'Se
você quer fazer um estrago, você pode': como a IA turbina o arsenal das
campanhas eleitorais de 2026
As
eleições deste ano no Brasil devem contar com um novo arsenal de ferramentas de
inteligência artificial (IA), tanto para auxiliar candidatos em suas campanhas
quanto para atrapalhar seus adversários — nem todas de forma legal.
A BBC
News Brasil conversou com oito profissionais que atuam com marketing digital e
testou plataformas que prometem realizar tarefas diversas de campanha — tanto
as declaradas oficialmente quanto as do chamado "submundo" com IA, em
ações que antes poderiam depender de uma equipe inteira.
Dentre
as ações apresentadas pelos entrevistados, estão:
- O envio em massa
de mensagens por WhatsApp e o "esquentamento" de números de
celular para que pareçam de eleitores legítimos;
- A compra de
seguidores e comentários em redes sociais;
- Criação e
publicação automatizada em grande escala de conteúdos (texto, imagem,
vídeo) gerados por IA nas redes sociais;
- Monitoramento e
denúncia automatizados de possíveis violações eleitorais cometidas por
adversários aos tribunais eleitorais;
- Obtenção e
armazenamento em massa de conteúdo de mídias sociais (raspagem de dados),
o que poderia violar regras das plataformas;
- Geração e
publicação de conteúdos por IA, em texto e imagem, com disparo em massa em
diversos perfis ao mesmo tempo.
A
reportagem viu pacotes em painéis de venda de seguidores e teve acesso a
demonstrações de plataformas.
Os
nomes dos serviços que contiverem possível violação às regras do Tribunal
Superior Eleitoral (TSE) não serão citados.
<><>
Comentaristas pagos
Um dos
marqueteiros ouvidos pela reportagem, que atua em campanhas na Bahia, tem
experiência no que descreve como uma plataforma para criar e gerir
"personas digitais" — perfis falsos definidos antes de serem usados
para circular nas redes. Ele chama essas personas de "neurobots".
Na
prática, são pessoas que só existem nas redes sociais e podem engajar com
candidatos para demonstrar popularidade e provocar discussões sobre assuntos
específicos.
Ele
afirma manter equipe de programadores, pesquisadores e uma rede de freelancers
"todos remotos, espalhados".
O
trabalho desenvolvido por ele envolve identificar características do candidato
e do eleitorado, como idade, classe social, gênero, bairro e profissão, e
também disparar mensagens calibradas para cada um desses grupos em diversas
redes sociais.
Esses
bots podem engajar com o candidato — e nem sempre de forma positiva.
"Eu
posso colocar 40 militantes virtuais para falar mal dele [do próprio
candidato]. E desses 40, depois eles retornam trazendo as coisas boas que ele
fez até o momento."
Ele
explica que os perfis não são aleatórios, mas criados e desenvolvidos com base
em pesquisa prévia sobre a base eleitoral dos candidatos.
"Esse
neurobot tem cara e crachá. Tem uma localização. Ele está localizado dentro de
uma região."
A
prática pode ser considerada ilegal. Uma resolução do TSE proíbe o uso, em
propaganda eleitoral, de "chatbots, avatares e conteúdos sintéticos"
para simular diálogo com candidato ou pessoa real.
"Você
pode ter dez [perfis no] Instagram, você pode ter dez números de WhatsApp, você
pode ter vários números de Telegram, Signal. Tudo depende da forma que chega e
do que você quer alcançar. Se você quer fazer um estrago, você pode fazer um
estrago", diz o marqueteiro.
<><>
Compra de seguidores
Um
outro mercado do submundo digital que é aquecido durante o período eleitoral,
embora não seja novo, é o da compra de seguidores e de engajamento para redes
sociais.
Sites
brasileiros e no exterior vendem pacotes cujo pagamento pode ser feito no Pix,
cartão de crédito ou até criptomoedas. Em um deles, visto pela BBC News Brasil,
é possível comprar mais de 1 mil seguidores com cerca de R$ 100.
O
operador de um desses sites, morador de Minas Gerais, aceitou conversar com a
reportagem sob a condição de não ser identificado.
Ele
explica que os seguidores são pessoas reais, que ganham para seguir e interagir
com páginas de quem compra os créditos.
"Hoje
vem sendo cada vez mais impossível ter seguidores robôs, os famosos 'bots' —
isso envolveria, por exemplo, uma estrutura física com milhares de celulares,
milhares de chips, e hoje as operadoras de telefonia limitam a cinco números
por CPF", diz.
O que
substituiu os bots, segundo ele, foram plataformas de troca de engajamento, em
que pessoas reais — geralmente em busca de complemento de renda — se cadastram,
recebem moedas virtuais por seguir, curtir e comentar publicações de outras
pessoas, e depois trocam essas moedas por seguidores próprios ou as sacam em
dinheiro. Leia reportagem da BBC News Brasil
sobre algumas dessas plataformas.
Esse
tipo de engajamento artificial pode prejudicar a conta de quem o utiliza, se
detectado.
Por
isso, há também um outro uso menos conhecido: um profissional do setor que atua
com a movimentação de militância digital em Brasília disse à reportagem que é
possível comprar seguidores para um adversário, para colocar a conta desta
pessoa em risco de ser banida ou até de perder o engajamento.
<><>
'Esquentamento' de números e disparo no Whatsapp
A
campanha eleitoral de 2018 foi marcada pelo escândalo do disparo em massa de mensagens por WhatsApp. Disparos são
mensagens enviadas de forma automatizada, geralmente com ataques a outros
candidatos e até a divulgação de informações inverídicas.
O
método de 2018, dizem fontes da reportagem, segue vivo em 2026, agora costurado
a uma camada de IA generativa.
O
operador de um desses sites afirmou que cada número de WhatsApp custa entre R$
15 e R$ 20, e a vida útil varia entre um e três meses, dependendo de quanto
tempo passou em "aquecimento".
"Depende
do cliente, mas geralmente é a gente que faz o cadastro dos números e faz a
aquisição deles", explicou.
"Esquentar"
um número significa, segundo ao menos dois profissionais que oferecem o
serviço, usá-lo de forma orgânica por um tempo antes da campanha, ao enviar e
receber mensagens, entrar em grupos, enviar imagens etc., para evitar uma
suspensão quando começar a ser usado para os disparos.
A ideia
é driblar a fiscalização da Meta, responsável pelo WhatsApp, para que o número
não seja derrubado.
"A
gente já deixa, sei lá, 100 números aquecendo durante um mês. Quando eu for
utilizar aquele número, ele já está bem mais preparado e a duração é
maior", diz o operador.
O
"aquecimento", segundo essas fontes, é, também, automatizado: outros
assistentes do próprio sistema mandam mensagens para o número novo.
"Se
eu coloco o número aqui [na plataforma] para aquecer, ele configura para que
outros assistentes mandem mensagem para esse número. Ou, por exemplo, cadastro
esse número num monte de grupos de WhatsApp. Quanto mais mensagem o número
recebe, mais aquecido ele fica. Quando você posta status, quando você coloca
uma boa descrição... tem várias maneiras de aquecer esse número", diz.
Questionado
sobre a sustentabilidade desse tipo de negócio, já que o próprio WhatsApp tende
a derrubar esses números, ele diz que está acostumado e já precifica o risco.
"A
gente já tem experiência na área, uma metodologia que funciona e uma prévia de
duração dos números. Quando a gente vai fazer um orçamento de disparo, de
relacionamento, a gente já calcula a perda desses números e a aquisição de
novos."
Procurada,
a Meta disse que não iria se manifestar.
<><>
Monitoramento de violações eleitorais com IA
Um dos
sites testados pela reportagem em uma versão de testes, o BankerJur, oferece a
identificação de possíveis irregularidades e a geração por IA de denúncias
formais contra perfis e publicações em redes sociais.
O
usuário define palavras-chave ou páginas a serem monitoradas. A IA do sistema
então cruza os conteúdos publicados que mencionam o termo ou a pessoa com
diferentes legislações brasileiras e aponta potenciais violações legais.
Um menu
permite filtrar os casos por tipo — calúnia, difamação, fake news,
desinformação ou ataque reputacional, entre outros. Em seguida, a própria IA
pode ser acionada para redigir a denúncia destinada às plataformas e ao TSE.
Um dos
responsáveis pelo serviço, João Augusto Hummel, afirma que o objetivo é "o
monitoramento de ações maléficas à comunicação institucional e
governamental".
"Eu
possuo uma IA jurídica que lê essas notícias e matérias e cria uma análise de
risco", diz.
Ele
promete ainda que será possível até mesmo gerar e enviar as denúncias aos
órgãos competentes por meio da própria plataforma.
"Hoje
isso é uma das principais estratégias políticas para o pós-eleição — porque vai
ser o que vai impugnar as campanhas, vai ser o que vai ferrar com as campanhas.
Hoje, o maior diferencial para a campanha é a rede social. O maior diferencial
para o candidato é saber utilizar a rede social e o algoritmo para conseguir
chegar no maior número de pessoas", diz Hummel.
Outro
site que oferece serviços de monitoramento a candidatos com apoio de IA é o
Polijetro, também testado pela reportagem.
A
plataforma permite analisar postagens nas redes sociais e categorizá-las por
emoção, como expectativa, confiança, raiva, tristeza, indignação, dentre
outras.
A ideia
é informar candidatos sobre o que estão falando nas redes e preparar respostas
com apoio de IA.
"Essa
narrativa é favorável ou contrária a mim? Eu posso decidir que eu posso fazer
um contra-ataque, um reposicionamento ou um enquadramento dessa narrativa. Se
for favorável, eu posso fazer uma amplificação, uma ancoragem, uma
capitalização. Ele me dá uma ideia de como me posicionar e gera conteúdo de
posts que eu posso copiar e colar na minha mídia social", diz Filipe
Wesley, fundador da plataforma.
Outra
função prometida pelo site é de detecção de deepfakes — fotos ou vídeos que
simulam cenas irreais com uso de IA, o que pode incluir adulteração de falas de
políticos, por exemplo.
"Nós
fazemos a varredura das mídias sociais, encontramos links ou vídeos ou imagens
ou áudios que podem ser deepfakes e automatizamos a análise. O detector já
providencia um relatório forense para uso da campanha."
Para o
marqueteiro político Marcelo Senise, a IA "vai impactar profundamente o
marketing político", mas é necessário separar fantasias com a tecnologia
da realidade.
"O
impacto real está mais na mudança do método. Mais velocidade, segmentação,
monitoramento e mais capacidade de testar narrativas em tempo real. Torna a
disputa muito mais intensa."
Ele
avalia que isso não só qualifica estratégias mas também pode escalar
manipulação. "Facilita fabricação de vídeos falsos, imagem falsa."
"As
ferramentas realmente úteis são as de escuta, monitoramento, análise de
sentimento, teste de mensagem, organização de resposta rápida, produção
assistida de conteúdo. Isso aumenta a capacidade operacional e ajuda a campanha
a reagir melhor, sem perder tempo. Mas há muita coisa sendo vendida que é
fumaça."
Ele
avalia que campanhas precisarão criar áreas de blindagem contra ataques
digitais, que agora poderão ser mais rápidos e enviados em massa por causa da
tecnologia.
<><>
'Antes da IA eu não pegaria tanta campanha'
A
estrategista política Carine Elpídio, que neste ano trabalha tanto com
campanhas proporcionais quanto majoritárias, acredita que a IA tem um uso mais
prático na análise de dados e na escala de trabalho.
"Antes
dela eu não daria conta de pegar tantas campanhas pra fazer. Era tudo muito
manual."
Uma das
tarefas que a tecnologia tem ajudado é analisar mapas de voto e informações
demográficas do Censo, para organizar lideranças ligadas aos candidatos com
quem ela trabalha. Antes, conta, tudo era feito no Excel e agora, com
inteligência artificial.
"Se
eu faço uma pesquisa, automaticamente dentro da ferramenta a IA também já
entende os dados dessa pesquisa e ela gera algum tipo de insight pra mim. Antes
eu cruzava isso na mão."
Ela vê,
no entanto, que algumas estratégias oferecidas por esses serviços têm limites e
podem prejudicar os candidatos.
Compra
de seguidores e impulsionamento de publicações artificiais, por exemplo, são um
"desastre total" às candidaturas, afirma.
"Acaba
com a campanha, destrói. Tem gente que compra, mas não tem noção do que está
fazendo. O algoritmo ali já era."
Ela
avalia que o que ainda conta é a presença constante de candidatos nas redes
sociais, especialmente em vídeos que mostrem a pessoa falando.
"Ele
[candidato] precisa ter muita presença digital para ser conhecido antes de
qualquer coisa", diz. "Muito vídeo mesmo. O candidato falando,
aparecendo, para o rosto dele aparecer o tempo todo."
<><>
Fim do 'gênio do marketing político'?
Para
Fabio Malini, professor de Novas Mídias da Universidade Federal do Espírito
Santo (Ufes), a inteligência artificial não cria sozinha uma campanha
eleitoral, mas muda a escala e a velocidade com que tarefas antes feitas por
equipes especializadas passam a ser executadas.
Uma das
principais transformações, diz, está na possibilidade de transformar
experiência acumulada em campanhas brasileiras em sistemas treinados para
sugerir perguntas, respostas, estratégias de debate e reações a crises.
"Os
treinos dos debates políticos, o que se vai dizer, o que se vai defender, muito
possivelmente vão passar por modelos de treinamento", afirma. "Já não
passa mais pela cabeça iluminada de um gênio do marketing político, de como vai
ter a postura, como vai ser a pergunta."
Ele vê
impacto especialmente forte no lado jurídico das campanhas. Ferramentas de
monitoramento automatizado de redes sociais, segundo Malini, poderiam abastecer
advogados com possíveis irregularidades de adversários e acelerar pedidos aos
tribunais regionais eleitorais.
"Esse
monitoramento contínuo, automatizado, de identificação, alimenta o setor
jurídico de uma campanha política, que alimenta os TREs [tribunais regionais
eleitorais]", diz.
Outras
ferramentas oferecidas no mercado, porém, não necessariamente têm o efeito
prometido sobre o eleitor, avalia. É o caso do disparo em massa pelo WhatsApp,
prática que marcou a eleição de 2018 e segue sendo oferecida.
Para
Malini, o envio de mensagens por números desconhecidos hoje tende a enfrentar
mais resistência do público.
"O
WhatsApp é um espaço de muita troca. Quando você recebe hoje algo de alguém que
você não conhece, você tende a achar que é golpe", afirma. A sucessão de
fraudes no aplicativo, diz ele, criou "uma espécie de vacina" contra
conteúdos recebidos de contatos desconhecidos.
Mesmo
assim, ele diz que o serviço continua tendo demanda porque parte do mercado
político ainda acredita na "bala de prata" da última semana de
campanha.
O
efeito mais provável, segundo Malini, não é necessariamente mudar o voto, mas
desorganizar a campanha atacada.
"Quando
as coisas são disparadas pelo WhatsApp, você entra num campo privado em que
você não tem o controle de quem recebeu aquilo", diz. Isso pode criar no
candidato a percepção de que "todos estão falando" de um tema.
O
pesquisador avalia ainda que o uso de comentários automatizados deve ser menos
frequente em ataques a adversários e mais para inflar apoio ao próprio
candidato.
Segundo
ele, elogios em massa podem criar uma "percepção de maioria" com
menor risco jurídico do que ataques diretos.
"É
uma maneira de driblar a lógica jurídica", afirma.
"Quando
se idolatra — 'ele é muito bom, ele foi muito bom prefeito' —, aquilo vai
inundando a caixa de comentários, criando uma percepção de maioria baseada
muito mais no amor do que no ódio."
Para
Malini, o desafio para a Justiça eleitoral não será apenas identificar
conteúdos falsos ou automatizados, mas responder ao volume de denúncias e
publicações geradas com apoio de IA.
"Vai
aumentar a velocidade de denúncia. E talvez os tribunais não estejam tão
preparados para esse volume proporcionado pela IA", afirma. "O
princípio, a lógica, é desacelerar a capacidade da Justiça de responder."
Fonte: Por
Luiz Fernando Toledo, da BBC News Brasil, em Londres

Nenhum comentário:
Postar um comentário