O
fim da escala 6×1 e o escravismo hipertardio
O
senhorzinho Tarcísio Gomes de Freitas, financiado em sua empreitada pelo mui
respeitado presidiário Vorcaro e seu banco Master, disse que não se pode cuidar
do trabalhador sem cuidar do empregador, que sofre com as mazelas da dura
perseguição governamental. Não por outro motivo que não a mais alta preocupação
com os pilares da pátria, abençoada pelo Senhor nosso Deus e majestosa por
natureza por Ele também criada, os ocupantes da Casa de Leniência Parlamentar
encrustada no centro da nação apresentaram iniciativas contra a ameaça das
forças demoníacas que querem acabar com a escala 6×1, privando os cidadãos
daquilo que lhes é mais caro, ou seja, o trabalho.
Diante
do clamor do populacho, embriagado pela preguiça herdada da raça, que anseia
por menos trabalho para se dedicar ao ócio, ao pecado e a libertinagem, os
reais representantes do povo apresentaram certas medidas para, pelo menos,
mitigar a inevitável agressão aos pobres empresários diminuindo a riqueza da
pátria e, consequentemente, a parte que cabe a cada uma das forças vivas da
nação como seu quinhão, doado em troca de favores e mesmo na produção de peças
cinematográficas de irrefutável qualidade.
São
exemplos de tais iniciativas a proposta de um prazo razoável para a
implementação do fim da escala 6×1 de dez anos, ainda que radicais tentem
diminuir em cinco anos o período para tal implantação. Como parece inevitável
tal retrocesso nas amistosas relações de trabalho, fundadas não em outra coisa
senão no caráter benévolo do patronato e no efeito de séculos de miscigenação
racial, que diluiu a raiva e fúria irracional de negros e índios bravios, se
fazem necessárias certas medidas de compensação àqueles que venham a ser
atingidos por tal dispositivo legal, ainda que ilegítimo.
Entre
as compensações possíveis, os parlamentares pensaram em isentar os empresários
de custos como o INSS ou tributos. Tudo a fim de, pelo menos, amenizar os
graves sofrimentos que advirão à dura noite de privações que os empregadores
terão que enfrentar diante da perda da companhia daqueles que mais amam, seus
queridos trabalhadores, por um dia inteiro que antes lhes pertencia. A medida
mais interessante, no entanto, vem da proposta do digno relator da Proposta de
Emenda à Constituição: ele sugere que, durante este curto período de transição
de cinco ou dez anos, as horas extras necessárias para manter os negócios
diante da execrável afronta às liberdades constituídas não sejam acrescidas de
nenhum valor, mas pagas como as horas normais que são e sempre foram, como
medidas de tempo que Nosso Senhor, em sua sapiência, estabeleceu como medida do
valor da alma do homem.
Apenas
com o intuito de contribuir com esta santa e patriótica iniciativa de nossos
representantes, que se lançam de peito aberto contra as espadas da iniquidade
das forças das trevas que se encastelaram no bastião maior da nação, é que ouso
apresentar algumas sugestões para que a inevitável tragédia do fim da escala
6×1 amenize os sofrimentos das castas que empreendem e, assim fazendo,
engrandecem a Nação.
Uma vez
que interrompeu-se o fornecimento de braços selvagens vindos da longínqua
África, numa flagrante afronta ao direito de ir e vir e do livre comércio,
forçando-nos a contar apenas com a natural e insaciável sexualidade do povo
para a produção de crias, podemos propor, como regra de transição, que o fim
da escala 6×1 passe a valer
imediatamente apenas para aqueles que a partir da promulgação da lei venham a
nascer, ganhando, assim, desde que do ventre se livrem, um dia a mais em sua
semana.
No
mesmo espírito cristão e humanitário, propomos que, da mesma forma, seja
permitido um dia a menos de trabalho àqueles que alcancem a idade de 60 anos,
com 35 anos de devida contribuição para homens e 30 para mulheres, para que
possam usufruir plenamente de sua vida junto aos membros da família que não
estiverem trabalhando.
Finalmente,
vencido o período de prudente transição de dez anos, certamente reestabelecida
a Monarquia, ou mesmo, se sorte tivermos, estando elevados à condição de Reino
Unido aos Estados Unidos, que a princesa Laura Firmo Bolsonaro, em nome do
mítico pai (que ainda se encontraria preso faltando-lhe cumprir 17 anos de sua
injusta sentença) e de seus virtuosos irmãos – infelizmente envoltos em
calúnias e mentiras –, assim como de sua cristianíssima evangélica mãe, a
rainha Michelle de Paula Firmo Reinaldo Bolsonaro, possa proclamar no dia 13 de
maio do ano de Nosso Senhor de 2036 a abolição da escala 6×1, para a grandeza
da Pátria e de Deus.
Todos
os trabalhadores libertos, os jovens nascidos livres e os sexagenários, então
com 70 anos, irão às praças e ruas saudar a princesinha nascida de uma
fraquejada, festejando por dois dias, depois dos quais deverão retornar às
senzalas e canaviais modernos oferencendo de bom grado sua força de trabalho
por longos cinco dias por semana, até que alcancem a idade que a nova reforma
da previdência estabelecerá para que possam, enfim, morrer ao lado da família –
se não for no meio da semana
• Você sabia que a greve da Unicamp luta
pelo fim da escala 6x1 para os trabalhadores terceirizados?
A
reitoria da Unicamp adora falar de “valores democráticos”, mas a verdade é que
convive muito bem com a brutalidade da precarização do trabalho terceirizado.
São inúmeras denúncias de assédio moral, doenças adquiridas no trabalho,
acidente e até morte de trabalhadoras. Salários extremamente baixos, sem
direitos a utilizar o serviço de saúde (CECOM) e de creche da universidade e
ainda escala 6x1, a jornada de trabalho que é amplamente odiada e questionada
pelos trabalhadores no Brasil e que vai à votação essa semana. Você sabia que a
greve da Unicamp luta pelo fim da escala 6x1 e por todos os direitos para os
trabalhadores terceirizados?
No
mundo do trabalho existe uma enorme fragmentação chamada de terceirização, um
mecanismo capitalista para dividir a classe trabalhadora, aumentar a exploração
do trabalho e o lucro para as empresas. Esse mecanismo veio sendo ampliado cada
vez mais no Brasil desde os governos FHC, sendo triplicado nos governos de Lula
e Dilma e avançando cada vez mais com o golpe institucional de 2016 e com o
governo Bolsonaro.
Hoje a
terceirização é amplamente utilizada nos serviços públicos, garantindo não só
os serviços de limpeza e alimentação, mas também atividades como os serviços
administrativos nas universidades. As últimas reitorias da Unicamp, apoiadas
nos governos estaduais, vieram aumentando exponencialmente a terceirização,
como Tom Zé e agora Cesinha. O projeto de autarquização do complexo hospitalar
da Unicamp, por exemplo, vai abrir mais espaço para que os serviços possam ser
geridos por empresas privadas e assim precarizar o serviço para a população e o
trabalho.
Um
exemplo da luta contra essa precarização é dos próprios trabalhadores
terceirizados, como na ONET no ano passado, que protagonizaram uma forte greve.
Uma das reivindicações desses trabalhadores, que representam a categoria de
construção civil e manutenção predial da universidade, era justamente o fim da
escala 6x1. Luta que foi fortemente apoiada pelos estudantes da Faísca
Revolucionária e pelo Movimento Nossa Classe, isso porque essa luta não diz
respeito apenas a estes trabalhadores, mas sim ao conjunto da classe
trabalhadora que vem deixando suas vidas diante de tamanha precarização e das
escalas extenuantes.
A greve
de estudantes da Unicamp hoje luta também contra a precarização do bandejão,
onde os estudantes encontram larvas na comida, justamente como efeito da
terceirização, onde a alimentação é pautada pelo lucro das empresas e não pela
qualidade. A greve dos trabalhadores luta contra o arrocho e pela recomposição
das perdas salariais junto com a luta contra a autarquização do hospital, todas
essas pautas se ligam a luta contra a terceirização do trabalho e por isso
incorporaram na sua carta de reivindicações, a partir de proposta do Comitê em
Defesa das Tercerizadas (CDT), o fim da escala 6x1 aos trabalhadores
terceirizados, e o direito à creche e ao serviço de saúde interno da
universidade, o CECOM.
Imaginem
que um trabalhadora terceirizada que demora mais de 2 horas de transporte para
chegar na Unicamp não tem o direito de usar o serviço de creche para deixar seu
filho enquanto trabalha e se tiver algum problema de saúde não pode usar o
serviço interno de saúde da universidade. Essa é a Unicamp democrática da
reitoria e de Tarcísio. Para as empresas suas portas estão abertas, para os
trabalhadores é precarização e uma brutal segregação social e racial, já que a
maioria dos terceirizados são mulheres negras.
Por
isso, é preciso o mais amplo apoio à greve da Unicamp, que se insere num
contexto de greves dos estudantes das universidades estaduais contra Tarcísio e
as reitorias, e que luta pelo fim dessa escala 6x1, que nacionalmente é preciso
impor o seu fim imediato, sem regra de transição ou compensação para os que já
lucraram a vida inteira com essa jornada. Não vamos aceitar nenhuma negociação
desse direito e mais do que nunca é preciso que as entidades sindicais (CUT,
CTB), e estudantis (UNE), chame uma greve geral para enterrar de vez essa
escala.
A luta
por esses direitos deve ser conectada a enfrentar de vez a terceirização, que
mata, humilha e divide, e por isso, é preciso avançar para a defesa da
efetivação de todos os atuais terceirizados, sem necessidade de concurso
público, e com abertura de concursos para suprir a demanda, programa hoje
defendido pelo Comitê em Defesa das Terceirizadas, um importante exemplo de
solidariedade ativa de estudantes e trabalhadores efetivos com os
terceirizados. Uma só classe, uma só luta!
Fonte:
Por Mauro Luis Iasi, no Blog da Boitempo/Esquerda Diário

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