“A
Saúde Coletiva deve ser um campo rebelde”
A etapa
paulista do seminário Da Reforma Sanitária ao Futuro do SUS: 40 anos da 8a
Conferência Nacional de Saúde, voltou a colocar a comunicação em destaque. Tal
concepção não é casual no contexto multidisciplinar da Saúde Coletiva.
Como
advertiu o coordenador da mesa Marco Akerman, diretor da Faculdade de Saúde
Pública da USP, local do evento, a comunicação não é uma panaceia a partir da
qual todos os gargalos do direito à saúde serão resolvidos.
Isto é,
não se trata apenas de conquistar mais espaço e público para divulgação de
temas do campo da saúde ou do SUS, mas de opções políticas mais amplas que se
fazem na realização de tais objetivos. Isso significa que os objetivos da
Reforma Sanitária não podem mais adiar o enfrentamento macropolítico.
“Como
já disse o Sergio Arouca há 40 anos, a reforma sanitária não representará nada
se não produzir um impacto concreto sobre a saúde do cidadão, na comunidade, no
lar, nas fábricas, nas escolas… Transformações que contribuam para o bem-estar
da população e a construção de uma sociedade democrática”, sintetizou André
Mota, historiador e professor da Faculdade de Medicina da USP, presente na
mesa.
Em sua
fala, Mota fez uma dura análise, que compreende a construção do SUS e a
redemocratização do Brasil em contraste com o fim da Guerra Fria e o triunfo do
capitalismo nesta etapa histórica.
Esse
choque de projetos civilizatórios não é mera analogia política. Como explicou o
historiador, o campo da saúde também é palco de embates ideológicos profundos.
Se de um lado a Conferência Alma Ata, realizada pela OMS em 1978, consagrou a
ideia de saúde pública como campo multidisciplinar e da atenção primária como
balizador de sistemas de saúde públicos e universais, logo depois o grande
capital, através da Fundação Rockefeller, apresentou o conceito de Atenção
Primária à Saúde Seletiva.
“Alma
Ata não aconteceu. Depois, as noções de saúde coletiva recuaram e abandonamos
as bandeiras da reforma sanitária para defender o sistema de saúde em si. Foi
aí que se apagou o diálogo entre a saúde coletiva e os movimentos sociais”,
disse Mota.
Sua
fala não ignora conquistas, como a própria existência do SUS, mas deixa claro
que a visão social da saúde – e a ideia de que esse direito dialoga com os
outros – saiu perdedora para uma visão gerencial, que prioriza situações mais
graves e tem a clínica médica praticamente como única carta na manga.
Em
tempos de dilemas civilizatórios, sua conclusão não deixa dúvidas: “Saúde
Coletiva não pode se dizer apenas um campo crítico. Deve ser um campo rebelde e
combater o neoliberalismo. Somos os perdedores da história, perdemos nosso
projeto, e dessa forma devemos defender sem concessões o SUS e combater todos
os posicionamentos neoliberais”.
<><>
Dialogar com quem faz saúde
Comunicação
é uma dimensão ampla que sequer cabe em um único campo de conhecimento
científico. A despeito do papel que os meios de comunicação desempenham na luta
por adesão a projetos políticos, o debate do Seminário teve como foco principal
o que se pode chamar de “público interno” da saúde. Ou seja, os próprios
profissionais do setor e ativistas já inseridos em seus temas.
Dessa
forma, os palestrantes apresentaram reflexões a respeito da construção de toda
a força social que permitiu a criação do SUS e das variadas formas de ativismo
em saúde. ¬
Nesse
sentido, André Mota rememorou a articulação entre acadêmicos da saúde e da
nascente medicina social com a cidadania. “Movimentos populares da zona leste
de São Paulo são exemplo da conexão entre saúde e luta social. Ali começa um
diálogo entre academia, trabalhadores de saúde e população.”
Tal
momento também reverberou a força acumulada nos anos anteriores, quando
entidades como Cebes e Abrasco foram criadas em meio a um processo de
politização da própria categoria médica.
Mas,
como analisou Maria do Socorro de Souza, pesquisadora que foi presidente do
Conselho Nacional de Saúde, os tempos recentes trouxeram novas disputas e
tendências. “Foram altos desafios, que se refletiram em episódios como a
violência contra os médicos do Mais Médicos, a criação do ato médico, a entrada
do capital estrangeiro no setor privado, todas as epidemias de arboviroses como
a dengue e zika, e, sem sombra de dúvida, o cenário político de 2013 a 2015”,
explicou.
<><>
Tecer novas relações
Isso
significa que os próprios profissionais que fazem o SUS são outros, em relação
a fases anteriores. Assim, processos como as Conferências de Saúde e a
transmissão de ideias e projetos para os profissionais do campo, que se
representam em tais momentos, têm desafios renovados.
A
elaboração de Maria do Socorro explicitou que as tensões são múltiplas. Sua
referência ao período 2013-15 e os desdobramentos desastrosos para o campo
progressista tornaram os setores hegemônicos da esquerda mais defensivos frente
a novos atores sociais.
Tal
dinâmica explica o aparecimento da Conferência Livre de Saúde, que escapou das
amarras burocráticas de entidades forjadas nas lutas sociais que culminaram nas
primeiras eleições de Lula à presidência.
“A
maior resistência foi interna. Na época, conseguimos negociar 60 vagas de
delegados para convidados. Por isso a conferência livre é uma inovação – mas
também dá margem para a extrema-direita entrar e fazer questionamentos em
relação à legitimidade e discussões pautadas no campo da saúde”,
contextualizou.
Jornalista
e pesquisador em Comunicação e Saúde Coletiva, Bruno Cesar Dias, também
colunista do Outra Saúde, expôs o cenário de representações midiáticas no
setor. Novamente, o cenário atual revela fortes semelhanças com aquele Brasil
da 8a Conferência: uma mídia de antigos aliados da ditadura até hoje hegemônica
nas massas e uma contracorrente que visa comunicar outros sentidos de vida.
“A 8
Conferência fala do direito à liberdade de expressão dentro do conceito amplo
de saúde, proibição de publicidade de produtos nocivos e o controle social da
informação”, afirmou, com referência à pesquisa de Rodrigo Murtinho sobre as
proposições de comunicação até a 15a conferências, em 2015.
Sua
pesquisa acadêmica analisa a produção comunicacional de setores e movimentos
sociais representados no Conselho Nacional de Saúde. De outro lado, também
analisa a distribuição de recursos públicos, inclusive do Ministério da Saúde,
para meios de comunicação tradicionais – e avessos à Reforma Sanitária
Brasileira.
“Estratégias
de ampliação da participação sofreram com o próprio sucesso. Mais gente quer
participar. Mas suas questões ficam muito setorizadas. Como conciliar suas
demandas sem prejudicar a aglutinação de forças e a disputa maior por
financiamento do fundo público, que nos permita questionar o modelo arcaico de
comunicação, atualizada por novos grupos, big techs e inteligência
artificial?”, problematizou.
<><>
Dialogar com quem precisa de saúde
No
entanto, como mostra a participação de Fausto Soriano, que representou o
Ministério da Saúde na mesa de debate, a saída só pode se dar através do
contato com a realidade e a própria população que exerce o direito à saúde.
“As
emergências dos Yanomami e do Rio Grande do Sul deixaram isso muito claro pra
mim. Precisamos ter práticas apoiadoras: trata-se de fazer com, não por. Para
além da atenção biomédica, cada indivíduo tem suas características pessoais,
medos, necessidades etc”, ilustrou.
Quanto
ao SUS, a análise de Soriano vai de encontro à de André Mota: as bandeiras da
RSB ainda estão em vias de realização. “Temos desafios que antes não existiam.
Uma pressão neoliberal que disputa a lógica do acesso – onde não existe cuidado
sem acesso, mas há muito acesso sem cuidado. Além disso, a população atual já
nasceu com a existência do SUS. Não faz sua defesa como outras gerações e
aceita as falácias neoliberais de ineficiência. Precisamos compreendê-las e
inseri-las no espaço de participação, receber as críticas e assim produzirmos
as reflexões necessárias à efetivação do direito à saúde”, concluiu.
Fonte:
Por Gabriel Brito, em Outra Saúde

Nenhum comentário:
Postar um comentário