedem total ou parcialmente o acesso de pessoas com deficiência visual ao conteúdo. O problema não se limita à estrutura técnica dos sites. Ele alcança a forma como o conteúdo é produzido e distribuído em cada plataforma.

A pesquisadora Samara Wobeto, doutoranda do Departamento de Comunicação Social da Universidade Federal de Santa Maria, publicou o estudo Circulação e Acessibilidade Comunicativa: quando o acesso à notícia é barreira. O trabalho identificou que veículos que disseminavam desinformação – inclusive propaganda antivacina – possuíam recursos acessíveis em seus sites, enquanto veículos com boa apuração e compromisso com a ciência não ofereciam nenhuma acessibilidade adequada. A pergunta que o estudo coloca é perturbadora: qual é o tipo de informação que as pessoas com deficiência têm a oportunidade de acessar? Wobeto é precisa ao nomear a contradição: veículos tradicionais que prezam pela divulgação científica e pela democracia, mas não aplicam recursos de acessibilidade, acabam excluindo parte da população e vão contra o preceito democrático e cidadão.

Recomendações e diagnósticos feitos pelo próprio poder público apontam restrições em sites que oferecem serviços oficiais, a exemplo do GovBr, além de reconhecer as barreiras criadas em sites jornalísticos. A pesquisadora Joana Belarmino de Sousa, da Universidade Federal da Paraíba, afirma que “o problema não é apenas a notícia falar pouco sobre deficiência. É a notícia não estar disponível para quem também tem direito de lê-la, ouvi-la e compreendê-la”.

O jornalismo brasileiro, em larga escala, produz conteúdo sobre pessoas com deficiência que essas pessoas não conseguem acessar plenamente. Isso não é paradoxo acidental. É o resultado de décadas de decisões editoriais, tecnológicas e culturais que nunca colocaram o público com deficiência no centro – nem como leitor, nem como telespectador, nem como usuário, nem como profissional dentro das redações. É o retrato de um jornalismo que aprendeu a falar sobre a exclusão sem jamais ter precisado sentir o que é ser excluído da própria notícia.

<><> A TV que cumpre a cota e esquece o jornalismo

Desde 2011 vigora a obrigação legal das emissoras de televisão aberta transmitirem pelo menos duas horas semanais de programação com audiodescrição. E mesmo essa cota mínima, que já nasce tímida, é cumprida de forma estratégica – concentrada em filmes, programas de entretenimento e conteúdos que as emissoras já precisariam exibir de qualquer forma. O que fica de fora, sistematicamente, é justamente o conteúdo que mais importa para o exercício da cidadania: o jornalismo diário. Como se a obrigação legal valesse para a Sessão da Tarde, mas não para o noticiário da noite.

O estudo Telejornalismo e pessoas com deficiência auditiva ou visual realizado pelas pesquisadoras Sabryna Moreno da Silva e Ana Carolina Rocha Pessôa Temer, da Universidade Federal de Goiás, concluiu que o telejornalismo brasileiro opera em camadas de exclusão. Não é apenas a ausência de audiodescrição para quem não enxerga, ou a ausência de janela de Libras para quem não ouve. É a forma como o telejornalismo foi concebido estruturalmente.

Quando o conteúdo televisivo migra para as redes sociais, a contradição se aprofunda. Na TV aberta, ainda existe uma obrigação mínima de acessibilidade. Mas nas redes sociais, o conteúdo jornalístico entra em um território mais frouxo: não há cota específica de audiodescrição, não há controle público sobre cada vídeo publicado, não há fiscalização sistemática e não há transparência suficiente para saber quais redações realmente acessibilizam seus conteúdos.

Todo dia, os perfis oficiais das maiores emissoras e portais jornalísticos do Brasil publicam em suas redes dezenas de recortes de telejornais, entrevistas e reportagens. São os chamados “cortes”, que chegam, na esmagadora maioria das vezes, sem nenhum recurso de acessibilidade. As plataformas até oferecem ferramentas. Mas ferramentas disponíveis não são o mesmo que direito garantido.

A pergunta não é se o Instagram, o YouTube, o TikTok, o X ou qualquer outra plataforma possuem algum recurso de acessibilidade. A pergunta é outra – e é essa que as redações precisam responder: usam esses recursos? Usam bem? Testam com pessoas com deficiência? Medem o resultado? Corrigem falhas? Têm uma política editorial clara para garantir que a notícia chegue a todos?

Na TV aberta, ao menos existe uma pressão regulatória e possibilidade de fiscalização por parte do poder público. Mas quando o mesmo conteúdo é recortado e publicado no Instagram trinta minutos depois, essa pressão desaparece. A mesma emissora que mantém um intérprete de Libras em janela durante a cobertura de uma notícia para a TV, publica o corte nas redes sem nenhum recurso de acessibilidade. O conteúdo é o mesmo. O público potencial é o mesmo. A responsabilidade, aparentemente, não.

<><> Quantos jornais têm uma editoria de acessibilidade?

Não existe levantamento oficial no Brasil que responda a essa pergunta. Nenhum órgão público ou pesquisadores produziu até hoje um mapeamento sistemático e atualizado sobre a presença – ou ausência – de espaços editoriais fixos dedicados ao tema nos veículos brasileiros. Essa ausência de dados, por si só, já diz algo sobre a prioridade que o tema ocupa no ecossistema jornalístico nacional.

A certeza é de que são poucos os veículos. Um exemplo consolidado é o blog e coluna Vencer Limites, de Luiz Alexandre Souza Ventura, integrado ao portal do Estadão e à Rádio Eldorado, existente desde 2012. Na Folha de S. Paulo, o jornalista Jairo Marques mantém o blog Assim como Você, voltado à acessibilidade, cidadania, direitos humanos e pessoas com deficiência desde 2008.

No Ceará, o jornalista Carlos Viana, do O POVO, mantém coluna semanal na rádio O POVO/CBN e escreve regularmente sobre capacitismo e direitos das pessoas com deficiência. No Jornal da Orla, de Santos, Bruno Oliveira de Carvalho, apresentador com paralisia cerebral e criador do programa Consciência Inclusiva, assina a coluna semanal A Voz da Consciência – um dos raros casos em que uma pessoa com deficiência ocupa o papel de autor, e não de personagem, dentro de um veículo jornalístico.

Se o critério for ampliado para iniciativas que não são exatamente colunas de jornal impresso tradicional, mas funcionam como espaços recorrentes de jornalismo e informação sobre inclusão, algumas experiências se destacam. É o caso do portal Jornalista Inclusivo, de Rafael Ferraz Carpi – a iniciativa independente mais estruturada do país em jornalismo com foco em protagonismo e representatividade da pessoa com deficiência; o programa Acessibilidade em Destaque, produzido pela Imprensa Braille A União e veiculado semanalmente na Rádio Tabajara, da Paraíba; o podcast Diversidade, Inclusão e Necessidades Sociais, do Diário do Pará, com episódios dominicais; e uma coluna local no Portal da Cidade Cabreúva, lançada em 2024, pela especialista Mônica Monteiro.

<>< Capacitismo editorial: entre o herói e o vilão

A ausência de editorias fixas tem uma consequência direta e raramente discutida: sem estrutura permanente, não há acúmulo de conhecimento. Cada matéria começa do zero. Cada repórter designado para cobrir acessibilidade naquele mês aprende o básico, publica, e segue para outra pauta. As fontes não são construídas ao longo do tempo. O repertório não cresce. A cobertura não aprofunda. E as pessoas com deficiência continuam aparecendo nos mesmos enquadramentos de sempre – como vítimas, como heróis, como beneficiárias de políticas públicas ou como dados estatísticos – porque ninguém na redação ficou tempo suficiente na pauta para enxergá-las de outra forma.

De acordo com Jairo Marques, “o jornalismo precisa parar de tratar pessoas com deficiência como personagens de superação ou objetos de piedade”. O capacitismo editorial, ele alerta, opera entre dois extremos que se excluem mutuamente: a pessoa com deficiência ou é retratada como incapaz – dependente, frágil, que precisa de ajuda – ou como super capaz – aquela que “venceu” a deficiência, que serve de inspiração para os demais. Entre esses dois polos não existe espaço para a complexidade da experiência humana.

O capacitismo editorial que cria a narrativa de “coitado” ou “herói” ao retratar pessoas com deficiência reside em como as histórias são escolhidas, enquadradas e contadas – a pessoa como vítima permanente, dependente, receptora de solidariedade e caridade, convocada pela narrativa para despertar compaixão; ou como herói – aquela que “superou” a condição, que “provou” que é possível, que existe na notícia para inspirar os demais e confirmar que o problema é individual, não estrutural. Uma forma de exclusão que não aparece nos relatórios de acessibilidade técnica, mas que está presente em cada decisão de pauta, em cada escolha de fonte, em cada enquadramento fotográfico, em cada título que reduz uma vida complexa a uma lição de superação.

Criador do portal Jornalista Inclusivo, Rafael Ferraz Carpi afirma que o “jornalismo inclusivo não é apenas cobrir a pauta da deficiência; é construir formatos para que pessoas com deficiência também sejam público, fonte e protagonistas”. É uma frase que coloca o dedo na ferida. O jornalismo brasileiro, em larga escala, ainda não entendeu que acessibilidade não é apenas o tema da matéria. É a condição para que a matéria chegue a quem precisa dela.

<><> Elas enxergam o que a redação não quer ver

O jornalista Ednilson Sacramento, que possui deficiência visual, não fala sobre acessibilidade no jornalismo como quem observa o problema de fora. Ele fala de dentro – da experiência concreta de tentar exercer a profissão num ecossistema que, na sua estrutura mais básica, não foi pensado para recebê-lo.

A primeira barreira, ele explica, não está na pauta. Não está na apuração. Não está na escrita. Está antes de tudo isso – nos sistemas. As plataformas de publicação usadas pelas redações, os chamados CMS, raramente são testadas com leitores de tela antes de serem implantadas. As ferramentas de edição de imagem, de gestão de redes sociais, de análise de métricas, de produção de conteúdo multimídia: a maioria foi desenvolvida sem considerar que um jornalista cego poderia precisar utilizá-las no seu dia a dia de trabalho. E num mercado onde a notícia exige rapidez, onde a janela entre apurar e publicar se fecha em minutos, depender de um colega para executar uma função básica do sistema não é apenas inconveniente. É o tipo de obstáculo que faz um profissional perder oportunidades, pautas e espaço – silenciosamente, sem que ninguém precise tomar nenhuma decisão explícita de exclusão.

Segundo Ednilson, “a comunicação que deveria incluir também os comunicadores com deficiência ainda cria barreiras para que eles trabalhem com autonomia”. Uma contradição que raramente é discutida nas redações brasileiras: o jornalismo que cobre acessibilidade como pauta externa é o mesmo jornalismo que, internamente, não garante condições acessíveis de trabalho para profissionais com deficiência. A exclusão não está apenas no conteúdo publicado. Está nos bastidores da produção. Está na infraestrutura invisível que decide quem pode trabalhar com autonomia e quem depende da boa vontade de um colega para executar tarefas básicas.

A Lei Brasileira de Inclusão, em seu conceito de adaptação razoável, determina que empregadores devem oferecer as modificações necessárias para que pessoas com deficiência possam exercer suas funções em igualdade de condições. Mas na prática das redações, o que existe com muito mais frequência é a expectativa silenciosa de que o profissional com deficiência se adapte ao ambiente – e não o contrário. Que ele resolva. Que ele se vire. Que ele prove, antes de ser tratado como profissional, que é capaz de superar os obstáculos que a própria redação criou.

<><> Existe outro jornalismo, e ele é acessível

Ao lado do jornalismo que exclui, que publica sem legenda, que notícia sobre inclusão em sites inacessíveis, que trata pessoas com deficiência como pauta e não como público – existe outro jornalismo. Menor, mais precário, menos visível nos rankings de audiência. Mas que já faz, todos os dias e com menos recursos, o que o jornalismo mainstream ainda não decidiu fazer.

Esse jornalismo existe nas periferias do sistema de mídia brasileiro, nas iniciativas independentes, nos movimentos que nasceram da base e que, com o tempo, pressionaram as redações. E existe, também, na luta política e jurídica pelo direito à acessibilidade.

O movimento #PraTodosVerem e o #PraCegoVer são outro exemplo de como a transformação pode começar fora das redações e chegar até elas. Nascidos da prática de pessoas com deficiência visual nas redes sociais – que passaram a descrever imagens nas legendas de suas postagens para tornar o conteúdo acessível a outros usuários cegos –, esses movimentos criaram uma cultura de descrição de imagens que hoje é referência para produtores de conteúdo digital em todo o país.

A iniciativa Política em Libras, do jornalista Rodrigo Souza, abriu um canal para que pessoas surdas acessem informação política de forma autônoma e em sua própria língua – a Língua Brasileira de Sinais. O Intervozes – Coletivo Brasil de Comunicação Social há anos constrói o argumento que este artigo também defende: a comunicação é um direito humano.

Sediada em Teresina, no Piauí, o trabalho da ONG Comradio do Brasil, merece registro. A organização, que atua há mais de duas décadas na formação de comunicadores e no monitoramento de mídia, construiu ao longo dos anos uma trajetória consistente em acessibilidade comunicacional – traduzida em projetos como o SONORI, serviço de audiodescrição e interpretação em Libras voltado a eventos culturais e institucionais, e em iniciativas como Mulheres de Visão e Vida de Repórter, que colocam no centro da comunicação exatamente quem costuma ficar à margem dela.

E há ainda os coletivos de comunicação que produzem informação acessível de forma independente, sem estrutura, sem financiamento estável, sem reconhecimento institucional. Grupos de WhatsApp onde notícias são compartilhadas em áudio. Canais no YouTube produzidos por pessoas com deficiência visual para pessoas com deficiência visual.

Essas são algumas experiências que mostram que um outro jornalismo é possível. Que acessibilidade no jornalismo não é utopia. É escolha. É decisão. E política editorial se muda. O jornalismo brasileiro tem todas as condições para fazer essa escolha. O que falta é a decisão de fazê-la.

E também é preciso vontade política para impulsionar uma mudança estrutural e cultural na comunicação brasileira. Alguns caminhos apontam para esse horizonte: regulação, fiscalização e sanções reais para quem descumprir a legislação; política editorial obrigatória de acessibilidade; formação nas escolas de jornalismo; apoio a mídias acessíveis independentes; protagonismo de pessoas com deficiência nas redações; monitoramento de portais oficiais e jornalísticos; e publicidade governamental condicionada ao cumprimento da Lei Brasileira de Inclusão. Trilhas possíveis para que democracia, inclusão e acessibilidade não sejam palavras vazias, mas uma política real e efetiva.

 

Fonte: Por Iraildon Mota, no Le Monde

 

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