quarta-feira, 27 de maio de 2026

O fim da escala 6×1 e o escravismo hipertardio

O senhorzinho Tarcísio Gomes de Freitas, financiado em sua empreitada pelo mui respeitado presidiário Vorcaro e seu banco Master, disse que não se pode cuidar do trabalhador sem cuidar do empregador, que sofre com as mazelas da dura perseguição governamental. Não por outro motivo que não a mais alta preocupação com os pilares da pátria, abençoada pelo Senhor nosso Deus e majestosa por natureza por Ele também criada, os ocupantes da Casa de Leniência Parlamentar encrustada no centro da nação apresentaram iniciativas contra a ameaça das forças demoníacas que querem acabar com a escala 6×1, privando os cidadãos daquilo que lhes é mais caro, ou seja, o trabalho.

Diante do clamor do populacho, embriagado pela preguiça herdada da raça, que anseia por menos trabalho para se dedicar ao ócio, ao pecado e a libertinagem, os reais representantes do povo apresentaram certas medidas para, pelo menos, mitigar a inevitável agressão aos pobres empresários diminuindo a riqueza da pátria e, consequentemente, a parte que cabe a cada uma das forças vivas da nação como seu quinhão, doado em troca de favores e mesmo na produção de peças cinematográficas de irrefutável qualidade.

São exemplos de tais iniciativas a proposta de um prazo razoável para a implementação do fim da escala 6×1 de dez anos, ainda que radicais tentem diminuir em cinco anos o período para tal implantação. Como parece inevitável tal retrocesso nas amistosas relações de trabalho, fundadas não em outra coisa senão no caráter benévolo do patronato e no efeito de séculos de miscigenação racial, que diluiu a raiva e fúria irracional de negros e índios bravios, se fazem necessárias certas medidas de compensação àqueles que venham a ser atingidos por tal dispositivo legal, ainda que ilegítimo.

Entre as compensações possíveis, os parlamentares pensaram em isentar os empresários de custos como o INSS ou tributos. Tudo a fim de, pelo menos, amenizar os graves sofrimentos que advirão à dura noite de privações que os empregadores terão que enfrentar diante da perda da companhia daqueles que mais amam, seus queridos trabalhadores, por um dia inteiro que antes lhes pertencia. A medida mais interessante, no entanto, vem da proposta do digno relator da Proposta de Emenda à Constituição: ele sugere que, durante este curto período de transição de cinco ou dez anos, as horas extras necessárias para manter os negócios diante da execrável afronta às liberdades constituídas não sejam acrescidas de nenhum valor, mas pagas como as horas normais que são e sempre foram, como medidas de tempo que Nosso Senhor, em sua sapiência, estabeleceu como medida do valor da alma do homem.

Apenas com o intuito de contribuir com esta santa e patriótica iniciativa de nossos representantes, que se lançam de peito aberto contra as espadas da iniquidade das forças das trevas que se encastelaram no bastião maior da nação, é que ouso apresentar algumas sugestões para que a inevitável tragédia do fim da escala 6×1 amenize os sofrimentos das castas que empreendem e, assim fazendo, engrandecem a Nação.

Uma vez que interrompeu-se o fornecimento de braços selvagens vindos da longínqua África, numa flagrante afronta ao direito de ir e vir e do livre comércio, forçando-nos a contar apenas com a natural e insaciável sexualidade do povo para a produção de crias, podemos propor, como regra de transição, que o fim da  escala 6×1 passe a valer imediatamente apenas para aqueles que a partir da promulgação da lei venham a nascer, ganhando, assim, desde que do ventre se livrem, um dia a mais em sua semana.

No mesmo espírito cristão e humanitário, propomos que, da mesma forma, seja permitido um dia a menos de trabalho àqueles que alcancem a idade de 60 anos, com 35 anos de devida contribuição para homens e 30 para mulheres, para que possam usufruir plenamente de sua vida junto aos membros da família que não estiverem trabalhando.

Finalmente, vencido o período de prudente transição de dez anos, certamente reestabelecida a Monarquia, ou mesmo, se sorte tivermos, estando elevados à condição de Reino Unido aos Estados Unidos, que a princesa Laura Firmo Bolsonaro, em nome do mítico pai (que ainda se encontraria preso faltando-lhe cumprir 17 anos de sua injusta sentença) e de seus virtuosos irmãos – infelizmente envoltos em calúnias e mentiras –, assim como de sua cristianíssima evangélica mãe, a rainha Michelle de Paula Firmo Reinaldo Bolsonaro, possa proclamar no dia 13 de maio do ano de Nosso Senhor de 2036 a abolição da escala 6×1, para a grandeza da Pátria e de Deus.

Todos os trabalhadores libertos, os jovens nascidos livres e os sexagenários, então com 70 anos, irão às praças e ruas saudar a princesinha nascida de uma fraquejada, festejando por dois dias, depois dos quais deverão retornar às senzalas e canaviais modernos oferencendo de bom grado sua força de trabalho por longos cinco dias por semana, até que alcancem a idade que a nova reforma da previdência estabelecerá para que possam, enfim, morrer ao lado da família – se não for no meio da semana

•        Você sabia que a greve da Unicamp luta pelo fim da escala 6x1 para os trabalhadores terceirizados?

A reitoria da Unicamp adora falar de “valores democráticos”, mas a verdade é que convive muito bem com a brutalidade da precarização do trabalho terceirizado. São inúmeras denúncias de assédio moral, doenças adquiridas no trabalho, acidente e até morte de trabalhadoras. Salários extremamente baixos, sem direitos a utilizar o serviço de saúde (CECOM) e de creche da universidade e ainda escala 6x1, a jornada de trabalho que é amplamente odiada e questionada pelos trabalhadores no Brasil e que vai à votação essa semana. Você sabia que a greve da Unicamp luta pelo fim da escala 6x1 e por todos os direitos para os trabalhadores terceirizados?

No mundo do trabalho existe uma enorme fragmentação chamada de terceirização, um mecanismo capitalista para dividir a classe trabalhadora, aumentar a exploração do trabalho e o lucro para as empresas. Esse mecanismo veio sendo ampliado cada vez mais no Brasil desde os governos FHC, sendo triplicado nos governos de Lula e Dilma e avançando cada vez mais com o golpe institucional de 2016 e com o governo Bolsonaro.

Hoje a terceirização é amplamente utilizada nos serviços públicos, garantindo não só os serviços de limpeza e alimentação, mas também atividades como os serviços administrativos nas universidades. As últimas reitorias da Unicamp, apoiadas nos governos estaduais, vieram aumentando exponencialmente a terceirização, como Tom Zé e agora Cesinha. O projeto de autarquização do complexo hospitalar da Unicamp, por exemplo, vai abrir mais espaço para que os serviços possam ser geridos por empresas privadas e assim precarizar o serviço para a população e o trabalho.

Um exemplo da luta contra essa precarização é dos próprios trabalhadores terceirizados, como na ONET no ano passado, que protagonizaram uma forte greve. Uma das reivindicações desses trabalhadores, que representam a categoria de construção civil e manutenção predial da universidade, era justamente o fim da escala 6x1. Luta que foi fortemente apoiada pelos estudantes da Faísca Revolucionária e pelo Movimento Nossa Classe, isso porque essa luta não diz respeito apenas a estes trabalhadores, mas sim ao conjunto da classe trabalhadora que vem deixando suas vidas diante de tamanha precarização e das escalas extenuantes.

A greve de estudantes da Unicamp hoje luta também contra a precarização do bandejão, onde os estudantes encontram larvas na comida, justamente como efeito da terceirização, onde a alimentação é pautada pelo lucro das empresas e não pela qualidade. A greve dos trabalhadores luta contra o arrocho e pela recomposição das perdas salariais junto com a luta contra a autarquização do hospital, todas essas pautas se ligam a luta contra a terceirização do trabalho e por isso incorporaram na sua carta de reivindicações, a partir de proposta do Comitê em Defesa das Tercerizadas (CDT), o fim da escala 6x1 aos trabalhadores terceirizados, e o direito à creche e ao serviço de saúde interno da universidade, o CECOM.

Imaginem que um trabalhadora terceirizada que demora mais de 2 horas de transporte para chegar na Unicamp não tem o direito de usar o serviço de creche para deixar seu filho enquanto trabalha e se tiver algum problema de saúde não pode usar o serviço interno de saúde da universidade. Essa é a Unicamp democrática da reitoria e de Tarcísio. Para as empresas suas portas estão abertas, para os trabalhadores é precarização e uma brutal segregação social e racial, já que a maioria dos terceirizados são mulheres negras.

Por isso, é preciso o mais amplo apoio à greve da Unicamp, que se insere num contexto de greves dos estudantes das universidades estaduais contra Tarcísio e as reitorias, e que luta pelo fim dessa escala 6x1, que nacionalmente é preciso impor o seu fim imediato, sem regra de transição ou compensação para os que já lucraram a vida inteira com essa jornada. Não vamos aceitar nenhuma negociação desse direito e mais do que nunca é preciso que as entidades sindicais (CUT, CTB), e estudantis (UNE), chame uma greve geral para enterrar de vez essa escala.

A luta por esses direitos deve ser conectada a enfrentar de vez a terceirização, que mata, humilha e divide, e por isso, é preciso avançar para a defesa da efetivação de todos os atuais terceirizados, sem necessidade de concurso público, e com abertura de concursos para suprir a demanda, programa hoje defendido pelo Comitê em Defesa das Terceirizadas, um importante exemplo de solidariedade ativa de estudantes e trabalhadores efetivos com os terceirizados. Uma só classe, uma só luta!

 

Fonte: Por Mauro Luis Iasi, no Blog da Boitempo/Esquerda Diário

 

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