Elisabeth
Lopes: A captura do Congresso pelo embuste do bolsonarismo e pelo fisiologismo
do Centrão
A
degradação de alguns segmentos da política brasileira não ocorreu por acaso.
Ela foi sendo construída ao longo dos últimos anos por meio da corrosão
deliberada da representação legislativa, do fisiologismo pernicioso e da
transformação do mandato parlamentar em instrumento de negócios privados e
guerra ideológica. O que deveria ser espaço de representação popular
converteu-se, em larga medida, num feudo de interesses capturado por setores do
Centrão oportunista e da extrema direita bolsonarista, cuja lógica política
gira menos em torno do interesse nacional e mais da autopreservação do poder e
do dinheiro.
A
herança maldita deixada pelos governos de Michel Temer e Jair Bolsonaro, ao
empoderar o Congresso por meio do sequestro progressivo do orçamento público,
alimentou uma avalanche de parlamentares inescrupulosos do Centrão fisiológico
e da extrema direita. Consolidou-se um modelo político baseado na chantagem
institucional, no rateio de verbas públicas e no fortalecimento de currais
eleitorais sustentados por envios de emendas sem a devida transparência.
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O
Congresso Nacional, atualmente dominado por esses mesmos setores políticos
eleitos em massa no auge da onda bolsonarista, transformou-se num ambiente
permanente de embates marcados pela desinformação, pela defesa absoluta das
poderosas bancadas aglutinadas no parlamento, pela defesa de pautas
ultraliberais em detrimento das necessidades da maioria da população
brasileira, pela agressividade verbal, pela autopromoção digital, pelo
oportunismo. Nesse cenário, parlamentares progressistas muitos deles preparados,
conhecedores dos problemas estruturais do país e defensores de pautas sociais
relevantes enfrentam enormes dificuldades para estabelecer um debate
qualificado diante de discursos radicalizados, rasos e frequentemente
sustentados por ataques, fake news e encenações midiáticas voltadas às redes
sociais.
A
deterioração do nível político e institucional do Legislativo fica evidente
quando a lógica do espetáculo e dos interesses eleitorais passa a prevalecer
sobre o compromisso com o interesse público. A recente derrubada de trechos
cruciais dos vetos do presidente Lula à Lei de Diretrizes Orçamentárias de 2026
evidencia de modo inequívoco esse processo de degradação. A articulação
conduzida pelo presidente do Congresso, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP) para
flexibilizar restrições à transferência de recursos públicos em período
pré-eleitoral foi interpretada por amplos setores como uma manobra de natureza
essencialmente eleitoreira. Na prática, abre-se espaço para que prefeitos e
governadores aliados sejam irrigados com verbas e benefícios públicos às vésperas
das eleições, enfraquecendo mecanismos mínimos de responsabilidade fiscal e
comprometendo a isonomia do processo eleitoral. O objetivo está centrado na
ampliação do poder político e eleitoral utilizando o Estado como instrumento de
barganha.
Centrão
e extrema direita transformaram o voto em commodity política. O caso envolvendo
o senador Ciro Nogueira (PP-PI), que terceirizou seu mandato em favor dos
atuais investigados por ilicitudes financeiras, o ex-banqueiro Daniel Vorcaro e
o dono da Refit, empresário Ricardo Magro, alvo da Operação Sem Refino por
fraudes bilionárias, tornou-se símbolo desse modelo promíscuo de poder. As
investigações e revelações sobre transferências milionárias da Refit para
empresas ligadas à família do senador evidenciam como parte significativa dessa
elite parlamentar opera em estreita sintonia com interesses empresariais e
financeiros. O mandato deixa de representar o eleitor para servir como extensão
de grupos econômicos, instituições financeiras e operadores de influência. Para
os mais sagazes desse sistema, a política converteu-se em grande centro de
negociatas e quanto mais vantagens oferecem ao poder econômico, maior o retorno
financeiro, maior a proteção política e maior o valor de mercado de sua
influência dentro do Congresso.
Em
geral, a atuação do bloco bolsonarista é frequentemente marcada pela
truculência verbal, pela ausência de preparo ético-político e pela incapacidade
de construir consensos mínimos em favor do país. Muitos desses parlamentares
parecem atuar menos como representantes da população e mais como
influenciadores digitais especializados em produzir cortes virais, ataques
pessoais e campanhas de desinformação. O deputado federal Nikolas Ferreira
(PL-MG) tornou-se um dos símbolos dessa atuação baseada em lacração permanente,
vantajosa inclusive para negócios pessoais, estratégia replicada por diversos
parlamentares do Partido Liberal, entre outros de mesmo viés ideológico. Sua
atuação é tão deletéria e contrária à proteção das mulheres e crianças, que na
quinta feira desta semana apresentou um Projeto de Decreto Legislativo (PDL)
para tentar suspender os importantes decretos assinados pelo presidente Lula,
com a velha justificativa de que esses contrariam a liberdade de expressão.
Vale assinalar que os decretos governamentais estabelecem diretrizes que
estipulam um limite de duas horas para que as plataformas digitais removam
postagens com apologia a crimes e conteúdos de nudez, inclusive os gerados
sinteticamente por IA, a partir do recebimento da notificação. As redes também
deverão conter o engajamento de linchamentos virtuais focados em mulheres. Todo
esse processo será supervisionado pela Autoridade Nacional de Proteção de Dados
(ANPD).
Já no
Senado, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) acumula episódios envolvendo
disseminação de desinformação e sucessivas controvérsias públicas. Sua
trajetória política sempre esteve acompanhada por acusações, contradições e
narrativas desmentidas posteriormente pelos fatos. O problema não reside apenas
na mentira ocasional da política tradicional, mas na institucionalização da
mentira como método permanente de mobilização política.
Diante
dessa realidade nua e crua, como conceber um projeto de futuro nacional
liderado por figuras que transformaram a distorção dos fatos em ferramenta
cotidiana de sobrevivência política? Como aceitar que grande parte dos
parlamentares denunciados, investigados ou envolvidos em ilicitudes recentes
pertença justamente ao partido que alimentou seu discurso em torno da suposta
moralidade pública, da frase Deus, pátria, família e liberdade, lema central,
inspirado no integralismo? O Partido Liberal bolsonarista converteu-se,
paradoxalmente, num dos maiores símbolos da degradação ética que dizia
combater.
Sob a
falsa imagem de lisura política construída perante parte da opinião pública,
Centrão e extrema direita bolsonarista defendem interesses profundamente
conectados às bancadas do agronegócio predatório, da indústria armamentista,
das apostas virtuais e de conglomerados financeiros, entre outras. O mandato
parlamentar passa a funcionar como mecanismo de proteção corporativa desses
grupos.
O grau
de deterioração institucional torna-se ainda mais evidente quando setores
conservadores e fisiológicos sabotam propostas voltadas à melhoria das
condições de vida da população apenas para impedir ganhos políticos do atual
governo, a exemplo do debate sobre o fim da escala 6x1. Em vez de discutir
formas de melhorar a saúde e a qualidade de vida do trabalhador, setores
conservadores e fisiológicos sabotam a discussão e chegaram a propor o absurdo
aumento da carga horária semanal. Nessa mesma linha, Flávio Bolsonaro teve o
descalabro de posicionar-se contra o fim da escala 6x1 e a redução da jornada
para 40 horas semanais. Ele propôs um modelo que amplia a precarização e
transfere mais riscos para a classe trabalhadora. Sua sugestão de criar um
regime alternativo à CLT, focado no pagamento por hora, intensifica o modelo de
trabalho intermitente instituído na reforma de 2017. Na prática, a medida
oficializa o biscate contínuo e fragiliza a garantia do salário mínimo,
deixando os profissionais com direitos trabalhistas mínimos. Enquanto
sindicatos e setores do governo defendem modelos que ampliem o tempo de
descanso, convivência familiar e qualidade de vida dos trabalhadores, parte da
extrema direita e do Centrão quer “preservar o setor produtivo”.
Foi
justamente nesse ambiente de degradação institucional e promiscuidade entre
política e poder econômico que a pré-candidatura presidencial de Flávio
Bolsonaro começou a ser gestada por determinação direta de seu pai.
Nessa
conjuntura, durante um bom tempo, o senador contou com relativa blindagem de
aliados políticos, de setores da mídia corporativa e de parte da elite
financeira, historicamente inclinada a apoiar candidatos considerados maleáveis
e servis aos interesses do mercado. A grande imprensa, inclusive, tentou
dissociar Flávio Bolsonaro da imagem extremista de seu pai, chegando em alguns
momentos a suavizar sua identidade política para vendê-lo como alternativa mais
moderada ao bolsonarismo raiz. Nos bastidores, setores econômicos preferiam
claramente o bolsonarista Tarcísio de Freitas, por considerá-lo mais preparado,
mas acabaram obrigados circunstancialmente a engolir o nome de Flávio Bolsonaro
enquanto não surgia outra alternativa viável para enfrentar Lula.
Todavia,
a narrativa de suavização e aceitação do zero um começou a ruir diante da
sucessão de escândalos financeiros, contradições públicas e ligações perigosas
com personagens investigados por crimes financeiros. As revelações sobre o
vultoso financiamento de Daniel Vorcaro ao projeto cinematográfico “Dark Horse”
aprofundaram o desgaste do senador e expuseram novamente a proximidade entre
setores do bolsonarismo e operadores do mercado financeiro envolvidos em
suspeitas de crime graves contra o patrimônio público. Diante dessas
descobertas, o senador Ciro Nogueira adotou a mesma postura em relação a Flávio
Bolsonaro, que antes o havia renegado assim que o aliado caiu em desgraça por
receber mesada de Vorcaro. Trata-se de um comportamento pragmático e previsível
entre figuras desse espectro político. Somam-se a isso os antigos fantasmas que
acompanham o clã Bolsonaro, sobretudo, ao Flávio: rachadinhas, negócios
imobiliários incompatíveis com a renda declarada, relações nebulosas com
milicianos.
Esse
pano de fundo e o consequente desencontro de narrativas entre os próprios
aliados aprofundaram ainda mais o desgaste público do grupo. Às omissões e
contradições de Flávio Bolsonaro somaram-se as declarações do deputado Mário
Frias, um dos idealizadores do filme Dark Horse, que apresentou versões
flagrantemente conflitantes sobre o financiamento e os objetivos do
longa-metragem. O cenário agravou-se quando a produtora executiva indicada por
Frias, Karina Ferreira da Gama (ligada à Go Up Entertainment), tornou-se alvo
de questionamentos por não possuir uma trajetória consolidada no setor
cinematográfico, o que alimentou fortes suspeitas sobre a real origem e o
destino dos recursos. Diante desse acúmulo de contradições publicizadas, o
discurso de perseguição política e reserva moral começou a perder tração. Como
reflexo, pesquisas recentes dos institutos Atlas Intel e Data Folha já indicam
erosão nas intenções de voto de Flávio Bolsonaro, enquanto o presidente Lula
recupera terreno político, sustentado por entregas econômicas e programas de
governo bem-sucedidos.
Ao
mesmo tempo, o bolsonarismo tenta sobreviver apostando novamente em blefes
políticos e em cortinas de fumaça destinadas a mobilizar sua militância mais
radicalizada. Nessa jogada, “o zero um” subestima a inteligência dos
brasileiros. A desfaçatez de Flávio Bolsonaro é tamanha que ele nem se preocupa
em disfarçar o jogo de cartas marcadas ao cobrar a CPMI para a plateia ciente
de que Davi Alcolumbre, seu parceiro de bastidores, já decretou o sepultamento
dessa comissão. A última cartada da pré-campanha de Flávio Bolsonaro para
impactar a opinião pública é um possível encontro com o presidente Donald
Trump, uma agenda que, até o momento, não foi confirmada pelo governo
estadunidense.
Diante
dessa sucessão de fraudes políticas, tanto o mercado financeiro, como a mídia
corporativa, já considera que a pré-candidatura bolsonarista se tornou pesada
demais eleitoralmente. A Faria Lima já começa a olhar para possíveis outsiders
ou alternativas de centro-direita capazes de preservar a agenda econômica
ultraliberal sem carregar o desgaste moral e político acumulado pelo
bolsonarismo. A lógica permanece a mesma, qualquer alternativa que impeça a
continuidade de Lula. Outro sinal eloquente desse desgaste reside no fato de
que até antigos aliados começam silenciosamente a abandonar o barco
bolsonarista. Quando até os próprios fiadores do sistema passam a buscar uma
rota de fuga, é porque a engrenagem da farsa começou a derreter diante da
realidade.
Em
suma, diante da crescente captura do Congresso por setores fisiológicos do
Centrão e pela extrema direita bolsonarista, evidencia-se que a eleição de
outubro representará uma virada crucial para o país. Será uma oportunidade
decisiva para que a sociedade brasileira reflita sobre o peso e a
responsabilidade de seu voto na reconstrução da política nacional. O eleitor
terá diante de si a escolha entre perpetuar um modelo marcado pela
desinformação, pelo oportunismo e pela submissão aos interesses econômicos ou
fortalecer representantes comprometidos com os reais problemas do país e com a
defesa do interesse público.
Numa
materialidade em que as redes sociais, os portais de transparência e o acesso à
informação permitem acompanhar o comportamento dos parlamentares quase em tempo
real, torna-se cada vez mais difícil esconder contradições, incoerências e
práticas incompatíveis com a ética pública. A população pode observar quem
votou contra ou a favor de projetos ligados aos direitos dos trabalhadores, à
justiça social, à educação, à saúde e à melhoria das condições de vida da
população. Pode conhecer o histórico, a capacidade, a honestidade e a postura
de cada candidato antes de entregar-lhe um mandato. Essas informações estão
sempre presentes nas redes sociais.
Mais do
que nunca, o Brasil precisará de parlamentares preparados, equilibrados,
honestos e capazes de compreender a complexidade dos desafios nacionais, e não
de figuras movidas apenas pela lacração, pela agressividade e pela busca
oportunista de engajamento nas redes. A reconstrução da credibilidade do
legislativo federal, estadual e municipal dependerá diretamente da maturidade
política do eleitorado em rejeitar aqueles que transformaram o mandato em
instrumento de privilégios, negócios e manipulação, abrindo espaço para
representantes verdadeiramente comprometidos com a democracia, com a soberania
do país e com os interesses do povo brasileiro.
Fonte:
Brasil 247

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