quinta-feira, 28 de maio de 2026

Ricardo Abramovay: Agro - China muda de rumo e Brasil não percebe

Aquilo que a China conquistou nas últimas três décadas na pesquisa e na oferta dos componentes essenciais da transição energética está agora se voltando a promover sua soberania alimentar. O vínculo entre segurança alimentar e interdependência global, por meio da liberalização comercial, se rompeu. A integração entre a oferta de proteínas vegetais vinda das Américas (e sobretudo do Brasil) para alimentar o rebanho suíno chinês está com os dias contados.

O que está em questão vai muito além das relações de troca com a China. É o padrão de crescimento econômico cujo epicentro são as matérias-primas agrícolas e minerais e que é a marca decisiva da economia brasileira do século 21, que não tem como persistir, apesar dos números vigorosos que hoje ostenta. Por mais que haja ciência e tecnologia embutidas na oferta de commodities agrícolas e apesar do esforço em desacoplar sua expansão do desmatamento, o fato é que a expectativa de que este é o caminho mais promissor de inserção do Brasil no mundo precisa urgentemente ser revista. O que impressiona não é tanto a rapidez desse processo e sim seu tratamento, no Brasil, como episódico, movido por circunstâncias passageiras e não como mudança estrutural que exige nada menos que uma profunda revisão da própria estratégia de crescimento econômico do País.

Esta é a principal conclusão que se pode extrair de dois relatórios recentes publicados pela consultoria britânica Systemiq e pela Gordon and Betty Moore Foundation. O primeiro constata que os padrões de produção, de distribuição, de consumo e as bases tecnológicas da agropecuária a partir dos anos 1960 estão esgotados. Produtos e insumos concentrados em um pequeno número de países e de regiões, alcançam, é verdade, alta produção. Mas, contrariando a visão convencional sobre segurança alimentar, não é simplesmente de mais produção que o mundo precisa hoje. O sucesso da Revolução Verde baseou-se na simplicidade de seus objetivos: produzir mais, com custos decrescentes. As políticas públicas e os comportamentos empresariais brasileiros não parecem se dar conta de que esse mundo está desabando.

A monotonia na produção, no consumo (com o avanço dos ultraprocessados) e o poder concentrado num punhado de corporações oligopolistas são incompatíveis com a fragmentação e a busca de soberania alimentar, que se torna decisivas em diversos países. É ilusório imaginar que, baixando os custos, os mercados vão absorver as capacidades brasileiras em oferecer commodities na escala em que o fizeram até aqui.

É o que mostra o outro relatório da Systemiq, desta vez sobre os métodos pelos quais a China quer reduzir sua dependência alimentar e o déficit de US$ 124 bilhões em sua balança comercial agrícola. Os mecanismos para isso vão em duas direções. Em primeiro lugar, conforme apresentado em reportagem recente do Fantástico, a agricultura urbana e periurbana da China, por meio de estufas geridas com o uso de dispositivos de inteligência artificial, contribuem para a oferta diversificada de produtos vegetais que incluem alguns originalmente vindos dos trópicos, como a banana.

O mais importante, porém, é o esforço de emancipar o país de sua dependência das proteínas vegetais vindas das Américas. Isso passa por atividades industriais na produção de aminoácidos para ração animal (dos quais a China domina 70% do mercado mundial), proteína microbiana, milho de alta proteína entre outras inovações. Estas inovações e os ganhos de eficiência produtiva devem fazer da China em 2040 um exportador líquido de aves, leite, ovos, peixes e a principal fonte global de “carnes cultivadas”. A Systemiq estima uma redução de 86% nas importações chinesas de soja vinda dos Estados Unidos e 36% nas originárias do Brasil nos próximos 15 anos.

Mas se o rebanho suíno da China depende de um insumo fundamental vindo do outro lado do mundo (a soja) este insumo, por sua vez, é dependente da importação em larga escala de um conjunto tecnológico formado por agrotóxicos e fertilizantes sintéticos, com custos cada vez maiores. A atual dependência da agropecuária brasileira com relação aos insumos que utiliza tornou-se dramática em função dos conflitos militares recentes. Além disso, o domínio do conjunto da base tecnológica da agropecuária brasileira por corporações oligopolistas, das sementes à genética de aves, resulta no que os economistas costumam chamar de lock-in, ou seja, uma estrutura de financiamento, de pesquisa, de assistência técnica e de mercado, em suma, uma cultura produtiva em que mesmo com o uso crescente destes insumos e seu encarecimento constante, eles continuam a ser empregados. O agricultor se vê numa espécie de esteira rolante em que não pode parar de produzir sobre a base das técnicas que conhece, pois sem isso não consegue sequer renegociar suas dívidas. Ao mesmo tempo, os impactos da crise climática, os custos e os danos ambientais provocados por estes insumos vão limitando seus ganhos.

Por mais que as exportações de commodities estejam baseadas em tecnologias avançadas, se elas não provarem que contribuem a preservar e regenerar serviços ecossistêmicos que, até aqui, o crescimento agropecuário tem destruído, elas perderão relevância. Zerar o desmatamento, nesse sentido, é ponto de partida e não de chegada. A ameaça à segurança alimentar não vem do risco de escassez produtiva. Vem de tecnologias das quais o Brasil é dependente, que oneram os custos de produção e têm impactos ambientais cada vez mais graves. Além disso, o que está em jogo são as infraestruturas de produção e distribuição voltadas a um produto sob o risco de ser oferecido muito além do que a demanda global pede.

O Brasil possui pesquisa e iniciativas que abrem caminho a métodos produtivos baseados no conhecimento de recursos locais, que valorizam os conhecimentos acumulados em cada território, descentralizam as bases tecnológicas da agropecuária e se apoiam naquilo que a ciência contemporânea tem produzido de melhor no que se refere ao estudo e ao uso da interação entre microorganismos, plantas, solos, fungos e animais. É o que mostram as apresentações feitas no seminário sobre a regulação de bioinsumos organizado pelo Instituto de Estudos Avançados da USP, pelo Instituto Biológico de São Paulo, pelo Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia “Superar a tríplice monotonia do sistema agroalimentar” e pelo Instituto Folio.

•        A crise global de alimentos – a situação nos EUA. Por William Murphy

Os Estados Unidos produzem uma abundância agrícola impressionante, ainda assim milhões permanecem em insegurança alimentar, comunidades rurais colapsam, doenças crônicas se espalham e alimentos frescos tornam-se cada vez mais inacessíveis. Isso não é uma falha de produtividade. É uma falha da economia política. A crise não é que a América não consegue alimentar seu povo. A crise é que a ditadura do capital organiza a produção de alimentos em torno da extração de lucro em vez da necessidade humana.

<><> A contradição no coração da agricultura norte-americana

O sistema alimentar americano moderno é frequentemente apresentado como o auge da eficiência industrial. Na realidade, trata-se de uma estrutura profundamente irracional, otimizada para a especulação de commodities, consolidação monopolista e retorno aos acionistas. O resultado é uma sociedade onde os alimentos estão por toda parte, mas a segurança nutricional se deteriora ano após ano.

Os Estados Unidos cultivam quantidades enormes de produtos agrícolas, mas grande parte dessa produção é subordinada a mercados de exportação, sistemas industriais de ração, fabricação de alimentos processados e cadeias agroindustriais financeirizadas. Regiões inteiras são transformadas em zonas de sacrifício de monocultura, enquanto comunidades da classe trabalhadora são inundadas com produtos ultraprocessados, projetados para a lucratividade em vez da saúde.

Essa contradição define o próprio capitalismo tardio: a abundância existe ao lado da privação porque a produção é organizada para o valor de troca em vez do valor de uso humano.

Um punhado de conglomerados corporativos domina sementes, fertilizantes, logística, processamento de carne, distribuição varejista e precificação de alimentos. Os próprios agricultores funcionam cada vez mais como subcontratados endividados, presos entre fornecedores monopolistas a montante e compradores monopolistas a jusante. Os consumidores pagam preços inflacionados enquanto as camadas intermediárias de capital extraem lucros em cada etapa da circulação.

Enquanto isso, os fundamentos ecológicos da agricultura continuam a se deteriorar. A degradação do solo acelera. Os aquíferos diminuem. A infraestrutura rural decai. A instabilidade climática se intensifica. O sistema consome o futuro para preservar os lucros trimestrais no presente.

<><> Agricultura vertical e o futuro da produção agrícola

A agricultura vertical surgiu como um dos desenvolvimentos tecnológicos mais reveladores do século XXI porque expõe tanto o enorme potencial produtivo da indústria moderna quanto as severas limitações impostas pelas relações sociais capitalistas.

A afirmação amplamente divulgada de que a agricultura vertical é “500 vezes mais eficiente” do que a agricultura convencional se refere principalmente à produtividade da terra. Ao empilhar culturas verticalmente e operar durante todo o ano sob condições controladas, as fazendas internas podem produzir rendimentos extraordinários por metro quadrado. Uma operação relativamente pequena em um armazém pode rivalizar com a produção anual de folhas verdes de dezenas ou até centenas de acres de terras agrícolas convencionais.

Isso representa um avanço tecnológico profundo. A humanidade agora possui a capacidade de condensar a produção agrícola em sistemas urbanos densos e controlados por clima, capazes de reduzir drasticamente o uso da terra, o consumo de água, a dependência de pesticidas e as distâncias de transporte.

Mas a tecnologia também revela uma contradição central.

A agricultura tradicional consome enormes recursos de terra e água, ao mesmo tempo em que depende da luz solar como seu principal insumo energético. A agricultura vertical reduz drasticamente a necessidade de terra, mas substitui a luz solar por sistemas de energia industrial: iluminação LED, controle climático, bombas, sensores, automação e infraestrutura de desumidificação. O resultado é um modelo de produção fortemente dependente de eletricidade abundante e acessível.

Aqui, a crise do capitalismo americano se torna impossível de ignorar.

A economia socialista dirigida pelo Estado na China possui vantagens estruturais que lhe permitem perseguir inovações agrícolas intensivas em energia em uma escala que as economias capitalistas liberais têm dificuldade de sustentar.

Nas últimas décadas, a China realizou uma das maiores expansões de infraestrutura da história humana, construindo uma enorme capacidade de geração nos setores hidrelétrico, nuclear, solar, eólico e de transmissão. Isso não foi simplesmente uma questão de competição de mercado. Foi um planejamento estatal de longo prazo coordenado, ligado a metas de desenvolvimento nacional.

Como resultado, a China está cada vez mais capaz de integrar: política energética, política industrial, planejamento urbano, segurança alimentar, desenvolvimento tecnológico e financiamento de infraestrutura dentro de um quadro estratégico unificado.

Os Estados Unidos, por outro lado, operam por meio de sistemas de utilidades privadas fragmentados, mercados de energia desregulamentados, estruturas financeiras especulativas e pressões de curto prazo dos acionistas. Empresas de agricultura vertical nos EUA frequentemente enfrentam preços de eletricidade voláteis, altos custos de empréstimos, imóveis urbanos caros e demandas de investidores por lucratividade rápida. Muitas startups fortemente promovidas entraram em colapso quando os preços da energia aumentaram e o capital barato desapareceu.

Em outras palavras, o modelo tecnológico funcionava, mas o modelo de acumulação capitalista ao seu redor falhou.

Essa distinção é crítica. Sob o capitalismo, espera-se que a infraestrutura gere retornos privados rápidos. Sob uma estrutura de desenvolvimento socialista, a infraestrutura pode ser avaliada de acordo com a utilidade social de longo prazo, a resiliência nacional e a necessidade estratégica.

Um sistema alimentar verticalmente integrado pode não maximizar os lucros trimestrais, mas pode fortalecer a soberania alimentar, estabilizar os preços, conservar água, reduzir a destruição ecológica e aumentar a resiliência contra os choques climáticos. Estes são objetivos sociais racionais, mesmo que não maximizem imediatamente o valor para os acionistas.

<><> O sistema alimentar norte-americano é estruturalmente irracional

Os Estados Unidos não precisam apenas de reforma agrícola. Eles precisam de uma nova concepção do próprio alimento.

Sob o capitalismo, o alimento é tratado primeiramente como uma mercadoria e apenas secundariamente como uma necessidade humana. Essa inversão gera resultados absurdos. Cultivos são destruídos para estabilizar preços enquanto milhões lutam para comprar mantimentos. Especuladores lucram com futuros alimentares enquanto famílias trabalhadoras racionam refeições. Quantidades enormes de alimentos comestíveis são descartadas porque a distribuição de acordo com a necessidade é menos lucrativa do que a precificação baseada na escassez.

O mesmo sistema que pode desenvolver cadeias logísticas altamente sofisticadas, capazes de mover commodities através de continentes, não consegue garantir acesso universal a uma nutrição saudável.

Isto não é uma falha tecnológica. É o domínio de uma classe.

Um sistema agrícola racional priorizaria a restauração do solo, redes de produção regional, sistemas de estufas urbanas, agricultura em ambiente controlado movida por energia renovável, infraestrutura alimentar pública e acesso nutricional universal. Ele trataria a comida saudável não como uma mercadoria de luxo, mas como um direito social fundamental.

As tecnologias já existem. A capacidade produtiva já existe. O conhecimento científico já existe. O que não existe é uma estrutura político-econômica disposta a subordinar o acúmulo privado ao desenvolvimento humano coletivo.

O futuro da agricultura dependerá cada vez mais da integração de sistemas de energia, automação, planejamento ecológico e infraestrutura urbana. A questão não é se sistemas agrícolas avançados podem ser construídos. A questão é quem os possuirá e para benefício de quem operarão.

Sob o capitalismo monopolista, a agricultura vertical corre o risco de se tornar mais um mecanismo de cercamento corporativo, controlado por monopólios de agritech, finanças especulativas e conglomerados privados de infraestrutura. Sob o socialismo, as mesmas tecnologias poderiam fazer parte de um sistema alimentar público planejado democraticamente, orientado para a sustentabilidade, resiliência e o florescimento humano universal.

Essa é a lição essencial. A crise que os Estados Unidos enfrentam não é a falta de inovação. É a subordinação da inovação à acumulação de capital.

A América possui a capacidade científica para construir um sistema alimentar resiliente, ecologicamente sustentável e tecnologicamente avançado. Mas a ditadura do capital transforma toda necessidade humana em um local de extração.

O resultado é abundância sem segurança, produtividade sem saúde e sofisticação tecnológica sem planejamento social racional.

A luta pela alimentação, portanto, não é meramente agrícola. É política. É econômica. É civilizacional. E, cada vez mais, é uma luta sobre se a produção humana permanecerá subordinada ao lucro ou finalmente será reorganizada em torno da necessidade humana.

 

Fonte: Outras Palavras/A Terra é Redonda

 

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