quinta-feira, 28 de maio de 2026

Sequestradores e sequestrados nas redes bolsonaristas

Uma parte da militância bolsonarista está rendida aos algoritmos. Alguém os conduz – e levanta alto o muro do cativeiro? Mas mesmo estes não controlam toda a narrativa. E examinar sua ação não significa perder de vista os erros cometidos pela esquerda...

Um homem de boné derrama em sua boca um líquido branco pastoso de dentro de uma embalagem de detergente Ypê. Ele está num carro. A cena é registrada aos risos do banco ao lado. São dois goles longos e prazerosos. Ainda com restos nos lábios, ele se volta para a câmera e levanta o dedo médio: “aqui para você, petista”. Que os psicanalistas nos expliquem os abismos sexuais que atravessam a performance.

O vídeo viralizou, óbvio. Rapidamente, nos comentários, de especialistas às caixas das redes sociais, o diagnóstico foi reposto:

– bolsonarista maluco.

– É uma seita.

Logo então todo mundo se diverte lembrando das orações para pneus, patriota no caminhão, marcha soldado à la Trapalhões, comunicações luminosas com ETs. São doidos mesmo.

Visto e revisto, Leonardo Rodrigues, o homem que bebe “detergente” em defesa da Ypê, não parece fora do controle. Há uma pós-ironia no vídeo que denota consciência do que está fazendo. Mais tarde, esclareceu que se tratava de iogurte de coco. Ao publicar o vídeo, Leonardo estimula outras pessoas a não levarem a sério a interdição da Anvisa e, eventualmente, a replicarem o mesmo comportamento. Há, portanto, perversidade, menos que loucura.

Uma parte da militância bolsonarista realmente está sequestrada pelos algoritmos. Muitos não conseguem discernir no renovado e intenso fluxo de mensagens truncadas um fio contextual que estabilize um campo mínimo de factualidade, que é substituído por enquadramentos fantasiosos, retirados do infinito caudal conspiracionista da extrema direita. Uma vez ali, não há portas fáceis de saída.

Mas se há sequestrados, deve haver sequestradores. Leonardo é um sequestrador. Sinaliza com uma piscadela para aquela parte da militância que já não habita este mundo. Ganha, com isso, likes, dá uma lacrada, gargalha bastante. Ao perceber o risco de responsabilização jurídica, disse se tratar apenas de um meme, sem qualquer intenção política.

Michelle Bolsonaro, nesse registro, é uma sequestradora de alto gabarito. Em meio à interdição, ela postou uma foto do detergente em sua rede: “por aqui só usamos Ypê”. Se Leonardo ganha likes, Michelle ganha militantes, votos e levanta ainda mais alto os muros do cativeiro. Por sua vez, o vice-prefeito de São Paulo lava louça com o detergente. Repete o jingle comercial, o mesmo da Michelle. Depois então Jojo Todynho posta vídeo com o detergente vermelho na mão dizendo que passa mal se não lavar a louça com Ypê. Em seguida, foi a vez do Veio da Havan, que disse entender bem de perseguição, já que era um dos maiores perseguidos do Brasil. O algoritmo faz seu trabalho: distribui, bomba, viraliza. Pronto. Está feito o do dia.

Lá embaixo, na várzea, um homem afirma que quando não tem xampu, usa detergente neutro, circulando a embalagem sobre a cabeça: “faz mal não, sô. Fica dando ouvido para esse povo, não. Esse povo tá, ó, desparafusado da cabeça”. Em seguida se apresenta como pré-candidato do PL. Ele já não parece ter tanto controle do que diz. Mas sabe exatamente o que quer com o vídeo.

Em diferentes níveis, todos ganham ou pretendem ganhar alguma coisa.

Já um dos vídeos aponta para outra direção. Neste, um homem aparentando ter algo em torno de 60 anos, com uniforme do trabalho (talvez atue na coleta de lixo), joga detergente pelo corpo, repetindo em voz alta o estribilho: “olha bactéria aqui, ó. Olha a bactéria, ó, ó”. Ao final, esfrega o produto químico por toda a cara. Eis um sequestrado. Ele está claramente fora de controle. Os vídeos e fotos descritos acima eram para ele. O homem de uniforme não tem canal no YouTube, não vai monetizar ou ser candidato a deputado estadual. Ele vai votar e defender a extrema direita. O que lhe sobra é a exposição ao ridículo, paranoia e sofrimento psíquico.

Que parte dos bolsonaristas esteja sob sequestro algorítmico, não significa que a ascensão da extrema direita se explique apenas pela chave da manipulação e lavagem cerebral. Há razões materiais, ideológicas e culturais profundas que lhe conferem poder de convencimento e mobilização. Reduzi-la a um simples resultado de teorias da conspiração é sedutor porque dispensa pensar no que o campo progressista tem errado. No entanto, é igualmente verdadeiro que há uma dinâmica conscientemente conduzida pelos próprios bolsonaristas para manter parte de seus aliados presos em um enquadramento do mundo que os torna incapazes de discernir o verdadeiro do falso e estimula comportamentos violentos e, por vezes, sacrificiais.

Sequestradores, por sua vez, não estão totalmente imunes às dinâmicas das redes algorítmicas. Do ponto de vista da totalidade, inclusive, todo o espectro político está capturado pela sua lógica. A segmentação e reorganização dos públicos em grupos de interesses cada vez mais isolados, a velocidade e barateamento da produção e distribuição de conteúdo, impuseram, à esquerda e à direita, formas de ação, reflexão e sensibilidade que, em certa medida, são similares. Temporalidade de crise, ameaças constantes, ironização e adjetivação antes que análises e propostas concretas são dispositivos comuns da concorrência na economia de atenção. Como forma é também conteúdo, pior para a esquerda.

Além disso, manipulação não implica que o manipulador não acredite inteiramente no que fala. Basta lembrar do áudio em que general Ramos, então ministro-chefe da Casa Civil, admite que tomou vacina escondido de Bolsonaro: “se a ciência e a medicina estão dizendo que é a vacina, né, Guedes, quem sou eu para me contrapor?”. A admissão esclarece o jogo cínico que indica clara manipulação do público, mas revela igualmente que Bolsonaro exigia que os seus subordinados diretos seguissem a cartilha. Comportamentos sacrificiais estavam ali também. Não há, portanto, um lugar acima e fora dos algoritmos em que uma minoria plenamente consciente (sequestradores) opera para controlar a maioria submersa em desespero e desorientação (sequestrados). O que a tipologia quer apreender é o jogo de controle dentro e, portanto, já mediado pelos algoritmos, por grupos de interesses que conseguem conduzi-los para determinados fins enquanto outros não conseguem tomar distância, nem que seja estratégica.

A noção estratégica, no entanto, não livra sequestradores de tropeços e equívocos. Imersos numa espiral de feedbacks positivos, por vezes dosam mal a força e poder de controle de que realmente dispõem. A condução da pandemia é um destes momentos em que o enquadramento deriva, escapa e ricocheteia de volta. Bolsonaro achou que poderia controlar a narrativa reatualizando o eixo populista entre elite global esquerdista e povo oprimido impedido de trabalhar, mas o grande número de mortes intrometeu uma variável que dificilmente poderia ser conduzida sem um alto grau de conflito. Sua derrota eleitoral, em boa medida, foi forjada ali.

Em um ensaio acadêmico sobre a campanha da extrema direita contra o filme Marighella, logo entendi que os vídeos apenas repetiam as mesmas alegações, quase sempre na mesma ordem. Como todo comunista, Marighella seria um sujeito monstruoso, violento, obcecado por instalar uma ditadura no Brasil. O filme, por sua vez, foi dirigido pelo vermelho Wagner Moura com recursos da lei Rouanet para exaltar um terrorista e estimular a divisão racial num país que, por definição, não é racista. Para criticar o filme, não precisava tê-lo visto. A disputa não se desenrola ao nível dos fatos e muito menos da experiência estética. Não interessa, por exemplo, que Wagner Moura não tenha usado um centavo sequer da lei Rouanet. O importante é que, ao final, o enquadramento que conforma a extrema direita como um campo em guerra contra uma elite gramscista instalada no poder seja repetido e renovado. A extrema direita não pretende demonstrar a verdade factual sobre este ou aquele objeto. A luta é pelo enquadramento no interior do qual as disputas cotidianas se dão.

Quem nunca desmentiu um bolsonarista que logo deu de ombros? Não é verdade neste caso, responde ele, mas poderia ser. Daqui em diante, por exemplo, a depender do desenrolar dos acontecimentos, um sequestrado pode vir a se convencer de que houve contaminação do lote interditado, mas a suspeita que lançou permanecerá válida. Afinal, a Anvisa é de fato uma instituição controlada pela elite esquerdista para impor uma agenda e perseguir seus desafetos de direita. É essa a função dos sequestradores, manter parte da militância no interior de enquadramentos genéricos e absorventes. Se esses conteúdos elementares geram adesão, não importa que o entrecho factual, mais tarde, seja desmentido. Ele cumpriu sua função.

Por isso, não há a menor chance de vencê-los em termos argumentativos. A questão não é que as outras notícias não chegam até a extrema direita. Elas chegam. Mas não sem ser imediatamente reduzidas ao enquadramento geral que conforma o campo. Uma notícia indicando a existência da “minuta do golpe” pode provar, por exemplo, que a Globo continua fazendo de tudo para perseguir a direita ou que Bolsonaro tem mesmo razão. Ninguém seria tão perseguido assim se não estivesse falando a verdade e ferindo interesses muito poderosos. Claro que devemos permanecer, dentro dos nossos limites, desmentindo a extrema direita. O decisivo, no entanto, passa pela regulamentação e responsabilização das big techs. É ao nível da infraestrutura que as mudanças efetivamente geram impactos de longo prazo e alcance. Basta lembrarmos a campanha da Alphabet, proprietária do Google, contra o legislativo brasileiro, que iria votar a “PL das Fake News”. Afinal, sequestradores podem ser bem-sucedidos porque manejam vieses sociotécnicos que já orientavam as redes segundo seus próprios interesses de mercado e, agora está mais claro que nunca, políticos.

A luta deve ser também pela retomada do encontro pessoal, a construção coletiva do comum. André Valadão, na posição de pastor, um dia incentivou os fiéis a não mandarem seus filhos para a faculdade: “você criou a sua filha pra ela virar uma vagabunda?”. Valadão entendeu o que está em jogo. Não que o conhecimento por si só seja redentor. É que a faculdade reorganiza a vida cotidiana, expõe a debates reais, abre o acaso dos encontros, perturba o algoritmo.

•        O caso Ypê. Por Cristiano Addario de Abreu

Eis que mais um problema sanitário, depois das bebidas envenenadas há pouco tempo terem, literalmente, destruído a paz etílica dos brasileiros, surge agora bem nos produtos de limpeza: a Anvisa notificou que a marca Ypê tem um lote de produtos contaminados com uma superbactéria resistente a antibióticos. A bactéria é a Pseudomonas aeruginosa e a Anvisa determinou a suspensão e o recolhimento de mais de 100 lotes e 24 itens de limpeza (com numeração final 1) devido a falhas no controle de qualidade e risco de contaminação microbiológica.

Então um padrão cíclico de produtos contaminados/envenenados passou a ocorrer? O que ajudaria a explicar o que está ocorrendo?

Pois o próprio procedimento coletivo de “como lidar” com o “caso Ypê” (L’affaire Ypê: como, ironicamente, prefiro nomear) pode iluminar os descaminhos do que está acontecendo.

Caso sua casa tenha produtos identificados com os que precisam ser recolhidos, o que é para fazer? Há pessoas que voltaram ao supermercado com os produtos, e as notas de compra, e o comércio se recusa a devolver o dinheiro, ou a trocar os produtos. Há os que ligam e escrevem para a Ypê: e essa empresa, logo sua diretoria, simplesmente ignora o tsunami de reclamações, escondidos que estão. E, last but not least, há os que ligam para a Anvisa, a agência pública nacional responsável pelo assunto sanitário.

Ligando para a Anvisa e pedindo orientação do que fazer com os produtos identificados para serem “recolhidos” (por quem e onde?), a funcionária responde que “a empresa Ypê ainda não determinou” (palavras dela!) “o que é para ser feito”. Ao ser mais específico e perguntando se “havia algum tutorial da Anvisa sobre o que fazer com os produtos identificados nas casas das pessoas”, a funcionária some por um tempo para achar uma resposta, e retorna com ela: “a Anvisa não indicou, ou liberou, nenhum tutorial de como proceder com os produtos que devem ser recolhidos”. Ponto! (n°. do protocolo de contato com a Anvisa: 2026116671).

O que essa curta descrição demonstra é que o neoliberalismo (essa religião sectária laica) já domina o aparelho de Estado. Pois a primeira resposta dos funcionários da Anvisa sobre o caso é: “a empresa Ypê ainda não determinou o que é para fazer”. Como assim??? Quem tem que determinar o que quer que seja é o estado brasileiro, através de sua agência reguladora responsável (Anvisa). Mas eis aqui o exemplo, para lá de pós-moderno, kafkiano, da eficiência dos “mercados autorregulados”: um dos dogmas da religião neoliberal é a capacidade autorregulatória dos “mercados”.

Pois é evidente o caos que sempre sairá disso. Que é o mesmo que dizer ser mais eficiente as raposas cuidarem do galinheiro. Os “mercados” já foram aqui postos entre aspas porque quem escreve este artigo é um braudeliano que sabe que mercados são um andar econômico, e capitalismo é outro andar: capitalismo é o andar monopolista, ligado aos Estados, capitalismo é o antimercado. Os mercados (que tendem ao monopólio), e seus monopólios de vanguarda, precisam dos Estados: quanto maiores os “mercados” maiores serão os Estados. Tais Estados são usados pelas empresas para socializar custos e problemas, mas precisam responder também por seus abusos e eventuais crimes: o grande exemplo histórico desse modelo de capitalismo “com cara humana” é o New Deal, com um Estado forte regulando o capital e os mercados, para salvar o capitalismo dele mesmo.

<><> Old Deal – o império contra-ataca dos grupos monopólicos

Esse modelo do New Deal, identificado com o governo Franklin D. Roosevelt (1933-1945), foi marcado por forte regulação estatal da economia privada, e uma azeitada coordenação Estado e empresas, com contratos governamentais generosos, como o lend-lease no caso do Complexo industrial-militar, estruturas jurídicas engenhosas para colaboração mútua entre capitalistas e Estado, mas que incluíam a agenda trabalhista e sindical por direitos na equação (e ainda a sanitária, e hoje cada vez mais a ecológica deveria entrar).

Pois as agências reguladoras são um eixo central para o funcionamento do New Deal: agências estatais controlam e regulam (e ajudam) os setores econômicos. E aqui se destaca que o New Deal não foi um raio isolado: o governo então catalisou forças acumuladas nos EUA desde o fim do século XIX, quando após a Guerra Civil a economia dos EUA foi dominada por grandes grupos monopolistas que dominavam cada setor estratégico, com a ajuda do Estado nacional, com imensas tarifas protecionistas.

Cada setor produtivo estratégico tinha seu “Barão Ladrão” monopolista (Robber baron): John D. Rockefeller fundou a Standard Oil Company em 1870, construindo um império que controlou cerca de 90% da indústria petrolífera dos Estados Unidos, a Carnegie Steel Company foi fundada por Andrew Carnegie em 1892, monopolizando o setor de aço nos EUA, e assim foi por cada setor estratégico.

Mas as reações antimonopolistas, do lado dos trabalhadores, dos consumidores, e dos pequenos produtores devorados por esse tipo de capitalismo selvagem, geraram uma onda Progressista com leis regulatórias, que são a base da própria ideia de agências reguladoras na virada do séc. XIX para o XX, e do próprio New Deal depois.

Curiosamente, uma dessas agências fundantes desse modelo de regulação foi a Food and Drug Administration (FDA): cuja primeira organização remonta a 1906, sendo depois reestruturada em 1927. A FDA foi criada pelo tio do Roosevelt democrata do New Deal, o presidente republicano Theodore Roosevelt em 1906 com o Pure Food and Drugs Act. E como o próprio nome da lei de sua criação indica, era uma lei para regulamentar a produção de alimentos e remédios, para que estes fossem “puros”. Logo, sem contaminação, envenenamentos, e outros crimes que quando a produção de alimentos não tem como principal fim a própria alimentação, mas o lucro (valor de troca, em vez de valor de uso), e a produção de remédios não tem como principal fim curas, mas sim lucros, problemas ligados à produção em larga escala, e com a obsessão por lucros, não param de surgir.

Nas brigas legislativas que levaram à criação da FDA havia uma lista de casos documentados de carne enlatada com partes de dedos humanos no Menu… Dedos de operários que sofreram acidentes de trabalho, mas as empresas não se furtavam a atender a demanda por carne: the show must go on.

A FDA é assim uma empresa historicamente modelar para se analisar L’affaire Ypê, pois a brasileira Anvisa pode ser vista como uma equivalente brasileira da FDA, assim como o modelo das “agências reguladoras” foi estruturado em sua formatação atual nos anos 1990 com FHC, justamente copiando o modelo dos EUA e escanteando o modelo mais varguista de empresas estatais nos setores estratégicos (Vargas até esperou um Plano Marshall para a América Latina, mas na ausência dele, estruturou o modelo das estatais). E o que se presencia com o “caso Ypê” (aqui chamado de L’affaire Ypê, em referências aos affaires políticos da Belle Époque, da Gilded Age, desse período da virada do séc. XIX para o XX) é que esse modelo de agências reguladoras sem empresas estatais no setor, enfraquece muito a regulação em si, e tem se demonstrado bastante ineficaz: como os recorrentes casos de envenenamento de bebidas e agora produtos de limpeza têm demonstrado.

Como já escrito anteriormente no site A Terra é Redonda, o presente artigo retorna ao período reconhecido na história dos EUA como Gilded Age, porque aquele foi o momento em que naquele país emergiram as forças populares que resultariam no New Deal rooseveltiano, buscando regulamentar os grandes grupos monopolistas, pelos direitos dos trabalhadores, dos consumidores, e dos outros pequenos produtores independentes, em uma luta antimonopolista que no Brasil, infelizmente, é absolutamente ausente.

Aqui ainda resta algo da luta trabalhista, mas tudo tem se reduzido ao “direito do consumidor”, e nenhuma consciência sobre direitos produtivos, contra a monopolização de tudo. Nada disso: no Brasil há uma total confusão entre capitalismo e mercado, e um debate antimonopolista, para uma verdadeira regulação dos setores monopolistas ou oligopolistas, é algo completamente inexistente. Isso não apenas em nossos legislativos anômalos, ignorantes e corrompidos pelas grandes corporações, mas também na sociedade em geral, incluindo as esquerdas, e mesmo nas universidades, um real debate antimonopolista é quase inexistente, diferentemente do que ocorre nos EUA.

E cada vez mais, diante do sequestro do espaço público pelas Big Tech monopolistas, com tais empresas sequestrando a própria consciência coletiva, os dados pessoais, as vias de comunicação para trabalho e vida pessoal, familiar, afetiva: as Big Tech privatizam a política, porque as pessoas (incluso as de esquerda) estão tratando as “redes(anti)sociais” como Ágoras públicas, e isso é a última coisa que elas são. A redução do espaço público às redes digitais produz cidadãos embriagados (viciados) de “atividade digital” nas redes, que são cegos para a vital necessidade de regulação dessas redes, inclusive com a absoluta necessidade da criação de empresas públicas de comunicação digital, até para haver uma possibilidade de regulação das Big Tech.

L’affaire Ypê é a demonstração da privatização da política, capitaneada pelos grandes monopólios, com as Big Tech no comando (todos esses grupos combatem qualquer regulação estatal). A Anvisa responder que “aguarda a empresa Ypê dar as orientações sobre o que fazer com os produtos suspeitos de conterem superbactéria” é muito ilustrativo e didático de onde está o Brasil: está sob um capitalismo neoliberal desregulamentado para os monopólios, em que as raposas regulam o galinheiro.

Na página da Anvisa (vista no dia 19/05/2026) há a informação de que graças a um recurso da empresa Ypê: “O recolhimento foi suspenso, mas a referida agência reguladora: (Anvisa) manteve parte da proibição sobre os produtos Ypê. Na prática, significa que a suspensão do comércio, da fabricação, da distribuição e do uso de detergentes lava-louças líquidos, sabões líquidos para roupas e desinfetantes líquidos com lotes de numeração final 1 – elencados na Resolução 1.834/2026 – permanece válida”.

Assim, por uma judicialização, a empresa conseguiu que “o recolhimento dos produtos fosse suspenso”, mas a Anvisa afirma que a proibição ao uso e comercialização desses produtos segue valendo exatamente como antes da decisão judicial. Logo, segue a dúvida: o que fazer com os produtos interditados?

Na novilíngua orwelliana os produtos estão proibidos, mas acusar a empresa Ypê é crime a ser notificado no ministério da verdade.

Na mesma página da Anvisa é avisado, dia 19 de maio, que não há plano de descarte dos produtos ainda, e que a empresa é que dará, quando lhe aprouver, um plano do que fazer:

O recurso apresentado pela empresa seguirá o trâmite normal na Agência e um plano de gestão para os produtos já distribuídos, incluindo orientações ao consumidor, deve ser apresentado pela fabricante. Até que seja iniciado, a recomendação é que as pessoas não usem os itens suspensos e mantenham esses produtos lacrados ou bem fechados em local seco e ventilado. Outras orientações serão fornecidas pela empresa, que pode ser contatada por meio do seu Serviço de Atendimento ao Consumidor (SAC).

Eis o espetáculo da perfeita “autorregulação dos mercados”. E não há mais cidadãos, há só consumidores… O presente artigo conclui que é óbvio que o modelo de “agências reguladoras” está sob ataque no Brasil, diante da força corruptora dos monopólios e oligopólios, e se não houver uma retomada estatista por parte das forças progressistas governamentais o sonho rooseveltiano de que falava André Singer colapsará em um pesadelo do capitalismo desregulamentado dos neoliberais, com um Old Deal. Old Deal este que recebe louvores de adoração de uma juventude doutrinada para “enriquecer”, sem reconhecer nada de coletivo na construção das riquezas e valores, pois tudo é feito “pelo indivíduo”, sozinho.

E as massas que “se politizam” nas redes das Big Tech não saem do credo neoliberal e da luta “pela liberdade” individual…claro: pois o coletivo não existe. E assim não enxergam que sua realidade é moldada por grupos (coletivos) monopolistas gigantes, muito bem planejados (com capitalizados departamentos de Foresight em todas essas empresas) lhes direcionando onde devem enfiar a sua tal liberdade.

E assim, sem conhecer a história de um país que foi o primeiro laboratório do capitalismo monopolista no mundo, a juventude brasileira nem sonha em compreender o quanto a luta antimonopolista e regulatória naquele país poderia iluminar e redirecionar para soluções de tantos problemas do capitalismo brasileiro atual. E grande parte dessa juventude segue lutando pela liberdade dos grupos monopólicos em envenenar “livremente” todos no Brasil (talvez quando pedaços de dedos humanos começarem a aparecer nos sucrilhos deles, talvez aí, comecem a achar que algo está estranho neste Brave New World).

A bem da verdade, nem a juventude, nem tampouco as elites no Brasil estão dispostas a encarar o Minotauro do capital monopolista, neste momento de crise sistêmica do capitalismo mundial. A juventude por total cegueira e ignorância, as elites por cegueira voluntária, que é um nome mais elegante para covardia política.

 

Fonte: Por Thiago Turibio, em Outras Palavras/A Terra é Redonda

 

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