Pesquisa
identifica 3 tipos cerebrais diferentes de TDAH: como isso pode mudar
tratamento para o transtorno
Por
décadas, médicos e pesquisadores trataram o Transtorno do Déficit de Atenção
com Hiperatividade — o TDAH — como se fosse uma condição relativamente única,
variando apenas no quanto cada pessoa era desatenta, hiperativa ou impulsiva.
Agora,
um estudo publicado em fevereiro de 2026 na revista científica JAMA Psychiatry,
uma das publicações de psiquiatria mais respeitadas do mundo, vem colocar em
xeque essa visão.
Usando
imagens de ressonância magnética do cérebro de mais de mil crianças,
pesquisadores de universidades na China, nos Estados Unidos e na Austrália
conseguiram identificar três perfis cerebrais distintos dentro do TDAH — o que
a pesquisa chama de "biotipos".
Segundo
o estudo, cada um dos perfis tem suas próprias características no cérebro, com
diferentes sintomas predominantes e implicações para quais tratamentos
funcionam melhor para cada perfil.
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O problema com o diagnóstico atual
O
manual que orienta os diagnósticos psiquiátricos em boa parte do mundo, o DSM,
classifica o TDAH com base em comportamentos observáveis — dificuldade de
atenção, impulsividade, agitação — e a partir daí define se o quadro é
predominantemente desatento, hiperativo ou combinado.
O
problema é que esse sistema foi construído com base em consenso clínico —
grupos de especialistas deliberando sobre quais comportamentos são clinicamente
relevantes — e não necessariamente no que ocorre no funcionamento do cérebro.
Mas o
novo estudo demonstra que o que ocorre no cérebro é muito mais variado do que
as categorias do DSM conseguem descrever.
"O
TDAH é caracterizado por uma considerável heterogeneidade clínica, e os
sistemas de classificação existentes limitam o desenvolvimento de abordagens
baseadas em neurobiologia", escrevem os pesquisadores logo na abertura do
artigo.
Para
Guilherme Polanczyk, coordenador do Núcleo de Pesquisa em Neurodesenvolvimento
e Saúde Mental da USP e do Programa de Diagnóstico e Intervenções Precoces do
IPq (Instituto de Psiquiatria), o DSM continua sendo um instrumento válido —
mas insuficiente para dar conta da diversidade real dos pacientes.
"Existe
um grupo muito heterogêneo de pessoas com TDAH, assim como ocorre em outros
diagnósticos", afirma.
"As
técnicas de neurociência, sem dúvida, têm potencial para identificar esses
subgrupos, e entendemos que, eventualmente, isso poderia levar a tratamentos
mais direcionados e específicos."
A
equipe, liderada pelo médico e pesquisador Qiyong Gong, da Universidade de
Sichuan, na China, coletou imagens de ressonância magnética estrutural — um
exame que mostra a anatomia do cérebro em detalhes — de crianças com e sem TDAH
em seis centros de pesquisa diferentes, espalhados por China e Estados Unidos.
No
total, participaram 446 crianças com diagnóstico de TDAH e 708 sem o transtorno
no grupo principal do estudo. Os resultados foram depois verificados em um
segundo grupo independente, com mais 554 crianças com TDAH. A média de idade
era de cerca de 11 anos.
A
partir das imagens, os pesquisadores construíram o que chamam de "redes de
similaridade morfométrica" — uma forma de mapear como diferentes regiões
do cérebro se assemelham entre si em estrutura e volume.
Regiões
que crescem e se desenvolvem de forma parecida tendem a trabalhar juntas, e
alterações nessa rede podem revelar como o cérebro de uma criança difere do
padrão esperado.
Para
estabelecer esse padrão de referência, os pesquisadores utilizaram uma técnica
chamada modelagem normativa. Com ela, é montada uma espécie de curva de
crescimento aplicada ao cérebro.
Assim
como um pediatra usa uma curva de peso para avaliar se uma criança está dentro
do esperado para sua idade, essa abordagem quantifica o quanto o cérebro de
cada criança se afasta da norma em determinadas regiões.
Com
esses desvios mapeados individualmente, os pesquisadores aplicaram algoritmos
para agrupar as crianças de acordo com os padrões encontrados — sem usar
nenhuma informação clínica, apenas os dados cerebrais.
O que
emergiu foram três grupos distintos.
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Os três biotipos
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Biotipo 1 — O mais grave: combinado com desregulação emocional
Este
grupo reuniu 142 crianças e foi o que apresentou os quadros mais intensos. As
alterações cerebrais estavam concentradas no córtex pré-frontal medial e numa
estrutura chamada pálido — regiões ligadas ao controle emocional, à tomada de
decisão e à regulação do comportamento.
Clinicamente,
essas crianças tinham os maiores níveis tanto de desatenção quanto de
hiperatividade/impulsividade. Mas o que mais se destacou foi a dificuldade de
controlar as emoções: elas tinham mais problemas para lidar com frustração,
raiva e angústia do que os outros grupos.
Ao
longo do tempo, enquanto os outros biotipos mostraram melhora nessa área, o
biotipo 1 permaneceu mais estável — ou seja, os sintomas emocionais persistiam.
Esse
grupo também apresentou maior taxa de transtornos de humor associados, como
ansiedade e depressão, embora o número de casos não fosse grande o suficiente
para ser conclusivo estatisticamente.
O
destaque dado à desregulação emocional é um dos pontos que mais chamou a
atenção de especialistas. Para Polanczyk, esse achado dialoga diretamente com
uma linha de pesquisa em crescimento.
"A
irritabilidade vem sendo bastante estudada e reconhecida como um fator
associado a maior gravidade e a maior dificuldade de resposta aos
tratamentos", diz.
O
próprio grupo do pesquisador tem um estudo em fase de publicação que, usando o
temperamento como critério de agrupamento em crianças pequenas com TDAH, chegou
a conclusão semelhante: a irritabilidade distingue um subgrupo específico de
pacientes.
Para
Danielle Admoni, psiquiatra especializada em infância e adolescência pela
Unifesp, o estudo confirma algo que a prática clínica já sinalizava: a
dificuldade de controlar emoções não é apenas um efeito colateral do TDAH — em
certos perfis, ela pode ser tão definidora do quadro quanto a desatenção ou a
hiperatividade.
Ela
aponta implicações diretas para o tratamento: "A gente tem casos de TDAH
que melhoram muito pouco com a medicação. Será que nesses casos a gente não
precisa associar alguma coisa pensando nessa desregulação emocional — de
repente um estabilizador de humor, alguma outra medicação — entendendo que isso
pode ser algo mais central do que se pensava até então?"
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Biotipo 2 — Predominantemente hiperativo/impulsivo
Com 177
crianças, este foi o maior dos três grupos.
As
alterações cerebrais estavam concentradas no córtex cingulado anterior e,
novamente, no pálido — um circuito ligado ao controle de impulsos e à
capacidade de inibir comportamentos.
O
perfil clínico bateu bem com a neurobiologia: hiperatividade e impulsividade
eram os sintomas dominantes, com a desatenção aparecendo em menor grau.
Ao
longo do acompanhamento, esse grupo mostrou melhora na regulação emocional — ao
contrário do biotipo 1.
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Biotipo 3 — Predominantemente desatento
Este
grupo reuniu 127 crianças. As alterações cerebrais eram mais localizadas,
concentradas principalmente no giro frontal superior, uma região associada à
atenção sustentada e à memória de trabalho — aquela capacidade de manter
informações na cabeça enquanto se realiza uma tarefa.
Clinicamente,
a desatenção era o sintoma dominante, com hiperatividade e impulsividade em
segundo plano.
Das
três, foi a configuração que apresentou os desvios cerebrais menos extensos,
sugerindo um quadro mais focal e, possivelmente, mais específico de responder a
certas intervenções.
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Por que as descobertas importam
A
descoberta mais relevante do estudo não é simplesmente o número de biotipos —
mas sim o fato de que esses grupos foram identificados sem que os pesquisadores
usassem qualquer informação clínica.
O
algoritmo olhou apenas para o cérebro e chegou a agrupamentos que, depois, se
mostraram coerentes com o comportamento das crianças. Isso é o que os
cientistas chamam de validação convergente: duas formas diferentes de olhar
para o mesmo problema chegam à mesma conclusão.
Isso é
relevante porque sugere que esses biotipos não são apenas uma construção
estatística conveniente — eles podem refletir diferenças biológicas reais. E se
as diferenças são biológicas, elas potencialmente respondem de formas
diferentes a tratamentos.
O
estudo foi além e investigou quais substâncias químicas do cérebro apresentavam
alterações em cada biotipo.
Os três
perfis mostraram padrões distintos: o biotipo 1 envolve dopamina e serotonina —
ligadas a humor, motivação e bem-estar — além de acetilcolina, relacionada à
memória e atenção. O biotipo 2 apresentou alterações em glutamato, o principal
mensageiro de ativação do cérebro, entre outras substâncias. O biotipo 3
mostrou alterações mais restritas, também ligadas à serotonina.
Os
medicamentos mais usados no TDAH hoje — como o metilfenidato, conhecido como
Ritalina — agem principalmente na dopamina e na noradrenalina, substâncias
ligadas à atenção e ao autocontrole.
Mas se
o biotipo 2 tem seu perfil dominante ligado ao glutamato — principal mensageiro
de ativação do cérebro — e ao sistema endocanabinoide — rede de receptores que
regula humor, dor e sono —, a pergunta que se coloca é direta: esse grupo
responde da mesma forma ao tratamento convencional? Talvez não.
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O que o estudo não responde — e por que os resultados ainda pedem cautela
Apesar
da consistência dos achados, os próprios pesquisadores foram cuidadosos ao
demarcar o que o estudo pode e não pode afirmar. E há críticas externas que
merecem atenção.
O
estudo fotografa o cérebro em um momento — não acompanha as mesmas crianças por
anos para ver se o biotipo muda com o tempo.
Em
crianças, cujo cérebro ainda está em intensa formação, isso é uma limitação
real.
A
psiquiatra Danielle Admoni lembra que o desenvolvimento cerebral segue em
transformação até por volta dos 30 anos, o que torna o quadro ainda mais
dinâmico.
Mas ela
vê nisso não apenas uma limitação, e sim uma pista clínica importante:
"Você pode transitar entre esses três subtipos ao longo da vida — pode
começar com um e depois migrar para outro. Os biotipos não são estanques, assim
como a plasticidade neuronal também não é."
Isso,
na sua avaliação, reforça a necessidade de acompanhar o paciente
longitudinalmente, e não apenas fazer um diagnóstico fixo em um momento.
Outro
ponto de atenção é que a amostra é predominantemente masculina — 76% dos
participantes com TDAH eram meninos.
Como o
transtorno se apresenta de formas diferentes em meninas, Polanczyk reforça que
validar os biotipos em amostras com maior representação feminina é um passo
necessário antes de qualquer generalização.
Outro
ponto diz respeito à viabilidade prática. O estudo foi feito em centros de
pesquisa com equipamentos sofisticados e protocolos rigorosos.
"A
neuroimagem é pouco acessível quando se pensa em saúde pública — essa é uma
barreira concreta", alerta Polanczyk. Para que esses achados possam ser
traduzidos para a prática clínica, será necessário desenvolver métodos de
subtipagem que funcionem com recursos disponíveis em diferentes contextos.
E,
talvez o ponto mais importante: o fato de existirem três perfis cerebrais
distintos não significa que tratar cada um de forma diferente vai
necessariamente mudar os resultados clínicos.
Isso
ainda precisa ser testado em ensaios clínicos específicos — o que pode levar
anos. O próprio Polanczyk adverte contra o entusiasmo prematuro: "Muitas
vezes as pessoas antecipam implicações clínicas e já propõem tratamentos
específicos, mas ainda não chegamos a esse ponto."
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O que vem a seguir
O
estudo lança as bases para uma abordagem que cientistas chamam de
"medicina de precisão" aplicada à psiquiatria: em vez de tratar o
TDAH como um bloco único, identificar qual é o perfil neurobiológico de cada
paciente e ajustar o tratamento a partir daí.
"As
pessoas não vão manifestar a mesma doença da mesma maneira, e o tratamento não
vai ser o mesmo. A ideia é uma coisa mais precisa — sintomas específicos,
subtipos específicos, e não só da parte de sintomas, mas também da parte de
tratamento e de acompanhamento", resume Admoni.
O
caminho, contudo, passa necessariamente por ensaios clínicos que testem se
subgrupos diferentes respondem de forma distinta a intervenções distintas.
Um
estudo randomizado do grupo de Polanczyk, publicado há alguns anos, já apontou
nessa direção: crianças pequenas com TDAH e irritabilidade respondiam melhor ao
treinamento parental do que à medicação, que se mostrou mais eficaz nas
questões de atenção e cognição.
"Estudos
como esse, que identifiquem quais subgrupos respondem melhor ou pior a
determinadas intervenções, são fundamentais", diz o pesquisador. "A
escolha de medicações específicas por subgrupo só será possível depois desse
caminho percorrido."
É uma
visão que ainda está no horizonte — não na mesa do consultório. "É um
caminho promissor, mas ainda em construção", resume Polanczyk.
Fonte:
Por Giulia Granchi, da BBC News Brasil em Londres

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