O
jornalismo que cobre acessibilidade, mas não pratica: as contradições das
redações brasileiras
Eram
pouco mais de sete da manhã quando Luiz Sampaio abriu o celular. O leitor de
tela já estava ativo. Ele foi direto a um portal de notícias. Tinha visto a
notificação na noite anterior: uma grande reportagem sobre o Dia Nacional de
Luta da Pessoa com Deficiência. Queria ler. Tinha o direito de ler. O leitor de
tela tentou navegar pelo menu e travou. A imagem de abertura da reportagem não
tinha descrição alternativa. O vídeo não tinha legenda. A narração do
apresentador começou, mas as imagens que ele descrevia como “este cenário que
vocês estão vendo agora” não chegavam até ele por nenhum canal. Luiz fechou o
navegador. A reportagem sobre seus direitos não tinha chegado até ele.
Presidente da Associação dos Cegos do Piauí, Luiz conhece esse obstáculo melhor
do que qualquer pauta jornalística já foi capaz de descrever – porque ele o
enfrenta todos os dias, não como fonte, mas como cidadão que tenta simplesmente
se informar.
A
alguns estados de distância, outro homem acordou com o celular vibrando. Uma
notificação do Instagram: o perfil de um dos maiores telejornais do país tinha
postado um corte de dois minutos sobre a sanção de uma nova lei de inclusão
para pessoas surdas. Ele tocou no vídeo. Nenhuma legenda. Nenhuma janela de
Libras. A legenda automática da plataforma estava desativada. Na tela, um
apresentador movia os lábios com expressão de seriedade, apontava para uma arte
gráfica com números que Marcos não conseguia acompanhar na velocidade em que
passavam, e o vídeo terminou. Ele não sabia o que havia sido aprovado. Mas fez
questão de contar o que sentiu. “É como ser convidado para uma festa e chegar
lá com a porta trancada”, disse. A Lei 14.191/2021, que instituiu a Educação
Bilíngue para surdos, era sobre ele. A notícia, não.
Essas
duas cenas não são casos isolados. São o cotidiano de milhões de brasileiros. O
Censo 2022 do IBGE mostrou que o Brasil tem 14,4 milhões de pessoas com
deficiência – equivalente a 7,3% da população com dois anos ou mais. A maior
dificuldade funcional registrada foi a visual, com 7,9 milhões de pessoas. Pela
primeira vez, o mesmo Censo identificou 2,4 milhões de brasileiros
diagnosticados com autismo — 1,2% da população. O levantamento também revelou
desigualdades: pessoas com deficiência têm taxa de analfabetismo de 21,3%,
quatro vezes maior que a das pessoas sem deficiência, e apenas 7,4% haviam
concluído o ensino superior.
Os
dados deixam claro: acessibilidade não é pauta de nicho. É uma necessidade real
para milhões de brasileiros que ainda enfrentam barreiras para estudar,
trabalhar, se informar e participar da vida pública. E quando o jornalismo
trata esses números como curiosidade estatística – sem conectá-los às suas
próprias práticas, sem questionar se o conteúdo produzido sobre essas pessoas
chega até elas – ele reproduz, na forma, exatamente a exclusão que denuncia no
conteúdo.
A mesma
redação que manda um repórter cobrir a falta de rampas nas calçadas publica
seus vídeos no Instagram sem legenda. O mesmo portal que entrevista
especialistas em inclusão digital não tem descrição de imagem em nenhuma
fotografia do seu site. É a expressão mais concreta do capacitismo
institucional – a crença, raramente verbalizada, mas praticada, de que pessoas
com deficiência são objeto de cobertura jornalística, não sujeitos dela. Não
são público. São pauta.
E
enquanto essa crença seguir operando nas estruturas das redações brasileiras –
nas políticas editoriais, nas grades de programação, nos fluxos de publicação
digital, nas decisões de quem nunca precisou de um leitor de tela para ler uma
notícia – Luiz Sampaio vai continuar fechando o navegador. E Marcos vai
continuar vendo lábios se moverem numa tela muda.
<><>
2025: o ano em que a lei completou dez anos e os dados chegaram
Há
datas que deveriam parar uma redação, gerar reuniões de pauta, séries
especiais, editoriais, coberturas aprofundadas. O décimo aniversário de uma lei
considerada um dos marcos legais mais completos do mundo em direitos das
pessoas com deficiência deveria ser uma dessas datas. Não foi.
Em
2025, a Lei Brasileira de Inclusão (LBI), nº 13.146/2015, completou dez anos –
um documento técnico, exigente e juridicamente preciso. Seu Artigo 3º define
acessibilidade como condição para utilização, com segurança e autonomia, de
espaços, mobiliários, transportes, informação e comunicação – inclusive seus
sistemas e tecnologias. Sites jornalísticos, vídeos de telejornais, postagens
em redes sociais, newsletters, podcasts – tudo isso está dentro do alcance da
lei. O Artigo 63 é ainda mais direto: determina que é obrigatória a
acessibilidade nos sites da internet mantidos por empresas com sede ou
representação comercial no Brasil. O Artigo 67 obriga os serviços de
radiodifusão a oferecer subtitulação por legenda oculta, janela com intérprete
de Libras e audiodescrição.
Dez
anos depois, a distância entre o texto da lei e a prática das redações segue
sendo, ela mesma, uma pauta não contada. O aniversário da LBI revelou também
uma contradição que vai além da acessibilidade técnica: o jornalismo que
deveria celebrar a lei como marco democrático não foi capaz de fazer isso de
forma democrática. As matérias comemorativas foram publicadas. Mas chegaram ao
público sem os recursos que a própria lei exige. A reportagem sobre a lei da
inclusão excluiu, mais uma vez, milhares de pessoas.
<><>
Falam sobre nós, mas não falam para nós
Existe
um teste simples que qualquer pessoa pode fazer. Abra o site de um dos maiores
portais de notícias do Brasil. Use apenas o teclado – sem mouse. Tente navegar
pelas manchetes, abrir uma reportagem, assistir a um vídeo. Assim, vai
descobrir o que milhões de brasileiros enfrentam toda vez que tentam se
informar. Menus que não respondem ao teclado. Imagens sem descrição. Vídeos sem
legenda. Players que travam. Formulários de cadastro que leitores de tela não
conseguem interpretar. A experiência é frustrante e constrangedora para quem
está testando por curiosidade. Para quem depende dela todos os dias, é
exclusão.
Segundo
levantamento do Movimento Web para Todos em parceria com a BigDataCorp, em
2024, apenas 2,9% das páginas brasileiras foram consideradas acessíveis segundo
os critérios internacionais do WCAG – as diretrizes de acessibilidade para
conteúdo web reconhecidas mundialmente. Num país de 14,4 milhões de pessoas com
deficiência. Num país onde a lei que obriga essa acessibilidade já tem dez
anos. A proporção não é apenas um dado técnico – é uma sentença sobre as
prioridades reais de quem produz e distribui informação no Brasil.
Grandes
portais de notícias, por exemplo, não cumprem as recomendações quanto à oferta
de recursos de acessibilidade e tecnologias assistivas. Apresentam erros de
navegação e de construção que impedem total ou parcialmente o acesso de pessoas
com deficiência visual ao conteúdo. O problema não se limita à estrutura
técnica dos sites. Ele alcança a forma como o conteúdo é produzido e
distribuído em cada plataforma.
A
pesquisadora Samara Wobeto, doutoranda do Departamento de Comunicação Social da
Universidade Federal de Santa Maria, publicou o estudo Circulação e
Acessibilidade Comunicativa: quando o acesso à notícia é barreira. O trabalho
identificou que veículos que disseminavam desinformação – inclusive propaganda
antivacina – possuíam recursos acessíveis em seus sites, enquanto veículos com
boa apuração e compromisso com a ciência não ofereciam nenhuma acessibilidade
adequada. A pergunta que o estudo coloca é perturbadora: qual é o tipo de
informação que as pessoas com deficiência têm a oportunidade de acessar? Wobeto
é precisa ao nomear a contradição: veículos tradicionais que prezam pela
divulgação científica e pela democracia, mas não aplicam recursos de acessibilidade,
acabam excluindo parte da população e vão contra o preceito democrático e
cidadão.
Recomendações
e diagnósticos feitos pelo próprio poder público apontam restrições em sites
que oferecem serviços oficiais, a exemplo do GovBr, além de reconhecer as
barreiras criadas em sites jornalísticos. A pesquisadora Joana Belarmino de
Sousa, da Universidade Federal da Paraíba, afirma que “o problema não é apenas
a notícia falar pouco sobre deficiência. É a notícia não estar disponível para
quem também tem direito de lê-la, ouvi-la e compreendê-la”.
O
jornalismo brasileiro, em larga escala, produz conteúdo sobre pessoas com
deficiência que essas pessoas não conseguem acessar plenamente. Isso não é
paradoxo acidental. É o resultado de décadas de decisões editoriais,
tecnológicas e culturais que nunca colocaram o público com deficiência no
centro – nem como leitor, nem como telespectador, nem como usuário, nem como
profissional dentro das redações. É o retrato de um jornalismo que aprendeu a
falar sobre a exclusão sem jamais ter precisado sentir o que é ser excluído da
própria notícia.
<><>
A TV que cumpre a cota e esquece o jornalismo
Desde
2011 vigora a obrigação legal das emissoras de televisão aberta transmitirem
pelo menos duas horas semanais de programação com audiodescrição. E mesmo essa
cota mínima, que já nasce tímida, é cumprida de forma estratégica – concentrada
em filmes, programas de entretenimento e conteúdos que as emissoras já
precisariam exibir de qualquer forma. O que fica de fora, sistematicamente, é
justamente o conteúdo que mais importa para o exercício da cidadania: o
jornalismo diário. Como se a obrigação legal valesse para a Sessão da Tarde,
mas não para o noticiário da noite.
O
estudo Telejornalismo e pessoas com deficiência auditiva ou visual realizado
pelas pesquisadoras Sabryna Moreno da Silva e Ana Carolina Rocha Pessôa Temer,
da Universidade Federal de Goiás, concluiu que o telejornalismo brasileiro
opera em camadas de exclusão. Não é apenas a ausência de audiodescrição para
quem não enxerga, ou a ausência de janela de Libras para quem não ouve. É a
forma como o telejornalismo foi concebido estruturalmente.
Quando
o conteúdo televisivo migra para as redes sociais, a contradição se aprofunda.
Na TV aberta, ainda existe uma obrigação mínima de acessibilidade. Mas nas
redes sociais, o conteúdo jornalístico entra em um território mais frouxo: não
há cota específica de audiodescrição, não há controle público sobre cada vídeo
publicado, não há fiscalização sistemática e não há transparência suficiente
para saber quais redações realmente acessibilizam seus conteúdos.
Todo
dia, os perfis oficiais das maiores emissoras e portais jornalísticos do Brasil
publicam em suas redes dezenas de recortes de telejornais, entrevistas e
reportagens. São os chamados “cortes”, que chegam, na esmagadora maioria das
vezes, sem nenhum recurso de acessibilidade. As plataformas até oferecem
ferramentas. Mas ferramentas disponíveis não são o mesmo que direito garantido.
A
pergunta não é se o Instagram, o YouTube, o TikTok, o X ou qualquer outra
plataforma possuem algum recurso de acessibilidade. A pergunta é outra – e é
essa que as redações precisam responder: usam esses recursos? Usam bem? Testam
com pessoas com deficiência? Medem o resultado? Corrigem falhas? Têm uma
política editorial clara para garantir que a notícia chegue a todos?
Na TV
aberta, ao menos existe uma pressão regulatória e possibilidade de fiscalização
por parte do poder público. Mas quando o mesmo conteúdo é recortado e publicado
no Instagram trinta minutos depois, essa pressão desaparece. A mesma emissora
que mantém um intérprete de Libras em janela durante a cobertura de uma notícia
para a TV, publica o corte nas redes sem nenhum recurso de acessibilidade. O
conteúdo é o mesmo. O público potencial é o mesmo. A responsabilidade,
aparentemente, não.
<><>
Quantos jornais têm uma editoria de acessibilidade?
Não
existe levantamento oficial no Brasil que responda a essa pergunta. Nenhum
órgão público ou pesquisadores produziu até hoje um mapeamento sistemático e
atualizado sobre a presença – ou ausência – de espaços editoriais fixos
dedicados ao tema nos veículos brasileiros. Essa ausência de dados, por si só,
já diz algo sobre a prioridade que o tema ocupa no ecossistema jornalístico
nacional.
A
certeza é de que são poucos os veículos. Um exemplo consolidado é o blog e
coluna Vencer Limites, de Luiz Alexandre Souza Ventura, integrado ao portal do
Estadão e à Rádio Eldorado, existente desde 2012. Na Folha de S. Paulo, o
jornalista Jairo Marques mantém o blog Assim como Você, voltado à
acessibilidade, cidadania, direitos humanos e pessoas com deficiência desde
2008.
No
Ceará, o jornalista Carlos Viana, do O POVO, mantém coluna semanal na rádio O
POVO/CBN e escreve regularmente sobre capacitismo e direitos das pessoas com
deficiência. No Jornal da Orla, de Santos, Bruno Oliveira de Carvalho,
apresentador com paralisia cerebral e criador do programa Consciência
Inclusiva, assina a coluna semanal A Voz da Consciência – um dos raros casos em
que uma pessoa com deficiência ocupa o papel de autor, e não de personagem,
dentro de um veículo jornalístico.
Se o
critério for ampliado para iniciativas que não são exatamente colunas de jornal
impresso tradicional, mas funcionam como espaços recorrentes de jornalismo e
informação sobre inclusão, algumas experiências se destacam. É o caso do portal
Jornalista Inclusivo, de Rafael Ferraz Carpi – a iniciativa independente mais
estruturada do país em jornalismo com foco em protagonismo e representatividade
da pessoa com deficiência; o programa Acessibilidade em Destaque, produzido
pela Imprensa Braille A União e veiculado semanalmente na Rádio Tabajara, da
Paraíba; o podcast Diversidade, Inclusão e Necessidades Sociais, do Diário do
Pará, com episódios dominicais; e uma coluna local no Portal da Cidade
Cabreúva, lançada em 2024, pela especialista Mônica Monteiro.
<><
Capacitismo editorial: entre o herói e o vilão
A
ausência de editorias fixas tem uma consequência direta e raramente discutida:
sem estrutura permanente, não há acúmulo de conhecimento. Cada matéria começa
do zero. Cada repórter designado para cobrir acessibilidade naquele mês aprende
o básico, publica, e segue para outra pauta. As fontes não são construídas ao
longo do tempo. O repertório não cresce. A cobertura não aprofunda. E as
pessoas com deficiência continuam aparecendo nos mesmos enquadramentos de
sempre – como vítimas, como heróis, como beneficiárias de políticas públicas ou
como dados estatísticos – porque ninguém na redação ficou tempo suficiente na
pauta para enxergá-las de outra forma.
De
acordo com Jairo Marques, “o jornalismo precisa parar de tratar pessoas com
deficiência como personagens de superação ou objetos de piedade”. O capacitismo
editorial, ele alerta, opera entre dois extremos que se excluem mutuamente: a
pessoa com deficiência ou é retratada como incapaz – dependente, frágil, que
precisa de ajuda – ou como super capaz – aquela que “venceu” a deficiência, que
serve de inspiração para os demais. Entre esses dois polos não existe espaço
para a complexidade da experiência humana.
O
capacitismo editorial que cria a narrativa de “coitado” ou “herói” ao retratar
pessoas com deficiência reside em como as histórias são escolhidas, enquadradas
e contadas – a pessoa como vítima permanente, dependente, receptora de
solidariedade e caridade, convocada pela narrativa para despertar compaixão; ou
como herói – aquela que “superou” a condição, que “provou” que é possível, que
existe na notícia para inspirar os demais e confirmar que o problema é
individual, não estrutural. Uma forma de exclusão que não aparece nos
relatórios de acessibilidade técnica, mas que está presente em cada decisão de
pauta, em cada escolha de fonte, em cada enquadramento fotográfico, em cada
título que reduz uma vida complexa a uma lição de superação.
Criador
do portal Jornalista Inclusivo, Rafael Ferraz Carpi afirma que o “jornalismo
inclusivo não é apenas cobrir a pauta da deficiência; é construir formatos para
que pessoas com deficiência também sejam público, fonte e protagonistas”. É uma
frase que coloca o dedo na ferida. O jornalismo brasileiro, em larga escala,
ainda não entendeu que acessibilidade não é apenas o tema da matéria. É a
condição para que a matéria chegue a quem precisa dela.
<><>
Elas enxergam o que a redação não quer ver
O
jornalista Ednilson Sacramento, que possui deficiência visual, não fala sobre
acessibilidade no jornalismo como quem observa o problema de fora. Ele fala de
dentro – da experiência concreta de tentar exercer a profissão num ecossistema
que, na sua estrutura mais básica, não foi pensado para recebê-lo.
A
primeira barreira, ele explica, não está na pauta. Não está na apuração. Não
está na escrita. Está antes de tudo isso – nos sistemas. As plataformas de
publicação usadas pelas redações, os chamados CMS, raramente são testadas com
leitores de tela antes de serem implantadas. As ferramentas de edição de
imagem, de gestão de redes sociais, de análise de métricas, de produção de
conteúdo multimídia: a maioria foi desenvolvida sem considerar que um
jornalista cego poderia precisar utilizá-las no seu dia a dia de trabalho. E
num mercado onde a notícia exige rapidez, onde a janela entre apurar e publicar
se fecha em minutos, depender de um colega para executar uma função básica do
sistema não é apenas inconveniente. É o tipo de obstáculo que faz um
profissional perder oportunidades, pautas e espaço – silenciosamente, sem que
ninguém precise tomar nenhuma decisão explícita de exclusão.
Segundo
Ednilson, “a comunicação que deveria incluir também os comunicadores com
deficiência ainda cria barreiras para que eles trabalhem com autonomia”. Uma
contradição que raramente é discutida nas redações brasileiras: o jornalismo
que cobre acessibilidade como pauta externa é o mesmo jornalismo que,
internamente, não garante condições acessíveis de trabalho para profissionais
com deficiência. A exclusão não está apenas no conteúdo publicado. Está nos
bastidores da produção. Está na infraestrutura invisível que decide quem pode
trabalhar com autonomia e quem depende da boa vontade de um colega para
executar tarefas básicas.
A Lei
Brasileira de Inclusão, em seu conceito de adaptação razoável, determina que
empregadores devem oferecer as modificações necessárias para que pessoas com
deficiência possam exercer suas funções em igualdade de condições. Mas na
prática das redações, o que existe com muito mais frequência é a expectativa
silenciosa de que o profissional com deficiência se adapte ao ambiente – e não
o contrário. Que ele resolva. Que ele se vire. Que ele prove, antes de ser
tratado como profissional, que é capaz de superar os obstáculos que a própria
redação criou.
<><>
Existe outro jornalismo, e ele é acessível
Ao lado
do jornalismo que exclui, que publica sem legenda, que notícia sobre inclusão
em sites inacessíveis, que trata pessoas com deficiência como pauta e não como
público – existe outro jornalismo. Menor, mais precário, menos visível nos
rankings de audiência. Mas que já faz, todos os dias e com menos recursos, o
que o jornalismo mainstream ainda não decidiu fazer.
Esse
jornalismo existe nas periferias do sistema de mídia brasileiro, nas
iniciativas independentes, nos movimentos que nasceram da base e que, com o
tempo, pressionaram as redações. E existe, também, na luta política e jurídica
pelo direito à acessibilidade.
O
movimento #PraTodosVerem e o #PraCegoVer são outro exemplo de como a
transformação pode começar fora das redações e chegar até elas. Nascidos da
prática de pessoas com deficiência visual nas redes sociais – que passaram a
descrever imagens nas legendas de suas postagens para tornar o conteúdo
acessível a outros usuários cegos –, esses movimentos criaram uma cultura de
descrição de imagens que hoje é referência para produtores de conteúdo digital
em todo o país.
A
iniciativa Política em Libras, do jornalista Rodrigo Souza, abriu um canal para
que pessoas surdas acessem informação política de forma autônoma e em sua
própria língua – a Língua Brasileira de Sinais. O Intervozes – Coletivo Brasil
de Comunicação Social há anos constrói o argumento que este artigo também
defende: a comunicação é um direito humano.
Sediada
em Teresina, no Piauí, o trabalho da ONG Comradio do Brasil, merece registro. A
organização, que atua há mais de duas décadas na formação de comunicadores e no
monitoramento de mídia, construiu ao longo dos anos uma trajetória consistente
em acessibilidade comunicacional – traduzida em projetos como o SONORI, serviço
de audiodescrição e interpretação em Libras voltado a eventos culturais e
institucionais, e em iniciativas como Mulheres de Visão e Vida de Repórter, que
colocam no centro da comunicação exatamente quem costuma ficar à margem dela.
E há
ainda os coletivos de comunicação que produzem informação acessível de forma
independente, sem estrutura, sem financiamento estável, sem reconhecimento
institucional. Grupos de WhatsApp onde notícias são compartilhadas em áudio.
Canais no YouTube produzidos por pessoas com deficiência visual para pessoas
com deficiência visual.
Essas
são algumas experiências que mostram que um outro jornalismo é possível. Que
acessibilidade no jornalismo não é utopia. É escolha. É decisão. E política
editorial se muda. O jornalismo brasileiro tem todas as condições para fazer
essa escolha. O que falta é a decisão de fazê-la.
E
também é preciso vontade política para impulsionar uma mudança estrutural e
cultural na comunicação brasileira. Alguns caminhos apontam para esse
horizonte: regulação, fiscalização e sanções reais para quem descumprir a
legislação; política editorial obrigatória de acessibilidade; formação nas
escolas de jornalismo; apoio a mídias acessíveis independentes; protagonismo de
pessoas com deficiência nas redações; monitoramento de portais oficiais e
jornalísticos; e publicidade governamental condicionada ao cumprimento da Lei
Brasileira de Inclusão. Trilhas possíveis para que democracia, inclusão e
acessibilidade não sejam palavras vazias, mas uma política real e efetiva.
Fonte:
Por Iraildon Mota, no Le Monde

Nenhum comentário:
Postar um comentário