quarta-feira, 27 de maio de 2026

O nascimento de uma alucinação

Esta é uma crítica de um filme que ninguém ainda assistiu, mas já deixou sua marca na história brasileira: Dark Horse – ou “Azarão” –, filme em inglês estrelado pelo ator americano Jim Caviezel – ironicamente famoso pelo papel de Jesus, no controverso A paixão de Cristo de Mel Gibson –, agora interpreta ninguém menos que Jair Messias Bolsonaro, em uma narrativa épica sobre sua trajetória.

A cinebiografia romanceada, e absolutamente kitsch, retornou à realidade como um bumerangue e, antes mesmo de estrear, já é um escândalo por ter sido financiada com dinheiro do Banco Master – instituição protagonista da pior fraude bancária da história brasileira. Ainda, o filme parece ser pretexto para arrecadação de fundos para outros fins, desde financiamento ilegal de campanha à ação política da família Bolsonaro.

Além do financiamento do Master, um banco que cresceu fazendo operações financeiras ilegais no governo do próprio Bolsonaro, a ONG da produtora do filme recebeu verbas públicas da prefeitura de São Paulo mediante uma operação no mínimo suspeita que está sendo investigada pelo Ministério Público – e Dark Horse já é mais caro do que muitos filmes premiados, embora as primeiras imagens dele sejam dignas de troféu framboesa.

Mas essa é a parte policial do filme, que o torna tanto mais uma obra de facção, no entanto, é devida uma análise política da produção cinematográfica enquanto um fenômeno mais amplo. O cinema não é só sobre os filmes que assistimos. O crítico cultural Fredric Jameson colocou na ordem do dia do marxismo refletir sobre a produção contemporânea, mesmo do que consideramos lixo ou vulgar.

Nesse sentido, desconsiderando a assimetria técnica, há um paralelo possível entre Dark Horse e O nascimento de uma nação [The Birth of a Nation], obra de D. W. Griffith datada do distante ano de 1915, clássico do cinema americano e, ao mesmo tempo, fundador da contemporânea subjetividade racista americana – que tanto vai influenciar os fascismos europeus. Mas sob todos os sentidos possíveis, não é uma nação que nasce aqui, e sim uma alucinação política como dispositivo sistêmico de poder.

<><> O cinema como formador da subjetividade política – e aqui também

Neste caso, para futuros pesquisadores que vão estudar nosso tempo, Dark Horse será um importante documento para compreender a subjetividade do bolsonarismo, quando o último tiozão do zap tiver o mesmo fim dos dinossauros – e, oxalá, um futuro socialista faça esse quadrante da história parecer uma alucinação coletiva, com os jovens duvidando de que tudo isso realmente aconteceu um dia.

O nascimento de uma nação, de 1915, é um grande exemplo do que Marc Ferro chamava de cinema como agente da história. Para além das inovações técnicas incontornáveis para a história do cinema, a obra foi uma importante ferramenta política de recrutamento pelo Ku Klux Klan, mobilizando sentimentos de medo e ódio contra a população negra apresentada como desumana, perigosa e matável.

Nada do filme era real, mas seu impacto cultural ajudou a derramar muito sangue. A qualidade técnica do filme não foi mobilizada pelo amor à arte, mas pela eficiência narrativa em tocar na subjetividade dos trabalhadores brancos, fazendo-os se sentirem mais do que espectadores de um filme, mas personagens de uma luta muito maior, orientada pela construção de uma nação pautada pela pureza racial.

Como certa vez disse o reverendo Martin Luther King Jr:

A aristocracia sulista conquistou o mundo e ofereceu Jim Crow ao branco pobre. Ela ofereceu Jim Crow, e quando o seu estômago vazio gritava pela comida que os seus bolsos vazios não podiam pagar, devorou Jim Crow, um passarinho que lhe contou que, na pior das circunstâncias, ao menos tinha ela a sorte de ser branca, e não negra.

No caso em questão, Dark Horse é irremediavelmente tosco, mas sua construção ressalta o cinema enquanto elemento construtor de imaginário e agente direto da História – normalmente, a sétima arte opera de modo indireto, por vezes sutil, mas sempre muito poderoso como fator que nos permite imaginar o que é a guerra ou o amor.

O trailer de Dark Horse deixa claro que ambos os filmes têm como o medo o maior aliado. A caricatura do negro é substituiída pela caricatura do comunista, sendo que em ambos os casos, estes são apresentados com uma força desproporcional para transformar sentimentos de frustração consigo em ódio contra o outro – e precisa ser assim para justificar, ainda que de maneira falsa, a violência extremista.

O inimigo é apresentado como uma força impessoal, dotada de um poder superestimado, de modo que a violência a ser dirigida contra ele deve ser proporcional a um poder que corresponde à imaginação. O uso do termo sistema nesse tipo de narrativa é propositalmente poroso, de modo que sempre poderá ser preenchido conforme a necessidade da conjuntura da vez. O herói de O nascimento de uma nação é um cavaleiro branco.

Outro paralelo interessante, e pelas avessas, como O nascimento de uma nação é o elemento racial, embora isso não apareça de forma tão óbvia, mas como metanarrativa – a exemplo de quase tudo nesse futuro filme. Bolsonaro aparece representado por um ator americano branco, o que é o ápice da representação cinematográfica do bolsonarismo.

De certa forma, o bolsonarismo incute uma narrativa de supremacia branca brasileira, ainda que mascarada por necessidades táticas óbvias em um país como um Brasil. Do outro lado, a branquitude brasileira aparece como uma aliança com seu equivalente americano, muito embora o sentido de branquitude americana seja muito mais restritiva que a brasileira.

Enquanto a branquitude americana descarta a herança fenotipicamente branca da Europa latina, salvo os franceses, a brasileira exalta qualquer coisa fenotipicamente branca. O exemplo é o próprio Bolsonaro, um brasileiro de origem italiana, que jamais seria um branco, mas um ítalo-americano no imaginário do país de Jim Caviezel – este um “branco” [white] dentro dos padrões do seu país.

Caviezel representou o personagem como uma espécie de missão realizada por um bom soldado nas bordas do mundo conhecido – com direito a ter paranoia com a famosa cena da facada, o atentado supostamente sofrido por Bolsonaro às vésperas da eleição de 2018, ou exigindo um plano de fuga do Brasil enquanto Trump ameaçava a Venezuela. A vida imitou a arte.

A trama repete A paixão de Cristo com a história de Bolsonaro sendo representada como o périplo de um herói sacrificial, mas o realismo cruento – e tecnicamente executado – da película de Mel Gibson é invertido em uma estética vulgar, risível e involuntariamente cômica – na qual o penteado do próprio protagonismo parece o de um personagem cômico como o Beiçola de A grande família.

Essa tragicomédia estética não é crise, mas projeto, porque seu ridículo serve como representatividade para a plateia à qual diz respeito, cujo sentimento de inferioridade a faz se sentir bem diante de um afirmado líder que não a faça parecer cafona, mal-vestida ou burra – justamente por se apresentar dessa forma, e ter orgulho disso, um fenômeno com óbvias dimensões perversas.

Tampouco os nacionalistas brasileiros se sentem americanos, mas buscam uma aliança com os white americans em uma relação sadomasoquista na qual os sulamericanos lusófonos entram no pólo que apanha – mas apanhar aqui significa continuar batendo em dobro na população mestiça, negra e/ou indígena que constitui sua base social e cuja potência e criatividade a estabelece como um Atlas sustentando o Brasil.

<><> A pós-realidade cinematográfica

Opremiado cineasta Kleber Mendonça Filho anotou a ironia que foi a família Bolsonaro usar, precisamente, um filme como veículo de autopromoção – justamente eles, que sabotaram a cultura nacional e a própria produção audiovisual quando Jair, seu patriarca, ocupou a presidência de maneira tragicômica. Mas isso não parece aleatório ou surpreendente.

Fazer um filme “nacional”, mas ele próprio na língua, padrão e com elenco americano é, precisamente, a continuidade desse mesmo projeto, talvez agravado ao quadrado. Bolsonaro, anos antes, foi eleito como um presidente-tampão, enquanto parte de seus aderentes somente esperavam como uma solução temporária contra as esquerdas, mas ele mesmo desejava virar uma espécie de ditador flácido.

Enquanto se fala em pós-verdade como elemento explicativo para o que temos no tempo atual, o bolsonarismo é uma expressão da criatividade brasileira e avança enquanto pós-realidade: na qual não é apenas a verdade que não importa, mas o que é verificável enquanto existente, em uma troça com não só com nossos valores, mas com nossa percepção.

O bolsonarismo aparece disposto não só a vilipendiar e subverter o que a sociedade acha correto – ou suas indignações justas embora sem direcionamento –, mas vai além ao trair o que seu intelecto capta: um suposto filme de resistência, que poderia ser uma obra autolaudatória, vira meio irregular de arrecadação de fundos por meio do qual a agitação e propaganda é, ela mesma, traída em prol de objetivos estratégicos.

Só que aquilo que parecia ser a surpreendente – e ousada – operacionalização de uma autopromoção, que já seria escandalosa, é ela também metanarrativa de uso dessa obra, uma vez que esse autoelogio é real enquanto mentira – e potencializa, para o escândalo dos incautos, um escândalo financeiro que só foi possível pela atuação do governo Bolsonaro; o Banco Master só foi possível por ações e omissões estatais.

Há quem compare, como faz Gregório Duvivier, o filme atual com o Primavera para Hitler [The Producers], clássico de 1967 de Mel Brooks, no qual uma obra feita para o fracasso por seu conteúdo absurdo, mas acaba se tornando um sucesso involuntário: aqui é muito pior, porque o fracasso puro é a matéria-prima que faz o bolsonarismo funcionar e avançar na sua estética e política.

No entanto, a esperança que resta é que muitas vezes a blitz semiótica bolsonarista exagera na dose e se autossabota, seja como foi na vandalização de Brasília no 08 de janeiro, seja agora. O vazamento dos áudios indecorosos de Flávio Bolsonaro com o banqueiro, e hoje presidiário, Vorcaro colocam em curto-circuito a moralidade mais do que hipócrita sobre a qual se assenta o neofascismo.

Ao não ser capaz de parecer honesto – sendo que ninguém achava ou esperava que ele fosse –, Flávio Bolsonaro termina condenado por ser fraco, algo que importa para o bolsonarismo. Isso revela coisas interessantes: o bolsonarismo não é sobre parecer honesto sem ser, mas sobre ser capaz de gerir uma moralidade que deve servir apenas para os outros, sem jamais submeter o moralizador – um fetiche absolutista, convenhamos: estar acima e, ao mesmo tempo, fora da ordem que governa.

Dark Horse pode nunca vir a ser exibido, mas a existência de seu projeto já é histórica e, ironicamente, terá de constar como parte de um filme sério que, quem sabe algum dia, se faça a respeito do bolsonarismo. Assim, a análise do seu roteiro e suas primeiras imagens nos ajudam a entender o bolsonarismo, que só pode ser compreendido – e derrotado – ao percebermos que ele ignora os marcos estabelicodos da verdade e da realidade.

 

Fonte: Por Hugo Albuquerque e James Hermínio Porto, em Jacobin Brasil

 

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