O
nascimento de uma alucinação
Esta é
uma crítica de um filme que ninguém ainda assistiu, mas já deixou sua marca na
história brasileira: Dark Horse – ou “Azarão” –, filme em inglês estrelado pelo
ator americano Jim Caviezel – ironicamente famoso pelo papel de Jesus, no
controverso A paixão de Cristo de Mel Gibson –, agora interpreta ninguém menos
que Jair Messias Bolsonaro, em uma narrativa épica sobre sua trajetória.
A
cinebiografia romanceada, e absolutamente kitsch, retornou à realidade como um
bumerangue e, antes mesmo de estrear, já é um escândalo por ter sido financiada
com dinheiro do Banco Master – instituição protagonista da pior fraude bancária
da história brasileira. Ainda, o filme parece ser pretexto para arrecadação de
fundos para outros fins, desde financiamento ilegal de campanha à ação política
da família Bolsonaro.
Além do
financiamento do Master, um banco que cresceu fazendo operações financeiras
ilegais no governo do próprio Bolsonaro, a ONG da produtora do filme recebeu
verbas públicas da prefeitura de São Paulo mediante uma operação no mínimo
suspeita que está sendo investigada pelo Ministério Público – e Dark Horse já é
mais caro do que muitos filmes premiados, embora as primeiras imagens dele
sejam dignas de troféu framboesa.
Mas
essa é a parte policial do filme, que o torna tanto mais uma obra de facção, no
entanto, é devida uma análise política da produção cinematográfica enquanto um
fenômeno mais amplo. O cinema não é só sobre os filmes que assistimos. O
crítico cultural Fredric Jameson colocou na ordem do dia do marxismo refletir
sobre a produção contemporânea, mesmo do que consideramos lixo ou vulgar.
Nesse
sentido, desconsiderando a assimetria técnica, há um paralelo possível entre
Dark Horse e O nascimento de uma nação [The Birth of a Nation], obra de D. W.
Griffith datada do distante ano de 1915, clássico do cinema americano e, ao
mesmo tempo, fundador da contemporânea subjetividade racista americana – que
tanto vai influenciar os fascismos europeus. Mas sob todos os sentidos
possíveis, não é uma nação que nasce aqui, e sim uma alucinação política como
dispositivo sistêmico de poder.
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O cinema como formador da subjetividade política – e aqui também
Neste
caso, para futuros pesquisadores que vão estudar nosso tempo, Dark Horse será
um importante documento para compreender a subjetividade do bolsonarismo,
quando o último tiozão do zap tiver o mesmo fim dos dinossauros – e, oxalá, um
futuro socialista faça esse quadrante da história parecer uma alucinação
coletiva, com os jovens duvidando de que tudo isso realmente aconteceu um dia.
O
nascimento de uma nação, de 1915, é um grande exemplo do que Marc Ferro chamava
de cinema como agente da história. Para além das inovações técnicas
incontornáveis para a história do cinema, a obra foi uma importante ferramenta
política de recrutamento pelo Ku Klux Klan, mobilizando sentimentos de medo e
ódio contra a população negra apresentada como desumana, perigosa e matável.
Nada do
filme era real, mas seu impacto cultural ajudou a derramar muito sangue. A
qualidade técnica do filme não foi mobilizada pelo amor à arte, mas pela
eficiência narrativa em tocar na subjetividade dos trabalhadores brancos,
fazendo-os se sentirem mais do que espectadores de um filme, mas personagens de
uma luta muito maior, orientada pela construção de uma nação pautada pela
pureza racial.
Como
certa vez disse o reverendo Martin Luther King Jr:
A
aristocracia sulista conquistou o mundo e ofereceu Jim Crow ao branco pobre.
Ela ofereceu Jim Crow, e quando o seu estômago vazio gritava pela comida que os
seus bolsos vazios não podiam pagar, devorou Jim Crow, um passarinho que lhe
contou que, na pior das circunstâncias, ao menos tinha ela a sorte de ser
branca, e não negra.
No caso
em questão, Dark Horse é irremediavelmente tosco, mas sua construção ressalta o
cinema enquanto elemento construtor de imaginário e agente direto da História –
normalmente, a sétima arte opera de modo indireto, por vezes sutil, mas sempre
muito poderoso como fator que nos permite imaginar o que é a guerra ou o amor.
O
trailer de Dark Horse deixa claro que ambos os filmes têm como o medo o maior
aliado. A caricatura do negro é substituiída pela caricatura do comunista,
sendo que em ambos os casos, estes são apresentados com uma força
desproporcional para transformar sentimentos de frustração consigo em ódio
contra o outro – e precisa ser assim para justificar, ainda que de maneira
falsa, a violência extremista.
O
inimigo é apresentado como uma força impessoal, dotada de um poder
superestimado, de modo que a violência a ser dirigida contra ele deve ser
proporcional a um poder que corresponde à imaginação. O uso do termo sistema
nesse tipo de narrativa é propositalmente poroso, de modo que sempre poderá ser
preenchido conforme a necessidade da conjuntura da vez. O herói de O nascimento
de uma nação é um cavaleiro branco.
Outro
paralelo interessante, e pelas avessas, como O nascimento de uma nação é o
elemento racial, embora isso não apareça de forma tão óbvia, mas como
metanarrativa – a exemplo de quase tudo nesse futuro filme. Bolsonaro aparece
representado por um ator americano branco, o que é o ápice da representação
cinematográfica do bolsonarismo.
De
certa forma, o bolsonarismo incute uma narrativa de supremacia branca
brasileira, ainda que mascarada por necessidades táticas óbvias em um país como
um Brasil. Do outro lado, a branquitude brasileira aparece como uma aliança com
seu equivalente americano, muito embora o sentido de branquitude americana seja
muito mais restritiva que a brasileira.
Enquanto
a branquitude americana descarta a herança fenotipicamente branca da Europa
latina, salvo os franceses, a brasileira exalta qualquer coisa fenotipicamente
branca. O exemplo é o próprio Bolsonaro, um brasileiro de origem italiana, que
jamais seria um branco, mas um ítalo-americano no imaginário do país de Jim
Caviezel – este um “branco” [white] dentro dos padrões do seu país.
Caviezel
representou o personagem como uma espécie de missão realizada por um bom
soldado nas bordas do mundo conhecido – com direito a ter paranoia com a famosa
cena da facada, o atentado supostamente sofrido por Bolsonaro às vésperas da
eleição de 2018, ou exigindo um plano de fuga do Brasil enquanto Trump ameaçava
a Venezuela. A vida imitou a arte.
A trama
repete A paixão de Cristo com a história de Bolsonaro sendo representada como o
périplo de um herói sacrificial, mas o realismo cruento – e tecnicamente
executado – da película de Mel Gibson é invertido em uma estética vulgar,
risível e involuntariamente cômica – na qual o penteado do próprio protagonismo
parece o de um personagem cômico como o Beiçola de A grande família.
Essa
tragicomédia estética não é crise, mas projeto, porque seu ridículo serve como
representatividade para a plateia à qual diz respeito, cujo sentimento de
inferioridade a faz se sentir bem diante de um afirmado líder que não a faça
parecer cafona, mal-vestida ou burra – justamente por se apresentar dessa
forma, e ter orgulho disso, um fenômeno com óbvias dimensões perversas.
Tampouco
os nacionalistas brasileiros se sentem americanos, mas buscam uma aliança com
os white americans em uma relação sadomasoquista na qual os sulamericanos
lusófonos entram no pólo que apanha – mas apanhar aqui significa continuar
batendo em dobro na população mestiça, negra e/ou indígena que constitui sua
base social e cuja potência e criatividade a estabelece como um Atlas
sustentando o Brasil.
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A pós-realidade cinematográfica
Opremiado
cineasta Kleber Mendonça Filho anotou a ironia que foi a família Bolsonaro
usar, precisamente, um filme como veículo de autopromoção – justamente eles,
que sabotaram a cultura nacional e a própria produção audiovisual quando Jair,
seu patriarca, ocupou a presidência de maneira tragicômica. Mas isso não parece
aleatório ou surpreendente.
Fazer
um filme “nacional”, mas ele próprio na língua, padrão e com elenco americano
é, precisamente, a continuidade desse mesmo projeto, talvez agravado ao
quadrado. Bolsonaro, anos antes, foi eleito como um presidente-tampão, enquanto
parte de seus aderentes somente esperavam como uma solução temporária contra as
esquerdas, mas ele mesmo desejava virar uma espécie de ditador flácido.
Enquanto
se fala em pós-verdade como elemento explicativo para o que temos no tempo
atual, o bolsonarismo é uma expressão da criatividade brasileira e avança
enquanto pós-realidade: na qual não é apenas a verdade que não importa, mas o
que é verificável enquanto existente, em uma troça com não só com nossos
valores, mas com nossa percepção.
O
bolsonarismo aparece disposto não só a vilipendiar e subverter o que a
sociedade acha correto – ou suas indignações justas embora sem direcionamento
–, mas vai além ao trair o que seu intelecto capta: um suposto filme de
resistência, que poderia ser uma obra autolaudatória, vira meio irregular de
arrecadação de fundos por meio do qual a agitação e propaganda é, ela mesma,
traída em prol de objetivos estratégicos.
Só que
aquilo que parecia ser a surpreendente – e ousada – operacionalização de uma
autopromoção, que já seria escandalosa, é ela também metanarrativa de uso dessa
obra, uma vez que esse autoelogio é real enquanto mentira – e potencializa,
para o escândalo dos incautos, um escândalo financeiro que só foi possível pela
atuação do governo Bolsonaro; o Banco Master só foi possível por ações e
omissões estatais.
Há quem
compare, como faz Gregório Duvivier, o filme atual com o Primavera para Hitler
[The Producers], clássico de 1967 de Mel Brooks, no qual uma obra feita para o
fracasso por seu conteúdo absurdo, mas acaba se tornando um sucesso
involuntário: aqui é muito pior, porque o fracasso puro é a matéria-prima que
faz o bolsonarismo funcionar e avançar na sua estética e política.
No
entanto, a esperança que resta é que muitas vezes a blitz semiótica
bolsonarista exagera na dose e se autossabota, seja como foi na vandalização de
Brasília no 08 de janeiro, seja agora. O vazamento dos áudios indecorosos de
Flávio Bolsonaro com o banqueiro, e hoje presidiário, Vorcaro colocam em
curto-circuito a moralidade mais do que hipócrita sobre a qual se assenta o
neofascismo.
Ao não
ser capaz de parecer honesto – sendo que ninguém achava ou esperava que ele
fosse –, Flávio Bolsonaro termina condenado por ser fraco, algo que importa
para o bolsonarismo. Isso revela coisas interessantes: o bolsonarismo não é
sobre parecer honesto sem ser, mas sobre ser capaz de gerir uma moralidade que
deve servir apenas para os outros, sem jamais submeter o moralizador – um
fetiche absolutista, convenhamos: estar acima e, ao mesmo tempo, fora da ordem
que governa.
Dark
Horse pode nunca vir a ser exibido, mas a existência de seu projeto já é
histórica e, ironicamente, terá de constar como parte de um filme sério que,
quem sabe algum dia, se faça a respeito do bolsonarismo. Assim, a análise do
seu roteiro e suas primeiras imagens nos ajudam a entender o bolsonarismo, que
só pode ser compreendido – e derrotado – ao percebermos que ele ignora os
marcos estabelicodos da verdade e da realidade.
Fonte:
Por Hugo Albuquerque e James Hermínio Porto, em Jacobin Brasil

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