A
guerra diária contra o meio ambiente
No dia
16 de maio de 2026, o Centro de Promoção de Agentes de Transformação - CEPAT e
o Observatório Nacional de Justiça Socioambiental Luciano Mendes de Almeida -
OLMA promoveram a abertura da série de debates [on-line] Emergências
socioambientais na geopolítica dos conflitos. O evento inaugural teve como tema
central Conflitos armados e impactos socioambientais e contou com o apoio do
Conselho Nacional do Laicato do Brasil - CNLB, das Comunidades de Vida Cristã –
CVX, Regional Sul, do Instituto Humanitas Unisinos – IHU e do Departamento de
Ciências Sociais da Universidade Estadual de Maringá - UEM.
A
atividade teve como convidado o Prof. Dr. José Eustáquio Diniz Alves, renomado
demógrafo e pesquisador na área de meio ambiente, que traçou um panorama
crítico sobre as conexões profundas entre o atual modelo econômico, a máquina
de guerra global e a aceleração das crises climáticas.
<><>
Eis a entrevista.
• Professor, quando pensamos em
geopolítica e conflitos armados, a destruição ambiental costuma ser vista como
um efeito secundário. Como o senhor analisa essa relação?
Para
entender o cenário atual, precisamos inverter essa lógica: antes das guerras
entre nações, existe uma guerra diária e silenciosa contra o meio ambiente.
Esse conflito cotidiano promovido pelo nosso modelo de desenvolvimento vai se
acumulando ao longo do tempo e sabota as bases econômicas e sociais do planeta.
Gosto
de lembrar de uma frase emblemática que a ativista Greta Thunberg disse na ONU,
em 2019: “Nossa casa está pegando fogo”. Nos últimos anos, a própria Greta
passou a conectar a pauta climática à luta contra os conflitos armados. Ela
percebeu que o conflito do ser humano contra a natureza e os conflitos armados
entre os países são faces da mesma moeda.
• Em termos históricos, a humanidade
sempre enfrentou desafios climáticos. Por que o momento atual é considerado tão
alarmante e inédito?
Nós
prosperamos como civilização durante um período geológico chamado Holoceno, que
compreende os últimos 12.000 anos. Foi nessa época que o ser humano deixou de
ser estritamente coletor, fixou-se na terra, desenvolveu a agricultura e gerou
excedentes que permitiram o surgimento das cidades. Toda a nossa evolução - a
redução da mortalidade e o aumento da expectativa de vida - ocorreu sob uma
condição fundamental: a estabilidade climática. Durante esse período, a
temperatura média mundial variou menos de meio grau.
O
grande ponto de ruptura ocorre com a Revolução Industrial e Energética.
Passamos a queimar combustíveis fósseis em larga escala, e a temperatura
disparou. Já estamos tocando o limite de 1,5 grau estabelecido pelo Acordo de
Paris. Para se ter uma ideia da gravidade, na história de toda a evolução
humana - incluindo nossos ancestrais hominídeos de 3 ou 4 milhões de anos atrás
- nossa espécie nunca viveu em um planeta com temperatura de 2 graus acima da
média. Entrar nessa faixa é caminhar rumo ao desconhecido.
• O senhor mencionou a Revolução
Industrial e o uso de combustíveis fósseis. Como essa queima se traduz no
colapso ambiental que vemos hoje?
É um
cálculo matemático e físico direto. A queima de carvão, petróleo e gás libera
volumes em massa de dióxido de carbono (CO2). Esse gás funciona exatamente como
o teto de uma estufa: permite que a energia solar entre na Terra, mas impede
que o calor seja refletido e dispersado de volta para o espaço. O calor fica
preso na atmosfera.
Com
mais calor retido, o resultado é o degelo acelerado dos polos, da Groenlândia e
das grandes cordilheiras, como o Himalaia e os Andes. Esse gelo que derrete vai
direto para o oceano, elevando o nível do mar. Registros históricos do planeta
indicam que, se consolidarmos uma temperatura de 2 graus acima da média
pré-industrial, o nível do mar subirá entre 5 e 10 metros.
• O que uma elevação desse nível do mar
significa, na prática, para as populações e para o planeta?
Significa
o desaparecimento de regiões costeiras inteiras onde vivem bilhões de pessoas.
Eu moro no Rio de Janeiro, na zona sul. Se ultrapassarmos os dois graus de
aquecimento global e esse efeito estufa persistir por mais um ou dois séculos,
bairros inteiros como Copacabana, Ipanema, Leblon e a Barra ficarão
completamente submersos.
Mas o
problema é global e sistêmico. Metrópoles mundiais como Nova York e Xangai e
Lagos - uma das maiores cidades do continente africano, na Nigéria -
enfrentarão o mesmo destino. Além disso, perderemos áreas agricultáveis
cruciais para a segurança alimentar. O caso de Bangladesh é dramático: é um
país extremamente populoso, com mais de 150 milhões de habitantes, onde a maior
parte do território está a poucos metros acima do nível do mar. Se o oceano
subir apenas meio metro, a produção agrícola daquele país colapsa e teremos uma
crise humanitária sem precedentes.
• Entrando, agora, diretamente na
geopolítica internacional, os orçamentos de defesa das grandes potências
parecem ignorar a urgência da crise ambiental. Como o senhor conecta o aumento
dos gastos militares com o agravamento do aquecimento global?
A
correlação é alarmante e direta. Nos anos 1980, em plena Guerra Fria, o mundo
gastava um pouco mais de 1,5 trilhão de dólares com forças armadas. Com o fim
daquele período, nos anos 1990, houve uma redução bem-vinda para a faixa de 1
trilhão. Infelizmente, após o 11 de setembro e as guerras do Iraque e
Afeganistão, esses investimentos em destruição em massa voltaram a disparar.
Atualmente, com a invasão da Ucrânia pela Rússia e a escalada de violência
envolvendo Israel, Estados Unidos, Palestina e Irã, o gasto militar global
ultrapassou a marca histórica de 2 trilhões de dólares.
Para
contextualizar o impacto climático disso, calcula-se que cada 100 bilhões de
dólares injetados em gastos militares resultam na emissão adicional de 32
milhões de toneladas de gases do efeito estufa na atmosfera. Nós estamos
tirando recursos preciosos que deveriam financiar a transição para energias
renováveis para financiar guerras e conflitos que operam à base de combustíveis
fósseis e devastam biomas inteiros. A guerra na Ucrânia destruiu rios,
florestas e biodiversidade, além de ceifar vidas. No Oriente Médio, que já é
uma região com escassez histórica de água, os bombardeios destroem fontes
potáveis e infraestruturas de saneamento. Toda guerra começa destruindo o meio
ambiente.
• Diante dessa máquina de guerra e
destruição ecológica, muitas vezes se fala em proteger a biodiversidade para as
próximas gerações. Esse discurso ainda faz sentido?
Não
podemos mais tratar o colapso climático como um problema do futuro. Não se
trata de salvar as “próximas gerações”, mas, sim, de garantir a sobrevivência
de quem já está aqui hoje. As crianças que nascem agora enfrentarão esse
cenário de terra arrasada na próxima década. No Brasil, já estamos
testemunhando tragédias climáticas recorrentes com chuvas intensas e enchentes
devastadoras. A nível global, os incêndios florestais saíram do controle na
Grécia, em Portugal e na Califórnia [Estados Unidos].
• Um dos conceitos que se destacam na sua
exposição é a diferenciação entre o que o senhor chama de “petroestado” e
“eletroestado”. Como essa dinâmica se reflete nas políticas dos Estados Unidos
e da China?
Essa é
a grande fratura da geopolítica atual. Os Estados Unidos atuam fortemente sob a
lógica do petroestado. O governo norte-americano adota uma postura abertamente
negacionista, promovendo o slogan "drill, baby, drill" (perfure,
querido, perfure), expandindo a exploração de petróleo e boicotando a própria
transição energética internacional. Eles usam seu poder militar e econômico
para tentar controlar rotas estratégicas de combustíveis fósseis, como o
Estreito de Ormuz.
Por
outro lado, temos a China. Embora os chineses ainda sejam os maiores emissores
globais de CO2 pelo uso histórico do carvão, eles criaram uma estratégia
cirúrgica de sobrevivência e soberania. Como a China não possui grandes
reservas de petróleo e gás para sustentar seu crescimento, o governo decidiu
liderar a transição energética do século XXI, investindo massivamente para se
transformar em um eletroestado.
Há duas
décadas eles investem em tecnologia de ponta. Só no ano passado, o mundo
instalou cerca de 700 gigawatts de energia renovável, a maior parte em solo
chinês. Para dar uma base de comparação, a Usina de Itaipu tem uma capacidade
de 14 gigawatts. Isso significa que a capacidade instalada pela China equivale
a dezenas de novas ‘Itaipus’ em um curto período.
Enquanto
os Estados Unidos gastam bilhões atolados em conflitos militares externos, a
China domina o mercado global de painéis solares, baterias de lítio e veículos
elétricos mais eficientes e baratos. O Brasil e o mundo já estão sendo
inundados por essa indústria elétrica chinesa. Eles transformaram a segurança
climática em hegemonia econômica e tecnológica.
• Diante de potências tão fortes e da
urgência do tempo, o que resta para as organizações sociais e para o cidadão
comum? Como podemos exercer nosso papel de “guardiões da casa comum”, sem
sucumbir ao desespero?
O
primeiro passo indispensável é a conscientização. Precisamos pautar o debate
público com dados científicos reais e mostrar a gravidade do problema. A
transformação precisa acontecer em múltiplos níveis.
No
plano individual e comunitário, precisamos adotar medidas práticas de redução
da nossa pegada ecológica. Isso passa por uma mudança profunda na nossa dieta
alimentar. A pecuária é uma das principais fontes de emissão de gás metano.
Enquanto os governos comemoram acordos comerciais para expandir a fronteira
agrícola e a venda de carne, a sociedade civil precisa fazer o caminho inverso:
reduzir drasticamente o consumo de proteína animal.
Outra
frente necessária é o fomento à agricultura urbana. Trazer a produção de
alimentos para dentro das cidades, inclusive ocupando verticalmente prédios
abandonados, reduz o uso de combustíveis fósseis no transporte de cargas e
garante segurança alimentar local.
No
plano político, a sociedade civil organizada deve pressionar os governos locais
por investimentos pesados em transporte público eletrificado e de matriz limpa.
No Brasil, por exemplo, é inadmissível que a Petrobras ainda prefira priorizar
a exploração de combustíveis fósseis na Margem Equatorial, na foz do Amazonas,
em vez de triplicar os aportes em energia eólica e solar. Nós já temos a
tecnologia e, hoje, a energia limpa é mais barata do que a fonte fóssil. É uma
questão de prioridade e de vontade política.
Precisamos
nos mobilizar. Lutar pelo fim dos conflitos armados internacionais é a única
forma de liberar os trilhões de dólares necessários para financiar a
regeneração do nosso planeta.
Fonte:
Entrevista com José Eustáquio Diniz Alves,
para IHU

Nenhum comentário:
Postar um comentário