Ricardo
Abramovay: Agro - China muda de rumo e Brasil não percebe
Aquilo
que a China conquistou nas últimas três décadas na pesquisa e na oferta dos
componentes essenciais da transição energética está agora se voltando a
promover sua soberania alimentar. O vínculo entre segurança alimentar e
interdependência global, por meio da liberalização comercial, se rompeu. A
integração entre a oferta de proteínas vegetais vinda das Américas (e sobretudo
do Brasil) para alimentar o rebanho suíno chinês está com os dias contados.
O que
está em questão vai muito além das relações de troca com a China. É o padrão de
crescimento econômico cujo epicentro são as matérias-primas agrícolas e
minerais e que é a marca decisiva da economia brasileira do século 21, que não
tem como persistir, apesar dos números vigorosos que hoje ostenta. Por mais que
haja ciência e tecnologia embutidas na oferta de commodities agrícolas e apesar
do esforço em desacoplar sua expansão do desmatamento, o fato é que a
expectativa de que este é o caminho mais promissor de inserção do Brasil no
mundo precisa urgentemente ser revista. O que impressiona não é tanto a rapidez
desse processo e sim seu tratamento, no Brasil, como episódico, movido por
circunstâncias passageiras e não como mudança estrutural que exige nada menos
que uma profunda revisão da própria estratégia de crescimento econômico do
País.
Esta é
a principal conclusão que se pode extrair de dois relatórios recentes
publicados pela consultoria britânica Systemiq e pela Gordon and Betty Moore
Foundation. O primeiro constata que os padrões de produção, de distribuição, de
consumo e as bases tecnológicas da agropecuária a partir dos anos 1960 estão
esgotados. Produtos e insumos concentrados em um pequeno número de países e de
regiões, alcançam, é verdade, alta produção. Mas, contrariando a visão
convencional sobre segurança alimentar, não é simplesmente de mais produção que
o mundo precisa hoje. O sucesso da Revolução Verde baseou-se na simplicidade de
seus objetivos: produzir mais, com custos decrescentes. As políticas públicas e
os comportamentos empresariais brasileiros não parecem se dar conta de que esse
mundo está desabando.
A
monotonia na produção, no consumo (com o avanço dos ultraprocessados) e o poder
concentrado num punhado de corporações oligopolistas são incompatíveis com a
fragmentação e a busca de soberania alimentar, que se torna decisivas em
diversos países. É ilusório imaginar que, baixando os custos, os mercados vão
absorver as capacidades brasileiras em oferecer commodities na escala em que o
fizeram até aqui.
É o que
mostra o outro relatório da Systemiq, desta vez sobre os métodos pelos quais a
China quer reduzir sua dependência alimentar e o déficit de US$ 124 bilhões em
sua balança comercial agrícola. Os mecanismos para isso vão em duas direções.
Em primeiro lugar, conforme apresentado em reportagem recente do Fantástico, a
agricultura urbana e periurbana da China, por meio de estufas geridas com o uso
de dispositivos de inteligência artificial, contribuem para a oferta
diversificada de produtos vegetais que incluem alguns originalmente vindos dos
trópicos, como a banana.
O mais
importante, porém, é o esforço de emancipar o país de sua dependência das
proteínas vegetais vindas das Américas. Isso passa por atividades industriais
na produção de aminoácidos para ração animal (dos quais a China domina 70% do
mercado mundial), proteína microbiana, milho de alta proteína entre outras
inovações. Estas inovações e os ganhos de eficiência produtiva devem fazer da
China em 2040 um exportador líquido de aves, leite, ovos, peixes e a principal
fonte global de “carnes cultivadas”. A Systemiq estima uma redução de 86% nas
importações chinesas de soja vinda dos Estados Unidos e 36% nas originárias do
Brasil nos próximos 15 anos.
Mas se
o rebanho suíno da China depende de um insumo fundamental vindo do outro lado
do mundo (a soja) este insumo, por sua vez, é dependente da importação em larga
escala de um conjunto tecnológico formado por agrotóxicos e fertilizantes
sintéticos, com custos cada vez maiores. A atual dependência da agropecuária
brasileira com relação aos insumos que utiliza tornou-se dramática em função
dos conflitos militares recentes. Além disso, o domínio do conjunto da base
tecnológica da agropecuária brasileira por corporações oligopolistas, das
sementes à genética de aves, resulta no que os economistas costumam chamar de
lock-in, ou seja, uma estrutura de financiamento, de pesquisa, de assistência
técnica e de mercado, em suma, uma cultura produtiva em que mesmo com o uso
crescente destes insumos e seu encarecimento constante, eles continuam a ser
empregados. O agricultor se vê numa espécie de esteira rolante em que não pode
parar de produzir sobre a base das técnicas que conhece, pois sem isso não
consegue sequer renegociar suas dívidas. Ao mesmo tempo, os impactos da crise
climática, os custos e os danos ambientais provocados por estes insumos vão
limitando seus ganhos.
Por
mais que as exportações de commodities estejam baseadas em tecnologias
avançadas, se elas não provarem que contribuem a preservar e regenerar serviços
ecossistêmicos que, até aqui, o crescimento agropecuário tem destruído, elas
perderão relevância. Zerar o desmatamento, nesse sentido, é ponto de partida e
não de chegada. A ameaça à segurança alimentar não vem do risco de escassez
produtiva. Vem de tecnologias das quais o Brasil é dependente, que oneram os
custos de produção e têm impactos ambientais cada vez mais graves. Além disso,
o que está em jogo são as infraestruturas de produção e distribuição voltadas a
um produto sob o risco de ser oferecido muito além do que a demanda global
pede.
O
Brasil possui pesquisa e iniciativas que abrem caminho a métodos produtivos
baseados no conhecimento de recursos locais, que valorizam os conhecimentos
acumulados em cada território, descentralizam as bases tecnológicas da
agropecuária e se apoiam naquilo que a ciência contemporânea tem produzido de
melhor no que se refere ao estudo e ao uso da interação entre microorganismos,
plantas, solos, fungos e animais. É o que mostram as apresentações feitas no
seminário sobre a regulação de bioinsumos organizado pelo Instituto de Estudos
Avançados da USP, pelo Instituto Biológico de São Paulo, pelo Instituto
Nacional de Ciência e Tecnologia “Superar a tríplice monotonia do sistema
agroalimentar” e pelo Instituto Folio.
• A crise global de alimentos – a situação
nos EUA. Por William Murphy
Os
Estados Unidos produzem uma abundância agrícola impressionante, ainda assim
milhões permanecem em insegurança alimentar, comunidades rurais colapsam,
doenças crônicas se espalham e alimentos frescos tornam-se cada vez mais
inacessíveis. Isso não é uma falha de produtividade. É uma falha da economia
política. A crise não é que a América não consegue alimentar seu povo. A crise
é que a ditadura do capital organiza a produção de alimentos em torno da
extração de lucro em vez da necessidade humana.
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A contradição no coração da agricultura norte-americana
O
sistema alimentar americano moderno é frequentemente apresentado como o auge da
eficiência industrial. Na realidade, trata-se de uma estrutura profundamente
irracional, otimizada para a especulação de commodities, consolidação
monopolista e retorno aos acionistas. O resultado é uma sociedade onde os
alimentos estão por toda parte, mas a segurança nutricional se deteriora ano
após ano.
Os
Estados Unidos cultivam quantidades enormes de produtos agrícolas, mas grande
parte dessa produção é subordinada a mercados de exportação, sistemas
industriais de ração, fabricação de alimentos processados e cadeias
agroindustriais financeirizadas. Regiões inteiras são transformadas em zonas de
sacrifício de monocultura, enquanto comunidades da classe trabalhadora são
inundadas com produtos ultraprocessados, projetados para a lucratividade em vez
da saúde.
Essa
contradição define o próprio capitalismo tardio: a abundância existe ao lado da
privação porque a produção é organizada para o valor de troca em vez do valor
de uso humano.
Um
punhado de conglomerados corporativos domina sementes, fertilizantes,
logística, processamento de carne, distribuição varejista e precificação de
alimentos. Os próprios agricultores funcionam cada vez mais como subcontratados
endividados, presos entre fornecedores monopolistas a montante e compradores
monopolistas a jusante. Os consumidores pagam preços inflacionados enquanto as
camadas intermediárias de capital extraem lucros em cada etapa da circulação.
Enquanto
isso, os fundamentos ecológicos da agricultura continuam a se deteriorar. A
degradação do solo acelera. Os aquíferos diminuem. A infraestrutura rural
decai. A instabilidade climática se intensifica. O sistema consome o futuro
para preservar os lucros trimestrais no presente.
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Agricultura vertical e o futuro da produção agrícola
A
agricultura vertical surgiu como um dos desenvolvimentos tecnológicos mais
reveladores do século XXI porque expõe tanto o enorme potencial produtivo da
indústria moderna quanto as severas limitações impostas pelas relações sociais
capitalistas.
A
afirmação amplamente divulgada de que a agricultura vertical é “500 vezes mais
eficiente” do que a agricultura convencional se refere principalmente à
produtividade da terra. Ao empilhar culturas verticalmente e operar durante
todo o ano sob condições controladas, as fazendas internas podem produzir
rendimentos extraordinários por metro quadrado. Uma operação relativamente
pequena em um armazém pode rivalizar com a produção anual de folhas verdes de
dezenas ou até centenas de acres de terras agrícolas convencionais.
Isso
representa um avanço tecnológico profundo. A humanidade agora possui a
capacidade de condensar a produção agrícola em sistemas urbanos densos e
controlados por clima, capazes de reduzir drasticamente o uso da terra, o
consumo de água, a dependência de pesticidas e as distâncias de transporte.
Mas a
tecnologia também revela uma contradição central.
A
agricultura tradicional consome enormes recursos de terra e água, ao mesmo
tempo em que depende da luz solar como seu principal insumo energético. A
agricultura vertical reduz drasticamente a necessidade de terra, mas substitui
a luz solar por sistemas de energia industrial: iluminação LED, controle
climático, bombas, sensores, automação e infraestrutura de desumidificação. O
resultado é um modelo de produção fortemente dependente de eletricidade
abundante e acessível.
Aqui, a
crise do capitalismo americano se torna impossível de ignorar.
A
economia socialista dirigida pelo Estado na China possui vantagens estruturais
que lhe permitem perseguir inovações agrícolas intensivas em energia em uma
escala que as economias capitalistas liberais têm dificuldade de sustentar.
Nas
últimas décadas, a China realizou uma das maiores expansões de infraestrutura
da história humana, construindo uma enorme capacidade de geração nos setores
hidrelétrico, nuclear, solar, eólico e de transmissão. Isso não foi
simplesmente uma questão de competição de mercado. Foi um planejamento estatal
de longo prazo coordenado, ligado a metas de desenvolvimento nacional.
Como
resultado, a China está cada vez mais capaz de integrar: política energética,
política industrial, planejamento urbano, segurança alimentar, desenvolvimento
tecnológico e financiamento de infraestrutura dentro de um quadro estratégico
unificado.
Os
Estados Unidos, por outro lado, operam por meio de sistemas de utilidades
privadas fragmentados, mercados de energia desregulamentados, estruturas
financeiras especulativas e pressões de curto prazo dos acionistas. Empresas de
agricultura vertical nos EUA frequentemente enfrentam preços de eletricidade
voláteis, altos custos de empréstimos, imóveis urbanos caros e demandas de
investidores por lucratividade rápida. Muitas startups fortemente promovidas
entraram em colapso quando os preços da energia aumentaram e o capital barato
desapareceu.
Em
outras palavras, o modelo tecnológico funcionava, mas o modelo de acumulação
capitalista ao seu redor falhou.
Essa
distinção é crítica. Sob o capitalismo, espera-se que a infraestrutura gere
retornos privados rápidos. Sob uma estrutura de desenvolvimento socialista, a
infraestrutura pode ser avaliada de acordo com a utilidade social de longo
prazo, a resiliência nacional e a necessidade estratégica.
Um
sistema alimentar verticalmente integrado pode não maximizar os lucros
trimestrais, mas pode fortalecer a soberania alimentar, estabilizar os preços,
conservar água, reduzir a destruição ecológica e aumentar a resiliência contra
os choques climáticos. Estes são objetivos sociais racionais, mesmo que não
maximizem imediatamente o valor para os acionistas.
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O sistema alimentar norte-americano é estruturalmente irracional
Os
Estados Unidos não precisam apenas de reforma agrícola. Eles precisam de uma
nova concepção do próprio alimento.
Sob o
capitalismo, o alimento é tratado primeiramente como uma mercadoria e apenas
secundariamente como uma necessidade humana. Essa inversão gera resultados
absurdos. Cultivos são destruídos para estabilizar preços enquanto milhões
lutam para comprar mantimentos. Especuladores lucram com futuros alimentares
enquanto famílias trabalhadoras racionam refeições. Quantidades enormes de
alimentos comestíveis são descartadas porque a distribuição de acordo com a
necessidade é menos lucrativa do que a precificação baseada na escassez.
O mesmo
sistema que pode desenvolver cadeias logísticas altamente sofisticadas, capazes
de mover commodities através de continentes, não consegue garantir acesso
universal a uma nutrição saudável.
Isto
não é uma falha tecnológica. É o domínio de uma classe.
Um
sistema agrícola racional priorizaria a restauração do solo, redes de produção
regional, sistemas de estufas urbanas, agricultura em ambiente controlado
movida por energia renovável, infraestrutura alimentar pública e acesso
nutricional universal. Ele trataria a comida saudável não como uma mercadoria
de luxo, mas como um direito social fundamental.
As
tecnologias já existem. A capacidade produtiva já existe. O conhecimento
científico já existe. O que não existe é uma estrutura político-econômica
disposta a subordinar o acúmulo privado ao desenvolvimento humano coletivo.
O
futuro da agricultura dependerá cada vez mais da integração de sistemas de
energia, automação, planejamento ecológico e infraestrutura urbana. A questão
não é se sistemas agrícolas avançados podem ser construídos. A questão é quem
os possuirá e para benefício de quem operarão.
Sob o
capitalismo monopolista, a agricultura vertical corre o risco de se tornar mais
um mecanismo de cercamento corporativo, controlado por monopólios de agritech,
finanças especulativas e conglomerados privados de infraestrutura. Sob o
socialismo, as mesmas tecnologias poderiam fazer parte de um sistema alimentar
público planejado democraticamente, orientado para a sustentabilidade,
resiliência e o florescimento humano universal.
Essa é
a lição essencial. A crise que os Estados Unidos enfrentam não é a falta de
inovação. É a subordinação da inovação à acumulação de capital.
A
América possui a capacidade científica para construir um sistema alimentar
resiliente, ecologicamente sustentável e tecnologicamente avançado. Mas a
ditadura do capital transforma toda necessidade humana em um local de extração.
O
resultado é abundância sem segurança, produtividade sem saúde e sofisticação
tecnológica sem planejamento social racional.
A luta
pela alimentação, portanto, não é meramente agrícola. É política. É econômica.
É civilizacional. E, cada vez mais, é uma luta sobre se a produção humana
permanecerá subordinada ao lucro ou finalmente será reorganizada em torno da
necessidade humana.
Fonte:
Outras Palavras/A Terra é Redonda

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